{"id":4910,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/redemptor-hominis-2\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"redemptor-hominis-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/redemptor-hominis-2\/","title":{"rendered":"Redemptor hominis"},"content":{"rendered":"<p>Primeira enc\u00edclica do Papa faz hoje 25 anos <!--more--> Vener\u00e1veis Irm\u00e3os e car\u00edssimos Filhos: Sa\u00fade e B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica!  I. HERAN\u00c7A 1. No final do segundo Mil\u00e9nio O Redentor do homem, Jesus Cristo, \u00e9 o centro do cosmos e da hist\u00f3ria. Para Ele se dirigem o meu pensamento e o meu cora\u00e7\u00e3o nesta hora solene da hist\u00f3ria, que a Igreja e a inteira fam\u00edlia da humanidade contempor\u00e2nea est\u00e3o a viver. Efectivamente, este tempo, no qual, depois do predilecto Predecessor Jo\u00e3o Paulo I, por um seu misterioso des\u00edgnio Deus me confiou o servi\u00e7o universal ligado com a C\u00e1tedra de S\u00e3o Pedro em Roma, est\u00e1 muito pr\u00f3ximo j\u00e1 do ano Dois Mil. \u00c9 dif\u00edcil dizer, neste momento, o que aquele ano vir\u00e1 a marcar no quadrante da hist\u00f3ria humana, e como \u00e9 que ele vir\u00e1 a ser para cada um dos povos, na\u00e7\u00f5es, pa\u00edses e continentes, muito embora se tente, j\u00e1 desde agora, prever alguns eventos. Para a Igreja, para o Povo de Deus que se estendeu \u2014 se bem que de maneira desigual \u2014 at\u00e9 aos mais long\u00ednquos confins da terra, esse ano vir\u00e1 a ser o ano de um grande Jubileu. Estamos j\u00e1, portanto, a aproximar-nos de tal data que \u2014 respeitando embora todas as correc\u00e7\u00f5es devidas \u00e0 exactid\u00e3o cronol\u00f3gica \u2014 nos recordar\u00e1 e renovar\u00e1 em n\u00f3s de uma maneira particular a consci\u00eancia da verdade-chave da f\u00e9, expressa por S\u00e3o Jo\u00e3o nos in\u00edcios do seu Evangelho: \u00ab O Verbo fez-se carne e veio habitar entre n\u00f3s \u00bb;  e numa outra passagem \u00ab Deus, de facto, amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu filho unig\u00e9nito, para que todo o que nele crer n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna \u00bb.  Estamos tamb\u00e9m n\u00f3s, de alguma maneira, no tempo de um novo Advento, que \u00e9 tempo de expectativa. \u00ab Deus, depois de ter falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitos modos, pelos Profetas, falou-nos nestes \u00faltimos tempos pelo Filho &#8230; \u00bb, por meio do Filho-Verbo, que se fez homem e nasceu da Virgem Maria. Com este acto redentor a hist\u00f3ria do homem atingiu, no des\u00edgnio de amor de Deus, o seu v\u00e9rtice. Deus entrou na hist\u00f3ria da humanidade e, enquanto homem, tornou-se sujeito \u00e0 mesma, um dos milhares de milh\u00f5es e, ao mesmo tempo, \u00danico! Deus, atrav\u00e9s da Encarna\u00e7\u00e3o, deu \u00e0 vida humana aquela dimens\u00e3o, que intentava dar ao homem j\u00e1 desde o seu primeiro in\u00edcio e deu-lha de maneira definitiva \u2014 daquele modo a Ele somente peculiar, segundo o seu eterno amor e a sua miseric\u00f3rdia, com toda a divina liberdade \u2014 e, simultaneamente, com aquela munific\u00eancia, que, perante o pecado original e toda a hist\u00f3ria dos pecados da humanidade e perante os erros da intelig\u00eancia, da vontade e do cora\u00e7\u00e3o humano, nos d\u00e1 azo a repetir com assombro as palavras da Sagrada Liturgia: \u00ab \u00d3 ditosa culpa, que tal e t\u00e3o grande Redentor mereceu ter \u00bb.   2. Primeiras palavras do novo Pontificado A Cristo Redentor elevei os meus sentimentos e pensamentos a 16 de Outubro do ano passado, quando, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o can\u00f3nica, me foi feita a pergunta: \u00ab Aceitais? \u00bb E eu respondi ent\u00e3o: \u00ab Com obedi\u00eancia de f\u00e9 em Cristo, meu Senhor, e confiando na M\u00e3e de Cristo e da Igreja, n\u00e3o obstante as muitas dificuldades, eu aceito \u00bb. Quero hoje dar a conhecer publicamente aquela minha resposta a todos, sem excep\u00e7\u00e3o alguma, tornando assim manifesto que est\u00e1 ligado com a verdade primeira e fundamental da Encarna\u00e7\u00e3o o minist\u00e9rio que, com a aceita\u00e7\u00e3o da elei\u00e7\u00e3o para Bispo de Roma e para Sucessor do Ap\u00f3stolo Pedro, se tornou meu espec\u00edfico dever na sua mesma C\u00e1tedra. Escolhi os mesmos nomes que havia escolhido o meu amad\u00edssimo Predecessor Jo\u00e3o Paulo I. Efectivamente, quando a 26 de Agosto de 1978 ele declarou ao Sacro Col\u00e9gio (dos Cardeais) que queria ser chamado Jo\u00e3o Paulo \u2014 um bin\u00f3mio deste g\u00e9nero n\u00e3o tinha antecedentes na hist\u00f3ria do Papado \u2014 j\u00e1 ent\u00e3o reconheci nisso um eloquente bom ausp\u00edcio da gra\u00e7a sobre o novo Pontificado. E dado que esse Pontificado durou apenas trinta e tr\u00eas dias, cabe-me a mim n\u00e3o somente continu\u00e1-lo, mas, de certo modo, retom\u00e1-lo desse mesmo ponto de partida. Isto precisamente \u00e9 confirmado pela escolha, feita por mim, desses dois nomes. E ao escolh\u00ea-los assim, em seguida ao exemplo do meu vener\u00e1vel Predecessor, desejei como ele tamb\u00e9m eu exprimir o meu amor pela singular heran\u00e7a deixada \u00e0 Igreja pelos Sumos Pont\u00edfices Jo\u00e3o XXIII e Paulo VI; e, ao mesmo tempo, manifestar a minha disponibilidade pessoal para a desenvolver com a ajuda de Deus. Atrav\u00e9s destes dois nomes e dos dois pontificados, quero vincular-me a toda a tradi\u00e7\u00e3o desta S\u00e9 Apost\u00f3lica, com todos os Predecessores no espa\u00e7o de tempo deste s\u00e9culo vinte e dos s\u00e9culos precedentes, ligando-me gradualmente, segundo as diversas \u00e9pocas at\u00e9 \u00e0s mais remotas, \u00e0quela linha da miss\u00e3o e do minist\u00e9rio que confere \u00e0 S\u00e9 de Pedro um lugar absolutamente particular na Igreja. Jo\u00e3o XXIII e Paulo VI constituem uma etapa, \u00e0 qual desejo referir-me directamente, como a um limiar do qual \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o, de algum modo juntamente com Jo\u00e3o Paulo I, prosseguir no sentido do futuro, deixando-me guiar por confian\u00e7a ilimitada e pela obedi\u00eancia ao Esp\u00edrito, que Cristo prometeu e enviou \u00e0 sua Igreja. Ele, efectivamente dizia aos seus Ap\u00f3stolos, na v\u00e9spera da sua Paix\u00e3o: \u00ab \u00c9 melhor para v\u00f3s que eu v\u00e1; porque, se Eu n\u00e3o for, o Consolador n\u00e3o vir\u00e1 a v\u00f3s; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei \u00bb.  \u00ab Quando vier o Consolador, que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai, o Esp\u00edrito da verdade que do Pai procede, ele dar\u00e1 testemunho de Mim. E v\u00f3s tamb\u00e9m dareis testemunho de Mim, porque estais comigo desde o princ\u00edpio \u00bb.  \u00abQuando, por\u00e9m, Ele vier, o Esp\u00edrito da verdade, Ele guiar-vos-\u00e1 para a verdade total, porque n\u00e3o falar\u00e1 por Si mesmo, mas dir\u00e1 tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-\u00e1 as coisas vindouras \u00bb.   3. Confian\u00e7a no Esp\u00edrito da Verdade e do Amor \u00c9, pois, confiando plenamente no Esp\u00edrito da verdade, que eu entro na posse da rica heran\u00e7a dos pontificados recentes. Esta heran\u00e7a acha-se fortemente radicada na consci\u00eancia da Igreja de maneira absolutamente nova, nunca dantes conhecida, gra\u00e7as ao II Conc\u00edlio do Vaticano, convocado e inaugurado por Jo\u00e3o XXIII e, em seguida, conclu\u00eddo felizmente e actuado com perseveran\u00e7a por Paulo VI, cuja actividade eu pr\u00f3prio pude observar de perto. Fiquei sempre maravilhado com a sua profunda sapi\u00eancia e com a sua coragem, e igualmente com a sua const\u00e2ncia e paci\u00eancia no dif\u00edcil per\u00edodo posconciliar do seu Pontificado. Como timoneiro da Igreja, barca de Pedro, ele sabia conservar uma tranquilidade e um equil\u00edbrio providenciais mesmo nos momentos mais cr\u00edticos, quando parecia que ela estava a ser abalada por dentro, mantendo sempre uma inquebrant\u00e1vel esperan\u00e7a na sua compacidade. Aquilo, de facto, que o Esp\u00edrito disse \u00e0 Igreja mediante o Conc\u00edlio do nosso tempo, e aquilo que esta Igreja diz a todas as Igrejas n\u00e3o pode \u2014 apesar das inquietudes moment\u00e2neas \u2014 servir para outra coisa sen\u00e3o para uma compacidade mais maturada ainda de todo o Povo de Deus, bem consciente da sua miss\u00e3o salv\u00edfica. Desta consci\u00eancia contempor\u00e2nea da Igreja precisamente, Paulo VI fez o primeiro tema da sua fundamental Enc\u00edclica, que se inicia com as palavras Ecclesiam Suam; e seja-me permitido fazer refer\u00eancia e p\u00f4r-me em conex\u00e3o, antes de mais nada, com esta Enc\u00edclica, neste primeiro e, por assim dizer, inaugural documento do presente Pontificado. Com as luzes e com o apoio do Esp\u00edrito Santo a Igreja tem uma consci\u00eancia cada vez mais aprofundada quer pelo que se refere ao seu mist\u00e9rio divino, quer pelo que se refere \u00e0 sua miss\u00e3o humana, quer mesmo, finalmente, quanto a todas as suas fraquezas humanas: esta consci\u00eancia, precisamente, \u00e9 e deve permanecer a primeira fonte do amor por esta Igreja, assim como o amor, da sua parte, contribui para consolidar e para aprofundar tal consci\u00eancia. Paulo VI deixou-nos o testemunho de uma consci\u00eancia da Igreja assim, extremamente perspicaz. Atrav\u00e9s das mult\u00edplices e n\u00e3o raro sofridas componentes do seu Pontificado, ele ensinou-nos o amor destemido pela Igreja, a qual \u2014 como afirma o Conc\u00edlio \u2014 \u00e9 \u00ab sacramento, ou sinal, e instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano \u00bb.   4. Refer\u00eancia \u00e0 primeira Enc\u00edclica de Paulo VI Por tal raz\u00e3o, exactamente, a consci\u00eancia da Igreja h\u00e1-de andar unida com uma abertura universal, a fim de que todos possam nela encontrar \u00ab as imperscrut\u00e1veis riquezas de Cristo \u00bb,  das quais fala o Ap\u00f3stolo das gentes. Uma tal abertura, organicamente conjunta com a consci\u00eancia da pr\u00f3pria natureza, com a certeza da pr\u00f3pria verdade, da qual o mesmo Cristo disse \u00ab n\u00e3o \u00e9 minha, mas do Pai que me enviou \u00bb, determina o dinamismo apost\u00f3lico, que o mesmo \u00e9 dizer mission\u00e1rio, da Igreja, professando e proclamando integralmente toda a verdade transmitida por Cristo. E simultaneamente ela, a Igreja, deve conduzir aquele di\u00e1logo que Paulo VI na sua Enc\u00edclica Ecclesiam Suam chamou \u00ab di\u00e1logo da salva\u00e7\u00e3o \u00bb, diferenciando com precis\u00e3o cada um dos c\u00edrculos no \u00e2mbito dos quais ele deveria ser conduzido. Quando assim me refiro hoje a este documento program\u00e1tico do Pontificado de Paulo VI, n\u00e3o cesso de dar gra\u00e7as a Deus, pelo facto de este meu grande Predecessor e ao mesmo tempo verdadeiro pai ter sabido \u2014 n\u00e3o obstante as diversas fraquezas internas, por que foi afectada a Igreja no per\u00edodo posconciliar \u2014 patentear \u00ab ad extra \u00bb, \u00ab para o exterior \u00bb, o seu aut\u00eantico rosto. De tal maneira, tamb\u00e9m grande parte da fam\u00edlia humana, nas diversas esferas da sua multiforme exist\u00eancia, se tornou \u2014 na minha opini\u00e3o \u2014 mais consciente do facto de lhe ser necess\u00e1ria verdadeiramente a Igreja de Cristo, a sua miss\u00e3o e o seu servi\u00e7o. E esta consci\u00eancia algumas vezes demonstrou-se mais forte do que as diversas atitudes cr\u00edticas, que atacavam \u00ab ab intra \u00bb, vindas \u00ab de dentro \u00bb, a mesma Igreja, as suas institui\u00e7\u00f5es e estruturas, e os homens da Igreja e as suas actividades.  Um tal cr\u00edtica crescente teve sem d\u00favida diversas causas e, por outro lado, estamos certos de que ela n\u00e3o foi sempre destitu\u00edda de um sincero amor \u00e0 Igreja. Manifestou-se nela, indubitavelmente, entre outras coisas, a tend\u00eancia para superar o chamado triunfalismo, de que se discutia com frequ\u00eancia durante o Conc\u00edlio. No entanto, se \u00e9 uma coisa acertada que a Igreja, seguindo o exemplo do seu Mestre que era \u00ab humilde de cora\u00e7\u00e3o \u00bb, esteja bem assente tamb\u00e9m ela na humildade, que possua o sentido cr\u00edtico a respeito de tudo aquilo que constitui o seu car\u00e1cter e a sua actividade humana e que seja sempre muito exigente para consigo pr\u00f3pria, \u00e9 \u00f3bvio igualmente que tamb\u00e9m a cr\u00edtica deve ter os seus justos limites. Caso contr\u00e1rio, ela deixa de ser construtiva, n\u00e3o revela a verdade, o amor e a gratid\u00e3o pela gra\u00e7a, da qual principal e plenamente nos tornamos participantes exactamente na Igreja e mediante a Igreja. Al\u00e9m disto, o esp\u00edrito cr\u00edtico n\u00e3o exprime a atitude de servi\u00e7o, mas antes a vontade de orientar a opini\u00e3o de outrem segundo a pr\u00f3pria opini\u00e3o, algumas vezes divulgada de maneira assaz imprudente. Deve-se gratid\u00e3o a Paulo VI ainda, porque, respeitando toda e qualquer parcela de verdade contida nas v\u00e1rias opini\u00f5es humanas, ele conservou ao mesmo tempo o equilibrio providencial do timoneiro da Barca. A Igreja que \u2014 atrav\u00e9s de Jo\u00e3o Paulo I \u2014 quase imediatamente depois dele me foi confiada, n\u00e3o se acha certamente isenta de dificuldades e de tens\u00f5es internas. Entretanto, ela encontra-se interiormente mais premunida contra os excessos do autocriticismo; poder-se-ia dizer, talvez, que ela \u00e9 mais cr\u00edtica diante das diversas cr\u00edticas imprudentes, e est\u00e1 mais resistente no que respeita \u00e0s v\u00e1rias \u00ab novidades \u00bb, mais maturada no esp\u00edrito de discernimento e mais id\u00f3nea para tirar do seu perene tesouro \u00ab coisas novas e coisas velhas \u00bb, mais centrada no pr\u00f3prio mist\u00e9rio e, gra\u00e7as a tudo isto, mais dispon\u00edvel para a miss\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o de todos: \u00ab Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade \u00bb.   5. Colegialidade e apostolado Esta Igreja \u2014 contra todas as apar\u00eancias \u2014 est\u00e1 mais unida na comunh\u00e3o de servi\u00e7o e na consci\u00eancia do apostolado. Tal uni\u00e3o nasce daquele princ\u00edpio de colegialidade, recordado pelo II Conc\u00edlio do Vaticano, que o pr\u00f3prio Cristo enxertou no Col\u00e9gio Apost\u00f3lico dos Doze, com Pedro na chefia, e que renova continuamente no Col\u00e9gio dos Bispos, o qual cresce cada vez mais sobre toda a terra, permanecendo unido com o Sucessor de S\u00e3o Pedro e sob a sua orienta\u00e7\u00e3o. O Conc\u00edlio n\u00e3o se limitou a recordar este princ\u00edpio de colegialidade dos Bispos, mas vivificou-o imensamente, al\u00e9m do mais, auspiciando a institui\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o permanente, que Paulo VI estabeleceu constituindo o S\u00ednodo dos Bispos, cuja actividade n\u00e3o somente deu uma nova dimens\u00e3o ao seu Pontificado, mas, em seguida, se reflectiu claramente logo desde os primeiros dias no Pontificado de Jo\u00e3o Paulo I e no do seu indigno Sucessor. O princ\u00edpio de colegialidade demonstrou-se particularmente actual no dif\u00edcil per\u00edodo posconciliar, quando a comum e un\u00e2nime posi\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio dos Bispos \u2014 o qual manifestou a sua uni\u00e3o ao Sucessor de Pedro sobretudo atrav\u00e9s do S\u00ednodo \u2014 contribu\u00eda para dissipar as d\u00favidas e indicava ao mesmo tempo as justas vias da renova\u00e7\u00e3o da Igreja, na sua dimens\u00e3o universal. Do S\u00ednodo, efectivamente, se originou, entre outras coisas, aquele impulso essencial para a evangeliza\u00e7\u00e3o que teve a sua express\u00e3o na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Evangelii nuntiandi, acolhida com tanta alegria como programa da renova\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter apost\u00f3lico e conjuntamente pastoral. A mesma linha foi seguida tamb\u00e9m nos trabalhos da \u00faltima sess\u00e3o ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, aquela que se realizou cerca de um ano antes da morte do Sumo Pont\u00edfice Paulo VI, a qual foi dedicada, como \u00e9 sabido, \u00e0 Catequese. Os resultados daqueles trabalhos requerem ainda uma sistematiza\u00e7\u00e3o e uma enuncia\u00e7\u00e3o por parte da S\u00e9 Apost\u00f3lica. E uma vez que estamos a tratar do manifesto desenvolvimento das formas em que se exprime a Colegialidade episcopal, devemos pelo menos recordar o processo de consolida\u00e7\u00e3o das Confer\u00eancias Episcopais Nacionais em toda a Igreja e de outras estruturas colegiais de car\u00e1cter internacional ou continental. Referindo-nos, depois, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o secular da Igreja, conv\u00e9m salientar a actividade dos diversos S\u00ednodos locais. Foi de facto ideia do Conc\u00edlio, coerentemente actuada por Paulo VI, que as estruturas deste g\u00e9nero, de h\u00e1 s\u00e9culos comprovadas pela Igreja, bem como as outras formas de colabora\u00e7\u00e3o colegial dos Bispos \u2014 por exemplo a que se centra nas metr\u00f3poles, para n\u00e3o falar j\u00e1 de cada uma das dioceses singularmente tomadas \u2014 pulsassem em plena consci\u00eancia da pr\u00f3pria identidade e conjuntamente da pr\u00f3pria originalidade, na unidade universal da Igreja. Um id\u00eantico esp\u00edrito de colabora\u00e7\u00e3o e de corresponsabilidade se est\u00e1 a difundir tamb\u00e9m entre os sacerdotes, o que \u00e9 confirmado pelos numerosos Conselhos Presbiterais que surgiram ap\u00f3s o Conc\u00edlio. O mesmo esp\u00edrito se difundiu tamb\u00e9m entre os leigos, n\u00e3o apenas confirmando as organiza\u00e7\u00f5es de apostolado laical j\u00e1 existentes, mas criando outras novas, que n\u00e3o raro se apresentam com um perfil diverso e uma din\u00e2mica excepcional. Al\u00e9m disto, os leigos, conscientes da sua responsabilidade pela Igreja, aplicaram-se de boa vontade na colabora\u00e7\u00e3o com os Pastores e com os representantes dos Institutos de vida consagrada, no \u00e2mbito dos S\u00ednodos diocesanos, e dos Conselhos pastorais nas par\u00f3quias e nas dioceses. Para mim importa ter em mente tudo isto nos in\u00edcios do meu Pontificado, para agradecer a Deus, para exprimir um vivo encorajamento a todos os Irm\u00e3os e Irm\u00e3s e, al\u00e9m disto, para recordar com sentida gratid\u00e3o a obra do II Conc\u00edlio do Vaticano e os meus grandes Predecessores, que deram in\u00edcio a esta nova \u00ab vaga \u00bb a animar a vida da Igreja, movimento muito mais forte do que os sintomas de d\u00favida, de abalo e de crise.  6. Caminho para a uni\u00e3o dos crist\u00e3os E que dizer de todas aquelas iniciativas que se originaram da nova orienta\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica? O inesquec\u00edvel Papa Jo\u00e3o XXIII, com clareza evang\u00e9lica, p\u00f4s e enquadrou o problema da uni\u00e3o dos crist\u00e3os como simples consequ\u00eancia da vontade do pr\u00f3prio Jesus Cristo, nosso Mestre, afirmada por mais de uma vez e expressa, de modo particular, durante a ora\u00e7\u00e3o no Cen\u00e1culo, na v\u00e9spera da sua morte: \u00ab Rogo &#8230; Pai &#8230; que todos sejam uma s\u00f3 coisa \u00bb. E o II Conc\u00edlio do Vaticano respondeu a esta exig\u00eancia de forma concisa com o Decreto sobre o Ecumenismo. O Papa Paulo VI, por sua vez, valendo-se da colabora\u00e7\u00e3o do Secretariado para a Uni\u00e3o dos Crist\u00e3os, come\u00e7ou a dar os primeiros dif\u00edceis passos na caminhada para o conseguimento de uma tal uni\u00e3o. J\u00e1 ter\u00edamos andado muito nesta caminhada? Sem querer dar uma resposta pormenorizada, podemos dizer que fizemos verdadeiros e importantes progressos. E uma coisa \u00e9 certa: temos trabalhado com perseveran\u00e7a e coer\u00eancia; e conjuntamente connosco t\u00eam vindo a aplicar-se tamb\u00e9m os representantes de outras Igrejas e de outras Comunidades crist\u00e3s, pelo que lhes estamos sinceramente obrigados. Depois, \u00e9 certo tamb\u00e9m que na presente situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da cristiandade e do mundo, n\u00e3o se apresenta outra possibilidade para se cumprir a miss\u00e3o universal da Igreja pelo que respeita aos problemas ecum\u00e9nicos, sen\u00e3o esta: procurar lealmente, com perseveran\u00e7a, com humildade e tamb\u00e9m com coragem as vias de aproxima\u00e7\u00e3o e de uni\u00e3o daquele modo que nos deixou o exemplo pessoal o Papa Paulo VI. Devemos buscar a uni\u00e3o, portanto, sem nos deixarmos vencer pelo des\u00e2nimo perante as diculdades que se possam apresentar ou acumular ao longo de tal caminho; caso contr\u00e1rio, n\u00e3o ser\u00edamos fi\u00e9is \u00e0 palavra de Cristo, n\u00e3o executar\u00edamos o Seu testamento. E ser\u00e1 l\u00edcito correr um tal risco? H\u00e1 pessoas que, encontrando-se diante das dificuldades, ou julgando negativos os resultados dos trabalhos iniciais no campo ecum\u00e9nico, teriam tido vontade de voltar atr\u00e1s. H\u00e1 mesmo alguns que exprimem a opini\u00e3o de que estes esfor\u00e7os s\u00e3o nocivos para a causa de Evangelho e levam a uma ulterior ruptura na Igreja, provocam a confus\u00e3o de id\u00e9ias nas quest\u00f5es da f\u00e9 e da moral e v\u00e3o desembocar a um espec\u00edfico indiferentismo. Talvez seja um bem que os porta-voz de tais opini\u00f5es exprimam os seus receios; no entanto, tamb\u00e9m pelo que se refere a este ponto, \u00e9 necess\u00e1rio manter-se dentro dos devidos limites. \u00c9 claro que esta nova fase da vida da Igreja exige de n\u00f3s uma f\u00e9 particularmente consciente, aprofundada e respons\u00e1vel. A verdadeira actividade ecum\u00e9nica comporta abertura, aproxima\u00e7\u00e3o, disponibilidade para o di\u00e1logo e busca em comum da verdade no pleno sentido evang\u00e9lico e crist\u00e3o; mas tal actividade de maneira nenhuma significa nem pode significar renunciar ou causar dano de qualquer modo aos tesouros da verdade divina, constantemente confessada e ensinada pela Igreja. A todos aqueles que, por qualquer motivo, quereriam dissuadir a Igreja de buscar a unidade universal dos crist\u00e3os, \u00e9 necess\u00e1rio repetir ainda uma vez: Ser-nos-\u00e1 l\u00edcito deixar de o fazer? Poderemos n\u00f3s \u2014 n\u00e3o obstante toda a fraqueza humana, todas as defici\u00eancias acumuladas nos s\u00e9culos passados \u2014 n\u00e3o ter confian\u00e7a na gra\u00e7a de Nosso Senhor, tal como ela se manifestou nos \u00faltimos tempos, mediante a palavra do Esp\u00edrito Santo, que ouvimos durante o Conc\u00edlio? Se procedessemos assim, negar\u00edamos a verdade que diz respeito a n\u00f3s mesmos e que o Ap\u00f3stolo expressou de maneira t\u00e3o eloquente: \u00ab Pela gra\u00e7a de Deus sou aquilo que sou, e a gra\u00e7a que Ele me conferiu n\u00e3o foi est\u00e9ril em mim \u00bb.  Se bem que de um modo diverso e com as devidas diferen\u00e7as, importa aplicar isto que acab\u00e1mos de dizer agora \u00e0 actividade que intenta a aproxima\u00e7\u00e3o com os representantes das religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s e que se exprime tamb\u00e9m ela atrav\u00e9s do di\u00e1logo, dos contactos, da ora\u00e7\u00e3o em comum e da busca dos tesouros da espiritualidade humana, os quais, como bem sabemos, n\u00e3o faltam tamb\u00e9m aos membros destas religi\u00f5es. N\u00e3o acontece, porventura, algumas vezes, que a cren\u00e7a firme dos sequazes das religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s \u2014 cren\u00e7a que \u00e9 efeito tamb\u00e9m ela do Esp\u00edrito da verdade operante para al\u00e9m das fronteiras vis\u00edveis do Corpo M\u00edstico \u2014 deixa confundidos os crist\u00e3os, n\u00e3o raro t\u00e3o dispostos, por sua vez, a duvidar quanto \u00e0s verdades reveladas por Deus e anunciadas pela Igreja, e t\u00e3o propensos ao relaxamento dos princ\u00edpios da moral e a abrir o caminho ao permissivismo \u00e9tico? \u00c9 nobre o estar-se predisposto para compreender cada um dos homens, para analisar todos os sistemas e para dar raz\u00e3o \u00e0quilo que \u00e9 justo; isso, por\u00e9m, n\u00e3o significa absolutamente perder a certeza da pr\u00f3pria f\u00e9  ou ent\u00e3o enfraquecer os princ\u00edpios da moral, cuja falta bem depressa se far\u00e1 ressentir na vida de inteiras sociedades, causando a\u00ed, al\u00e9m do mais, deplor\u00e1veis consequ\u00eancias.  II. O MIST\u00c9RIO DA REDEN\u00c7\u00c3O 7. No Mist\u00e9rio de Cristo Entretanto, se as vias a seguir, para as quais o Conc\u00edlio do nosso s\u00e9culo orientou a Igreja, vias que nos indicou na sua primeira Enc\u00edclica o saudoso Papa Paulo VI, permanecer\u00e3o de modo perduradoiro exactamente as vias que n\u00f3s todos devemos seguir, ao mesmo tempo nesta nova fase podemos justamente interrogar-nos: Como? De que maneira ser\u00e1 conveniente prosseguir? O que ser\u00e1 necess\u00e1rio fazer, para que este novo advento da Igreja, conjugado com o j\u00e1 iminente fim do segundo Mil\u00e9nio, nos aproxime d&#8217;Aquele que a Sagrada Escritura chama \u00ab Pai perp\u00e9tuo \u00bb, Pater futuri saeculi? Esta \u00e9 a pergunta fundamental que o novo Sumo Pont\u00edfice tem de p\u00f4r-se, desde o momento em que aceitou, em esp\u00edrito de obedi\u00eancia de f\u00e9, o chamamento em conformidade com a ordem mais de uma vez dirigida a Pedro: \u00ab Apascenta os meus cordeiros \u00bb; o que quer dizer: \u00ab S\u00ea pastor do meu rebanho \u00bb; e depois: \u00ab &#8230; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irm\u00e3os \u00bb. \u00c9 precisamente aqui neste ponto, car\u00edssimos Irm\u00e3os, Filhos e Filhas, que se imp\u00f5e uma resposta fundamental e essencial, a saber: a \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, a \u00fanica direc\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia, da vontade e do cora\u00e7\u00e3o para n\u00f3s \u00e9 esta: na direc\u00e7\u00e3o de Cristo, Redentor do homem; na direc\u00e7\u00e3o de Cristo, Redentor do mundo. Para Ele queremos olhar, porque s\u00f3 n&#8217;Ele, Filho de Deus, est\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o, renovando a afirma\u00e7\u00e3o de Pedro: \u00ab Para quem iremos n\u00f3s, Senhor? Tu tens as palavras de vida eterna \u00bb.  Atrav\u00e9s da consci\u00eancia da Igreja, t\u00e3o desenvolvida pelo Conc\u00edlio, atrav\u00e9s de todos os graus desta consci\u00eancia, atrav\u00e9s de todos os campos de actividade onde a Igreja se afirma presente, se encontra e se consolida, devemos tender constantemente para Aquele \u00ab que \u00e9 a Cabe\u00e7a \u00bb, para \u00ab Aquele de quem tudo prov\u00e9m e n\u00f3s somos criados para Ele \u00bb, para Aquele que \u00e9, ao mesmo tempo, \u00ab o caminho e a verdade \u00bb e \u00ab a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida \u00bb, para Aquele ao ver o Qual vemos o Pai, para Aquele, enfim, que devia ir, deixando-nos \u2014 entende-se aqui a alus\u00e3o \u00e0 sua morte na Cruz e depois \u00e0 sua Ascens\u00e3o ao C\u00e9u \u2014 para que o Consolador viesse a n\u00f3s e continue a vir constantemente como o Esp\u00edrito da verdade. N&#8217;Ele est\u00e3o \u00ab todos os tesouros da sabedoria e da ci\u00eancia \u00bb  e a Igreja \u00e9 o seu Corpo. A Igreja \u00ab em Cristo \u00e9 como que um sacramento, ou sinal, e instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano \u00bb;  e disto \u00e9 Ele a fonte! Ele mesmo! Ele o Redentor! A Igreja n\u00e3o cessa de ouvir as suas palavras, continuamente as rel\u00ea e reconstr\u00f3i com a m\u00e1xima devo\u00e7\u00e3o todos os pormenores da sua vida. Estas palavras s\u00e3o escutadas tamb\u00e9m pelos n\u00e3o crist\u00e3os. A vida de Cristo fala ao mesmo tempo tamb\u00e9m a muitos homens que ainda n\u00e3o se acham em condi\u00e7\u00f5es de repetir com Pedro: \u00ab Tu \u00e9s o Cristo, o Filho de Deus vivo \u00bb.  Ele, Filho de Deus vivo, fala aos homens tamb\u00e9m como Homem: \u00e9 a sua pr\u00f3pria vida que fala, a sua humanidade, a sua fidelidade \u00e0 verdade e o seu amor que a todos abra\u00e7a. Fala, ainda, a sua morte na Cruz, isto \u00e9, a imperscrut\u00e1vel profundidade do seu sofrimento e do seu abandono. A Igreja n\u00e3o cessa nunca de reviver a sua morte na Cruz e a sua Ressurrei\u00e7\u00e3o, que constituem o conte\u00fado da vida quotidiana da mesma Igreja. De facto, \u00e9 por mandato do pr\u00f3prio Cristo, seu Mestre, que a Igreja celebra incessantemente a Eucaristia, encontrando nela \u00ab a fonte da vida e da santidade \u00bb,  o sinal eficaz da gra\u00e7a e da reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e o penhor da vida eterna. A Igreja vive o seu mist\u00e9rio e nele vai haurir sem jamais se cansar, e busca continuamente as vias para tornar este mist\u00e9rio do seu Mestre e Senhor pr\u00f3ximo do g\u00e9nero humano: dos povos, das na\u00e7\u00f5es, das gera\u00e7\u00f5es que se sucedem e de cada um dos homens em particular, como se repetisse sempre, seguindo o exemplo do Ap\u00f3stolo: \u00ab Tomei a resolu\u00e7\u00e3o de n\u00e3o saber, entre v\u00f3s, outra coisa, a n\u00e3o ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado \u00bb.  A Igreja permanece na esfera do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, que se tornou precisamente o princ\u00edpio fundamental da sua vida e da sua miss\u00e3o.  8. Reden\u00e7\u00e3o: renovada cria\u00e7\u00e3o Redentor do mundo! N&#8217;Ele se revelou de um modo novo, de maneira admir\u00e1vel, aquela verdade fundamental respeitante \u00e0 cria\u00e7\u00e3o que o Livro do G\u00e9nesis atesta quando repete mais de uma vez: Deus viu que as coisas eram boas. O bem tem a sua nascente na Sapi\u00eancia e no Amor. Em Jesus Cristo, o mundo vis\u00edvel, criado por Deus para o homem  &#8211; aquele mundo que, entrando nele o pecado, foi submetido \u00e0 caducidade &#8211; readquire novamente o v\u00ednculo origin\u00e1rio com a mesma fonte divina da Sapi\u00eancia e do Amor. Com efeito, \u00ab Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unig\u00e9nito \u00bb. Assim como no homem-Ad\u00e3o este v\u00ednculo foi quebrado, assim no Homem-Cristo foi de novo reatado. N\u00e3o nos convencem, porventura, a n\u00f3s homens do s\u00e9culo vinte, as palavras do Ap\u00f3stolo das gentes, pronunciadas com uma arrebatadora eloqu\u00eancia, acerca da \u00ab cria\u00e7\u00e3o inteira que geme e sofre, em conjunto, as dores do parto, at\u00e9 ao presente \u00bb,  e \u00ab atende ansiosamente a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus \u00bb, acerca da cria\u00e7\u00e3o que \u00ab foi submetida \u00e0 caducidade \u00bb? O imenso progresso nunca dantes conhecido, que se verificou particularmente no decorrer do nosso s\u00e9culo, no campo do dom\u00ednio sobre o mundo por parte do homem, n\u00e3o revela acaso ele pr\u00f3prio e ainda por cima em grau nunca dantes conhecido, aquela multiforme submiss\u00e3o \u00ab \u00e0 caducidade \u00bb? Basta recordar aqui certos fen\u00f3menos, como por exemplo a amea\u00e7a do inquinamento do ambiente natural nos locais de r\u00e1pida industrializa\u00e7\u00e3o, ou ent\u00e3o os conflitos armados que rebentam e se repetem continuamente, ou ainda as perspectivas de autodestrui\u00e7\u00e3o mediante o uso das armas at\u00f3micas, das armas com hidrog\u00e9nio e com os neutr\u00f5es e outras semelhantes e a falta de respeito pela vida dos n\u00e3o-nascidos. O mundo da \u00e9poca nova o mundo dos v\u00f4os c\u00f3smicos, o mundo das conquistas cient\u00edficas e t\u00e9cnicas, nunca alcan\u00e7adas antes, n\u00e3o ser\u00e1 ao mesmo tempo o mundo que \u00ab geme e sofre \u00bb  e \u00ab atende ansiosamente a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus \u00bb? O II Conc\u00edlio do Vaticano, na sua penetrante an\u00e1lise do \u00ab mundo contempor\u00e2neo \u00bb, chegava aquele ponto que \u00e9 o mais importante do mundo vis\u00edvel, o homem, descendo \u2014 como Cristo \u2014 at\u00e9 ao profundo das consci\u00eancias humanas, tocando mesmo o mist\u00e9rio interior do homem, que na linguagem b\u00edblica (e tamb\u00e9m n\u00e3o b\u00edblica) se exprime com a palavra \u00ab cora\u00e7\u00e3o \u00bb. Cristo, Redentor do mundo, \u00e9 Aquele que penetrou, de uma maneira singular e que n\u00e3o se pode repetir, no mist\u00e9rio do homem e entrou no seu \u00ab cora\u00e7\u00e3o \u00bb. Justamente, portanto, o mesmo II Conc\u00edlio do Vaticano ensina: \u00ab Na realidade, s\u00f3 no mist\u00e9rio do Verbo Encarnado se esclarece verdadeiramente o mist\u00e9rio do homem. Ad\u00e3o, de facto, o primeiro homem, era figura do futuro (Rom 5, 14), isto \u00e9, de Cristo Senhor. Cristo, que \u00e9 o novo Ad\u00e3o, na pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Pai e do seu Amor, revela tamb\u00e9m plenamente o homem ao mesmo homem e descobre-lhe a sua voca\u00e7\u00e3o sublime \u00bb. E depois, ainda: \u00ab Imagem de Deus invis\u00edvel (Col 1, 15), Ele \u00e9 o homem perfeito, que restitui aos filhos de Ad\u00e3o a semelhan\u00e7a divina, deformada desde o primeiro pecado. J\u00e1 que n&#8217;Ele a natureza humana foi assumida, sem ter sido destru\u00edda, por isso mesmo tamb\u00e9m em nosso benef\u00edcio ela foi elevada a uma dignidade sublime. Porque, pela sua Encarna\u00e7\u00e3o, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com m\u00e3os de homem, pensou com uma mente de homem, agiu com uma vontade de homem e amou com um cora\u00e7\u00e3o de homem. Nascendo da Virgem Maria, Ele tornou-se verdadeiramente um de n\u00f3s, semelhante a n\u00f3s em tudo, excepto no pecado \u00bb. Ele, o Redentor do homem.  9. Dimens\u00e3o divina do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o Ao reflectirmos novamente sobre este texto admir\u00e1vel do Magist\u00e9rio conciliar, n\u00e3o esque\u00e7amos, nem sequer por um momento, que Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, se tornou a nossa reconcilia\u00e7\u00e3o junto do Pai. Ele precisamente e s\u00f3 Ele satisfez ao eterno amor do Pai, \u00e0quela paternidade que desde o princ\u00edpio se expressou na cria\u00e7\u00e3o do mundo, na doa\u00e7\u00e3o ao homem de toda a riqueza do que foi criado, ao faz\u00ea-lo \u00ab pouco inferior aos anjos \u00bb, enquanto criado \u00ab \u00e0 imagem e \u00e0 semelhan\u00e7a de Deus \u00bb; e, igualmente satisfez \u00e0quela paternidade de Deus e \u00e0quele amor, de um certo modo rejeitado pelo homem, com a ruptura da primeira Alian\u00e7a  e das alian\u00e7as posteriores que Deus \u00ab repetidas vezes ofereceu aos homens \u00bb.  A reden\u00e7\u00e3o do mundo \u2014 aquele tremendo mist\u00e9rio do amor em que a cria\u00e7\u00e3o foi renovada &#8211; \u00e9, na sua raiz mais profunda, a plenitude da justi\u00e7a num Cora\u00e7\u00e3o humano: no Cora\u00e7\u00e3o do Filho Primog\u00e9nito, a fim de que ela possa tornar-se justi\u00e7a dos cora\u00e7\u00f5es de muitos homens, os quais, precisamente no Filho Primog\u00e9nito, foram predestinados desde toda a eternidade para se tornarem filhos de Deus e chamados para a gra\u00e7a, chamados para o amor. A cruz no Calv\u00e1rio, mediante a qual Jesus Cristo \u2014 Homem, Filho de Maria Virgem, filho putativo de Jos\u00e9 de Nazar\u00e9 \u2014 \u00ab deixa \u00bb este mundo, \u00e9 ao mesmo tempo uma nova manifesta\u00e7\u00e3o da eterna paternidade de Deus, o Qual por Ele (Cristo) de novo se aproxima da humanidade, de cada um dos homens, dando-lhes o tr\u00eas vezes santo \u00ab Esp\u00edrito da verdade \u00bb. Com esta revela\u00e7\u00e3o do Pai e efus\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, que imprimem um sigilo indel\u00e9vel no mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, se explica o sentido da cruz e da morte de Cristo. O Deus da cria\u00e7\u00e3o revela-se como Deus da reden\u00e7\u00e3o, como Deus \u00ab fiel a si pr\u00f3prio \u00bb,  fiel ao seu amor para com o homem e para com o mundo, que j\u00e1 se revelara no dia da cria\u00e7\u00e3o. E este seu amor \u00e9 amor que n\u00e3o retrocede diante de nada daquilo que nele mesmo exige a justi\u00e7a. E por isto o Filho \u00ab que n\u00e3o conhecera o pecado, Deus tratou-o, por n\u00f3s, como pecado \u00bb.  E se \u00ab tratou como pecado \u00bb Aquele que era absolutamente isento de qualquer pecado, f\u00ea-lo para revelar o amor que \u00e9 sempre maior do que tudo o que \u00e9 criado, o amor que \u00e9 Ele pr\u00f3prio, porque \u00ab Deus \u00e9 amor \u00bb.  E sobretudo o amor \u00e9 maior do que o pecado, do que a fraqueza e do que \u00ab a caducidade do que foi criado \u00bb, mais forte do que a morte; \u00e9 amor sempre pronto a erguer e a perdoar, sempre pronto para ir ao encontro do filho pr\u00f3digo, sempre em busca da \u00ab revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus \u00bb,  que s\u00e3o chamados para a gl\u00f3ria futura. Esta revela\u00e7\u00e3o do amor \u00e9 definida tamb\u00e9m miseric\u00f3rdia; e tal revela\u00e7\u00e3o do amor e da miseric\u00f3rdia tem na hist\u00f3ria do homem uma forma e um nome: chama-se Jesus Cristo.  10. Dimens\u00e3o humana do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o O homem n\u00e3o pode viver sem amor. Ele permanece para si pr\u00f3prio um ser incompreens\u00edvel e a sua vida \u00e9 destitu\u00edda de sentido, se n\u00e3o lhe for revelado o amor, se ele n\u00e3o se encontra com o amor, se o n\u00e3o experimenta e se o n\u00e3o torna algo seu pr\u00f3prio, se nele n\u00e3o participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor, como j\u00e1 foi dito acima, revela plenamente o homem ao pr\u00f3prio homem. Esta \u00e9 \u2014 se assim \u00e9 l\u00edcito exprimir-se \u2014 a dimens\u00e3o humana do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o. Nesta dimens\u00e3o o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor pr\u00f3prios da sua humanidade. No mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o o homem \u00e9 novamente \u00ab reproduzido \u00bb e, de algum modo, \u00e9 novamente criado. Ele \u00e9 novamente criado! \u00ab N\u00e3o h\u00e1 judeu nem gentio, n\u00e3o h\u00e1 escravo nem livre, n\u00e3o h\u00e1 homem nem mulher: todos v\u00f3s sois um s\u00f3 em Cristo Jesus \u00bb.  O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente \u2014 n\u00e3o apenas segundo imediatos, parciais, n\u00e3o raro superficiais e at\u00e9 mesmo s\u00f3 aparentes crit\u00e9rios e medidas do pr\u00f3prio ser \u2014 deve, com a sua inquietude, incerteza e tamb\u00e9m fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n&#8217;Ele com tudo o que \u00e9 em si mesmo, deve \u00ab apropriar-se \u00bb e assimilar toda a realidade da Encarna\u00e7\u00e3o e da Reden\u00e7\u00e3o, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, ent\u00e3o ele produz frutos, n\u00e3o somente de adora\u00e7\u00e3o de Deus, mas tamb\u00e9m de profunda maravilha perante si pr\u00f3prio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se \u00ab mereceu ter um tal e t\u00e3o grande Redentor \u00bb,  se \u00ab Deus deu o seu Filho \u00bb, para que ele, o homem, \u00ab n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna \u00bb.  Na realidade, aquela profunda estupefac\u00e7\u00e3o a respeito do valor e dignidade do homem chama-se Evangelho, isto \u00e9 a Boa Nova. Chama-se tamb\u00e9m Cristianismo. Uma tal estupefac\u00e7\u00e3o determina a miss\u00e3o da Igreja no mundo, tamb\u00e9m, e talvez mais ainda, \u00ab no mundo contempor\u00e2neo \u00bb. Tal estupefac\u00e7\u00e3o e conjuntamente persuas\u00e3o e certeza, que na sua profunda raiz \u00e9 a certeza da f\u00e9, mas que de um modo rec\u00f4ndito e misterioso vivifica todos os aspectos do humanismo aut\u00eantico, est\u00e1 intimamente ligada a Cristo. Ela estabelece tamb\u00e9m o lugar do mesmo Jesus Cristo \u2014 se assim se pode dizer \u2014 o seu particular direito de cidadania na hist\u00f3ria do homem e da humanidade. A Igreja, que n\u00e3o cessa de contemplar o conjunto do mist\u00e9rio de Cristo, sabe com toda a certeza da f\u00e9, que a Reden\u00e7\u00e3o que se verificou por meio da Cruz, restitu\u00edu definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua exist\u00eancia no mundo, sentido que ele havia perdido em consider\u00e1vel medida por causa do pecado. E por isso a Reden\u00e7\u00e3o realizou-se no mist\u00e9rio pascal, que, atrav\u00e9s da cruz e da morte, conduz \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o. A tarefa fundamental da Igreja de todos os tempos e, de modo particular, do nosso, \u00e9 a de dirigir o olhar do homem e de endere\u00e7ar a consci\u00eancia e experi\u00eancia de toda a humanidade para o mist\u00e9rio de Cristo, de ajudar todos os homens a ter familiaridade com a profundidade da Reden\u00e7\u00e3o que se verifica em Cristo Jesus. Simultaneamente, toca-se tamb\u00e9m a esfera mais profunda do homem, a esfera \u2014 queremos dizer \u2014 dos cora\u00e7\u00f5es humanos, das consci\u00eancias humanas e das vicissitudes humanas.  11. O Mist\u00e9rio de Cristo na base da miss\u00e3o da Igreja e do Cristianismo O II Conc\u00edlio do Vaticano realizou um trabalho imenso, para formar aquela plena e universal consci\u00eancia da Igreja, acerca da qual escrevia o Papa Paulo VI na sua primeira Enc\u00edclica. Uma tal consci\u00eancia \u2014 ou antes autoconsci\u00eancia da Igreja \u2014 forma-se \u00ab no di\u00e1logo \u00bb, o qual, antes de se tornar col\u00f3quio, deve volver a pr\u00f3pria aten\u00e7\u00e3o para \u00ab o outro \u00bb, ou seja para aquele com o qual queremos falar. O Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico deu um impulso fundamental para se formar a autoconsci\u00eancia da Igreja, apresentando-nos, de maneira adequada e competente, a vis\u00e3o do orbe terrestre como de um \u00ab mapa \u00bb de v\u00e1rias religi\u00f5es. Al\u00e9m disto, ele demonstrou como sobre este \u00ab mapa \u00bb das religi\u00f5es do mundo se sobrep\u00f5e em estratos \u2014 nunca dantes conhecidos e caracter\u00edsticos da nossa \u00e9poca \u2014 o fen\u00f3meno do ate\u00edsmo nas suas v\u00e1rias formas, a come\u00e7ar do ate\u00edsmo programado, organizado e estruturado em sistema pol\u00edtico. Quanto \u00e0 religi\u00e3o, trata-se, antes de mais, da religi\u00e3o como fen\u00f3meno universal, conjunto com a hist\u00f3ria do homem desde o in\u00edcio; depois, das v\u00e1rias religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s e, por fim, do pr\u00f3prio cristianismo. O documento do Conc\u00edlio dedicado \u00e0s religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s \u00e9, em particular, um documento cheio de estima profunda pelos grandes valores espirituais, ou melhor, pelo primado daquilo que \u00e9 espiritual, e que encontra na vida da humanidade a sua express\u00e3o na religi\u00e3o e, em seguida, na moralidade, que se reflecte em toda a cultura. Justamente os Padres da Igreja viam nas diversas religi\u00f5es como que outros tantos reflexos de uma \u00fanica verdade, como que \u00ab germes do Verbo \u00bb, os quais testemunham que, embora por caminhos diferentes, est\u00e1 contudo voltada para uma mesma direc\u00e7\u00e3o a mais profunda aspira\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano, tal como ela se exprime na busca de Deus; e conjuntamente na busca, mediante a tens\u00e3o no sentido de Deus, da plena dimens\u00e3o da humanidade, ou seja, do sentido pleno da vida humana. O Conc\u00edlio dedicou uma particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o judaica, recordando o grande patrim\u00f3nio espiritual que \u00e9 comum aos crist\u00e3os e aos judeus, e exprimiu a sua estima para com os crentes do Isl\u00e3o, cuja f\u00e9 se refere tamb\u00e9m a Abra\u00e3o. Em virtude da abertura provocada pelo II Conc\u00edlio do Vaticano, a Igreja e todos os crist\u00e3os puderam alcan\u00e7ar uma consci\u00eancia mais completa do mist\u00e9rio de Cristo, \u00ab mist\u00e9rio oculto por tantos s\u00e9culos \u00bb em Deus, para ser revelado no tempo, no Homem Jesus Cristo, e para se revelar continuamente, em todos os tempos. Em Cristo e por Cristo, Deus revelou-se plenamente \u00e0 humanidade e aproximou-se definitivamente dela; e, ao mesmo tempo, em Cristo e por Cristo, o homem adquiriu plena consci\u00eancia da sua dignidade, da sua eleva\u00e7\u00e3o, do valor transcendente da pr\u00f3pria humanidade e do sentido da sua exist\u00eancia.  Importa, pois, que n\u00f3s todos \u2014 quantos somos seguidores de Cristo \u2014 nos encontremos e nos unamos em torno d&#8217;Ele mesmo. Esta uni\u00e3o, nos diversos sectores da vida, da tradi\u00e7\u00e3o e das estruturas e disciplina de cada uma das Igrejas ou das Comunidades eclesiais, n\u00e3o poder\u00e1 ser actuada sem um v\u00e1lido trabalho que tenda para se chegar a um conhecimento rec\u00edproco e para a remo\u00e7\u00e3o dos obst\u00e1culos ao longo do caminho para uma perfeita unidade. No entanto, podemos e devemos, j\u00e1 a partir de agora, conseguir e manifestar ao mundo a nossa unidade: no anunciar o mist\u00e9rio de Cristo, no tornar patente a dimens\u00e3o divina e conjuntamente humana da Reden\u00e7\u00e3o, no lutar com infatig\u00e1vel perseveran\u00e7a por aquela dignidade que todos os homens alcan\u00e7aram e podem alcan\u00e7ar continuamente em Cristo, que \u00e9 a dignidade da gra\u00e7a da adop\u00e7\u00e3o divina e simultaneamente dignidade da verdade interior da humanidade, a qual \u2014 se na consci\u00eancia comum do mundo contempor\u00e2neo chegou a ter um realce assim t\u00e3o fundamental \u2014 para n\u00f3s ainda ressalta mais \u00e0 luz daquela realidade que \u00e9 Ele: Jesus Cristo. Jesus Cristo \u00e9 princ\u00edpio est\u00e1vel e centro permanente da miss\u00e3o que o pr\u00f3prio Deus confiou ao homem. E nesta miss\u00e3o devemos participar todos, nela devemos concentrar todas as nossas for\u00e7as, uma vez que ela \u00e9 mais do que nunca necess\u00e1ria para a humanidade do nosso tempo. E se uma tal miss\u00e3o parece encontrar na nossa \u00e9poca oposi\u00e7\u00f5es maiores do que em qualquer outro tempo, ent\u00e3o esta circunst\u00e2ncia est\u00e1 a demonstrar tamb\u00e9m que ela na nossa \u00e9poca \u00e9 ainda mais necess\u00e1ria e \u2014 n\u00e3o obstante as oposi\u00e7\u00f5es \u2014 mais esperada do que nunca. Aqui tocamos indirectamente naquele mist\u00e9rio da economia divina que uniu a salva\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a com a Cruz. N\u00e3o foi em v\u00e3o que Cristo disse alguma vez que \u00ab o reino dos c\u00e9us \u00e9 objecto de viol\u00eancia, e os violentos tornam-se seus senhores \u00bb; e, ainda, que \u00ab os filhos deste mundo s\u00e3o mais sagazes do que os filhos da luz \u00bb.  Aceitemos esta admoesta\u00e7\u00e3o de bom grado, para sermos como aqueles \u00ab violentos de Deus \u00bb que tantas vezes nos foi dado ver na hist\u00f3ria da Igreja e que descortinamos ainda hoje, a fim de nos unirmos conscientemente na grande miss\u00e3o, ou seja: revelar Cristo ao mundo, ajudar cada um dos homens para que se encontre a si mesmo n&#8217;Ele, ajudar as gera\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas dos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s, povos, na\u00e7\u00f5es, estados, humanidade, pa\u00edses ainda n\u00e3o desenvolvidos e pa\u00edses da opul\u00eancia, ajudar todos, em suma, a conhecer as \u00ab imperscrut\u00e1veis riquezas de Cristo \u00bb,  pois estas s\u00e3o para todos e cada um dos homens e constituem o bem de cada um deles.   12. Miss\u00e3o da Igreja e liberdade do homem Nesta uni\u00e3o na miss\u00e3o, da qual decide sobretudo o mesmo Cristo, todos os crist\u00e3os devem descobrir aquilo que os une, ainda antes de se realizar a sua plena comunh\u00e3o. Esta \u00e9 a uni\u00e3o apost\u00f3lica e mission\u00e1ria, mission\u00e1ria e apost\u00f3lica. Gra\u00e7as a esta uni\u00e3o, podemos juntos aproximar-nos do magn\u00edfico patrim\u00f3nio do esp\u00edrito humano, que se manifestou em todas as religi\u00f5es, como diz a Declara\u00e7\u00e3o do II Conc\u00edlio do Vaticano Nostra Aetate. E gra\u00e7as \u00e0 mesma uni\u00e3o, abeirar-nos-emos tamb\u00e9m de todas as culturas, de todas as concep\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e de todos os homens de boa vontade. E aproximar-nos-emos com aquela estima, respeito e discernimento que, j\u00e1 desde os tempos apost\u00f3licos, distinguiam a atitude mission\u00e1ria e do mission\u00e1rio. Basta-nos recordar S\u00e3o Paulo e, por exemplo, o seu discurso no Are\u00f3pago de Atenas. A atitude mission\u00e1ria come\u00e7a sempre por um sentimento de profunda estima para com aquilo \u00ab que h\u00e1 no homem \u00bb, por aquilo que ele, no \u00edntimo do seu esp\u00edrito, elaborou quanto aos problemas mais profundos e mais importantes; trata-se de respeito para com aquilo que nele operou o Esp\u00edrito, que \u00ab sopra onde quer \u00bb. A miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nunca uma destrui\u00e7\u00e3o, mas uma reassun\u00e7\u00e3o de valores e uma nova constru\u00e7\u00e3o, ainda que na pr\u00e1tica nem sempre tenha havido plena correspond\u00eancia com um ideal assim t\u00e3o elevado. A convers\u00e3o, que da miss\u00e3o deve tomar in\u00edcio, sabemos bem que \u00e9 obra da gra\u00e7a, na qual o homem h\u00e1-de encontrar-se plenamente a si mesmo. Por tudo isto, a Igreja do nosso tempo d\u00e1 grande import\u00e2ncia a tudo aquilo que o II Conc\u00edlio do Vaticano exp\u00f4s na Declara\u00e7\u00e3o sobre a Liberdade Religiosa, tanto na primeira como na segunda parte do Documento. Sentimos profundamente o car\u00e1cter compromissivo da verdade que Deus nos revelou. Damo-nos conta, em particular, do grande sentido de responsabilidade por esta verdade. A Igreja, por institui\u00e7\u00e3o de Cristo, dela \u00e9 guarda e mestra, sendo precisamente para isso dotada de uma singular assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo, a fim de poder guard\u00e1-la fielmente e ensin\u00e1-la na sua mais exacta integridade.  No desempenho desta miss\u00e3o, olhemos para o pr\u00f3prio Cristo, Aquele que \u00e9 o primeiro evangelizador, e olhemos tamb\u00e9m para os seus Ap\u00f3stolos, M\u00e1rtires e Confessores. A Declara\u00e7\u00e3o sobre a Liberdade Religiosa p\u00f5e a claro, de modo bem convincente, como Cristo e, em seguida, os seus Ap\u00f3stolos, ao anunciarem a verdade que n\u00e3o prov\u00e9m dos homens, mas sim de Deus \u2014 \u00ab a minha doutrina n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o minha como daquele que me enviou \u00bb, ou seja, o Pai  \u2014 embora agindo com todo o vigor do esp\u00edrito, conservam uma profunda estima pelo homem, pela sua intelig\u00eancia, pela sua vontade, pela sua consci\u00eancia e pela sua liberdade. De tal modo, a pr\u00f3pria dignidade da pessoa humana torna-se conte\u00fado daquele an\u00fancio, mesmo sem palavras, mas simplesmente atrav\u00e9s do comportamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mesma pessoa livre. Um comportamento assim parece corresponder \u00e0s necessidades particulares do nosso tempo. Uma vez que nem em tudo aquilo que os v\u00e1rios sistemas e tamb\u00e9m homens singulares v\u00eaem e propagam como liberdade est\u00e1 de facto a verdadeira liberdade do homem, mais a Igreja, por for\u00e7a da sua divina miss\u00e3o, se torna guarda desta liberdade, a qual \u00e9 condi\u00e7\u00e3o e base da verdadeira dignidade da pessoa humana. Jesus Cristo vai ao encontro do homem de todas as \u00e9pocas, tamb\u00e9m do da nossa \u00e9poca, com as mesmas palavras que disse alguma vez: \u00ab conhecereis a verdade, e a verdade torna-vos-\u00e1 livres \u00bb. Estas palavras encerram em si uma exig\u00eancia fundamental e, ao mesmo tempo, uma advert\u00eancia: a exig\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o honesta para com a verdade, como condi\u00e7\u00e3o de uma aut\u00eantica liberdade; e a advert\u00eancia, ademais, para que seja evitada qualquer verdade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que n\u00e3o compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que espeda\u00e7a essa liberdade nas pr\u00f3prias ra\u00edzes, na alma do homem, no seu cora\u00e7\u00e3o e na sua consci\u00eancia. Que confirma\u00e7\u00e3o estupenda disto mesmo deram e n\u00e3o cessam de dar aqueles que, gra\u00e7as a Cristo e em Cristo, alcan\u00e7aram a verdadeira liberdade e a manifestaram at\u00e9 em condi\u00e7\u00f5es de constrangimento exterior! E o pr\u00f3prio Jesus Cristo, quando compareceu prisioniero diante do tribunal de Pilatos e por ele foi interrogado acerca das acusa\u00e7\u00f5es que Lhe tinham sido feitas pelos representantes do Sin\u00e9drio, porventura n\u00e3o respondeu Ele: \u00ab Para isto \u00e9 que eu nasci e para isto \u00e9 que eu vim ao mundo: para dar testemunho da verdade \u00bb? Com tais palavras pronunciadas diante do juiz, no momento decisivo, foi como se quisesse confirmar, uma vez mais ainda, o que j\u00e1 havia dito em preced\u00eancia: \u00ab Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-\u00e1 livres \u00bb. No decorrer de tantos s\u00e9culos e de tantas gera\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar dos tempos dos Ap\u00f3stolos, n\u00e3o foi acaso o mesmo Jesus Cristo que tantas vezes compareceu ao lado dos homens julgados por causa da verdade, e n\u00e3o foi Ele para a morte, talvez, conjuntamente com homens condenados por causa da verdade? Cessa Ele, porventura, de continuamente ser o porta-voz e advogado do homem que vive \u00ab em esp\u00edrito e em verdade \u00bb?  Do mesmo modo que n\u00e3o cessa de s\u00ea-lo diante do Pai, assim tamb\u00e9m continua a s\u00ea-lo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do homem. E a Igreja, por sua vez, apesar de todas as fraquezas que fazem parte da hist\u00f3ria humana, n\u00e3o cessa de seguir Aquele que proclamou: \u00ab Aproxima-se a hora, ou melhor, j\u00e1 estamos nela, em que os verdadeiros adoradores adorar\u00e3o o Pai em esp\u00edrito e em verdade, porque \u00e9 assim que o Pai quer os seus adoradores. Deus \u00e9 esp\u00edrito, e os que o adoram em esp\u00edrito e verdade \u00e9 que o devem adorar \u00bb.   III. O HOMEM REMIDO E A SUA SITUA\u00c7\u00c3O NO MUNDO CONTEMPOR\u00c2NEO 13 . Cristo uniu-se com cada um dos homens Quando, atrav\u00e9s da experi\u00eancia da fam\u00edlia humana, em cont\u00ednuo aumento a ritmo acelerado, penetramos no mist\u00e9rio de Jesus Cristo, compreendemos com maior clareza que, na base de todas aquelas vias ao longo das quais \u2014 de acordo com a sapi\u00eancia do Sumo Pont\u00edfice Paulo VI \u2014 a Igreja dos nossos tempos deve prosseguir, existe uma \u00fanica via: \u00e9 a via experimentada de h\u00e1 s\u00e9culos, e \u00e9, ao mesmo tempo, a via do futuro. Cristo Senhor indicou esta via sobretudo, quando \u2014 como ensina o Conc\u00edlio \u2014 \u00ab pela sua Encarna\u00e7\u00e3o, Ele, o Filho de Deus, se uniu de certo modo a cada homem \u00bb. A Igreja reconhece, portanto, como sua tarefa fundamental fazer com que uma tal uni\u00e3o se possa actuar e renovar continuamente. A Igreja deseja servir esta \u00fanica finalidade: que cada homem possa encontrar Cristo, a fim de que Cristo possa percorrer juntamente com cada homem o caminho da vida, com a pot\u00eancia daquela verdade sobre o homem e sobre o mundo, contida no mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o e da Reden\u00e7\u00e3o, e com a pot\u00eancia do amor que de tal verdade irradia. Sobre o pano de fundo dos sempre crescentes processos na hist\u00f3ria, que na nossa \u00e9poca parecem frutificar de modo particular no \u00e2mbito de v\u00e1rios sistemas, de concep\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas do mundo e de regimes, Cristo torna-se, de certo modo, novamente presente, malgrado todas as suas aparentes aus\u00eancias, malgrado todas as limita\u00e7\u00f5es da presen\u00e7a e da actividade institucional da Igreja. E Jesus Cristo torna-se presente com a pot\u00eancia daquela verdade e daquele amor que n&#8217;Ele se exprimiram como plenitude \u00fanica e que n\u00e3o se pode repetir, se bem que a sua vida na terra tenha sido breve e ainda mais breve a sua actividade p\u00fablica. Jesus Cristo \u00e9 a via principal da Igreja. Ele mesmo \u00e9 a nossa via para \u00ab a casa do Pai \u00bb e \u00e9 tamb\u00e9m a via para cada homem. Por esta via que leva de Cristo ao homem, por esta via na qual Cristo se une a cada homem, a Igreja n\u00e3o pode ser entravada por ningu\u00e9m. Isso \u00e9 exig\u00eancia do bem temporal e do bem eterno do mesmo homem. Por respeito a Cristo e em raz\u00e3o daquele mist\u00e9rio que a vida da mesma Igreja constitui, esta n\u00e3o pode permanecer insens\u00edvel a tudo aquilo que serve o verdadeiro bem do homem, assim como n\u00e3o pode permanecer indiferente \u00e0quilo que o amea\u00e7a. O II Conc\u00edlio do Vaticano, em diversas passagens dos seus documentos, deixou bem expressa esta fundamental solicitude da Igreja, a fim de que \u00ab a vida no mundo \/seja\/ mais conforme com a dignidade sublime de homem \u00bb, em todos os seus aspectos, e por tornar essa vida \u00ab cada vez mais humana \u00bb. Esta \u00e9 a solicitude do pr\u00f3prio Cristo, o Bom Pastor de todos os homens. Em nome de uma tal solicitude, conforme lemos na Constitui\u00e7\u00e3o pastoral do Conc\u00edlio, \u00ab a Igreja que, em raz\u00e3o da sua miss\u00e3o e compet\u00eancia, de modo algum se confude com a comunidade pol\u00edtica nem est\u00e1 ligada a qualquer sistema pol\u00edtico determinado, \u00e9 ao mesmo tempo o sinal e a salvaguarda do car\u00e1cter transcendente da pessoa humana \u00bb.  Aqui, portanto, trata-se do homem em toda a sua verdade, com a sua plena dimens\u00e3o. N\u00e3o se trata do homem \u00ab abstracto \u00bb, mas sim real: do homem \u00ab concreto \u00bb, \u00ab hist\u00f3rico \u00bb. Trata-se de \u00ab cada \u00bb homem, porque todos e cada um foram compreendidos no mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, e com todos e cada um Cristo se uniu, para sempre, atrav\u00e9s deste mist\u00e9rio. Todo o homem vem ao mundo concebido no seio materno e nasce da pr\u00f3pria m\u00e3e, e \u00e9 precisamente por motivo do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o que ele \u00e9 confiado \u00e0 solicitude da Igreja. Tal solicitude diz respeito ao homem todo, inteiro, e est\u00e1 centrada sobre ele de modo absolutamente particular. O objecto destes cuidados da Igreja \u00e9 o homem na sua \u00fanica e singular realidade humana, na qual permanece intacta a imagem e semelhan\u00e7a com o pr\u00f3prio Deus. O Conc\u00edlio indica isto precisamente, quando, ao falar de tal semelhan\u00e7a recorda que o homem \u00e9 \u00ab a \u00fanica criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma \u00bb. O homem tal como foi \u00ab querido \u00bb por Deus, como por Ele foi eternamente \u00ab escolhido \u00bb, chamado e destinado \u00e0 gra\u00e7a e \u00e0 gl\u00f3ria, este homem assim \u00e9 exactamente \u00ab todo e qualquer \u00bb homem, o homem \u00ab o mais concreto \u00bb, \u00ab o mais real \u00bb; este homem, depois, \u00e9 o homem em toda a plenitude do mist\u00e9rio de que se tornou participante em Jesus Cristo, mist\u00e9rio de que se tornou participante cada um dos quatro bili\u00f5es de homens que vivem sobre o nosso planeta, desde o momento em que \u00e9 concebido sob o cora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria m\u00e3e.   14. Todas as vias da Igreja levam ao homem A Igreja n\u00e3o pode abandonar o homem, cuja \u00ab sorte \u00bb, ou seja, a escolha, o chamamento, o nascimento e a morte, a salva\u00e7\u00e3o ou a perdi\u00e7\u00e3o, est\u00e3o de maneira t\u00e3o \u00edntima e indissol\u00favel unidos a Cristo. E trata-se aqui precisamente de todos e cada um dos homens sobre este planeta, nesta terra que o Criador deu ao primeiro homem, dizendo ao mesmo tempo ao homem e \u00e0 mulher: \u00ab submetei-a (a terra) e dominai-a \u00bb.  Cada homem, pois, em toda a sua singular realidade do ser e do agir, da intelig\u00eancia e da vontade, da consci\u00eancia e do cora\u00e7\u00e3o. O homem nessa sua singular realidade (porque \u00e9 \u00ab pessoa \u00bb) tem uma pr\u00f3pria hist\u00f3ria da sua vida e, sobretudo, uma pr\u00f3pria hist\u00f3ria da sua alma. O homem que, segundo a interior abertura do seu esp\u00edrito, e conjuntamente a tantas e t\u00e3o diversas necessidades do seu corpo e da sua exist\u00eancia temporal, escreve esta sua hist\u00f3ria pessoal, f\u00e1-lo atrav\u00e9s de numerosos ligames, contactos, situa\u00e7\u00f5es e estruturas sociais, que o unem a outros homens; e faz isso a partir do primeiro momento da sua exist\u00eancia sobre a terra, desde o momento da sua concep\u00e7\u00e3o e do seu nascimento. O homem, na plena verdade da sua exist\u00eancia, do seu ser pessoal e, ao mesmo tempo, do seu ser comunit\u00e1rio e social \u2014 no \u00e2mbito da pr\u00f3pria fam\u00edlia, no \u00e2mbito de sociedades e de contextos bem diversos, no \u00e2mbito da pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o, ou povo (e, talvez, ainda somente do cl\u00e3 ou da tribo), enfim no \u00e2mbito de toda a humanidade \u2014 este homem \u00e9 o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua miss\u00e3o: ele \u00e9 a primeira e fundamental via da Igreja, via tra\u00e7ada pelo pr\u00f3prio Cristo e via que imutavelmente conduz atrav\u00e9s do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o e da Reden\u00e7\u00e3o. Este homem assim precisamente, em toda a verdade da sua vida, com a sua consci\u00eancia, com a sua cont\u00ednua inclina\u00e7\u00e3o para o pecado e, ao mesmo tempo, com a sua cont\u00ednua aspira\u00e7\u00e3o pela verdade, pelo bem, pelo belo, pela justi\u00e7a e pelo amor, precisamente um tal homem tinha diante dos olhos o II Conc\u00edlio do Vaticano, quando, ao delinear a sua situa\u00e7\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo, se transferia sempre das componentes externas desta situa\u00e7\u00e3o para a verdade imanente da humanidade: \u00ab \u00c9 no \u00edntimo do homem precisamente que muitos elementos se combatem entre si. Enquanto, por uma parte, ele se experimenta, como criatura que \u00e9, multiplamente limitado, por outra, sente-se ilimitado nos seus desejos e chamado a uma vida superior. Atra\u00eddo por muitas solicita\u00e7\u00f5es, v\u00ea-se obrigado a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas vezes aquilo que n\u00e3o quer e n\u00e3o realiza o que desejaria fazer. Sofre assim em si mesmo a divis\u00e3o, da qual tantas e t\u00e3o graves disc\u00f3rdias se originam para a sociedade \u00bb.  \u00c9 este homem assim que \u00e9 a via da Igreja; via que se encontra, de certo modo, na base de todas aquelas vias pelas quais a Igreja deve caminhar: porque o homem \u2014 todos e cada um dos homens, sem excep\u00e7\u00e3o alguma \u2014 foi remido por Cristo; e porque com o homem \u2014 cada homem, sem excep\u00e7\u00e3o alguma \u2014 Cristo de algum modo se uniu, mesmo quando tal homem disso n\u00e3o se acha consciente: \u00ab Cristo, morto e ressuscitado por todos os homens, a estes \u2014 a todos e a cada um dos homens \u2014 oferece sempre&#8230; a luz e a for\u00e7a para poderem corresponder \u00e0 sua alt\u00edssima voca\u00e7\u00e3o \u00bb.  Sendo portanto este homem a via da Igreja, via da sua vida e experi\u00eancia quotidianas, da sua miss\u00e3o e actividade, a Igreja do nosso tempo tem de estar, de maneira sempre renovada, bem ciente da \u00ab situa\u00e7\u00e3o \u00bb de tal homem. E mais: a Igreja deve estar bem ciente das suas possibilidades, que tomam sempre nova orienta\u00e7\u00e3o e assim se manifestam; ela tem de estar bem ciente, ao mesmo tempo ainda, das amea\u00e7as que se apresentam contra o homem. Ela deve estar c\u00f4nscia, outrossim, de tudo aquilo que parece ser contr\u00e1rio ao esfor\u00e7o para que \u00ab a vida humana se torne cada vez mais humana \u00bb e para que tudo aquilo que comp\u00f5e esta mesma vida corresponda \u00e0 verdadeira dignidade do homem. Numa palavra, a Igreja deve estar bem c\u00f4nscia de tudo aquilo que \u00e9 contr\u00e1rio a um tal processo de nobilita\u00e7\u00e3o da vida humana.  15. De que \u00e9 que o homem contempor\u00e2neo tem medo? Conservando, pois, viva na mem\u00f3ria a imagem que de maneira t\u00e3o perspicaz e autorizada tra\u00e7ou o II Conc\u00edlio do Vaticano, procuraremos, uma vez mais ainda, adaptar este quadro aos \u00ab sinais dos tempos \u00bb, bem como \u00e0s exig\u00eancias da situa\u00e7\u00e3o que muda continuamente e evolui em determinadas direc\u00e7\u00f5es. O homem de hoje parece estar sempre amea\u00e7ado por aquilo mesmo que produz; ou seja, pelo resultado do trabalho das suas m\u00e3os e, ainda mais, pelo resultado do trabalho da sua intelig\u00eancia e das tend\u00eancias da sua vontade. Os frutos desta multiforme actividade do homem, com muita rapidez e de modo muitas vezes imprevis\u00edvel, passam a ser, n\u00e3o tanto objecto de \u00ab aliena\u00e7\u00e3o \u00bb, no sentido de que s\u00e3o simplesmente tirados \u00e0quele que os produz, quanto, ao menos parcialmente e num c\u00edrculo consequente e indirecto dos seus efeitos, tais frutos se voltam contra o pr\u00f3prio homem. Eles passam ent\u00e3o, de facto, a ser dirigidos, ou podem ser dirigidos contra o homem. E nisto assim parece consistir o cap\u00edtulo principal do drama da exist\u00eancia humana contempor\u00e2nea na sua mais ampla e universal dimens\u00e3o. O homem, portanto, cada vez mais vive com medo. Ele teme que os seus produtos, naturalmente n\u00e3o todos e n\u00e3o na maior parte, mas alguns e precisamente aqueles que encerram uma especial por\u00e7\u00e3o da sua genialidade e da sua iniciativa, possam ser voltados de maneira radical contra si mesmo; teme que eles possam tornar-se meios e instrumentos de uma inimagin\u00e1vel autodestrui\u00e7\u00e3o, perante a qual todos os cataclismas e as cat\u00e1strofes da hist\u00f3ria, que n\u00f3s conhecemos, parecem ficar a perder de vista. Deve p\u00f4r-se, portanto, uma interroga\u00e7\u00e3o: por que raz\u00e3o um tal poder, dado desde o princ\u00edpio ao homem, poder mediante o qual ele devia dominar a terra, se volta assim contra ele, provocando um compreens\u00edvel estado de inquietude, de consciente ou inconsciente medo, e de amea\u00e7a que de diversas maneiras se comunica a toda a fam\u00edlia humana contempor\u00e2nea e se manifesta sob v\u00e1rios aspectos? Este estado de amea\u00e7a contra o homem, da parte dos seus mesmos produtos, tem v\u00e1rias direc\u00e7\u00f5es e v\u00e1rios graus de intensidade. Parece que estamos cada vez mais c\u00f4nscios do facto de a explora\u00e7\u00e3o da terra, do planeta em que vivemos, exigir um planeamento racional e honesto. Ao mesmo tempo, tal explora\u00e7\u00e3o para fins n\u00e3o somente industriais mas tamb\u00e9m militares, o desenvolvimento da t\u00e9cnica n\u00e3o controlado nem enquadrado num plano com perspectivas universais e autenticamente human\u00edstico, trazem muitas vezes consigo a amea\u00e7a para o ambiente natural do homem, alienam-no nas suas rela\u00e7\u00f5es com a natureza e apartam-no da mesma natureza. E o homem parece muitas vezes n\u00e3o dar-se conta de outros significados do seu ambiente natural, para al\u00e9m daqueles somente que servem para os fins de um uso ou consumo imediatos. Quando, ao contr\u00e1rio, era vontade do Criador que o homem comunicasse com a natureza como \u00ab senhor \u00bb e \u00abguarda \u00bb inteligente e nobre, e n\u00e3o como um \u00ab desfrutador \u00bb e \u00ab destrutor \u00bb sem respeito algum. O progresso da t\u00e9cnica e o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o do nosso tempo, que \u00e9 marcado ali\u00e1s pelo predom\u00ednio da t\u00e9cnica, exigem um proporcional desenvolvimento tamb\u00e9m da vida moral e da \u00e9tica. E no entanto este \u00faltimo, infelizmente, parece ficar sempre atrasado. Por isso, este progresso, de resto t\u00e3o maravilhoso, em que \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o vislumbrar tamb\u00e9m os aut\u00eanticos sinais da grandeza do mesmo homem, os quais, em seus germes criativos, j\u00e1 nos s\u00e3o revelados nas p\u00e1ginas do Livro do G\u00e9nesis, na descri\u00e7\u00e3o da sua mesma cria\u00e7\u00e3o, este progresso n\u00e3o pode deixar de gerar mult\u00edplices inquieta\u00e7\u00f5es. Uma primeira inquieta\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 quest\u00e3o essencial e fundamental: Este progresso, de que \u00e9 autor e fautor o homem, torna de facto a vida humana sobre a terra, em todos os seus aspectos, \u00ab mais humana \u00bb? Torna-a mais \u00ab digna do homem \u00bb? N\u00e3o pode haver d\u00favida de que, sob v\u00e1rios aspectos, a torna de facto tal. Esta pergunta, todavia, retorna obstinadamente e pelo que respeita \u00e0quilo que \u00e9 essencial em sumo grau: se o homem, enquanto homem, no contexto deste progresso, se torna verdadeiramente melhor, isto \u00e9, mais amadurecido espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais respons\u00e1vel, mais aberto para com o outros, em particular para com os mais necessitados e os mais fracos, e mais dispon\u00edvel para proporcionar e prestar ajuda a todos. Esta \u00e9 a pergunta que os crist\u00e3os devem p\u00f4r-se, precisamente porque Cristo os sensibilizou assim de modo universal quanto ao problema do homem. E a mesma pergunta devem tamb\u00e9m p\u00f4r-se todos os homens, especialmente aqueles que fazem parte daqueles ambientes sociais que se dedicam activamente ao desenvolvimento e ao progresso nos nossos tempos. Ao observar estes processos e tomando parte neles, n\u00e3o podemos deixar que se aposse de n\u00f3s a euforia, nem podemos deixar-nos levar por um unilateral entusiasmo pelas nossas conquistas; mas todos devemos p\u00f4r-nos, com absoluta lealdade, objectividade e sentido de responsabilidade moral, as perguntas essenciais pelo que se refere \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do homem, hoje e no futuro. Todas as conquistas alcan\u00e7adas at\u00e9 agora, bem como as que est\u00e3o projectadas pela t\u00e9cnica para o futuro, est\u00e3o de acordo com o progresso moral e espiritual do homem? Neste contexto o homem, enquanto homem, desenvolve-se e progride, ou regride e degrada-se na sua humanidade? Prevalece nos homens, \u00ab no mundo do homem \u00bb \u2014 que \u00e9 em si mesmo um mundo de bem e de mal moral \u2014 o bem ou o mal? Crescem verdadeiramente nos homens, entre os homens, o amor social, o respeito pelos direitos de outrem \u2014 de todos e de cada um dos homens, de cada na\u00e7\u00e3o, de cada povo \u2014 ou, pelo contr\u00e1rio, crescem os ego\u00edsmos de v\u00e1rio alcance, os nacionalismos exagerados em vez do aut\u00eantico amor da p\u00e1tria, e, ainda, a tend\u00eancia para dominar os outros, para al\u00e9m dos pr\u00f3prios e leg\u00edtimos direitos e m\u00e9ritos, e a tend\u00eancia para desfrutar de todo o progresso material e t\u00e9cnico-produtivo exclusivamente para o fim de predominar sobre os outros, ou em favor deste ou daqueloutro imperialismo? Eis as interroga\u00e7\u00f5es essenciais que a Igreja n\u00e3o pode deixar de p\u00f4r-se, porque, de maneira mais ou menos expl\u00edcita, as p\u00f5em a si pr\u00f3prios bili\u00f5es de homens que vivem hoje no mundo. O tema do desenvolvimento e do progresso anda nas bocas de todos e aparece nas colunas de todos os jornais e nas publica\u00e7\u00f5es, em quase todas as l\u00ednguas do mundo contempor\u00e2neo. N\u00e3o esque\u00e7amos, todavia, que este tema n\u00e3o cont\u00e9m somente afirma\u00e7\u00f5es e certezas mas tamb\u00e9m perguntas e angustiosas inquietudes. Estas \u00faltimas n\u00e3o s\u00e3o menos importantes do que as primeiras. Elas correspondem \u00e0 natureza dial\u00e9ctica fundamental da solicitude do homem pelo homem, pela sua pr\u00f3pria humanidade e pelo futuro dos homens sobre a face da terra. A Igreja, que \u00e9 animada pela f\u00e9 escatol\u00f3gica, considera esta solicitude pelo homem, pela sua humanidade e pelo futuro dos homens sobre a face da terra e, por consequ\u00eancia, pela orienta\u00e7\u00e3o de todo o desenvolvimento e progresso, como um elemento essencial da sua miss\u00e3o, indissoluvelmente ligado com ela. E o princ\u00edpio de uma tal solicitude encontra-o a mesma Igreja no pr\u00f3prio Jesus Cristo, como testemunham os Evangelhos. E \u00e9 por isso mesmo que ela deseja acresc\u00ea-la continuamente n&#8217;Ele, ao reler a situa\u00e7\u00e3o do homem no mundo contempor\u00e2neo, segundo os mais importantes sinais do nosso tempo.  <\/p>\n<p align=\"right\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/noticia.asp?noticiaid=7151\">continua\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeira enc\u00edclica do Papa faz hoje 25 anos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[100,295,127,168,191,192,199,206,221,238,246,285,311,326],"class_list":["post-4910","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-advento","tag-biblia","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-economia","tag-ecumenismo","tag-espiritualidade","tag-familia","tag-historia-da-igreja","tag-joao-xxiii","tag-liturgia","tag-patrimonio","tag-sinodo-dos-bispos","tag-vida-consagrada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4910\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}