{"id":4909,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/redemptor-hominis\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"redemptor-hominis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/redemptor-hominis\/","title":{"rendered":"Redemptor hominis"},"content":{"rendered":"<p>(continua\u00e7\u00e3o) <!--more--> 16. Progresso ou amea\u00e7a? Se, portanto, o nosso tempo, o tempo da nossa gera\u00e7\u00e3o, o tempo que se vai aproximando do fim do segundo Mil\u00e9nio da nossa era crist\u00e3, se nos manifesta como um tempo de grande progresso, ele apresenta-se tamb\u00e9m como um tempo de multiforme amea\u00e7a contra o homem, da qual a Igreja deve falar a todos os homens de boa vontade e sobre a qual ela deve constantemente dialogar com eles. A situa\u00e7\u00e3o do homem no mundo contempor\u00e2neo, de facto, parece estar longe das exig\u00eancias objectivas da ordem moral, assim como das exig\u00eancias da justi\u00e7a e, mais ainda, do amor social. N\u00e3o se trata aqui sen\u00e3o daquilo que teve a sua express\u00e3o na primeira mensagem do Criador dirigida ao homem no momento em que lhe dava a terra, para que ele a \u00ab dominasse \u00bb. Esta primeira mensagem de Deus foi confirmada depois, no mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, por Cristo Senhor. Isto foi expresso pelo II Conc\u00edlio do Vaticano naqueles bel\u00edssimos cap\u00edtulos do seu ensino que dizem respeito \u00e0 \u00ab realeza \u00bb do homem, isto \u00e9, \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o para participar na fun\u00e7\u00e3o real \u2014 o \u00ab munus regale \u00bb \u2014 do mesmo Cristo. O sentido essencial desta \u00ab realeza \u00bb e deste \u00ab dom\u00ednio \u00bb do homem sobre o mundo vis\u00edvel, que lhe foi confiado como tarefa pelo pr\u00f3prio Criador, consiste na prioridade da \u00e9tica sobre a t\u00e9cnica, no primado da pessoa sobre as coisas e na superioridade do esp\u00edrito sobre a mat\u00e9ria. \u00c9 por isso mesmo que \u00e9 necess\u00e1rio acompanhar atentamente todas as fases do progresso hodierno: \u00e9 preciso, por assim dizer, fazer a radiografia de cada uma das suas etapas exactamente deste ponto de vista. Est\u00e1 em causa o desenvolvimento da pessoa e n\u00e3o apenas a multiplica\u00e7\u00e3o das coisas, das quais as pessoas podem servir-se. Trata-se \u2014 como disse um fil\u00f3sofo contempor\u00e2neo e como afirmou o Conc\u00edlio \u2014 n\u00e3o tanto de \u00ab ter mais \u00bb, quanto de \u00ab ser mais \u00bb. Com efeito, existe j\u00e1 um real e percept\u00edvel perigo de que, enquanto progride enormemente o dom\u00ednio do homem sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu dom\u00ednio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele pr\u00f3prio se torne objecto de multiforme manipula\u00e7\u00e3o, se bem que muitas vezes n\u00e3o directamente percept\u00edvel; manipula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de toda a organiza\u00e7\u00e3o da vida comunit\u00e1ria, mediante o sistema de produ\u00e7\u00e3o e por meio de press\u00f5es dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. O homem n\u00e3o pode renunciar a si mesmo, nem ao lugar que lhe compete no mundo vis\u00edvel; ele n\u00e3o pode tornar-se escravo das coisas, escravo dos sistemas econ\u00f3micos, escravo da produ\u00e7\u00e3o e escravo dos seus pr\u00f3prios produtos. Uma civiliza\u00e7\u00e3o de fei\u00e7\u00e3o puramente materialista condena o homem a tal escravid\u00e3o, embora algumas vezes, indubitavelmente, isso aconte\u00e7a contra as inten\u00e7\u00f5es e as mesmas premissas dos seus pioneiros. Na raiz da actual solicitude pelo homem est\u00e1 sem d\u00favida alguma este problema. E n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o aqui somente de dar uma resposta abstracta \u00e0 pergunta: quem \u00e9 o homem; mas trata-se de todo o dinamismo da vida e da civiliza\u00e7\u00e3o. Trata-se do sentido das v\u00e1rias iniciativas da vida quotidiana e, ao mesmo tempo, das premissas para numerosos programas de civiliza\u00e7\u00e3o, programas pol\u00edticos, econ\u00f3micos, sociais, estatais e muitos outros. Se n\u00f3s ousamos definir a situa\u00e7\u00e3o do homem contempor\u00e2neo como estando longe das exig\u00eancias objectivas da ordem moral, longe das exig\u00eancias da justi\u00e7a e, ainda mais, do amor social, \u00e9 porque isto \u00e9 confirmado por factos bem conhecidos e por confrontos que se podem fazer e que, por mais de uma vez, j\u00e1 tiveram resson\u00e2ncia directa nas p\u00e1ginas das enuncia\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias, conciliares e sinodais. A situa\u00e7\u00e3o do homem na nossa \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 certamente uniforme, mas sim diferenciada de m\u00faltiplas maneiras. Estas diferen\u00e7as t\u00eam as suas causas hist\u00f3ricas, mas tamb\u00e9m t\u00eam uma forte resson\u00e2ncia \u00e9tica. \u00c9 assaz conhecido, de facto, o quadro da civiliza\u00e7\u00e3o consum\u00edstica, que consiste num certo excesso de bens necess\u00e1rios ao homem e a sociedades inteiras \u2014 e aqui trata-se exactamente das sociedades ricas e muito desenvolvidas \u2014 enquanto que as restantes sociedades, ao menos largos estratos destas, sofrem a fome, e muitas pessoas morrem diariamente por desnutri\u00e7\u00e3o ou in\u00e9dia. Simultaneamente sucede que se d\u00e1 por parte de uns um certo abuso da liberdade, que est\u00e1 ligado precisamente a um modo de comportar-se consum\u00edstico, n\u00e3o controlado pela \u00e9tica, enquanto isso limita contempor\u00e2neamente a liberdade dos outros, isto \u00e9, daqueles que sofrem not\u00f3rias car\u00eancias e se v\u00eaem empurrados para condi\u00e7\u00f5es de ulterior mis\u00e9ria e indig\u00eancia. Este confronto, universalmente conhecido, e o contraste a que dedicaram a sua aten\u00e7\u00e3o, nos documentos do seu magist\u00e9rio, os Sumos Pont\u00edfices do nosso s\u00e9culo, mais recentemente Jo\u00e3o XXIII assim como Paulo VI, representam como que um gigantesco desenvolvimento da par\u00e1bola b\u00edblica do rico avarento e do pobre L\u00e1zaro. A amplitude do fen\u00f3meno p\u00f5e em quest\u00e3o as estruturas e os mecanismos financeiros, monet\u00e1rios, produtivos e comerciais, que, apoiando-se em diversas press\u00f5es pol\u00edticas, regem a economia mundial: eles demonstram-se como que incapazes quer para reabsorver as situa\u00e7\u00f5es sociais injustas, herdadas do passado, quer para fazer face aos desafios urgentes e \u00e0s exig\u00eancias \u00e9ticas do presente. Submetendo o homem \u00e0s tens\u00f5es por ele mesmo criadas, dilapidando, com um ritmo acelerado, os recursos materiais e energ\u00e9ticos e comprometendo o ambiente geof\u00edsico, tais estruturas d\u00e3o azo a que se estendam incessantemente as zonas de mis\u00e9ria e, junto com esta, a ang\u00fastia, a frustra\u00e7\u00e3o e a amargura. Encontramo-nos aqui perante o grande drama, que n\u00e3o pode deixar ningu\u00e9m indiferente. O sujeito que, por um lado, procura auferir o m\u00e1ximo proveito, bem como aquele que, por outro lado, paga as consequ\u00eancias dos danos e das inj\u00farias, \u00e9 sempre o homem. E tal drama \u00e9 ainda mais exacerbado pela proximidade com os estratos sociais privilegiados e com os pa\u00edses da opul\u00eancia, que acumulam os bens num grau excessivo e cuja riqueza se torna, muitas vezes por causa do abuso, motivo de diversos mal-estares. A isto ajuntem-se a febre da infla\u00e7\u00e3o e a praga do desemprego: e eis outros sintomas de tal desordem moral, que se faz sentir na situa\u00e7\u00e3o mundial e que exige por isso mesmo resolu\u00e7\u00f5es audaciosas e criativas, conformes com a aut\u00eantica dignidade do homem. Uma tal tarefa n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel de realizar. O princ\u00edpio de solidariedade, em sentido lato, deve inspirar a busca eficaz de institui\u00e7\u00f5es e de mecanismos apropriados: quer se trate do sector dos interc\u00e2mbios, em que \u00e9 necess\u00e1rio deixar-se conduzir pelas leis de uma s\u00e3 competi\u00e7\u00e3o, quer se trate do plano de uma mais ampla e imediata redistribui\u00e7\u00e3o das riquezas e dos controlos sobre as mesmas, a fim de que os povos que se encontram em vias de desenvolvimento econ\u00f3mico possam, n\u00e3o apenas satisfazer \u00e0s suas exig\u00eancias essenciais, mas tamb\u00e9m progredir gradual e eficazmente. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil avan\u00e7ar, por\u00e9m, neste dif\u00edcil caminho, no caminho da indispens\u00e1vel transforma\u00e7\u00e3o das estruturas da vida econ\u00f3mica, se n\u00e3o intervier uma verdadeira convers\u00e3o das mentes, das vontades e dos cora\u00e7\u00f5es. A tarefa exige a aplica\u00e7\u00e3o decidida de homens e de povos livres e solid\u00e1rios. Com muita frequ\u00eancia se confunde a liberdade com o instinto do interesse individual e colectivo, ou ainda com o instinto de luta e de dom\u00ednio, quaisquer que sejam as cores ideol\u00f3gicas de que eles se revistam. E \u00f3bvio que esses instintos existem e operam; mas n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel ter-se uma economia verdadeiramente humana, se eles n\u00e3o forem assumidos, orientados e dominados pelas for\u00e7as mais profundas que se encontram no homem, e que s\u00e3o aquelas que decidem da verdadeira cultura dos povos. E \u00e9 precisamente destas fontes que deve nascer o esfor\u00e7o, no qual se exprimir\u00e1 a verdadeira liberdade do homem, e que ser\u00e1 capaz de a assegurar tamb\u00e9m no campo econ\u00f3mico. O desenvolvimento econ\u00f3mico, conjuntamente com tudo aquilo que faz parte do seu modo pr\u00f3prio e adequado de funcionar, tem de ser constantemente programado e realizado dentro de uma perspectiva de desenvolvimento universal e solid\u00e1rio dos homens tomados singularmente e dos povos, conforme recordava de maneira convincente o meu Predecessor Paulo VI na Enc\u00edclica Populorum Progressio. Sem isso, a simples categoria do \u00ab progresso econ\u00f3mico \u00bb torna-se uma categoria superior, que passa a subordinar o conjunto da exist\u00eancia humana \u00e0s suas exig\u00eancias parciais, sufoca o homem, desagrega as sociedades e acaba por desenvolver-se nas suas pr\u00f3prias tens\u00f5es e nos seus mesmos excessos. \u00c9 poss\u00edvel assumir este dever; testemunham-no os factos certos e os resultados, que \u00e9 dif\u00edcil enumerar aqui de maneira mais pormenorizada. E uma coisa, contudo, \u00e9 certa: na base deste campo gigantesco \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer, aceitar e aprofundar o sentido da responsabilidade moral, que tem de assumir o homem. Ainda uma vez e sempre, o homem. Para n\u00f3s crist\u00e3os uma tal responsabilidade torna-se particularmente evidente, quando recordamos \u2014 e devemos record\u00e1-lo sempre \u2014 a cena do ju\u00edzo final, segundo as palavras de Cristo, referidas no Evangelho de S\u00e3o Mateus. Essa cena escatol\u00f3gica tem de ser sempre \u00ab aplicada \u00bb \u00e0 hist\u00f3ria do homem, deve ser sempre tomada como \u00ab medida \u00bb dos actos humanos, como um esquema essencial de um exame de consci\u00eancia para cada um e para todos: \u00ab Tive fome e n\u00e3o Me destes de comer&#8230;; estava n\u00fa e n\u00e3o Me vestistes&#8230;; estava na pris\u00e3o e n\u00e3o fostes visitar-Me \u00bb. Estas palavras adquirem um maior cunho de admoesta\u00e7\u00e3o ainda, se pensamos que, em vez do p\u00e3o e da ajuda cultural a novos estados e na\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a despertar para a vida independente, algumas vezes, se lhes oferecem, n\u00e3o raro com abund\u00e2ncia, armas modernas e meios de destrui\u00e7\u00e3o, postos ao servi\u00e7o de conflitos armados e de guerras, que n\u00e3o s\u00e3o tanto uma exig\u00eancia da defesa dos seus justos direitos e da sua soberania, quanto sobretudo uma forma de \u00ab chauvinismo \u00bb, de imperialismo e de neo-colonialismo de v\u00e1rios g\u00e9neros. Todos sabemos bem que as zonas de mis\u00e9ria ou de fome, que existem no nosso globo, poderiam ser \u00ab fertilizadas \u00bb num breve espa\u00e7o de tempo, se os gigantescos investimentos para os armamentos, que servem para a guerra e para a destrui\u00e7\u00e3o, tivessem sido em contrapartida convertidos em investimentos para a alimenta\u00e7\u00e3o, que servem para a vida. Esta considera\u00e7\u00e3o talvez permane\u00e7a parcialmente \u00ab abstracta \u00bb; talvez d\u00ea azo a uma e \u00e0 outra \u00ab parte \u00bb para se acusar reciprocamente, esquecendo cada qual as pr\u00f3prias culpas; talvez provoque mesmo novas acusa\u00e7\u00f5es contra a Igreja.  Esta, por\u00e9m, n\u00e3o dispondo de outras armas, sen\u00e3o das do esp\u00edrito, das armas da palavra e do amor, n\u00e3o pode renunciar a pregar a Palavra, insistindo oportuna e inoportunamente. Por isso, ela n\u00e3o cessa de solicitar a cada uma das partes e de pedir a todos, em nome de Deus e em nome do homem: N\u00e3o mateis! N\u00e3o prepareis para os homens destrui\u00e7\u00f5es e exterm\u00ednio! Pensai nos vossos irm\u00e3os que sofrem a fome e a mis\u00e9ria! Respeitai a dignidade e a liberdade de cada um!   17. Direitos do homem \u00ab letra \u00bb ou \u00abesp\u00edrito \u00bb O nosso s\u00e9culo tem sido at\u00e9 agora um s\u00e9culo de grandes calamidades para o homem, de grandes devasta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 materiais, mas tamb\u00e9m morais, ou melhor, talvez sobretudo morais. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, certamente, comparar \u00e9pocas e s\u00e9culos sob este aspecto, uma vez que isso depende tamb\u00e9m dos crit\u00e9rios hist\u00f3ricos que mudam. N\u00e3o obstante, prescindido muito embora de tais compara\u00e7\u00f5es, importa verificar que at\u00e9 agora este s\u00e9culo foi um tempo em que os homens prepararam para si mesmos muitas injusti\u00e7as e sofrimentos. Este processo ter\u00e1 sido decididamente entravado? Em qualquer hip\u00f3tese, n\u00e3o se pode deixar de recordar aqui, com apre\u00e7o e com profunda esperan\u00e7a para o futuro, o esfor\u00e7o magn\u00edfico realizado para dar vida \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, um esfor\u00e7o que tende para definir e estabelecer os objectivos e inviol\u00e1veis direitos do homem, obrigando-se os Estados-membros reciprocamente a uma observ\u00e2ncia rigorosa dos mesmos. Este compromisso foi aceito e ratificado por quase todos os Estados do nosso tempo; e isto deveria constituir uma garantia para que os direitos do homem se tornassem em todo o mundo, o princ\u00edpio fundamental do empenho em prol do bem do mesmo homem. A Igreja n\u00e3o precisa de confirmar quanto este problema est\u00e1 intimamente ligado com a sua miss\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo. Ele est\u00e1, com efeito, nas mesmas bases da paz social e internacional, como declararam a este prop\u00f3sito Jo\u00e3o XXIII, o II Conc\u00edlio do Vaticano e depois Paulo VI, com documentos pormenorizados. Em \u00faltima an\u00e1lise, a paz reduz-se ao respeito dos direitos inviol\u00e1veis do homem \u2014 \u00ab efeito da justi\u00e7a ser\u00e1 a paz \u00bb \u2014 ao passo que a guerra nasce da viola\u00e7\u00e3o destes direitos e acarreta consigo ainda mais graves viola\u00e7\u00f5es dos mesmos. Se os direitos do homem s\u00e3o violados em tempo de paz, isso torna-se particularmente doloroso e, sob o ponto de vista do progresso, representa um incompreens\u00edvel fen\u00f3meno de luta contra o homem, que n\u00e3o pode de maneira alguma p\u00f4r-se de acordo com qualquer programa que se autodefina \u00ab human\u00edstico \u00bb. E qual seria o programa social, econ\u00f3mico, pol\u00edtico e cultural que poderia renunciar a esta defini\u00e7\u00e3o? N\u00f3s nutrimos a convic\u00e7\u00e3o profunda de que n\u00e3o h\u00e1 no mundo de hoje nenhum programa em que, at\u00e9 mesmo sobre a plataforma de ideologias opostas quanto \u00e0 concep\u00e7\u00e3o do mundo, n\u00e3o seja posto sempre em primeiro lugar o homem. Ora, se apesar de tais premissas, os direitos do homem s\u00e3o violados de diversas maneiras, se na pr\u00e1tica somos testemunhas dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia, da tortura, do terrorismo e de mult\u00edplices discrimina\u00e7\u00f5es, isto deve de ser uma consequ\u00eancia de outras premissas que minam, ou muitas vezes quase anulam a efic\u00e1cia das premissas human\u00edsticas daqueles programas e sistemas modernos. Ent\u00e3o imp\u00f5e-se necessariamente o dever de submeter os mesmos programas a uma cont\u00ednua revis\u00e3o sob o ponto de vista dos objectivos e inviol\u00e1veis direitos do homem. A Declara\u00e7\u00e3o destes direitos, juntamente com a institui\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, n\u00e3o tinham certamente apenas a finalidade de nos apartar das horr\u00edveis experi\u00eancias da \u00faltima guerra mundial, mas tamb\u00e9m a finalidade de criar uma base para uma cont\u00ednua revis\u00e3o dos programas, dos sistemas e dos regimes, precisamente sob este fundamental ponto de vista, que \u00e9 o bem do homem \u2014 digamos, da pessoa na comunidade \u2014 e que, qual factor fundamental do bem comum, deve constituir o crit\u00e9rio essencial de todos os programas, sistemas e regimes. Caso contr\u00e1rio, a vida humana, mesmo em tempo de paz, est\u00e1 condenada a v\u00e1rios sofrimentos; e, ao mesmo tempo, junto com tais sofrimentos, desenvolvem-se v\u00e1rias formas de domina\u00e7\u00e3o, de totalitarismo, de neocolonialismo e de imperialismo, as quais amea\u00e7am mesmo a conviv\u00eancia entre as na\u00e7\u00f5es. Na verdade, \u00e9 um facto significativo e confirmado por mais de uma vez pelas experi\u00eancias da hist\u00f3ria, que a viola\u00e7\u00e3o dos direitos do homem anda coligada com a viola\u00e7\u00e3o dos direitos da na\u00e7\u00e3o, com a qual o homem est\u00e1 unido por ligames org\u00e2nicos, como que com uma fam\u00edlia maior. J\u00e1 desde a primeira metade deste s\u00e9culo, no per\u00edodo em que se estavam a desenvolver v\u00e1rios totalitarismos de estado, os quais \u2014 como se sabe \u2014 levaram \u00e0 horr\u00edvel cat\u00e1strofe b\u00e9lica, a Igreja havia claramente delineado a sua posi\u00e7\u00e3o defronte a estes regimes, que aparentemente agiam por um bem superior, qual \u00e9 o bem do estado, enquanto que a hist\u00f3ria haveria de demonstrar que, pelo contr\u00e1rio, aquilo era apenas o bem de um determinado partido, que se tinha identificado com o estado. Esses regimes, na realidade, haviam coarctado os direitos dos cidad\u00e3os, negando-lhes o reconhecimento daqueles direitos inviol\u00e1veis do homem que, pelos meados do nosso s\u00e9culo obtiveram a sua formula\u00e7\u00e3o no plano internacional. Ao compartilhar a alegria de uma tal conquista com todos os homens de boa vontade, com todos os homens que amam verdadeiramente a justi\u00e7a e a paz, a Igreja, c\u00f4nscia de que a \u00ab letra \u00bb somente pode matar, ao passo que s\u00f3 \u00ab o esp\u00edrito vivifica \u00bb, deve, conjuntamente com estes homens de boa vontade, de cont\u00ednuo perguntar se a Declara\u00e7\u00e3o dos direitos do homem e a aceita\u00e7\u00e3o da sua \u00ab letra \u00bb significam em toda a parte tamb\u00e9m a realiza\u00e7\u00e3o do seu \u00ab esp\u00edrito \u00bb. Surgem, efectivamente, receios fundados de que muito frequentemente estamos ainda longe de uma tal realiza\u00e7\u00e3o, e de que por vezes o esp\u00edrito da vida social e p\u00fablica se acha em dolorosa oposi\u00e7\u00e3o com a declarada \u00ab letra \u00bb dos direitos do homem. Este estado de coisas, gravoso para as respectivas sociedades, tornaria aqueles que contribuem para o determinar particularmente respons\u00e1veis, perante essas sociedades e perante a hist\u00f3ria do homem. O sentido essencial do Estado, como comunidade pol\u00edtica, consiste nisto: que a sociedade e, quem a comp\u00f5e, o povo \u00e9 soberano do pr\u00f3prio destino. Um tal sentido n\u00e3o se torna uma realidade, se, em lugar do exerc\u00edcio do poder com a participa\u00e7\u00e3o moral da sociedade ou do povo, tivermos de assistir \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do poder por parte de um determinado grupo a todos os outros membros da mesma sociedade. Estas coisas s\u00e3o essenciais na nossa \u00e9poca, em que tem crescido enormemente a consci\u00eancia social dos homens e, conjuntamente com ela, a necessidade de uma correcta participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os na vida pol\u00edtica da comunidade, tendo em conta as reais condi\u00e7\u00f5es de cada povo e o necess\u00e1rio vigor da autoridade p\u00fablica. Estes s\u00e3o, pois, os problemas de prim\u00e1ria import\u00e2ncia sob o ponto de vista do progresso do mesmo homem e do desenvolvimento global da sua humanidade. A Igreja sempre tem ensinado o dever de agir pelo bem comum; e, procedendo assim, tamb\u00e9m educou bons cidad\u00e3os para cada um dos Estados. Al\u00e9m disso, ela sempre ensinou que o dever fundamental do poder \u00e9 a solicitude pelo bem comum da sociedade; daqui dimanam os seus direitos fundamentais. Em nome precisamente destas premissas, respeitantes \u00e0 ordem \u00e9tica objectiva, os direitos do poder n\u00e3o podem ser entendidos de outro modo que n\u00e3o seja sobre a base do respeito pelos direitos objectivos e inviol\u00e1veis do homem. Aquele bem comum que a autoridade no Estado serve, ser\u00e1 plenamente realizado somente quando todos os cidad\u00e3os estiverem seguros dos seus direitos. Sem isto, chega-se ao descalabro da sociedade, \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os contra a autoridade, ou ent\u00e3o a uma situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o, de intimida\u00e7\u00e3o, de viol\u00eancia, ou de terrorismo, de que nos forneceram numerosos exemplos os totalitarismos do nosso s\u00e9culo. \u00c9 assim que o princ\u00edpio dos direitos do homem afecta profundamente o sector da justi\u00e7a social e se torna padr\u00e3o para a sua fundamental verifica\u00e7\u00e3o na vida dos Organismos pol\u00edticos. Entre estes direitos insere-se, e justamente, o direito \u00e0 liberdade religiosa ao lado do direito da liberdade de consci\u00eancia. O II Conc\u00edlio do Vaticano considerou particularmente necess\u00e1rio elaborar uma mais ampla Declara\u00e7\u00e3o sobre este tema. \u00c9 o Documento que se intitula Dignitatis humanae, no qual foi expressa, n\u00e3o somente a concep\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica do problema, mas tamb\u00e9m a concep\u00e7\u00e3o sob o ponto de vista do direito natural, ou seja da posi\u00e7\u00e3o \u00ab puramente humana \u00bb, em base \u00e0quelas premissas ditadas pela pr\u00f3pria experi\u00eancia do homem, pela raz\u00e3o e pelo sentido da sua dignidade. Certamente, a limita\u00e7\u00e3o da liberdade religiosa das pessoas e das comunidades n\u00e3o \u00e9 apenas uma sua dolorosa experi\u00eancia, mas atinge antes de mais nada a pr\u00f3pria dignidade do homem, independentemente da religi\u00e3o professada ou da concep\u00e7\u00e3o que elas tenham do mundo. A limita\u00e7\u00e3o da liberdade religiosa e a sua viola\u00e7\u00e3o est\u00e3o em contraste com a dignidade do homem e com os seus direitos objectivos. O Documento conciliar acima referido diz com bastante clareza o que seja uma tal limita\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o da liberdade religiosa. Encontramo-nos em tal caso, sem d\u00favida alguma, perante uma injusti\u00e7a radical em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que \u00e9 particularmente profundo no homem e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que \u00e9 autenticamente humano. Com efeito, at\u00e9 mesmo os fen\u00f3menos da incredulidade, da a-religiosidade e do ate\u00edsmo, como fen\u00f3menos humanos, compreendem-se somente em rela\u00e7\u00e3o com o fen\u00f3meno de religi\u00e3o e da f\u00e9. \u00c9 dif\u00edcil, portanto, mesmo de um ponto de vista \u00ab puramente humano \u00bb, aceitar uma posi\u00e7\u00e3o segundo a qual s\u00f3 o ate\u00edsmo tem direito de cidadania na vida p\u00fablica e social, enquanto que os homens crentes, quase por pr\u00edncipio, s\u00e3o apenas tolerados, ou ent\u00e3o tratados como cidad\u00e3os de segunda categoria, e at\u00e9 mesmo \u2014 o que j\u00e1 tem sucedido \u2014 s\u00e3o totalmente privados dos direitos de cidadania. \u00c9 necess\u00e1rio, embora com brevidade, tratar tamb\u00e9m deste tema, porque ele realmente faz parte do complexo das situa\u00e7\u00f5es do homem no mundo actual, e porque ele tamb\u00e9m est\u00e1 a testemunhar quanto esta situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 profundamente marcada por preconceitos e por injusti\u00e7as de v\u00e1rios g\u00e9neros. Se me abstenho de entrar em pormenores neste campo precisamente, no qual me assistiria um especial direito e dever para o fazer, isso \u00e9 sobretudo porque, juntamente com todos aqueles que sofrem os tormentos da discrimina\u00e7\u00e3o e da persegui\u00e7\u00e3o por causa do nome de Deus, sou guiado pela f\u00e9 na for\u00e7a redentora da cruz de Cristo. Desejo, no entanto, em virtude de meu m\u00fanus, em nome de todos os homens crentes do mundo inteiro, dirigir-me \u00e0queles de quem, de alguma maneira, depende a organiza\u00e7\u00e3o da vida social e p\u00fablica, pedindo-lhes ardentemente para respeitarem os direitos da religi\u00e3o e da actividade da Igreja. N\u00e3o se pede nenhum privil\u00e9gio, mas o respeito de um elementar direito. A actua\u00e7\u00e3o deste direito \u00e9 um dos fundamentais meios para se aquilatar do aut\u00eantico progresso do homem em todos os regimes, em todas as sociedades e em todos os sistemas ou ambientes.   IV. A MISS\u00c3O DA IGREJA E O DESTINO DO HOMEM 18. A Igreja solicita pela voca\u00e7\u00e3o do homem em Cristo  Esta vista de olhos, necessariamente sum\u00e1ria, da situa\u00e7\u00e3o do homem no mundo contempor\u00e2neo, faz-nos voltar ainda mais os nossos pensamentos e cora\u00e7\u00f5es para Jesus Cristo, para o mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, no qual o problema do homem se acha inscrito com uma especial for\u00e7a de verdade e de amor. Se Cristo \u00ab se uniu de certo modo a cada homem \u00bb, a Igreja, penetrando no \u00edntimo deste mist\u00e9rio, na sua linguagem rica e universal, est\u00e1 a viver tamb\u00e9m mais profundamente a pr\u00f3pria natureza e miss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o que o Ap\u00f3stolo fala do Corpo de Cristo, que \u00e9 a Igreja. Se este Corpo M\u00edstico de Cristo, depois, \u00e9 Povo de Deus \u2014 como dir\u00e1 por seu turno o II Conc\u00edlio do Vaticano, baseando-se em toda a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e patr\u00edstica \u2014 isto quer dizer que todos os homens nele s\u00e3o penetrados por aquele sopro de vida que prov\u00e9m de Cristo. Deste modo, o voltar-se para o homem, voltar-se para os seus reais problemas, para as suas esperan\u00e7as e sofrimentos, para as suas conquistas e quedas, tamb\u00e9m faz com que a mesma Igreja como corpo, como organismo e como unidade social, perceba os mesmos impulsos divinos, as luzes e as for\u00e7as do Esp\u00edrito que prov\u00eam de Cristo crucificado e ressuscitado; e \u00e9 por isto precisamente que ela vive a sua vida. A Igreja n\u00e3o tem outra vida fora daquela que lhe d\u00e1 o seu Esposo e Senhor. De facto, precisamente porque Cristo no seu mist\u00e9rio de Reden\u00e7\u00e3o se uniu a ela, a Igreja deve estar fortemente unida com cada um dos homens. Uma tal uni\u00e3o de Cristo com o homem \u00e9 em si mesma um mist\u00e9rio, do qual nasce o \u00ab homem novo \u00bb, chamado a participar na vida de Deus, criado novamente em Cristo para a plenitude da gra\u00e7a e da verdade. A uni\u00e3o de Cristo com o homem \u00e9 a for\u00e7a e a nascente da for\u00e7a, segundo a incisiva express\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o no pr\u00f3logo do seu Evangelho: \u00ab O Verbo deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus \u00bb. \u00c9 esta for\u00e7a que transforma interiormente o homem, qual princ\u00edpio de uma vida nova que n\u00e3o fenece nem passa, mas dura para a vida eterna. Esta vida, prometida e proporcionada a cada homem pelo Pai em Jesus Cristo, eterno e unig\u00e9nito Filho, encarnado e nascido da Virgem Maria \u00ab ao chegar a plenitude dos tempos \u00bb,  \u00e9 o complemento final da voca\u00e7\u00e3o do homem; \u00e9, de alguma maneira, o cumprir-se daquele \u00ab destino \u00bb que, desde toda a eternidade, Deus lhe preparou. Este \u00ab destino divino \u00bb torna-se via, por sobre todos os enigmas, as inc\u00f3gnitas, as tortuosidades e as curvas, do \u00ab destino humano \u00bb no mundo temporal. Se, de facto, tudo isto, n\u00e3o obstante toda a riqueza da vida temporal, leva por inevit\u00e1vel necessidade \u00e0 fronteira da morte e \u00e0 meta da destrui\u00e7\u00e3o do corpo humano, apresenta-se-nos Cristo para al\u00e9m desta meta: \u00ab Eu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida. Aquele que cr\u00ea em Mim &#8230; n\u00e3o morrer\u00e1 jamais \u00bb. Em Jesus Cristo crucificado, deposto no sepulcro e depois ressuscitado, \u00ab brilha para n\u00f3s a esperan\u00e7a da feliz ressurrei\u00e7\u00e3o&#8230; a promessa da imortalidade futura \u00bb, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 qual o homem caminha, atrav\u00e9s da morte do corpo, partilhando com tudo o que \u00e9 creado e vis\u00edvel esta necessidade a que est\u00e1 sujeita a mat\u00e9ria. N\u00f3s intentamos e procuramos aprofundar cada vez mais a linguagem desta verdade que o Redentor do homem encerrou na frase: \u00ab O esp\u00edrito \u00e9 que vivifica, a carne para nada serve \u00bb. Estas palavras, malgrado as apar\u00eancias, exprimem a mais alta afirma\u00e7\u00e3o do homem: a afirma\u00e7\u00e3o do corpo, que o esp\u00edrito vivifica!  A Igreja vive esta realidade, vive desta verdade sobre o homem, o que lhe permite transpor as fronteiras da temporaneidade e, ao mesmo tempo, pensar com particular amor e solicitude em tudo aquilo que, nas dimens\u00f5es desta temporaneidade, incide na vida do homem, na vida do esp\u00edrito humano, onde se afirma aquela inquietude perene, expressa nas palavras de Santo Agostinho: \u00ab Fizestes-nos, Senhor, para V\u00f3s, e o nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 inquieto, at\u00e9 que n\u00e3o repouse em V\u00f3s \u00bb. Nesta inquietude criativa bate e pulsa aquilo que \u00e9 mais profundamente humano: a busca da verdade, a insaci\u00e1vel necessidade do bem, a fome da liberdade, a nostalgia do belo e a voz da consci\u00eancia. A Igreja, ao procurar ver o homem como que com \u00ab os olhos do pr\u00f3prio Cristo \u00bb, torna-se cada vez mais c\u00f4nscia de ser a guarda de um grande tesouro, que n\u00e3o lhe \u00e9 l\u00edcito dissipar, mas que deve continuamente aumentar. Com efeito, o Senhor Jesus disse: \u00ab Quem n\u00e3o ajunta comigo, dispersa \u00bb. Aquele tesouro da humanidade, enriquecido do inef\u00e1vel mist\u00e9rio da filia\u00e7\u00e3o divina, da gra\u00e7a de \u00ab adop\u00e7\u00e3o como filhos \u00bb no Unig\u00e9nito Filho de Deus, mediante a qual dizemos a Deus \u00ab Abb\u00e1, Pai \u00bb, \u00e9 ao mesmo tempo uma for\u00e7a potente que unifica a Igreja sobretudo por dentro e que d\u00e1 sentido a toda a sua actividade. Por tal for\u00e7a a Igreja une-se com o Esp\u00edrito de Cristo, com aquele Esp\u00edrito Santo que o Redentor havia prometido e que comunica continuamente, e cuja descida, revelada no dia do Pentecostes, perdura sempre. Assim, no homem revelam-se as for\u00e7as do Esp\u00edrito, os dons do Esp\u00edrito, os frutos do Esp\u00edrito Santo. E a Igreja do nosso tempo parece repetir cada vez com maior fervor e com santa insist\u00eancia: \u00ab Vinde, Esp\u00edrito Santo! \u00bb. Vinde! Vinde! \u00ab Lavai o que se apresenta s\u00f3rdido! Regai o que est\u00e1 \u00e1rido! Sarai o que est\u00e1 ferido! Abrandai o que \u00e9 r\u00edgido! Aquecei o que est\u00e1 fr\u00edgido! Guiai o que se acha transviado! \u00bb. Esta ora\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo, elevada precisamente com a inten\u00e7\u00e3o de obter o Esp\u00edrito, \u00e9 a resposta a todos os \u00ab materialismos \u00bb da nossa \u00e9poca. S\u00e3o estes que fazem nascer tantas formas de insaciabilidade do cora\u00e7\u00e3o humano. Esta s\u00faplica faz-se ouvir de diversas partes e parece que frutifica tamb\u00e9m de modos diversos. Poder-se-\u00e1 dizer que, nesta s\u00faplica, a Igreja n\u00e3o est\u00e1 sozinha? Sim, pode-se dizer, porque \u00ab a necessidade \u00bb daquilo que \u00e9 espiritual \u00e9 exprimida tamb\u00e9m por pessoas que se encontram fora dos confins vis\u00edveis da Igreja. Ou n\u00e3o ser\u00e1 isto mesmo confirmado, talvez, por aquela verdade sobre a Igreja, posta em evid\u00eancia com tanta perspic\u00e1cia pelo recente Conc\u00edlio na Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica Lumen Gentium, naquela passagem em que ensina ser a Igreja \u00ab sacramento, ou sinal, e instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano? \u00bb. Esta invoca\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito e pelo Esp\u00edrito n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o um constante introduzir-se na plena dimens\u00e3o do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, no qual Cristo, unido ao Pai e com cada homem, nos comunica sem cessar esse mesmo Esp\u00edrito que p\u00f5e em n\u00f3s os sentimentos do Filho e nos orienta para o Pai. \u00c9 por isso que a Igreja da nossa \u00e9poca \u2014 \u00e9poca particularmente faminta de Esp\u00edr\u00edto, porque faminta de justi\u00e7a, de paz, de amor, de bondade, de fortaleza, de responsabilidade e de dignidade humana \u2014 deve con centrar-se e reunir-se em torno de tal mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, encontrando nele a luz e a for\u00e7a indispens\u00e1veis para a pr\u00f3pria miss\u00e3o. Com efeito, se o homem \u2014 como diz\u00edamos em preced\u00eancia \u2014 \u00e9 a via da vida quotidiana da Igreja, \u00e9 preciso que a mesma Igreja esteja sempre consciente da dignidade da adop\u00e7\u00e3o divina que o homem alcan\u00e7a, em Cristo, pela gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, e da sua destina\u00e7\u00e3o \u00e0 gra\u00e7a e \u00e0 gl\u00f3ria. Ao reflectir sempre de modo renovado sobre tudo isto, e aceitando-o com uma f\u00e9 cada vez mais consciente e com um amor cada vez mais firme, a Igreja torna-se simultaneamente mais id\u00f3nea para aquele servi\u00e7o do homem, para o qual a chama Cristo Senhor, quando diz: \u00ab O Filho do homem &#8230; veio n\u00e3o para ser servido, mas para servir \u00bb. A Igreja exerce este seu minist\u00e9rio, participando na \u00ab tr\u00edplice fun\u00e7\u00e3o \u00bb que \u00e9 pr\u00f3pria do seu mesmo Mestre e Redentor. Esta doutrina, com o seu fundamento b\u00edblico, foi posta em plena luz pelo II Conc\u00edlio do Vaticano, com grande vantagem para a vida da Igreja. Quando, de facto, nos tornamos conscientes dessa participa\u00e7\u00e3o na tr\u00edplice miss\u00e3o de Cristo, no seu tr\u00edplice m\u00fanus \u2014 sacerdotal, prof\u00e9tico e real &#8211; simult\u00e2nea e paralelamente tornamo-nos mais conscientes tamb\u00e9m daquilo que deve servir a Igreja toda, como sociedade e comunidade do Povo de Deus sobre a terra, compreendendo, al\u00e9m disso, qual deva ser a participa\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s nesta miss\u00e3o e neste servi\u00e7o.  19. A Igreja respons\u00e1vel pela verdade Assim, \u00e0 luz da sagrada doutrina do II Conc\u00edlio do Vaticano, a Igreja aparece frente a n\u00f3s como sujeito social da responsabilidade pela verdade divina. Ou\u00e7amos com profunda emo\u00e7\u00e3o o mesmo Cristo, quando diz: &#8221; A palavra que v\u00f3s ouvis n\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 do Pai, que me enviou &#8220;. Nesta afirma\u00e7\u00e3o do nosso Mestre, n\u00e3o se adverte, porventura, aquela responsabilidade pela verdade revelada, que \u00e9 \u00ab propriedade \u00bb do mesmo Deus, se at\u00e9 Ele, o \u00ab Filho unig\u00e9nito \u00bb que vive \u00ab no seio do Pai \u00bb, quando a transmite, como profeta e como mestre, sente necessidade de frisar bem que age em plena fidelidade \u00e0 sua divina fonte? A mesma fidelidade deve ser uma qualidade constitutiva da f\u00e9 da Igreja, quer quando ela a professa, quer quando ela a ensina. A f\u00e9 como espec\u00edfica virtude sobrenatural infundida no esp\u00edrito humano, faz-nos participantes no conhecimento de Deus, em resposta \u00e0 sua Palavra revelada. Por isso se exige que a Igreja, quando professa e ensina a F\u00e9 esteja estritamente aderente \u00e0 verdade divina, que a mesma F\u00e9 se traduza em comportamentos vividos de obs\u00e9quio consent\u00e2neo \u00e0 raz\u00e3o. O pr\u00f3prio Cristo, preocupado com esta fidelidade \u00e0 verdade divina, prometeu \u00e0 Igreja a particular assist\u00eancia do Esp\u00edrito da verdade, concedeu o dom da infalibilidade \u00e0queles a quem confiou o mandato de transmitir tal verdade e de a ensinar &#8211; doutrina esta que j\u00e1 havia sido claramente definida pelo I Conc\u00edlio do Vaticano  e que, depois, foi repetida tamb\u00e9m pelo II Conc\u00edlio do Vaticano &#8211; e dotou ainda todo o Povo de Deus de um particular sentido da f\u00e9.  Por consequ\u00eancia, torn\u00e1mo-nos participantes de tal miss\u00e3o de Cristo profeta; e, em virtude da mesma miss\u00e3o e juntamente com Ele, servimos a verdade divina na Igreja. A responsabilidade por esta verdade implica tamb\u00e9m am\u00e1-la e procurar obter a sua mais exacta compreens\u00e3o, de maneira a torn\u00e1-la mais pr\u00f3xima de n\u00f3s mesmos e dos outros, com toda a sua for\u00e7a salv\u00edfica, com o seu esplendor e com a sua profundidade e simplicidade a um tempo. Este amor e esta aspira\u00e7\u00e3o por compreender a verdade devem andar juntos, como o est\u00e3o a confirmar as hist\u00f3rias pessoais dos Santos da Igreja. Eles eram os mais iluminados pela aut\u00eantica luz que esclarece a verdade divina e que aproxima a mesma realidade de Deus, porque se acercavam desta verdade com venera\u00e7\u00e3o e amor: amor sobretudo para com Cristo, Palavra viva da verdade divina e, ainda, amor para com a sua express\u00e3o humana no Evangelho, na Tradi\u00e7\u00e3o e na Teologia. De igual modo hoje s\u00e3o necess\u00e1rias, antes de mais, tal compreens\u00e3o e tal interpreta\u00e7\u00e3o da Palavra divina; \u00e9 necess\u00e1ria tal Teologia. A Teologia teve sempre e continua a ter uma grande import\u00e2ncia, para que a Igreja, Povo de Deus, possa participar na miss\u00e3o prof\u00e9tica de Cristo de maneira criadora e fecunda. Por isso, os te\u00f3logos, como servidores da verdade divina, dedicando os seus estudos e trabalhos a uma cada vez mais penetrante compreens\u00e3o da mesma verdade, n\u00e3o podem nunca perder de vista o significado do seu servi\u00e7o na Igreja, contido no conceito do \u00ab intellectus fidei \u00bb ou seja, da a intelig\u00eancia da f\u00e9 \u00bb. Este conceito funciona, por assim dizer, a um ritmo bilateral, segundo a express\u00e3o de Santo Agostinho: \u00ab intellege, ut credas &#8211; crede, ut intellegas \u00bb. Depois, funciona de maneira correcta quando os mesmos te\u00f3logos procuram servir o Magist\u00e9rio confiado na Igreja aos Bispos, unidos pelo v\u00ednculo da comunh\u00e3o hier\u00e1rquica com o Sucessor de Pedro, e, ainda, quando se p\u00f5em ao servi\u00e7o da sua solicitude no ensino e na pastoral, como tamb\u00e9m quando se p\u00f5em ao servi\u00e7o dos interesses apost\u00f3licos de todo o Povo de Deus. Como em \u00e9pocas precedentes, tamb\u00e9m hoje \u2014 e talvez mais ainda \u2014 os te\u00f3logos e todos os homens de ci\u00eancia na Igreja s\u00e3o chamados a unirem a f\u00e9 com a ci\u00eancia e a sapi\u00eancia, a fim de contribu\u00edrem para uma rec\u00edproca compenetra\u00e7\u00e3o das mesmas, como lemos na ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da mem\u00f3ria de Santo Alberto Magno, Doutor da Igreja. Este interesse ampliou-se enormemente nos dias de hoje, dado o progresso da ci\u00eancia humana, dos seus m\u00e9todos e das suas conquistas no conhecimento do mundo e do homem. E isto diz respeito tanto \u00e0s chamadas ci\u00eancias exactas, quanto igualmente \u00e0s ci\u00eancias humanas, bem como \u00e0 Filosofia, cujos ligames estreitos com a Teologia foram recordados pelo II Conc\u00edlio doVaticano. Neste campo do conhecimento humano, que continuamente se alarga e a um tempo se diferencia, tamb\u00e9m a f\u00e9 deve aprofundar-se constantemente, tornando manifesta a dimens\u00e3o do mist\u00e9rio revelado e tendendo para a compreens\u00e3o da verdade, que tem em Deus a \u00fanica e suprema fonte. Se \u00e9 l\u00edcito \u2014 e \u00e9 at\u00e9 mesmo para desejar \u2014 que aquele trabalho imenso que est\u00e1 por fazer neste sentido tome em considera\u00e7\u00e3o um certo pluralismo de m\u00e9todos, tal trabalho, todavia, n\u00e3o pode afastar-se da fundamental unidade no ensino da F\u00e9 e da Moral, como finalidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. \u00c9 indispens\u00e1vel, portanto, que haja uma estreita colabora\u00e7\u00e3o da Teologia com o Magist\u00e9rio. Todos os te\u00f3logos devem estar particularmente conscientes daquilo que Cristo exprimiu, quando disse: \u00ab A palavra que v\u00f3s ouvis n\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 do Pai, que me enviou \u00bb. Ningu\u00e9m, por conseguinte, pode tratar a Teologia como que se ela fosse uma simples colect\u00e2nea dos pr\u00f3prios conceitos pessoais; mas cada um deve ter a consci\u00eancia de permanecer em \u00edntima uni\u00e3o com aquela miss\u00e3o de ensinar a verdade, de que \u00e9 respons\u00e1vel a Igreja. A participa\u00e7\u00e3o no m\u00fanus prof\u00e9tico do pr\u00f3prio Cristo plasma a vida de toda a Igreja, na sua dimens\u00e3o fundamental. Uma participa\u00e7\u00e3o particular em tal m\u00fanus compete aos Pastores da Igreja, os quais ensinam e, continuamente e de diversos modos, anunciam e transmitem a doutrina da F\u00e9 e da Moral crist\u00e3s. Este ensino, quer sob o aspecto mission\u00e1rio quer sob o aspecto ordin\u00e1rio, contribui para congregar o Povo de Deus em torno de Cristo, prepara a participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia e indica as vias da vida sacramental. O S\u00ednodo dos Bispos em 1977 dedicou uma aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 catequese no mundo contempor\u00e2neo; e o fruto amadurecido das suas delibera\u00e7\u00f5es, experi\u00eancias e sugest\u00f5es encontrar\u00e1, dentro em breve, a sua express\u00e3o \u2014 em conformidade com a proposta dos participantes no mesmo S\u00ednodo \u2014 num apropriado Documento pontif\u00edcio. A catequese constitui, certamente, uma perene e ao mesmo tempo fundamental forma de actividade da Igreja, na qual se manifesta o seu carisma prof\u00e9tico: testemunho e ensino andam juntos. E se bem que aqui se fale em primeiro lugar dos Sacerdotes, n\u00e3o se pode deixar de recordar tamb\u00e9m o grande n\u00famero de Religiosos e Religiosas que se dedicam \u00e0 actividade catequ\u00edstica por amor do divino Mestre. E seria dif\u00edcil, por fim, n\u00e3o mencionar tantos e tantos Leigos que, nesta mesma actividade, encontram a express\u00e3o da sua f\u00e9 e da sua responsabilidade apost\u00f3lica. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso procurar cada vez mais que as v\u00e1rias formas de catequese e os seus diversos campos \u2014 a come\u00e7ar daquela forma fundamental que \u00e9 a catequese \u00ab familiar \u00bb, isto \u00e9, a catequese dos pais em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios filhos \u2014 atestem a participa\u00e7\u00e3o universal de todo o Povo de Deus no m\u00fanus prof\u00e9tico do mesmo Cristo. \u00c9 necess\u00e1rio que, coligada a este facto, a responsabilidade da Igreja pela verdade divina seja cada vez mais, e de diversas maneiras, compartilhada por todos. E assim, o que \u00e9 que diremos aqui dos especialistas das diversas disciplinas, dos representantes das ci\u00eancias naturais e das letras, dos m\u00e9dicos, dos juristas, dos homens da arte e da t\u00e9cnica, e dos que se dedicam ao ensino nos v\u00e1rios graus e especializa\u00e7\u00f5es? Todos eles \u2014 como membros do Povo de Deus \u2014 t\u00eam a sua parte pr\u00f3pria na miss\u00e3o prof\u00e9tica de Cristo, no seu servi\u00e7o \u00e0 verdade divina, at\u00e9 s\u00f3 atrav\u00e9s do seu modo honesto de comportar-se em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade, seja qual for o campo a que ela perten\u00e7a, ao mesmo tempo que educam os outros na verdade, ou lhes ensinam a maturar no amor e na justi\u00e7a. Deste modo, portanto, o sentido de responsabilidade pela verdade \u00e9 um dos fundamentais pontos de encontro da Igreja com todos e cada um dos homens; e \u00e9 igualmente uma das fundamentais exig\u00eancias, que determinam a voca\u00e7\u00e3o do homem na comunidade da Igreja. A Igreja dos nossos tempos, guiada pelo sentido de responsabilidade pela verdade, deve perseverar na fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria natureza, \u00e0 qual pertence a miss\u00e3o prof\u00e9tica que prov\u00e9m do mesmo Cristo: \u00ab Assim como o Pai me enviou, tamb\u00e9m eu vos envio a v\u00f3s &#8230; Recebei o Esp\u00edrito Santo \u00bb.   20. Eucaristia e Penit\u00eancia No mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, da obra salv\u00edfica realizada por Jesus Cristo, a Igreja participa no Evangelho do seu Mestre, n\u00e3o apenas mediante a fidelidade \u00e0 Palavra e atrav\u00e9s do servi\u00e7o \u00e0 verdade, mas igualmente mediante a submiss\u00e3o, cheia de esperan\u00e7a e de amor, ela participa na for\u00e7a da sua ac\u00e7\u00e3o redentora, que Ele expressou e encerrou, de forma sacramental, sobretudo na Eucaristia. sta \u00e9 o centro e o v\u00e9rtice de toda a vida sacramental, por meio da qual todos os crist\u00e3os recebem a for\u00e7a salv\u00edfica da Reden\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar do mist\u00e9rio do Baptismo, no qual somos imergidos na morte de Cristo, para nos tornarmos participantes da sua Ressurrei\u00e7\u00e3o, como ensina o Ap\u00f3stolo. A luz desta doutrina, torna-se ainda mais clara a raz\u00e3o pela qual toda a vida sacramental da Igreja e de cada crist\u00e3o alcan\u00e7a o seu v\u00e9rtice e a sua plenitude precisamente na Eucaristia. Neste Sacramento, de facto, renova-se continuamente, por vontade de Cristo, o mist\u00e9rio do sacrif\u00edcio que Ele fez de si mesmo ao Pai sobre o altar da Cruz; sacrif\u00edcio que o Pai aceitou, retribuindo esta doa\u00e7\u00e3o total de seu Filho, que se tornou \u00ab obediente at\u00e9 \u00e0 morte \u00bb, com a sua doa\u00e7\u00e3o paterna; ou seja, com o dom da vida nova imortal na ressurrei\u00e7\u00e3o, porque o Pai \u00e9 a primeira fonte e o doador da vida desde o princ\u00edpio. Essa vida nova, que implica a glorifica\u00e7\u00e3o corporal de Cristo crucificado, tornou-se sinal eficaz do novo dom outorgado \u00e0 humanidade, dom que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo, mediante o qual a vida divina, que o Pai tem em si e concede ao Filho ter em si mesmo, \u00e9 comunicada a todos os homens que est\u00e3o unidos com Cristo. A Eucaristia \u00e9 o Sacramento mais perfeito desta uni\u00e3o. Ao celebrarmos e conjuntamente ao participarmos na Eucaristia, n\u00f3s unimo-nos a Cristo terrestre e celeste, que intercede por n\u00f3s junto do Pai; mas unimo-nos sempre atrav\u00e9s do acto redentor do seu sacrif\u00edcio, por meio do qual Ele nos remiu, de modo que fomos \u00ab comprados por um pre\u00e7o elevado \u00bb. O \u00ab pre\u00e7o elevado \u00bb da nossa reden\u00e7\u00e3o comprova tamb\u00e9m ele o valor que o mesmo Deus atribui ao homem, comprova a nossa dignidade em Cristo. Realmente, tornando-nos \u00ab filhos de Deus \u00bb, filhos de adop\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua semelhan\u00e7a n\u00f3s tornamo-nos ao mesmo tempo \u00ab reino de sacerdotes \u00bb, alcan\u00e7amos o \u00ab sacerd\u00f3cio real \u00bb, isto \u00e9, participamos naquela restitui\u00e7\u00e3o \u00fanica e irrevers\u00edvel do homem e do mundo ao Pai, que Ele, Filho eterno e ao mesmo tempo verdadeiro Homem, operou de uma vez para sempre. A Eucaristia \u00e9 o Sacramento no qual se exprime mais cabalmente o nosso novo ser, e no qual o mesmo Cristo, incessantemente e sempre de maneira nova, \u00ab d\u00e1 testemunho \u00bb no Esp\u00edrito Santo ao nosso esp\u00edrito de que cada um de n\u00f3s, enquanto participante no mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, tem acesso aos frutos da filial reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus, tal como Ele mesmo a actuou e continua sempre a actuar no meio de n\u00f3s, mediante o minist\u00e9rio da Igreja. \u00c9 uma verdade essencial, n\u00e3o s\u00f3 doutrinal mas tamb\u00e9m existencial, que a Eucaristia constr\u00f3i a Igreja; e constr\u00f3i-a como aut\u00eantica comunidade do Povo de Deus, como assembleia dos f\u00e9is, assinalada pelo mesmo car\u00e1cter de unidade de que foram participantes os Ap\u00f3stolos e os primeiros disc\u00edpulos do Senhor. A Eucaristia constr\u00f3i renovando-a sempre esta comunidade e unidade; constr\u00f3i-a sempre e regenera-a sobre a base do sacrif\u00edcio do mesmo Cristo, porque comemora a sua morte na cruz, com o pre\u00e7o da qual fomos por Ele remidos. Por isso, na Eucaristia n\u00f3s tocamos de certo modo o pr\u00f3prio mist\u00e9rio do Corpo e do Sangue do Senhor, como atestam as suas mesmas palavras no momento da institui\u00e7\u00e3o, em virtude da qual tais palavras se tornaram as palavras da perene celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia, por parte dos chamados a este minist\u00e9rio na Igreja. A Igreja vive da Eucaristia, vive da plenitude deste Sacramento, cujo maravilhoso conte\u00fado e significado tiveram a sua express\u00e3o no Magist\u00e9rio da Igreja, desde os tempos mais remotos at\u00e9 aos nossos dias. Contudo, podemos dizer com certeza que este ensino \u2014 sustentado pela perspic\u00e1cia dos te\u00f3logos, pelos homens de profunda f\u00e9 e de ora\u00e7\u00e3o e pelos ascetas e m\u00edsticos, com toda a sua fidelidade ao mist\u00e9rio eucar\u00edstico \u2014 permanece como que no limiar, sendo incapaz de captar e de traduzir em palavras aquilo que \u00e9 a Eucaristia em toda a sua plenitude, aquilo que ela exprime e aquilo que nela se actua. Ela \u00e9, de facto, o Sacramento inef\u00e1vel! O empenho essencial e, sobretudo, a gra\u00e7a vis\u00edvel e fonte da for\u00e7a sobrenatural da Igreja como Povo de Deus \u00e9 o perseverar e o progredir constantemente na vida eucar\u00edstica e na piedade eucar\u00edstica, \u00e9 o desenvolvimento espiritual no clima da Eucaristia. Com maior raz\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito nem no pensamento, nem na vida, nem na ac\u00e7\u00e3o tirar a este Sacramento, verdadeiramente sant\u00edssimo, a sua plena dimens\u00e3o e o seu significado essencial. Ele \u00e9 ao mesmo tempo Sacramento-Sacrif\u00edcio, Sacramento-Comunh\u00e3o e Sacramento-Presen\u00e7a. Se bem que seja verdade que a Eucaristia foi sempre e deve ser ainda agora a mais profunda revela\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o da fraternidade humana dos disc\u00edpulos e confessores de Cristo, ela n\u00e3o pode ser considerada simplesmente como uma \u00ab ocasi\u00e3o \u00bb para se manifestar uma tal fraternidade. No celebrar o Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, \u00e9 necess\u00e1rio respeitar a plena dimens\u00e3o do mist\u00e9rio divino, o pleno sentido deste sinal sacramental, em que Cristo, realmente presente, \u00e9 recebido, a alma \u00e9 repleta de gra\u00e7a e \u00e9 dado o penhor da gl\u00f3ria futura. Daqui deriva o dever de uma rigorosa observ\u00e2ncia das normas lit\u00fargicas e de tudo aquilo que testemunha o culto comunit\u00e1rio rendido ao mesmo Deus, tanto mais que Ele, neste sinal sacramental, Se nos entrega com confian\u00e7a ilimitada, como se n\u00e3o tivesse em considera\u00e7\u00e3o a nossa fraqueza humana, a nossa indignidade, os nossos h\u00e1bitos, a rotina, ou at\u00e9 mesmo a possibilidade de ultraje. Todos na Igreja, mas principalmente os Bispos e os Sacerdotes, devem vigiar por que este Sacramento de amor esteja no centro da vida do Povo de Deus e por que, atrav\u00e9s de todas as manifesta\u00e7\u00f5es do culto devido, se proceda de molde a pagar \u00ab amor com amor \u00bb e a fazer com que Ele se torne verdadeiramente \u00ab a vida das nossas almas \u00bb. Nem poderemos, ainda, esquecer nunca as seguintes palavras de S\u00e3o Paulo: \u00ab Examine-se, pois, cada qual a si mesmo e, assim, coma deste p\u00e3o e beba deste c\u00e1lice \u00bb.  Esta exorta\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo indica, pelo menos indirectamente, o estreito ligame existente entre a Eucaristia e a Penit\u00eancia. Com efeito, se a primeira palavra do ensino de Cristo, a primeira frase do Evangelho-Boa Nova, foi \u00ab fazei penit\u00eancia e acreditai na Boa-Nova \u00bb (metano\u00e8ite), o Sacramento da Paix\u00e3o, da Cruz e Ressurrei\u00e7\u00e3o parece refor\u00e7ar e consolidar, de modo absolutamente especial, um tal convite \u00e0s nossas almas. A Eucaristia e a Penit\u00eancia tornam-se assim, num certo sentido, uma dimens\u00e3o d\u00faplice e, a um tempo, intimamente conexa, da aut\u00eantica vida segundo o esp\u00edrito do Evangelho, da vida verdadeiramente crist\u00e3. Cristo, que convida para o banquete eucar\u00edstico, \u00e9 sempre o mesmo Cristo que exorta \u00e0 penit\u00eancia, que repete o \u00ab convertei-vos \u00bb.  Sem este constante e sempre renovado esfor\u00e7o pela convers\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia ficaria privada da sua plena efic\u00e1cia redentora, falharia ou, de qualquer modo, ficaria enfraquecida nela aquela particular disponibilidade para oferecer a Deus o sacrif\u00edcio espiritual, no qual se exprime de modo essencial e universal a nossa participa\u00e7\u00e3o no sacerd\u00f3cio de Cristo. Em Cristo, de facto o sacerd\u00f3cio est\u00e1 unido com o pr\u00f3prio sacrif\u00edcio, com a sua entrega ao Pai; e uma tal entrega, precisamente porque \u00e9 ilimitada, faz nascer em n\u00f3s \u2014 homens sujeitos a mult\u00edplices limita\u00e7\u00f5es \u2014 a necessidade de nos voltarmos para Deus, de uma forma cada vez mais amadurecida e com uma constante convers\u00e3o, cada vez mais profunda. Nos \u00faltimos anos muito se fez para p\u00f4r em realce \u2014 em conformidade, ali\u00e1s, com a mais antiga tradi\u00e7\u00e3o da Igreja \u2014 o aspecto comunit\u00e1rio da penit\u00eancia e, sobretudo, do sacramento da Penit\u00eancia na pr\u00e1tica da Igreja. Estas iniciativas s\u00e3o \u00fateis e servir\u00e3o certamente para enriquecer a pr\u00e1tica penitencial da Igreja contempor\u00e2nea. N\u00e3o podemos esquecer, no entanto, que a convers\u00e3o \u00e9 um acto interior de uma profundidade particular, no qual o homem n\u00e3o pode ser substitu\u00eddo pelos outros, n\u00e3o pode fazer-se \u00ab substituir \u00bb pela comunidade. Muito embora a comunidade fraterna dos fi\u00e9is, participantes na celebra\u00e7\u00e3o penitencial, seja muito \u00fatil para o acto da convers\u00e3o pessoal, todavia, definitivamente \u00e9 necess\u00e1rio que neste acto se pronuncie o pr\u00f3prio indiv\u00edduo, com toda a profundidade da sua consci\u00eancia, com todo o sentido da sua culpabilidade e da sua confian\u00e7a em Deus, pondo-se diante d&#8217;Ele, \u00e0 semelhan\u00e7a do Salmista, para confessar: \u00ab Pequei contra v\u00f3s! \u00bb. A Igreja, pois, ao observar fielmente a plurissecular pr\u00e1ctica do Sacramento da Penit\u00eancia \u2014 a pr\u00e1tica da confiss\u00e3o individual, unida ao acto pessoal de arrependimento e ao prop\u00f3sito de se corrigir e de satisfazer \u2014 defende o direito particular da alma humana. \u00c9 o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o: \u00ab S\u00e3o-te perdoados os teus pecados \u00bb; \u00ab Vai e doravante n\u00e3o tornes a pecar \u00bb. Como \u00e9 evidente, isto \u00e9 ao mesmo tempo o direito do pr\u00f3prio Cristo em rela\u00e7\u00e3o a todos e a cada um dos homens por Ele remidos. \u00c9 o direito de encontrar-se com cada um de n\u00f3s naquele momento-chave da vida humana, que \u00e9 o momento da convers\u00e3o e do perd\u00e3o. A Igreja, ao manter o sacramento da Penit\u00eancia, afirma expressamente a sua f\u00e9 no mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, como realidade viva e vivificante, que corresponde \u00e0 verdade interior do homem, corresponde \u00e0 humana culpabilidade e tamb\u00e9m aos desejos da consci\u00eancia humana. \u00ab Bem-aventurados os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, porque ser\u00e3o saciados \u00bb. O sacramento da Penit\u00eancia \u00e9 o meio para saciar o homem com aquela justi\u00e7a que prov\u00e9m do mesmo Redentor. Na Igreja que, sobretudo nos nossos tempos, se reune especialmente em torno da Eucaristia e deseja que a aut\u00eantica comunidade eucar\u00edstica se torne sinal da unidade de todos os crist\u00e3os, unidade esta que vai maturando gradualmente, deve estar viva a necessidade da penit\u00eancia, quer no seu aspecto sacramental, quer tamb\u00e9m no que respeita \u00e0 penit\u00eancia como virtude. Este segundo aspecto foi expresso por Paulo VI na Constitui\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Paenitemini. Uma das obriga\u00e7\u00f5es da Igreja \u00e9 o p\u00f4r em pr\u00e1tica a doutrina que a\u00ed se cont\u00e9m. Trata-se de mat\u00e9ria que dever\u00e1, certamente, ser ainda mais aprofundada por n\u00f3s, em comum reflex\u00e3o, e tornada objecto de muitas decis\u00f5es ulteriores, em esp\u00edrito de colegialidade pastoral, com respeito pelas diversas tradi\u00e7\u00f5es relacionadas com este ponto e pelas diversas circunst\u00e2ncias da vida dos homens do nosso tempo. Todavia, \u00e9 certo que a Igreja do novo Advento, a Igreja que se prepara continuamente para a nova vinda do Senhor, tem de ser a Igreja da Eucaristia e da Penit\u00eancia. Somente com este perfil espiritual da sua vitalidade e actividade, ela \u00e9 a Igreja da miss\u00e3o divina, a Igreja in statu missionis (em estado de miss\u00e3o), conforme nos foi revelado o rosto da mesma pelo II Conc\u00edlio do Vaticano.  21. Voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3: servir e reinar O II Conc\u00edlio do Vaticano, ao elaborar a partir dos pr\u00f3prios fundamentos a imagem da Igreja como Povo de Deus \u2014 mediante a indica\u00e7\u00e3o da tr\u00edplice miss\u00e3o do mesmo Cristo, participando na qual n\u00f3s nos tornamos verdadeiramente Povo de Deus \u2014 p\u00f4s em realce tamb\u00e9m aquela caracter\u00edstica da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que se pode definir \u00ab real \u00bb. Para apresentar toda a riqueza da doutrina conciliar sobre isto, seria necess\u00e1rio fazer aqui refer\u00eancia a numerosos cap\u00edtulos e par\u00e1grafos da Constitui\u00e7\u00e3o Lumen Gentium, bem como a muitos outros Documentos conciliares. No meio de toda esta riqueza, por\u00e9m, h\u00e1 um elemento que parece emergir: a participa\u00e7\u00e3o na miss\u00e3o real de Cristo, isto \u00e9, o facto de redescobrir em si e nos outros aquela particular dignidade da nossa voca\u00e7\u00e3o, que se pode designar por \u00ab realeza \u00bb. Uma tal dignidade exprime-se na disponibilidade para servir, segundo o exemplo de Cristo, o qual \u00ab n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir \u00bb. Se, portanto, \u00e0 luz da atitude de Cristo, se pode verdadeiramente \u00ab reinar \u00bb somente \u00ab servindo \u00bb, ao mesmo tempo este \u00ab servir \u00bb exige uma tal maturidade espiritual, que se tem de defin\u00ed-la precisamente como \u00ab reinar \u00bb. Para se poder servir os outros digna e eficazmente, \u00e9 necess\u00e1rio saber dominar-se a si mesmo, \u00e9 preciso possuir as virtudes que tornam poss\u00edvel um tal dom\u00ednio. A nossa participa\u00e7\u00e3o na miss\u00e3o real de Cristo \u2014 exactamente na sua \u00ab fun\u00e7\u00e3o real \u00bb ( munus) \u2014 anda intimamente ligada com toda a esfera da moral crist\u00e3 e tamb\u00e9m humana. O II Conc\u00edlio do Vaticano, ao apresentar o quadro completo do Povo de Deus, recordando qual o lugar que nele ocupam, n\u00e3o apenas os sacerdotes, mas tamb\u00e9m os leigos, e n\u00e3o apenas os representantes da Hierarquia, mas tamb\u00e9m as e os representantes dos Institutos de vida consagrada, n\u00e3o deduziu essa imagem somente de uma premissa sociol\u00f3gica. A Igreja, enquanto sociedade humana, pode sem d\u00favida alguma ser examinada e definida segundo aquelas categorias de que se servem as ci\u00eancias humanas. Mas tais categorias n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Para toda a comunidade do Povo de Deus e para cada um dos seus membros, n\u00e3o se trata somente de um espec\u00edfico \u00ab pertencer socialmente \u00bb, mas sobretudo \u00e9 essencial, para cada um e para todos, uma particular \u00ab voca\u00e7\u00e3o \u00bb A Igreja, realmente, enquanto Povo de Deus \u2014 segundo a doutrina acima aludida de S\u00e3o Paulo, recordada de modo admir\u00e1vel por Pio XII \u2014 \u00e9 tamb\u00e9m \u00ab Corpo M\u00edstico de Cristo \u00bb. O pertencer a tal \u00ab Corpo \u00bb deriva de um chamamento particular, junto com a ac\u00e7\u00e3o salv\u00edfica da gra\u00e7a. Portanto, se quisermos ter presente esta comunidade do Povo de Deus, t\u00e3o vasta e sumamente diferenciada, devemos antes de mais ver Cristo, que diz, de um certo modo, a cada um dos membros desta mesma comunidade: \u00ab Segue-me \u00bb. Esta \u00e9 a comunidade dos disc\u00edpulos, cada um dos quais, de maneira diversa, por vezes muito consciente e coerentemente, e por vezes pouco conscientemente e muito incoerentemente, segue Cristo. Nisto manifesta-se tamb\u00e9m o aspecto profundamente \u00ab pessoal \u00bb e a dimens\u00e3o desta sociedade, a qual \u2014 n\u00e3o obstante todas as defici\u00eancias da vida comunit\u00e1ria, no sentido humano desta palavra \u2014 \u00e9 uma comunidade precisamente pelo facto de que todos a constituem juntamente com o mesmo Cristo, se n\u00e3o por outro motivo, ao menos porque t\u00eam nas suas almas o sinal indel\u00e9vel de quem \u00e9 crist\u00e3o. O II Conc\u00edlio do Vaticano aplicou uma aten\u00e7\u00e3o muito particular em demonstrar de que maneira esta comunidade \u00ab ontol\u00f3gica \u00bb dos disc\u00edpulos e dos confessores se deve tornar cada vez mais, tamb\u00e9m \u00ab humanamente \u00bb, uma comunidade consciente da pr\u00f3pria vida e actividade. As iniciativas do Conc\u00edlio quanto a isto encontraram a sua continuidade em numerosas iniciativas ulteriores, de car\u00e1cter sinodal, apost\u00f3lico e organizativo. Devemos ter sempre presente, no entanto, a verdade de que toda e qualquer iniciativa em tanto serve para uma verdadeira renova\u00e7\u00e3o da Igreja e em tanto contribui para aportar a aut\u00eantica luz de Cristo, em quanto se baseia sobre uma adequada consci\u00eancia da voca\u00e7\u00e3o e da responsabilidade por esta gra\u00e7a singular, \u00fanica e que n\u00e3o se pode repetir, mediante a qual cada um dos crist\u00e3os na comunidade do Povo de Deus edifica o Corpo de Cristo. Este princ\u00edpio, que \u00e9 a regra-chave de toda a pr\u00e1tica crist\u00e3 \u2014 pr\u00e1tica apost\u00f3lica e pastoral, e pr\u00e1tica da vida interior e da vida social \u2014 deve ser aplicado, em propor\u00e7\u00e3o adequada, a todos os homens e a cada um deles. Tamb\u00e9m o Papa, assim como todos os Bispos, o devem aplicar a si mesmos. A este princ\u00edpio devem igualmente ser fi\u00e9is os sacerdotes, os religiosos e as religiosas. Com base nele, ainda, devem construir a sua vida os esposos, os pais, as mulheres e os homens de condi\u00e7\u00f5es e de profiss\u00f5es diversas, a come\u00e7ar por aqueles que ocupam na sociedade os cargos mais elevados e a acabar por aqueles que fazem os trabalhos mais simples. \u00c9 este justamente o princ\u00edpio daquele \u00ab servi\u00e7o real \u00bb, que imp\u00f5e a cada um de n\u00f3s, seguindo o exemplo de Cristo, o dever de exigir de si pr\u00f3prio exactamente aquilo para que somos chamado, e a que \u2014 para corresponder \u00e0 voca\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00f3s nos obrig\u00e1mos pessoalmente, com a gra\u00e7a de Deus. Uma tal fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o recebida de Deus, mediante Cristo, acarreta consigo aquela solid\u00e1ria responsabilidade pela Igreja, para a qual o II Conc\u00edlio do Vaticano desejou educar todos os crist\u00e3os. Na Igreja, de facto, enquanto na comunidade do Povo de Deus, guiada pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, cada um possui \u00ab o pr\u00f3prio dom \u00bb, conforme ensina S\u00e3o Paulo. Este \u00ab dom \u00bb, por\u00e9m, embora seja uma voca\u00e7\u00e3o pessoal e uma forma tamb\u00e9m pessoal de participa\u00e7\u00e3o na obra salv\u00edfica da Igreja, serve igualmente para os outros e constr\u00f3i a Igreja e as comunidades fraternas nas v\u00e1rias esferas da exist\u00eancia humana sobre a terra. A fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o, ou seja, a perseverante disponibilidade para o \u00ab servi\u00e7o real \u00bb, tem um significado particular para esta mult\u00edplice constru\u00e7\u00e3o, sobretudo pelo que se refere \u00e0s tarefas mais compromissivas, as quais t\u00eam maior influ\u00eancia na vida do nosso pr\u00f3ximo e de toda a sociedade. Devem distinguir-se pela fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o os esposos, como resulta da natureza indissol\u00favel da institui\u00e7\u00e3o sacramental do matrim\u00f3nio. Devem distinguir-se por uma an\u00e1loga fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o os sacerdotes, dado o car\u00e1cter indel\u00e9vel que o sacramento da Ordem imprime nas suas almas. Ao receber este Sacramento, n\u00f3s, na Igreja Latina, consciente e livremente comprometemo-nos a viver no celibato; e por isso, cada um de n\u00f3s deve fazer todo o poss\u00edvel, com a gra\u00e7a de Deus, por ser reconhecido por este dom e fiel ao v\u00ednculo assumido para sempre. E isto n\u00e3o diversamente dos esposos: eles devem tender, com todas as suas for\u00e7as, para perseverar na uni\u00e3o matrimonial, construindo com este testemunho de amor a comunidade familiar e educando as novas gera\u00e7\u00f5es de homens para serem capazes de consagrar, tamb\u00e9m eles, toda a sua vida \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e0quele \u00ab servi\u00e7o real \u00bb do qual nos foram dados o exemplo e o modelo mais belo por Jesus Cristo. A Igreja de Cristo, que n\u00f3s todos formamos, \u00e9 \u00ab para os homens \u00bb, no sentido de que, baseando-nos no exemplo do mesmo Cristo e colaborando com a gra\u00e7a que Ele nos obteve, n\u00f3s podemos atingir um tal \u00ab reinar \u00bb, que o mesmo \u00e9 dizer, realizar uma maturada humanidade em cada um de n\u00f3s. Humanidade maturada significa pleno uso do dom da liberdade, que recebemos do Criador, no momento em que Ele chamou \u00e0 exist\u00eancia o homem feito \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a. Este dom encontra a sua plena realiza\u00e7\u00e3o na doa\u00e7\u00e3o, sem reservas, de toda a pr\u00f3pria pessoa humana, em esp\u00edrito de amor esponsal a Cristo e, com o mesmo Cristo, a todos aqueles aos quais Ele envia homens e mulheres que a Ele s\u00e3o totalmente consagrados segundo os conselhos evang\u00e9licos. Este \u00e9 o ideal da vida religiosa, assumido pelas Ordens e Congrega\u00e7\u00f5es, tanto antigas como recentes, e pelos Institutos seculares. Nos nossos tempos, algumas vezes julga-se, erroneamente, que a liberdade \u00e9 fim para si mesma, que cada homem \u00e9 livre na medida em que usa da liberdade como quer, e que para isto \u00e9 necess\u00e1rio tender-se na vida dos indiv\u00edduos e das sociedades. Mas a liberdade, ao contr\u00e1rio, s\u00f3 \u00e9 um grande dom quando dela sabemos usar conscientemente, para tudo aquilo que \u00e9 o verdadeiro bem. Cristo ensina que o melhor uso da liberdade \u00e9 a caridade, que se realiza no dom e no servi\u00e7o. Foi para tal liberdade \u00ab que Cristo nos libertou \u00bb e nos liberta sempre. A Igreja vai haurir aqui a incessante inspira\u00e7\u00e3o, o est\u00edmulo e o impulso para a sua miss\u00e3o e para o seu servi\u00e7o no meio de todos os homens. A verdade plena sobre a liberdade humana acha-se profundamente gravada no mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o. A Igreja presta verdadeiramente um servi\u00e7o \u00e0 humanidade, quando tutela esta verdade, com infatig\u00e1vel aplica\u00e7\u00e3o, com amor ardente e com dilig\u00eancia maturada; e, ainda, quando, em toda a pr\u00f3pria comunidade, atrav\u00e9s da fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o de cada um dos crist\u00e3os, a mesma Igreja a transmite e a concretiza na vida humana. Deste modo \u00e9 confirmado aquilo a que j\u00e1 nos referimos em preced\u00eancia, isto \u00e9, que o homem \u00e9 e continuamente se torna a \u00ab via \u00bb da vida quotidiana da Igreja.  22. A M\u00e3e da nossa confian\u00e7a Quando no in\u00edcio do novo Pontificado dirijo para o Redentor do mundo o meu pensamento e o meu cora\u00e7\u00e3o, desejo deste modo entrar e penetrar no ritmo mais profundo da vida da Igreja. Com efeito, se a Igreja vive a sua pr\u00f3pria vida, isso acontece porque ela a vai haurir em Cristo, o qual deseja sempre uma s\u00f3 coisa, isto \u00e9, que n\u00f3s tenhamos a vida e a tenhamos abundantemente. Aquela plenitude de vida que est\u00e1 n&#8217;Ele \u00e9 ao mesmo tempo destinada para o homem. Por isso, a Igreja, ao unir-se a toda a riqueza do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, torna-se Igreja dos homens que vivem; e vivem, porque vivificados do interior pela ac\u00e7\u00e3o do \u00ab Esp\u00edrito da Verdade \u00bb, e porque assistidos pelo amor que o Esp\u00edrito Santo difunde nos nossos cora\u00e7\u00f5es. Assim, o objectivo de qualquer servi\u00e7o na Igreja, seja ele apost\u00f3lico, pastoral, sacerdotal ou episcopal, \u00e9 o de manter este ligame din\u00e2mico do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o com todos e cada um dos homens. Se estamos conscientes deste intento a realizar, ent\u00e3o parece-nos compreender melhor o que significa dizer que a Igreja \u00e9 m\u00e3e; e, ainda, o que significa que a Igreja, sempre, mas de modo particular nos nossos tempos, tem necessidade de uma M\u00e3e. Devemos uma gratid\u00e3o especial aos Padres do II Conc\u00edlio do Vaticano, por terem expresso esta verdade na Constitui\u00e7\u00e3o Lumen Gentium, com a rica doutrina mariol\u00f3gica que nela se encerra. E dado que Paulo VI, inspirado por esta doutrina, proclamou a M\u00e3e de Cristo \u00ab M\u00e3e da Igreja \u00bb, e que tal denomina\u00e7\u00e3o teve uma ampla resson\u00e2ncia, seja permitido tamb\u00e9m ao seu indigno Sucessor dirigir-se a Maria como M\u00e3e da Igreja, no final das presentes considera\u00e7\u00f5es, que era oportuno desenvolver no in\u00edcio do seu servi\u00e7o pontifical. Maria \u00e9 a M\u00e3e da Igreja, porque, em virtude da inef\u00e1vel elei\u00e7\u00e3o do mesmo Pai Eterno e sob a particular ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Amor, Ela deu a vida humana ao Filho de Deus, \u00ab do qual procedem todas as coisas e para o qual v\u00e3o todas as coisas \u00bb, e do qual assume a gra\u00e7a e a dignidade da elei\u00e7\u00e3o todo o Povo de Deus. O seu pr\u00f3prio Filho quis explicitamente estender a maternidade de sua M\u00e3e \u2014 e estend\u00ea-la de um modo facilmente acess\u00edvel a todas as almas e a todas os cora\u00e7\u00f5es \u2014 apontando-lhe do alto da Cruz como filho o seu disc\u00edpulo predilecto. E o Esp\u00edrito Santo sugeriu-lhe que parmanecesse no Cen\u00e1culo, ap\u00f3s a Ascens\u00e3o do Senhor, tamb\u00e9m Ela, recolhida na ora\u00e7\u00e3o e na expectativa, juntamente com os Ap\u00f3stolos, at\u00e9 ao dia do Pentecostes, quando devia visivelmente nascer a Igreja, saindo da obscuridade. E em seguida, todas as gera\u00e7\u00f5es de disc\u00edpulos e de quantos confessam e amam Cristo \u2014 \u00e0 semelhan\u00e7a do Ap\u00f3stolo Jo\u00e3o \u2014 acolheram espiritualmente em sua casa esta M\u00e3e, que assim, desde os mesmos prim\u00f3rdios, isto \u00e9, a partir do momento da Anuncia\u00e7\u00e3o, foi inserida na hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o e na miss\u00e3o da Igreja. N\u00f3s todos, portanto, os que formamos a gera\u00e7\u00e3o hodierna dos disc\u00edpulos de Cristo, desejamos unir-nos a Ela de modo particular. E faz\u00eamo-lo com total ader\u00eancia \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o antiga e, ao mesmo tempo, com pleno respeito e amor pelos membros de todas as Comunidades crist\u00e3s. Fazemo-lo, depois, impelidos por profunda necessidade da f\u00e9, da esperan\u00e7a e da caridade. Se, efectivamente, nesta fase dif\u00edcil e cheia de responsabilidade da hist\u00f3ria da Igreja e da humanidade n\u00f3s advertimos uma especial necessidade de nos dirigir a Cristo, que \u00e9 o Senhor da sua Igreja e o Senhor da hist\u00f3ria do homem, em virtude do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, estamos convencidos de que ningu\u00e9m mais como Maria poder\u00e1 introduzir-nos na dimens\u00e3o divina e humana deste mist\u00e9rio. Ningu\u00e9m como Maria foi introduzido nele pelo pr\u00f3prio Deus. Nisto consiste o car\u00e1cter excepcional da gra\u00e7a da Maternidade divina. N\u00e3o somente \u00e9 \u00fanica e algo que se n\u00e3o pode repetir a dignidade desta Maternidade na hist\u00f3ria do g\u00e9nero humano, mas \u00fanica tamb\u00e9m pela profundidade e raio de ac\u00e7\u00e3o \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o de Maria no plano divino da salva\u00e7\u00e3o do homem, atrav\u00e9s do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o. Este mist\u00e9rio formou-se, podemos dizer, sob o cora\u00e7\u00e3o da Virgem de Nazar\u00e9, quando Ela pronunciou o seu \u00ab fiat \u00bb (fa\u00e7a-se). A partir daquele momento esse cora\u00e7\u00e3o virginal e ao mesmo tempo materno, sob a particular ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, acompanha sempre a obra do seu Filho e palpita na direc\u00e7\u00e3o de todos aqueles que Cristo abra\u00e7ou e abra\u00e7a continuamente com o seu inexaur\u00edvel amor. E, por isso mesmo, este cora\u00e7\u00e3o deve ser tamb\u00e9m maternalmente inexaur\u00edvel. A caracter\u00edstica deste amor materno, que a M\u00e3e de Deus insere no mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o e na vida da Igreja, encontra a sua express\u00e3o na sua singular proximidade em rela\u00e7\u00e3o ao homem e a todos as suas vicissitudes. Nisto consiste o mist\u00e9rio da M\u00e3e. A Igreja, que A olha com amor e esperan\u00e7a muito particular, deseja apropriar-se deste mist\u00e9rio de maneira cada vez mais profunda. Nisto, de facto, a mesma Igreja reconhece tamb\u00e9m a via da sua vida quotidia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(continua\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[100,127,168,191,206,221,238,266,311,314,326],"class_list":["post-4909","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-advento","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-economia","tag-familia","tag-historia-da-igreja","tag-joao-xxiii","tag-nacoes-unidas","tag-sinodo-dos-bispos","tag-solidariedade","tag-vida-consagrada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4909","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4909"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4909\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4909"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4909"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4909"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}