{"id":49085,"date":"2010-12-21T12:38:19","date_gmt":"2010-12-21T12:38:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/12\/21\/a-europa-sofre-de-alzheimer\/"},"modified":"2010-12-21T12:38:19","modified_gmt":"2010-12-21T12:38:19","slug":"a-europa-sofre-de-alzheimer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-europa-sofre-de-alzheimer\/","title":{"rendered":"A Europa sofre de Alzheimer?"},"content":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do Natal <!--more--> <\/p>\n<p>Contaram-me que, num jardim infantil, a educadora explicava que o &laquo;Pai Natal&raquo; tinha a ver com lendas que enalteciam o gesto de um santo bispo, de nome Nicolau &ndash;literalmente, &ldquo;pessoa virtuosa&rdquo;-, t&atilde;o preocupado com as crian&ccedil;as e os pobres que n&atilde;o hesitava andar de porta em porta a recolher o que lhe davam para o distribuir aos necessitados. E que da&iacute; &eacute; que provinha a nossa tradi&ccedil;&atilde;o de dar pren-dinhas &agrave;s crian&ccedil;as e aos pobres por alturas do nascimento do Menino Jesus.<\/p>\n<p>Tudo muito bem, at&eacute; ao momento em que uma menina foi dizer ao pap&aacute; que j&aacute; sabia quem era o Pai Natal e a raz&atilde;o de ser das prendinhas. O pap&aacute; limitou-se a ouvir. Mas, ao outro dia, exigiu falar com a educadora. Para lhe reprovar o que tinha dito: que, dessa forma, estava a destruir e abalar a confian&ccedil;a da filha nos seus pais que sempre lhe garantiram que o Pai Natal vivia na Lap&oacute;nia e que iria passar l&aacute; por casa; que destru&iacute;a a sua capacidade de sonhar, imaginar, poetizar; que transportava a crian&ccedil;a do sonho &agrave; dura realidade; que estava a estabelecer diferen&ccedil;as ao trazer &agrave; l&oacute;gica uma crian&ccedil;a quando todas as outras viviam na fantasia; que&hellip;<\/p>\n<p>Fiquei a pensar no caso. E vieram-me &agrave; mente conceitos como laicidade, seculariza&ccedil;&atilde;o, cultura, dogmas. Como, com o pretexto de emancipa&ccedil;&atilde;o do pensamento e das formas de vida social da tutela religiosa crist&atilde;, se acabam por construir novos dogmas, incontestados e incontest&aacute;veis. Como, em nome do &laquo;desencantamento&raquo; do mundo, da sua profanidade e do alto apre&ccedil;o pela materialidade, se constr&oacute;i um &laquo;encantamento&raquo; de substitui&ccedil;&atilde;o, em tudo paralelo ao que se contesta. Como o horizonte de realiza&ccedil;&atilde;o pessoal passa por uma leitura da realidade em que tudo se centra n&atilde;o no conte&uacute;do, mas simplesmente no &laquo;papel de embrulho&raquo; dos novos valores comerciais a impingir &laquo;religiosamente&raquo;.<\/p>\n<p>Eis, portanto, duas culturas que se desconhecem e se excluem: a crist&atilde; e a secular-comercial.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que a laicidade &eacute; um dos pilares da cultura ocidental. E possui mesmo valores assinal&aacute;veis. N&atilde;o cabe aqui referi-los. O seu perigo, por&eacute;m, est&aacute; na hodierna pretens&atilde;o de se arvorar em pensamento &uacute;nico e, como tal, de se tornar ditadora, de excluir violentamente o que n&atilde;o se coaduna com ela e pretender dissolver os elementos que asseguram a coes&atilde;o da cultura ocidental, com destaque para o religioso crist&atilde;o.<\/p>\n<p>Como superar isto? Creio que passa, substancialmente, por duas vias: pela capacidade de contesta&ccedil;&atilde;o e diferen&ccedil;a e pela redescoberta da verdadeira chave de acesso ao acervo da grande cultura que constitui o nosso patrim&oacute;nio pluri-dimensional. Mesmo contempor&acirc;neo.<\/p>\n<p>A n&iacute;vel geral, h&aacute; que desmascarar e p&ocirc;r a rid&iacute;culo alguns desajustes chocantes da realidade: por exemplo, ilumina&ccedil;&otilde;es com renas e tren&oacute;s, em Faro, onde nunca qualquer rena passeou ou neve caiu; Pai Natal agasalhado at&eacute; ao nariz, nas praias do Brasil, onde a temperatura asfixia e obriga a aligeirar a roupa; representa&ccedil;&otilde;es de luxuosos embrulhos de prendas, com la&ccedil;os e fitinhas, estrategicamente colocados junto a bairros sociais de car&ecirc;ncias absolutas; etc. Face a isto, que fazem os crist&atilde;os? Embarcam no mesmo rid&iacute;culo ou investem em s&iacute;mbolos com criatividade?<\/p>\n<p>A n&iacute;vel do alto pensamento, h&aacute; que fazer redescobrir que a cultura &eacute;, por natureza, uma continuidade cumulativa. Ela liga o presente, seus h&aacute;bitos, s&iacute;mbolos, produ&ccedil;&otilde;es, tradi&ccedil;&otilde;es e conceitos b&aacute;sicos, &agrave; longa hist&oacute;ria da humanidade. Sem o que o presente n&atilde;o adquire sentido. Se faltam c&oacute;digos de reconhecimento ou chaves de interpreta&ccedil;&atilde;o, por mais valiosos que sejam os conte&uacute;dos da cultura, ela funciona como museu fechado do qual se perdeu a chave da porta: nem se entra nem se desfruta. E, obviamente, n&atilde;o se conhece. Fica-se estranho. Neste caso, &ldquo;O Cavaleiro da Dinamarca&rdquo;, de Sophia, n&atilde;o passa de fantasmagoria; o &ldquo;Nascimento de Cristo&rdquo;, de A. D&uuml;rer, de retrato arqueol&oacute;gico de formas de viver doutros tempos; a &ldquo;Adora&ccedil;&atilde;o dos Magos&rdquo;, de H. Boch, de velharia sem interesse; a &ldquo;Noite Feliz&rdquo;, de Franz Gruber, de melodia para adormecer crian&ccedil;as&hellip;<\/p>\n<p>Como diria o insuspeito Debray, respeite-se a laicidade de intelig&ecirc;ncia, mas combata-se a laicidade da indig&ecirc;ncia cultural. Porque, afinal, &eacute; disto que se trata. At&eacute; porque esta mina os fundamentos s&oacute;lidos da nossa cultura ocidental para os substituir pelo del&iacute;rio. E isto &eacute; doen&ccedil;a e doen&ccedil;a grave.<\/p>\n<p>A nossa &laquo;velha&raquo; Europa sofre de Alzheimer? Talvez. Mas &eacute; cur&aacute;vel.<\/p>\n<p>D. Manuel Linda<\/p>\n<p>Bispo auxiliar de Braga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do Natal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[122,172,203,267],"class_list":["post-49085","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-brasil","tag-diocese-de-braga","tag-europa","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49085","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49085"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49085\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49085"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49085"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49085"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}