{"id":49603,"date":"2011-01-22T12:05:03","date_gmt":"2011-01-22T12:05:03","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/01\/22\/homilia-de-d-jose-policarpo-na-solenidade-de-sao-vicente-padroeiro-principal-do-patriarcado-de-lisboa\/"},"modified":"2011-01-22T12:05:03","modified_gmt":"2011-01-22T12:05:03","slug":"homilia-de-d-jose-policarpo-na-solenidade-de-sao-vicente-padroeiro-principal-do-patriarcado-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-jose-policarpo-na-solenidade-de-sao-vicente-padroeiro-principal-do-patriarcado-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo na solenidade de S\u00e3o Vicente, padroeiro principal do Patriarcado de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p><strong>&nbsp;&ldquo;S&atilde;o Vicente e o combate da F&eacute;&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>1. Quisemos que a reabertura desta Igreja, dedicada a S&atilde;o Vicente, Padroeiro da Diocese e protector da Cidade de Lisboa, se realizasse na solenidade lit&uacute;rgica do M&aacute;rtir S&atilde;o Vicente. Esta circunst&acirc;ncia permite um gesto de grande significado hist&oacute;rico: venerar, nesta Igreja, as rel&iacute;quias do Santo M&aacute;rtir de Sarago&ccedil;a.<\/p>\n<p>Parece que, na inten&ccedil;&atilde;o de D. Afonso Henriques, ao ir buscar as rel&iacute;quias de S&atilde;o Vicente, o seu destino seria, precisamente, esta Igreja de S&atilde;o Vicente de Fora. Essa iniciativa do nosso primeiro Rei visava dar um sinal de esperan&ccedil;a &agrave;s comunidades de crist&atilde;os mo&ccedil;&aacute;rabes, que tinham por S&atilde;o Vicente uma particular devo&ccedil;&atilde;o. Uma paragem provis&oacute;ria numa igreja de Lisboa permitiu que se gerasse um movimento de levar as rel&iacute;quias para a Catedral, onde ainda hoje s&atilde;o veneradas.<\/p>\n<p>Os cronistas n&atilde;o nos fornecem dados justificativos desta op&ccedil;&atilde;o. Perceberam, certamente, os C&oacute;negos da Catedral, que era preciso estender a protec&ccedil;&atilde;o do Santo M&aacute;rtir a toda a Cidade recentemente conquistada. Tens&atilde;o da Igreja, entretanto organizada em Lisboa, composta de residentes e cruzados, de quantos tinham participado na conquista da Cidade, com as comunidades mo&ccedil;&aacute;rabes, dispersas por uma vasta periferia da Cidade, facto testemunhado pelas igrejas que ainda hoje t&ecirc;m S&atilde;o Vicente como orago, como Alcabideche, Vila Franca de Xira e Cercal? Uma coisa &eacute; certa: ao fazer da Catedral o lugar de venera&ccedil;&atilde;o das rel&iacute;quias, acentuou-se a rela&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Vicente com toda a Cidade, com toda a Igreja diocesana, ultrapassando o particularismo das comunidades mo&ccedil;&aacute;rabes. Protector de Lisboa, S&atilde;o Vicente passou a integrar, do ponto de vista cultural, a simb&oacute;lica da Cidade de Lisboa.<\/p>\n<p>Esta igreja, hoje reaberta ao culto, depois de volumosas obras de conserva&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; a Catedral, mas est&aacute; integrada na Sede do Patriarcado. S&atilde;o Vicente, um dos oragos do Templo, sente-se aqui bem e uma sua visita mais frequente seria desej&aacute;vel, o que n&atilde;o por&aacute; em quest&atilde;o o facto de a S&eacute; Patriarcal ser a sua casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Merece a pena perscrutar a origem e o sentido desta devo&ccedil;&atilde;o das comunidades mo&ccedil;&aacute;rabes ao Santo M&aacute;rtir de Sarago&ccedil;a. Antes de mais, quem s&atilde;o os mo&ccedil;&aacute;rabes? S&atilde;o os crist&atilde;os que resistiram e se organizaram sob o dom&iacute;nio mu&ccedil;ulmano de parte da Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica. Nesse longo per&iacute;odo de sete s&eacute;culos, isso exigiu dos crist&atilde;os resist&ecirc;ncia &agrave; persegui&ccedil;&atilde;o, &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o social, &agrave; sobrecarga injusta de impostos e a uma inevit&aacute;vel acultura&ccedil;&atilde;o. E encontraram em S&atilde;o Vicente um modelo de integra&ccedil;&atilde;o da persegui&ccedil;&atilde;o e do sofrimento, na exig&ecirc;ncia da fidelidade &agrave; f&eacute; crist&atilde;. De facto, o mart&iacute;rio &eacute; o maior testemunho da fidelidade a Jesus Cristo. &Eacute; o n&atilde;o defender a vida presente &agrave; custa da perda da plenitude de vida que nos &eacute; dada por Jesus Cristo; sup&otilde;e a consci&ecirc;ncia de que o sacrif&iacute;cio &eacute; portador de conforto e de alegria. S&atilde;o Paulo di-lo claramente na Carta aos Cor&iacute;ntios que agora escut&aacute;mos: &ldquo;Do mesmo modo que abundam em n&oacute;s os sofrimentos de Cristo, assim por Cristo abunda igualmente a nossa consola&ccedil;&atilde;o. Se somos atribulados, &eacute; para serdes confortados e salvos (&hellip;) e esse conforto mostra-se eficaz na const&acirc;ncia com que suportais os mesmos sofrimentos&rdquo; (2Cor. 1,5-7).<\/p>\n<p>Cristo &eacute;, para n&oacute;s, a promessa da Vida e da alegria da ressurrei&ccedil;&atilde;o. Mas o crist&atilde;o participa, igualmente, dos sofrimentos de Cristo que vividos em uni&atilde;o com Ele, participando da sua fidelidade, s&atilde;o semente que desabrochar&aacute; em  consola&ccedil;&atilde;o. O Santo M&aacute;rtir &eacute; para esses crist&atilde;os perseguidos um testemunho e um intercessor. Com ele, aceitam melhor que ser crist&atilde;o pode ser um caminho de Cruz que &eacute; tamb&eacute;m o caminho da vida, da alegria e da consola&ccedil;&atilde;o. Ao celebrarmos S&atilde;o Vicente, queremos ter presentes, confiando-os &agrave; sua protec&ccedil;&atilde;o, todos os crist&atilde;os que hoje, em tantos pa&iacute;ses do mundo, s&atilde;o perseguidos, por vezes at&eacute; &agrave; morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Precisaremos hoje, na nossa vida e na vida da nossa cidade, desta intercess&atilde;o de S&atilde;o Vicente? Vivemos numa sociedade que eliminou a persegui&ccedil;&atilde;o violenta contra os crist&atilde;os e esse &eacute; um progresso de civiliza&ccedil;&atilde;o. A Igreja faz parte da cidade e o seu contributo para o bem-comum &eacute; reconhecido, embora nem sempre desejado. Mas isso n&atilde;o anula o aviso de Jesus aos disc&iacute;pulos de que segui-l&rsquo;O era umrisco e tinha um pre&ccedil;o. Que significa, hoje, o aviso de Jesus que escut&aacute;mos no Evangelho: &ldquo;cautela com os homens&rdquo;?<\/p>\n<p>Viver o cristianismo a s&eacute;rio no mundo de hoje &eacute; travar um grande combate. A cultura secularista n&atilde;o persegue, mas ataca, vai tentando reduzir o espa&ccedil;o humano para a f&eacute;, tornando-se quase uma religi&atilde;o alternativa. Bento XVI disse recentemente com clareza que a nova evangeliza&ccedil;&atilde;o sup&otilde;e um grande combate espiritual: &ldquo;O que importa &eacute; que procuremos viver e pensar o cristianismo de tal modo, que ele absorva o moderno que &eacute; bom e est&aacute; certo e, ao mesmo tempo, se separe e diferencie do que &eacute; contra a religi&atilde;o&rdquo;. Este combate da f&eacute; tornou-se um combate cultural com densidade espiritual. &Eacute; ainda Bento XVI quem o diz: &ldquo;muitas vezes perguntamo-nos como &eacute; poss&iacute;vel que crist&atilde;os que, pessoalmente s&atilde;o crentes, n&atilde;o tenham for&ccedil;a para refor&ccedil;ar a ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da sua f&eacute;. Temos sobretudo de procurar que as pessoas n&atilde;o percam Deus de vista. Temos de procurar que, depois, elas pr&oacute;prias, a partir da for&ccedil;a da sua pr&oacute;pria f&eacute;, entrem no confronto com o secularismo e consigam concretizar a separa&ccedil;&atilde;o das mentalidades. Este enorme processo &eacute; a verdadeira, a grande miss&atilde;o deste tempo. S&oacute; podemos esperar que a for&ccedil;a interior da f&eacute;, presente no homem, se torne publicamente potente, moldando o pensamento, e que a sociedade n&atilde;o caia simplesmente no abismo&rdquo; (1).<\/p>\n<p>Neste combate, os crist&atilde;os fragilizam-se quando, em esp&iacute;rito de pseudo-abertura, adoptam os crit&eacute;rios da cultura secularista e substituem o testemunho e a mensagem da f&eacute; por um discurso que o mundo gosta de ouvir. O aviso de Jesus concretiza-se hoje, de outra maneira: cautela com os homens que procuram reduzir o espa&ccedil;o humano e cultural da f&eacute;; cautela com os crist&atilde;os que, para serem ouvidos pelo mundo, n&atilde;o t&ecirc;m coragem para proclamar a mensagem de Cristo. Este campo de batalha &eacute; a nossa sociedade. S&atilde;o Vicente, fiel a Jesus Cristo at&eacute; ao dom da pr&oacute;pria vida, ser&aacute;, tamb&eacute;m agora, nosso modelo e nosso intercessor.<\/p>\n<p>Igreja de S&atilde;o Vicente de Fora, 22 de Janeiro de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1 &#8211; BENTO XVI, Luz do Mundo, pp. 62-63<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&ldquo;S&atilde;o Vicente e o combate da F&eacute;&rdquo; 1. Quisemos que a reabertura desta Igreja, dedicada a S&atilde;o Vicente, Padroeiro da Diocese e protector da Cidade de Lisboa, se realizasse na solenidade lit&uacute;rgica do M&aacute;rtir S&atilde;o Vicente. Esta circunst&acirc;ncia permite um gesto de grande significado hist&oacute;rico: venerar, nesta Igreja, as rel&iacute;quias do Santo M&aacute;rtir de Sarago&ccedil;a. 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