{"id":49510,"date":"2011-01-17T15:51:08","date_gmt":"2011-01-17T15:51:08","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/01\/17\/mobilidade-humana-e-evangelizacao-os-desafios-de-um-novo-milenio\/"},"modified":"2011-01-17T15:51:08","modified_gmt":"2011-01-17T15:51:08","slug":"mobilidade-humana-e-evangelizacao-os-desafios-de-um-novo-milenio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mobilidade-humana-e-evangelizacao-os-desafios-de-um-novo-milenio\/","title":{"rendered":"Mobilidade humana e evangeliza\u00e7\u00e3o: os desafios de um novo mil\u00e9nio"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Antonio Maria Vegli\u00f2 <!--more--> <\/p>\n<p>XI ENCONTRO DE FORMA&Ccedil;&Atilde;O PARA AGENTES S&Oacute;CIO-PASTORAIS DAS MIGRA&Ccedil;&Otilde;ES<br \/>&#8220;Mobilidade humana e evangeliza&ccedil;&atilde;o: os desafios de um novo mil&eacute;nio&#8221;<br \/>F&aacute;tima (Portugal), 16 de janeiro de 2011.<\/p>\n<p>S.E. DOM ANTONIO MARIAVEGLI&Ograve;<br \/>Presidente do Conselho Pontif&iacute;cio para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes<\/p>\n<p>Suas Excel&ecirc;ncias,<br \/>reverendos sacerdotes, religiosos e religiosas,<br \/>queridos irm&atilde;os e irm&atilde;s,<\/p>\n<p>O tema que me foi confiado para este encontro &eacute; &#8220;Mobilidade humana e evangeliza&ccedil;&atilde;o: os desafios de um novo mil&eacute;nio&#8221;. Este sugere uma forma de avaliar e programar, dado que fala do an&uacute;ncio crist&atilde;o aos imigrantes do terceiro mil&eacute;nio. Quero agradecer ao Director da Obra Cat&oacute;lica Portuguesa de Migra&ccedil;&atilde;o, Pe. Francisco Sales Diniz, pelo seu gentil convite. Cordialmente dou as boas-vindas a todos os participantes deste XI Encontro de Forma&ccedil;&atilde;o de Agentes S&oacute;cio-Pastorais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. Um Continente em cont&iacute;nua ebuli&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>O cristianismo est&aacute; presente h&aacute; dois mil anos na Europa. No entanto, este Continente est&aacute; marcado por um profundo movimento de descristianiza&ccedil;&atilde;o. Perante esta situa&ccedil;&atilde;o paradoxal, Jo&atilde;o Paulo II escreveu na Exorta&ccedil;&atilde;o Apost&oacute;lica Ecclesia in Europa, de 29 de junho de 2003, que &#8220;a Igreja apresenta-se no in&iacute;cio do terceiro mil&eacute;nio com o mesmo an&uacute;ncio de sempre, que constitui o seu &uacute;nico tesouro: Jesus Cristo &eacute; o Senhor; s&oacute; h&aacute; salva&ccedil;&atilde;o n&#8217;Ele, e em mais ningu&eacute;m (cf. Act 4, 12). A fonte da esperan&ccedil;a, para a Europa e para o mundo inteiro, &eacute; Cristo; e a Igreja &eacute; o canal pelo qual passa e se difunde a onda de gra&ccedil;a que brotou do Cora&ccedil;&atilde;o trespassado do Redentor&#8221;.<\/p>\n<p>A Europa &eacute; um Continente em que coexistem na&ccedil;&otilde;es, povos e culturas diferentes. H&aacute; zonas geogr&aacute;ficas com sua identidade, l&iacute;ngua e tradi&ccedil;&atilde;o. Nenhum pa&iacute;s europeu, no entanto, se pode considerar, hoje, livre das problem&aacute;ticas do macrofen&oacute;meno das migra&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas. Segundo estimativas oficiais, os n&atilde;o-nacionais presentes na Uni&atilde;o Europeia, em 2007, eram 28 milh&otilde;es, ou seja, 5,5% da popula&ccedil;&atilde;o total; 32% destes, vindos de pa&iacute;ses europeus n&atilde;o pertencentes &agrave; Uni&atilde;o, 22% da &Aacute;frica, 16% da &Aacute;sia e 15% das Am&eacute;ricas. Naturalmente, estes n&uacute;meros s&atilde;o mais elevados se tivermos em conta os que, neste entretanto, adquiriram a cidadania. Em termos absolutos, a Alemanha, Fran&ccedil;a, Espanha, Reino Unido e It&aacute;lia registam actualmente o maior n&uacute;mero de cidad&atilde;os estrangeiros.<\/p>\n<p>Tendo em considera&ccedil;&atilde;o estes dados, surgem em toda a parte sinais preocupantes de esmorecimento e confus&atilde;o, mesmo sob o impulso do fen&oacute;meno migrat&oacute;rio. O primeiro destes &eacute; a busca excessiva de autonomia do homem em rela&ccedil;&atilde;o a Deus. A pessoa humana, na verdade, cada vez mais tenta concentrar a sua actividade cient&iacute;fica, t&eacute;cnica, cultural e pol&iacute;tica nas suas pr&oacute;prias m&atilde;os. Assim, a partir do s&eacute;culo XVIII, Deus foi posto &agrave; margem do mundo, mas sem interferir nas actividades do homem. Desta forma, tamb&eacute;m o universo &eacute; deixado ao homem como o &uacute;nico dominador, que o manipula a seu belo prazer, com o risco de provocar danos irrepar&aacute;veis em todo o ecossistema, mas tamb&eacute;m no complexo mundo das rela&ccedil;&otilde;es interpessoais e, at&eacute; mesmo, na busca de valores e sentido da exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Um segundo elemento a ser considerado refere-se &agrave;s mudan&ccedil;as &eacute;ticas que est&atilde;o ocorrendo na sociedade contempor&acirc;nea, com particular destaque para a desintegra&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia, para a pouca valoriza&ccedil;&atilde;o do casamento, para o apelo ao aborto, para o uso e consumo da sexualidade como utilidade comercial sem amor, para a falta de protec&ccedil;&atilde;o da vida nascente, para a deprecia&ccedil;&atilde;o do idoso e, em geral, das pessoas com defici&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Enfim, a Uni&atilde;o Europeia actualmente est&aacute;-se deparando com uma forte crise econ&oacute;mica. Muitos postos de trabalho foram perdidos e especialmente os migrantes est&atilde;o enfrentando condi&ccedil;&otilde;es de grave inseguran&ccedil;a. De facto, no contexto dos movimentos migrat&oacute;rios, &eacute; &oacute;bvio para todos que n&atilde;o se reserva a devida aten&ccedil;&atilde;o &agrave; defesa da dignidade da pessoa humana, criada &#8220;&agrave; imagem e semelhan&ccedil;a&#8221; de Deus. Ali&aacute;s, precisamente neste contexto, devemos denunciar, com tristeza, que em muitas regi&otilde;es da Europa ocorrerram, nos &uacute;ltimos anos, desprez&iacute;veis ataques contra os imigrantes, que muitas vezes foram v&iacute;timas de intoler&acirc;ncia, discrimina&ccedil;&atilde;o e xenofobia, com epis&oacute;dios de racismo, ainda que isolados (1).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. A Chaga da Irregularidade<\/strong><\/p>\n<p>O confronto com a realidade da imigra&ccedil;&atilde;o irregular tornou-se inevit&aacute;vel. A este respeito &eacute; dif&iacute;cil ter n&uacute;meros precisos, mas de acordo com avalia&ccedil;&otilde;es recentes os imigrantes em situa&ccedil;&atilde;o irregular seriam entre 4,5 e 8 milh&otilde;es, com um aumento calculado entre 350.000 e 500.000 por ano. As &aacute;reas de fronteira, onde s&atilde;o interceptados ou tentam entrar em maior n&uacute;mero, s&atilde;o aquelas entre a Eslov&aacute;quia e a Ucr&acirc;nia, entre a Eslov&eacute;nia e a Cro&aacute;cia, entre a Gr&eacute;cia e a Alb&acirc;nia e entre a Gr&eacute;cia e a Turquia. Al&eacute;m disso, &eacute; claro, s&atilde;o consideradas zonas extremamente &#8220;quentes&#8221; Ceuta e Melilla, as Ilhas Can&aacute;rias e a Sic&iacute;lia. Entre os migrantes irregulares vindos do Sul h&aacute; sobretudo marroquinos (cerca de 70%), seguidos pelos subsaarianos, eritreus e eg&iacute;pcios.<\/p>\n<p>A Pol&iacute;tica Migrat&oacute;ria Europeia atualmente encontra-se numa fase cr&iacute;tica, pois, &agrave; necessidade de coordena&ccedil;&atilde;o e harmoniza&ccedil;&atilde;o, contrap&otilde;e-se a dificuldade de cada um dos Estados em ceder a algumas prerrogativas nesta &aacute;rea. Ao mesmo tempo, continua ainda o fecho das fronteiras, resultando na impossibilidade para os imigrantes de entrar regularmente, para al&eacute;m das quotas admitidas.<\/p>\n<p>Finalmente, n&atilde;o podemos permanecer silenciosos diante das chagas do tr&aacute;fico e do com&eacute;rcio de seres humanos, envolvendo especialmente as jovens &ndash; recrutadas por organiza&ccedil;&otilde;es criminosas e for&ccedil;adas &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o &ndash; e as crian&ccedil;as, com o desprez&iacute;vel desenvolvimento do tr&aacute;fico de &oacute;rg&atilde;os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3. A Voz do Magist&eacute;rio da Igreja<\/strong><\/p>\n<p>A Instru&ccedil;&atilde;o Erga Migrantes Caritas Christi, publicada em 2004 pelo nosso Conselho Pontif&iacute;cio (2), adiciona a essa sum&aacute;ria descri&ccedil;&atilde;o: &#8220;a emigra&ccedil;&atilde;o dos n&uacute;cleos familiares e a feminina, tornando-se, esta &uacute;ltima, cada vez mais consistente. Contratadas frequentemente como trabalhadoras n&atilde;o qualificadas (trabalhadoras dom&eacute;sticas), e empregadas no trabalho submerso, as mulheres s&atilde;o privadas, ami&uacute;de, dos mais elementares direitos humanos e sindicais, quando n&atilde;o caem v&iacute;timas do triste fen&oacute;meno conhecido como &ldquo;tr&aacute;fico humano&rdquo; que j&aacute; n&atilde;o poupa nem mesmo as crian&ccedil;as&#8221; (n. 5). Al&eacute;m disso, o Documento estigmatiza esta realidade como &#8220;um novo cap&iacute;tulo da escravid&atilde;o&#8221; (Ibidem). Como vis&atilde;o positiva, ent&atilde;o, incentiva &#8220;a busca de uma nova ordem econ&oacute;mica internacional para uma mais justa distribui&ccedil;&atilde;o dos bens da terra, que contribuiria n&atilde;o pouco, de resto, para reduzir e moderar os fluxos de uma numerosa parte da popula&ccedil;&atilde;o em dificuldade. Da&iacute; a necessidade tamb&eacute;m de um empenho mais incisivo para criar sistemas educativos e pastorais, com vista de uma forma&ccedil;&atilde;o &agrave; &ldquo;mundialidade&rdquo;, isto &eacute;, a uma nova vis&atilde;o, da comunidade mundial, considerada como fam&iacute;lia de povos, &agrave; qual finalmente s&atilde;o destinados os bens da terra, numa perspectiva do bem comum universal&#8221; (n. 8).<\/p>\n<p>O Papa Bento XVI, na Mensagem para a Celebra&ccedil;&atilde;o do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que coincide justamente com a data de hoje (doravante DMMR 2011), convida a considerar que a humanidade &eacute; &#8220;uma s&oacute; fam&iacute;lia de irm&atilde;os e irm&atilde;s em sociedades que se tornam cada vez mais multi-&eacute;tnicas e intra-culturais&#8221;, gra&ccedil;as tamb&eacute;m &agrave;s migra&ccedil;&otilde;es, que geralmente constituem uma experi&ecirc;ncia dif&iacute;cil, embora nas variegadas tipologias, que o fen&oacute;meno assume. De facto, existem as migra&ccedil;&otilde;es &#8220;internas ou internacionais, permanentes ou peri&oacute;dicas, econ&oacute;micas ou pol&iacute;ticas, volunt&aacute;rias ou for&ccedil;adas&#8221;, escreve o Papa. Trata-se de movimentos que levam, em todos os casos, a uma mistura de etnias, culturas e religi&otilde;es que torna o di&aacute;logo uma ferramenta necess&aacute;ria para &#8220;uma serena e frutuosa conviv&ecirc;ncia no respeito das leg&iacute;timas diferen&ccedil;as&#8221;. Com efeito, na Ora&ccedil;&atilde;o do Angelus, de 17 de agosto de 2008, ele advertira sobre epis&oacute;dios deplor&aacute;veis de intoler&acirc;ncia, que n&atilde;o deixam de ocorrer mesmo no nosso tempo, e tinha dito que &#8220;uma das grandes conquistas da humanidade &eacute; precisamente a supera&ccedil;&atilde;o do racismo. Infelizmente, por&eacute;m, registram-se em v&aacute;rios pa&iacute;ses novas manifesta&ccedil;&otilde;es preocupantes. Oremos, para que em todos os lugares cres&ccedil;a o respeito por cada pessoa, juntamente com a consci&ecirc;ncia respons&aacute;vel de que somente no acolhimrnto m&uacute;tuo de todos &eacute; poss&iacute;vel construir um mundo caracterizado por uma verdadeira justi&ccedil;a e verdadeira paz&#8221; (3).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4. Uma Sociedade no Plural<\/strong><\/p>\n<p>As caracter&iacute;sticas que formam o vulto da Europa, hoje, s&atilde;o aquelas da multietnicidade e do multiculturalismo, que trazem consigo diferentes formas de perten&ccedil;a religiosa. Para tudo isso contribui directamente tamb&eacute;m a mobilidade humana, fen&oacute;meno maci&ccedil;o e estrutural que envolve n&atilde;o s&oacute; os trabalhadores migrantes, mas tamb&eacute;m milh&otilde;es de pessoas que fogem em busca de ref&uacute;gio e protec&ccedil;&atilde;o internacional, bem como aqueles que viajam por turismo ou por lazer, em qualquer parte do globo. Estamos diante de um novo quadro que os pa&iacute;ses europeus devem ter em considera&ccedil;&atilde;o, para garantir a seguran&ccedil;a e o bem-estar a quem vive no territ&oacute;rio h&aacute; muito tempo, mas tamb&eacute;m dignidade, trabalho, casa e protec&ccedil;&atilde;o dos direitos daqueles que chegam como migrantes.<\/p>\n<p>&#8220;Pedimos for&ccedil;a-trabalho, chegaram pessoas. Mas n&atilde;o devoram o nosso bem-estar, ali&aacute;s, s&atilde;o indispens&aacute;veis para mant&ecirc;-lo&#8221;, assim se expressava, em 1965, o escritor Max Frisch, referindo-se aos imigrantes italianos na Su&iacute;&ccedil;a (4). Muitos anos depois, podemos repetir as mesmas considera&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o aos novos fluxos migrat&oacute;rios na Europa.<\/p>\n<p>Hoje, aqueles que chegam aos Estados-Membros s&atilde;o, principalmente, crist&atilde;os e, entre eles, muitos s&atilde;o ortodoxos. Aqueles que pertencem ao juda&iacute;smo s&atilde;o cerca de tr&ecirc;s milh&otilde;es, mas t&ecirc;m ra&iacute;zes hist&oacute;ricas na Europa. A Uni&atilde;o Budista Europeia pensa que tem hoje na Europa de um a tr&ecirc;s milh&otilde;es de adeptos. Os mu&ccedil;ulmanos, pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o cerca de 32 milh&otilde;es. O di&aacute;logo n&atilde;o &eacute; nada f&aacute;cil, sobretudo com o mundo isl&acirc;mico, tamb&eacute;m porque palavras como justi&ccedil;a, verdade, dignidade e direitos humanos, laicidade, democracia e reciprocidade t&ecirc;m conte&uacute;do diferente ao que lhe atribui a cultura europeia.<\/p>\n<p>O encontro das diversidades n&atilde;o &eacute; uma novidade do nosso tempo, mas o facto novo &eacute; que hoje o fen&oacute;meno afecta a totalidade do planeta. Os historiadores observaram que, no dia em que uma civiliza&ccedil;&atilde;o se abrir a outras culturas, esta mesma beneficia em termos de crescimento e fortalecimento. Pelo contr&aacute;rio, fraqueza e decl&iacute;nio come&ccedil;am precisamente quando essa n&atilde;o aceita o di&aacute;logo, o confronto e o interc&acirc;mbio m&uacute;tuo no dinamismo do dar e receber rec&iacute;procos. &Eacute; importante, no entanto, que as diferen&ccedil;as leg&iacute;timas sejam mantidas e percebidas como positivas e enriquecedoras. A diversidade cultural como fonte de vitalidade, inova&ccedil;&atilde;o e criatividade, &eacute; necess&aacute;ria para a humanidade como tamb&eacute;m a biodiversidade para a natureza. O pluralismo, com efeito, &eacute; uma das categorias que d&atilde;o vitalidade ao desenvolvimento humano, entendido n&atilde;o apenas em termos de crescimento econ&oacute;mico, mas tamb&eacute;m como meio para uma exist&ecirc;ncia mais satisfat&oacute;ria do ponto de vista intelectual, emocional, moral e espiritual. Portanto, todos s&atilde;o respons&aacute;veis em preservar o patrim&oacute;nio da humanidade espalhado nas diferentes culturas. Deve ser reconhecido e protegido para o bem das gera&ccedil;&otilde;es presentes e futuras.<\/p>\n<p>Bento XVI, na Mensagem para este dia do Migrante e Refugiado, considerando as mudan&ccedil;as ocorridas na sociedade, convida a humanidade a se ver como &#8220;uma s&oacute; fam&iacute;lia, multi-&eacute;tnica e intra-cultural, [embora] isto produza inevit&aacute;veis consequ&ecirc;ncias para o indiv&iacute;duo, a sociedade, os Estados e as Igrejas locais&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>5. Os Desafios da Evangeliza&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>A pastoral da mobilidade humana, superada a emerg&ecirc;ncia da ajuda humanit&aacute;ria que sempre est&aacute; implicada nos movimentos migrat&oacute;rios e que responde &agrave; urg&ecirc;ncia da caridade, hoje enfrenta o desafio da renovada proclama&ccedil;&atilde;o da Boa Nova aos migrantes. O esfor&ccedil;o dos Agentes de pastoral, nesse contexto, tende a descobrir e explorar tudo o que h&aacute; de belo, verdadeiro e bom nas diferentes culturas, em conson&acirc;ncia com o apelo que j&aacute; S&atilde;o Paulo dirigia &agrave; comunidade crist&atilde; de Filipos, com estas palavras: &#8220;ocupai-vos com tudo o que &eacute; verdadeiro, nobre, justo, puro, am&aacute;vel, honroso, ou que de algum modo mere&ccedil;a louvor (4,8). Promover a nova evangeliza&ccedil;&atilde;o, na verdade, significa buscar o que permite a abertura ao Evangelho e seu acolhimento, preocupando-se em fazer crescer as &#8220;as sementes do Verbo&#8221; (Ad Gentes, n. 15). &Eacute; por isso que &ndash; diz a Instru&ccedil;&atilde;o Erga Migrantes Caritas Christi &ndash; &#8220;os Consagrados e as Consagradas, as Comunidades, os Movimentos eclesiais e as Associa&ccedil;&otilde;es de Leigos, e tamb&eacute;m os Agentes de pastoral, devem sentir-se empenhados em educar sobretudo os crist&atilde;os ao acolhimento, &agrave; solidariedade e &agrave; abertura aos estrangeiros, a fim de que as migra&ccedil;&otilde;es se tornem uma realidade sempre mais &ldquo;significativa&rdquo; para a Igreja, e os fi&eacute;is possam descobrir os Semina Verbi [as sementes do Verbo] presentes nas diversas culturas e religi&otilde;es&#8221; (n. 96).<\/p>\n<p>A tarefa dos agentes de pastoral da mobilidade humana, portanto, &eacute; o de semear a Palavra de Deus, concentrando-se especialmente nos caminhos do acolhimento e nos meios mais adequados para a integra&ccedil;&atilde;o. Sobre estes temas, Bento XVI insistiu, saudando os participantes da Sess&atilde;o plen&aacute;ria de nosso Conselho Pontif&iacute;cio, no &uacute;ltimo dia 28 de maio. Nessa ocasi&atilde;o, o Papa enfatizou que, para promover a coexist&ecirc;ncia dos povos, s&atilde;o necess&aacute;rias &#8220;directrizes s&aacute;bias e complexas para o acolhimento e integra&ccedil;&atilde;o, permitindo oportunidades de entrada na legalidade, favorecendo o justo direito do reagrupamento familiar, do asilo e do ref&uacute;gio, compensando as necess&aacute;rias medidas restritivas e contrabalanceando o lament&aacute;vel tr&aacute;fico de pessoas&#8221;.<\/p>\n<p>A coexist&ecirc;ncia pac&iacute;fica e a partilha de valores comuns s&atilde;o mais importantes do que as divis&otilde;es e bairrismos. Os locais de interc&acirc;mbio social e participa&ccedil;&atilde;o, os espa&ccedil;os comuns de solidariedade, os &acirc;mbitos da escola e do trabalho s&atilde;o formas nas quais o di&aacute;logo pode realmente encontrar terreno f&eacute;rtil. Em particular, no di&aacute;logo inter-religioso, assume uma grande import&acirc;ncia a reciprocidade (5). De facto, a rela&ccedil;&atilde;o fundamenta-se no respeito m&uacute;tuo e na justi&ccedil;a, base da &#8220;atitude do cora&ccedil;&atilde;o e do esp&iacute;rito, que nos torna capazes de vivermos juntos, e em toda parte, com igualdade de direitos e de deveres&#8221; (EMCC, n. 64) (6).<\/p>\n<p>A coopera&ccedil;&atilde;o entre as Igrejas de origem e as de destino dos fluxos migrat&oacute;rios &eacute; fundamental para uma pastoral espec&iacute;fica. A Instru&ccedil;&atilde;o EMCC (n. 28 e 70-77) considera as Igrejas locais de partida e de chegada como pilares fundamentais na pastoral migrat&oacute;ria. Por um lado, de facto, a comunidade crist&atilde; que acolhe os migrantes pode fornecer respostas adequadas &agrave;s suas necessidades materiais e espirituais, como fam&iacute;lia aut&ecirc;ntica que reconhece ter &#8220;um s&oacute; Deus e Pai de todos&#8221; (Ef 4,6), que &#8220;nos chama para sermos filhos amados no seu Filho predilecto&#8221; e &#8220;para nos reconhecermos a todos como irm&atilde;os em Cristo&#8221; (DMMR 2011).<\/p>\n<p>Por outro lado, &eacute; muito importante que as Igrejas de partida dos migrantes percebam a voca&ccedil;&atilde;o mission&aacute;ria para n&atilde;o negligenciar aqueles que deixam a comunidade de origem para ir para outros lugares. Os contactos ser&atilde;o mantidos vivos por meio de visitas regulares dos Ordin&aacute;rios diocesanos e, onde for poss&iacute;vel, com o envio de sacerdotes e agentes de pastoral que acompanhem os migrantes nas v&aacute;rias fases da emigra&ccedil;&atilde;o. O mission&aacute;rio dos migrantes, na verdade, &eacute; uma ajuda insubstitu&iacute;vel para que os seus conterr&acirc;neos possam continuar a viver e crescer na f&eacute; crist&atilde;, mesmo enfrentando as tantas vicissitudes que inevitavelmente encontrarem, longe da fam&iacute;lia e dos costumes da terra natal.<\/p>\n<p>Um &uacute;ltimo pensamento, que de alguma maneira entra na actividade mission&aacute;ria, refere-se &agrave; defesa dos direitos dos trabalhadores migrantes, aonde s&atilde;o violados. A den&uacute;ncia naturalmente &eacute; um instrumento importante do an&uacute;ncio evang&eacute;lico, mas &eacute; &oacute;bvio que deve ser mediado pelo Magist&eacute;rio da Igreja, em conson&acirc;ncia com as orienta&ccedil;&otilde;es pastorais do Ordin&aacute;rio local, e levado a termo na reflex&atilde;o e ora&ccedil;&atilde;o. A den&uacute;ncia deve lembrar, advertir e estimular novas id&eacute;ias pol&iacute;ticas, econ&oacute;micas e sociais, com o devido respeito &agrave; dignidade e aos direitos humanos, &agrave; pol&iacute;tica familiar, &agrave; habita&ccedil;&atilde;o, ao trabalho, &agrave; sa&uacute;de e aos servi&ccedil;os &agrave; pessoa do migrante. Toda a den&uacute;ncia, para n&atilde;o ser superficial e emotiva, deve ser acompanhada pelo estudo, pela observa&ccedil;&atilde;o pontual e pelo debate fraterno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>6. Caminhos de Integra&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; ainda importante que os imigrantes se integram no pa&iacute;s de acolhimento &#8220;respeitando as suas leis e a identidade nacional&#8221;, afirma Bento XVI na Mensagem para este Dia (DMMR 2011). &Eacute; verdade que &#8220;n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil encontrar os sistemas e ordenamentos que garantam, de forma equilibrada e justa, os direitos e os deveres tanto de quem acolhe como daquele que &eacute; acolhido&#8221; (GMP 2001, n. 12), mas &eacute; poss&iacute;vel &#8220;identificar alguns princ&iacute;pios &eacute;ticos fundamentais que sirvam de refer&ecirc;ncia. Em primeiro lugar, h&aacute; [&hellip;] o princ&iacute;pio segundo o qual os imigrados h&atilde;o-de ser sempre tratados com o respeito devido &agrave; dignidade de cada pessoa humana&#8221; (ibid., n. 13). Com certeza, &eacute; direito dos Estados &#8220;regular os fluxos migrat&oacute;rios e de defender as pr&oacute;prias fronteiras&#8221; (DMMR 2011), para garantir a seguran&ccedil;a da na&ccedil;&atilde;o, mas este direito deve sempre ter em conta o princ&iacute;pio acima mencionado. &#8220;Procurar-se-&aacute; ent&atilde;o conjugar o acolhimento devido a todo o ser humano, sobretudo no caso de pobres, com a avalia&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es indispens&aacute;veis para uma vida decorosa e pac&iacute;fica tanto dos habitantes origin&aacute;rios como dos advent&iacute;cios (GMP 2001, n. 13)&#8221; (DMMR 2011).<\/p>\n<p>Precisamente neste vasto campo de ac&ccedil;&atilde;o, insere-se tamb&eacute;m o importante papel do Agente de pastoral da mobilidade humana, fazendo apelo a toda a sua sabedoria e clarivid&ecirc;ncia. O objectivo a ser alcan&ccedil;ado ser&aacute; o da &#8220;s&iacute;ntese cultural&#8221;, que implica, por um lado, um processo din&acirc;mico &ndash; ou seja, a reciprocidade do interc&acirc;mbio &ndash; e, por outro, uma integra&ccedil;&atilde;o que pressup&otilde;e a participa&ccedil;&atilde;o na cria&ccedil;&atilde;o e na altera&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais. Entendida assim, a &#8220;s&iacute;ntese cultural&#8221; envolve o processamento de modelos originais, surgidos das culturas presentes, sem, para isto, deixar-se reduzir em alguma delas; modelos que se inserem na cultura de base que, neste sentido, se fortalece.<\/p>\n<p>De resto, a Igreja, consciente das trag&eacute;dias passadas, que assolaram tamb&eacute;m o continente europeu, sabe que a integra&ccedil;&atilde;o plena de cada minoria &eacute; essencial para manter a conc&oacute;rdia civil e a democracia. Fundada na f&eacute; crist&atilde;, ela quer contribuir para a constru&ccedil;&atilde;o de uma Europa com um rosto mais humano, onde sejam protegidos os direitos humanos e os valores basilares da paz, da justi&ccedil;a, da liberdade, da toler&acirc;ncia, da participa&ccedil;&atilde;o e da solidariedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conclus&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Os migrantes esperam da Igreja universal e em especial da Igreja local portuguesa, uma orienta&ccedil;&atilde;o e uma resposta &agrave;s grandes quest&otilde;es sobre a f&eacute; crist&atilde;, conforto e ajuda humana capazes de devolver sentido e esperan&ccedil;a &agrave;s suas exist&ecirc;ncias. A caminhada mission&aacute;ria que queremos percorrer no terceiro mil&eacute;nio dever&aacute; basear-se na evangeliza&ccedil;&atilde;o e no testemunho da caridade. N&atilde;o nos esque&ccedil;amos de que a caridade crist&atilde; tem uma grande for&ccedil;a evangelizadora &agrave; medida que se faz sinal do amor de Deus entre os homens. Esta consiste na disponibilidade ao pr&oacute;ximo em nome de Jesus Cristo (cf. Mt 25,31-46).<\/p>\n<p>A Igreja, portanto, &eacute; chamada a viver no amor, a revelar ao mundo o amor de Deus e a contagiar o mundo com as obras do amor. Os Agentes de pastoral da mobilidade humana, por sua vez, s&atilde;o testemunhas do amor de Deus no acolhimento dos migrantes, no ajud&aacute;-los quando est&atilde;o doentes ou passam por momentos de solid&atilde;o, marginaliza&ccedil;&atilde;o, irregularidade e pris&atilde;o, na defesa corajosa e prof&eacute;tica dos seus direitos, no incentivar os que, tentando observar seus deveres, est&atilde;o lutando para se inserir em um contexto social e cultural diferente daquele em que nasceram e cresceram.<\/p>\n<p>&#8220;A falta de fraternidade entre os homens e entre os povos &eacute; causa profunda de subdesenvolvimento e [&hellip;] incide em grande medida sobre o fen&oacute;meno migrat&oacute;rio&#8221;, diz o Papa Bento XVI (DMMR 2011). O desenvolvimento aut&ecirc;ntico, de facto, vem da &#8220;partilha de bens e recursos&#8221;, que &#8220;n&atilde;o &eacute; assegurada pelo simples progresso t&eacute;cnico e por meras rela&ccedil;&otilde;es de conveni&ecirc;ncia, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12,21) e abre &agrave; reciprocidade das consci&ecirc;ncias e das liberdades&#8221; (Caritas in veritate, n. 9).<\/p>\n<p>Na Mensagem para o Dia de hoje, o Santo Padre reafirma, por outro lado, que o crescimento na caridade vivida e concreta, especialmente para com os pobres e fracos, encontra for&ccedil;a na Eucaristia, &#8220;fonte inesgot&aacute;vel de comunh&atilde;o para toda a humanidade&#8221; (DMMR 2011).<\/p>\n<p>Maria, que veneramos nesse lugar sagrado, esteja-nos pr&oacute;ximo e nos infunda confian&ccedil;a em nosso empenho pastoral. Ela, com o seu Sim, acolheu o Senhor da vida, ofereceu ao mundo aquele que d&aacute; sentido e plenitude &agrave; exist&ecirc;ncia de todas as criaturas humanas e estava junto ao seu Filho Jesus tamb&eacute;m nos momentos do sofrimento, da paix&atilde;o e da Cruz. Maria esteja junto aos migrantes que vivem na Europa e especialmente junto &agrave; Igreja local portuguesa, para que esteja cada vez mais ao servi&ccedil;o dos migrantes, para que a cada um deles seja garantida uma vida conforme a dignidade humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Obrigado!<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1. JO&Atilde;O PAULO II dedicou a Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2003 precisamente a esses temas espec&iacute;ficos, com o t&iacute;tulo &#8220;Por um empenho para vencer o racismo, a xenofobia e o nacionalismo exagerado&#8221;: People on the move 90 (2002) 5-7.<\/p>\n<p>2. Instru&ccedil;&atilde;o Erga Migrantes Caritas Christi: AAS XCVI (2004) 762-822<\/p>\n<p>3. L&rsquo;Osservatore Romano, n. 192 (44.932), 18-19 de agosto de 2008, p. 8.<\/p>\n<p>4. M. FRISCH, &ldquo;Vorwort&rdquo;, in: A.J. SEILER, Siamo Italiani, Z&uuml;rich 1965, p.7.<\/p>\n<p>5. Cfr. S. FUMIO HAMAO, &ldquo;Il dialogo ecumenico, interreligioso e interculturale nei pi&ugrave; recenti Documenti del nostro Pontificio Consiglio&rdquo;, People on the Move, 96 (2004) pp. 25-36; P. SHAN KUO-HSI, &ldquo;Inter-religious Dialogue in the Migrants&rsquo; World&rdquo;: People on the Move, 96 (2004) pp. 115&not;&not;-137; ID., &ldquo;Inter-religious dialogue in the migrants&rsquo; world&rdquo;: People on the Move, 98 (2005) pp. 59-63<\/p>\n<p>6. Na Mensagem enviada por ocasi&atilde;o do dia de estudos organizado pelo Conselho Pontif&iacute;cio para o Di&aacute;logo Inter-religioso e pelo Conselho Pontif&iacute;cio para a Cultura, em 3 de Dezembro de 2008, Bento XVI afirmou que o tema do di&aacute;logo entre culturas e religi&otilde;es &eacute; hoje &#8220;uma prioridade&#8221; para a Europa e explicou que &#8220;a Europa contempor&acirc;nea, que se aproxima do Terceiro Mil&eacute;nio, &eacute; o resultado de dois mil&eacute;nios de civiliza&ccedil;&atilde;o. Tem as suas ra&iacute;zes no enorme e antigo patrim&oacute;nio de Atenas e Roma e, acima de tudo, no fecundo terreno do Cristianismo, que provou ser capaz de criar novos patrim&oacute;nios culturais ao mesmo tempo em que retoma a contribui&ccedil;&atilde;o original de cada civiliza&ccedil;&atilde;o&#8221;. &#8220;O tema do di&aacute;logo intercultural e inter-religioso &ndash; acrescentou o Papa &ndash; emerge como uma prioridade para a Uni&atilde;o Europeia e interessa de forma transversal aos sectores da cultura e da comunica&ccedil;&atilde;o, da educa&ccedil;&atilde;o e da ci&ecirc;ncia, das migra&ccedil;&otilde;es e das minorias, at&eacute; chegar aos &acirc;mbitos da juventude e do trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. 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