{"id":49244,"date":"2011-01-03T13:09:17","date_gmt":"2011-01-03T13:09:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/01\/03\/homilia-do-bispo-de-lamego-no-dia-mundial-da-paz\/"},"modified":"2011-01-03T13:09:17","modified_gmt":"2011-01-03T13:09:17","slug":"homilia-do-bispo-de-lamego-no-dia-mundial-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-lamego-no-dia-mundial-da-paz\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Lamego no Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p>Com a Solenidade de Santa Maria, M&atilde;e de Deus, o t&iacute;tulo por excel&ecirc;ncia, o mais antigo e mais&nbsp;<strong>importante, com que o Povo de Deus invoca Nossa Senhora, a Liturgia convida-nos a come&ccedil;ar<\/strong>&nbsp;o Ano Novo, voltando-nos para Ela. N&rsquo;Ela fixamos o nosso olhar e a nossa aten&ccedil;&atilde;o, para lermos nos Seus gestos e nas Suas palavras o comportamento que nos aconselha em ordem a vivermos como verdadeiros disc&iacute;pulos do Filho que d&rsquo;Ela nasceu, a quem puseram o nome de Jesus. Ela &eacute; a primeira crente, modelo perfeito a imitar. N&atilde;o queremos esquecer a recomenda&ccedil;&atilde;o do Servo de Deus, Jo&atilde;o Paulo II, para frequentarmos a Sua escola. Vale a pena lembrar as suas palavras: &ldquo;Cristo &eacute; o Mestre por excel&ecirc;ncia, o revelador e a revela&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata somente de aprender as coisas que Ele ensinou, mas de &laquo;<em>aprend&ecirc;-Lo a Ele<\/em>&raquo;. Por&eacute;m, nisto, qual mestra mais experimentada do que Maria? Se do lado de Deus &eacute; o Esp&iacute;rito, o Mestre interior, que nos conduz &agrave; verdade plena de Cristo, de entre os seres humanos, ningu&eacute;m melhor do que Ela conhece Cristo, ningu&eacute;m como a M&atilde;e pode introduzir-nos no profundo conhecimento do seu mist&eacute;rio. [&hellip;] Uma escola, a de Maria, ainda mais eficaz, quando se pensa que Ela a d&aacute; obtendo-nos os dons do Esp&iacute;rito Santo com abund&acirc;ncia e ao mesmo tempo, propondo-nos o exemplo daquela &laquo;peregrina&ccedil;&atilde;o da f&eacute;&raquo;, na qual &eacute; mestra inigual&aacute;vel. Ela convida-nos, como na Sua Anuncia&ccedil;&atilde;o, a colocar as perguntas que abrem &agrave; luz, para concluir sempre com a obedi&ecirc;ncia da f&eacute;: &laquo;Eis a serva do Senhor, fa&ccedil;a-se em Mim segundo a tua palavra&raquo; &rdquo;.<\/p>\n<p>Neste vale de l&aacute;grimas cada vez mais choradas e sofridas por n&oacute;s, os degredados filhos de Eva, com uma exist&ecirc;ncia agravada pela t&atilde;o falada crise, necessitamos do seu patroc&iacute;nio, como Medianeira de todas as Gra&ccedil;as, que volva sobre n&oacute;s o seu olhar, para encontrarmos a esperan&ccedil;a que n&atilde;o desilude, e saibamos testemunhar a solidariedade cada vez mais urgente e indispens&aacute;vel. Trata-se da esperan&ccedil;a, fruto da mensagem crist&atilde;, fidedigna, como a qualifica Bento XVI, na sua enc&iacute;clica&nbsp;<em>Salvos na Esperan&ccedil;a<\/em>, esperan&ccedil;a, gra&ccedil;as &agrave; qual podemos enfrentar o nosso tempo com aquele esp&iacute;rito, reflectido na mesma enc&iacute;clica, citando S. Paulo na carta aos Ef&eacute;sios, lembrando-lhes que antes do encontro com Cristo estavam &laquo;sem esperan&ccedil;a e sem Deus no mundo&raquo;; ou a recomenda&ccedil;&atilde;o aos Tessalonicenses:&nbsp;<em>n&atilde;o deveis entristecer-vos como os outros que n&atilde;o t&ecirc;m esperan&ccedil;a<\/em>. &ldquo;Aparece aqui como elemento distintivo dos crist&atilde;os o facto de estes terem um futuro: n&atilde;o &eacute; que conhe&ccedil;am em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida n&atilde;o acaba no vazio. Somente quando o futuro &eacute; certo como realidade positiva, &eacute; que se torna vis&iacute;vel tamb&eacute;m o presente. Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo n&atilde;o era apenas uma &laquo;boa nova&raquo;, ou seja uma comunica&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos at&eacute; ent&atilde;o ignorados. Em linguagem actual, dir-se-ia: a mensagem crist&atilde; n&atilde;o era s&oacute; &laquo;informativa&raquo;, mas &laquo;performativa&raquo;. Significa isto que o Evangelho n&atilde;o &eacute; apenas uma comunica&ccedil;&atilde;o de realidades que se podem saber, mas uma comunica&ccedil;&atilde;o que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperan&ccedil;a, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.&rdquo; Permiti que partilhe convosco um pensamento de Bento XVI na homilia de V&eacute;speras, ontem &agrave; tarde, na Bas&iacute;lica de S. Pedro: &ldquo;O nosso tempo humano est&aacute; carregado de males, de sofrimentos e de dramas de todo o g&eacute;nero, tanto daqueles que s&atilde;o fruto da maldade dos homens, como daqueles que resultam de calamidades naturais, mas cont&eacute;m j&aacute; de maneira definitiva e indel&eacute;vel a jubilosa e libertadora novidade de Cristo Salvador.&rdquo;<\/p>\n<p>Nossa Senhora, M&atilde;e da Santa Esperan&ccedil;a, &eacute; o caminho privilegiado de que Deus quis precisar, para que a cada um chegue a B&ecirc;n&ccedil;&atilde;o referida a Mois&eacute;s, e por Aar&atilde;o e seus filhos rezada sobre os filhos de Israel, segundo a ordem do Senhor, como ouvimos na primeira leitura. &Eacute; que Ela &eacute; a mulher falada na Carta aos G&aacute;latas, que no Seu seio pur&iacute;ssimo gerou o Filho que na plenitude dos tempos Deus enviou para resgatar os que estavam sujeitos &agrave; Lei e nos tornar Seus filhos adoptivos.<\/p>\n<p>Mas o primeiro dia do ano &eacute;, por determina&ccedil;&atilde;o de Paulo VI, de h&aacute; quarenta e quatro anos para c&aacute;, o Dia Mundial da Paz. Ao longo deste quase meio s&eacute;culo, temas variados sempre oportun&iacute;ssimos nos foram propostos pelos respectivos Papas, a estimular a nossa reflex&atilde;o e o nosso compromisso.<\/p>\n<p>Os tempos que vivemos s&atilde;o muito duros e dif&iacute;ceis. N&atilde;o faltam atentados contra a paz em v&aacute;rias na&ccedil;&otilde;es enumeradas por Sua Santidade Bento XVI na &uacute;ltima mensagem natal&iacute;cia, antes da B&ecirc;n&ccedil;&atilde;o&nbsp;<em>Urbi et Orbi<\/em>,<em>&nbsp;<\/em>do Dia de Natal: Som&aacute;lia, Darfur, Costa de Marfim, Madag&aacute;scar, Afeganist&atilde;o, Paquist&atilde;o, Nicar&aacute;gua e Costa Rica e Pen&iacute;nsula da Coreia. A instabilidade, acompanhada da viol&ecirc;ncia e do roubo, vai-se verificando em regi&otilde;es tradicionalmente de tranquilidade e de sossego, para n&atilde;o falar da agressividade nas palavras e nos gestos, mesmo dentro do santu&aacute;rio das fam&iacute;lias que deveriam ser a primeira escola de paz e de conv&iacute;vio carregado de amor, com a nunca suficientemente denunciada&nbsp;<em>viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica<\/em>.<\/p>\n<p>O tema escolhido por Bento XVI para este Dia Mundial da Paz &eacute; a&nbsp;<em><strong>Liberdade Religiosa, Caminho para a Paz<\/strong><\/em>. O Santo Padre formula no princ&iacute;pio da Mensagem votos de serenidade e prosperidade, mas sobretudo votos de paz, porque &ldquo; infelizmente tamb&eacute;m o ano que encerra as portas esteve marcado pela persegui&ccedil;&atilde;o, pela discrimina&ccedil;&atilde;o, por terr&iacute;veis actos de viol&ecirc;ncia e de intoler&acirc;ncia religiosa&rdquo;. E recorda nomeadamente e &ldquo;em especial o &laquo;vil ataque&raquo; contra a catedral siro-cat&oacute;lica&nbsp; de &laquo;Nossa Senhora do Perp&eacute;tuo Socorro&raquo; em Bagdad, onde no passado dia 31 de Outubro, foram assassinados dois sacerdotes e mais de cinquenta fi&eacute;is, quando se encontravam reunidos para a celebra&ccedil;&atilde;o da Santa Missa&rdquo;.<\/p>\n<p>A partir desta constata&ccedil;&atilde;o, o Santo Padre faz uma important&iacute;ssima reflex&atilde;o que vos convido a meditar serenamente, e da qual gostaria de deixar-vos agora em jeito de partilha, apenas alguns breves pensamentos expostos por Sua Santidade que dever&atilde;o fundamentar a verdade da liberdade religiosa e a autenticidade da toler&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Sua Santidade &eacute; determinante quando diz: &ldquo;Na liberdade religiosa exprime-se a especificidade da pessoa humana, que, por ela, pode orientar a pr&oacute;pria vida pessoal e social para Deus, a cuja luz se compreendem plenamente a identidade, o sentido e o fim da pessoa. Negar ou limitar arbitrariamente esta liberdade significa cultivar uma vis&atilde;o redutiva da pessoa humana; obscurecer a fun&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da religi&atilde;o significa gerar uma sociedade injusta, porque esta seria desproporcionada &agrave; verdadeira natureza da pessoa; &#8211; para concluir peremptoriamente &ndash;&nbsp;<em>isto significa tornar imposs&iacute;vel a afirma&ccedil;&atilde;o duma paz aut&ecirc;ntica e duradoura para toda a fam&iacute;lia humana.<\/em>&rdquo;<\/p>\n<p>E depois de afirmar que &ldquo;uma&nbsp;<em>liberdade hostil ou<\/em>&nbsp;<em>indiferente<\/em>&nbsp;a Deus acaba por se negar a si mesma e n&atilde;o garante o pleno respeito pelo outro&rdquo;, assegura Bento XVI que para l&aacute; da mera toler&acirc;ncia, a liberdade religiosa &eacute; a medula, o n&uacute;cleo, de toda a moralidade e liberdade, do respeito rec&iacute;proco, da paz. Neste contexto por&eacute;m, insere a afirma&ccedil;&atilde;o: &ldquo;A ilus&atilde;o de encontrar no relativismo moral a chave para uma pac&iacute;fica conviv&ecirc;ncia &eacute;, na realidade a origem da divis&atilde;o e da nega&ccedil;&atilde;o da dignidade dos seres humanos.&rdquo;<\/p>\n<p>Bento XVI denuncia com veem&ecirc;ncia o fanatismo e o fundamentalismo e o laicismo, express&otilde;es de tend&ecirc;ncia oposta, mas igualmente perigosas. &ldquo;<em>A instrumentaliza&ccedil;&atilde;o da liberdade religiosa para mascarar interesses ocultos, como por exemplo a subvers&atilde;o da ordem constitu&iacute;da, a apropria&ccedil;&atilde;o de recursos ou a manuten&ccedil;&atilde;o de poder por parte de um grupo, pode causar danos enormes &agrave;s sociedades<\/em>. O fanatismo, o fundamentalismo, as pr&aacute;ticas contr&aacute;rias &agrave; dignidade humana n&atilde;o se podem jamais justificar, e muito menos ainda o podem ser, se realizadas em nome da religi&atilde;o. [&hellip;] N&atilde;o se pode esquecer que&nbsp;<em>o fundamentalismo religioso e o laicismo s&atilde;o formas reverberadas e extremas de rejei&ccedil;&atilde;o do leg&iacute;timo pluralismo e do princ&iacute;pio da laicidade<\/em>.&rdquo;<\/p>\n<p>&Eacute; na sequ&ecirc;ncia daquele laicismo que entre n&oacute;s procura retirar-se da esfera do p&uacute;blico a religi&atilde;o ou seus s&iacute;mbolos, e com a capa hip&oacute;crita duma isen&ccedil;&atilde;o imparcial, se descriminam alguns sectores da actividade da Igreja, designadamente no campo do ensino, esquecendo a benemer&ecirc;ncia prestada &agrave; sociedade ao longo dos tempos.<\/p>\n<p>Recordando o 25.&ordm; anivers&aacute;rio da Jornada Mundial de Ora&ccedil;&atilde;o pela Paz convocada para Assis por Jo&atilde;o Paulo II, com a participa&ccedil;&atilde;o dos l&iacute;deres das grandes religi&otilde;es do mundo, Bento XVI sublinha como as religi&otilde;es s&atilde;o factor de uni&atilde;o e de paz e n&atilde;o de divis&atilde;o e conflito. Na reflex&atilde;o do&nbsp;<em>Angelus<\/em>&nbsp;de hoje revelou que ele pr&oacute;prio se far&aacute; peregrino de Assis, em Outubro, comemorando essa data.<\/p>\n<p>E o Santo Padre conclui a sua dens&iacute;ssima e riqu&iacute;ssima mensagem com um convite a &ldquo;todos aqueles que desejam tornar-se obreiros da paz e sobretudo os jovens, a prestarem ouvidos &agrave; pr&oacute;pria voz interior, para encontrar em Deus a refer&ecirc;ncia est&aacute;vel para a conquista duma liberdade aut&ecirc;ntica. [&hellip;] A liberdade religiosa &eacute; uma aut&ecirc;ntica arma da paz, com uma&nbsp;<em>miss&atilde;o hist&oacute;rica e prof&eacute;tica<\/em>. De facto ela valoriza e faz frutificar as qualidades e potencialidades mais profundas da pessoa humana, capazes de mudar e tornar melhor o mundo; consente alimentar a esperan&ccedil;a num futuro de justi&ccedil;a e de paz, mesmo diante das graves injusti&ccedil;as e das mis&eacute;rias materiais e morais. Que todos os homens e as sociedades aos diversos n&iacute;veis e nos v&aacute;rios &acirc;ngulos da terra possam brevemente experimentar a&nbsp;<em>liberdade religiosa, caminho para a paz!<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>Que pela intercess&atilde;o de Santa Maria, M&atilde;e de Deus, Rainha da Paz, o dom divino da Paz entre no nosso cora&ccedil;&atilde;o, e o Novo Ano de 2011 seja pleno de Gra&ccedil;a e do Amor de cada um, para com Deus e todos os homens. S&atilde;o estes os meus votos. Amem<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a Solenidade de Santa Maria, M&atilde;e de Deus, o t&iacute;tulo por excel&ecirc;ncia, o mais antigo e mais&nbsp;importante, com que o Povo de Deus invoca Nossa Senhora, a Liturgia convida-nos a come&ccedil;ar&nbsp;o Ano Novo, voltando-nos para Ela. 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