{"id":49074,"date":"2010-12-21T11:31:01","date_gmt":"2010-12-21T11:31:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/12\/21\/a-paz-como-liberdade-pessoal\/"},"modified":"2010-12-21T11:31:01","modified_gmt":"2010-12-21T11:31:01","slug":"a-paz-como-liberdade-pessoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-paz-como-liberdade-pessoal\/","title":{"rendered":"A paz como liberdade pessoal"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;O direito &agrave; liberdade religiosa est&aacute; radicado na pr&oacute;pria dignidade da pessoa humana, cuja natureza transcendente n&atilde;o deve ser ignorada ou negligenciada. Deus criou o homem e a mulher &agrave; sua imagem e semelhan&ccedil;a (cf. Gn 1, 27). Por isso, toda a pessoa &eacute; titular do direito sagrado a uma vida &iacute;ntegra, mesmo do ponto de vista espiritual&rdquo;. Esta afirma&ccedil;&atilde;o resume, sem d&uacute;vida, a mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz de 2011. E concentra, em poucas palavras, a perspectiva b&iacute;blico-crist&atilde; sobre o assunto.<\/p>\n<p>O facto de a pr&oacute;pria Igreja ter, em determinados momentos da sua hist&oacute;ria, contradito esta afirma&ccedil;&atilde;o, sobretudo com certas pr&aacute;ticas menos respeitosas dessa liberdade, n&atilde;o impede que possamos afirmar ser esta a base da leitura evang&eacute;lica sobre as op&ccedil;&otilde;es religiosas dos humanos e sobre a sua import&acirc;ncia nas respectivas exist&ecirc;ncias. Nesse sentido, podemos dizer que estas afirma&ccedil;&otilde;es inequ&iacute;vocas condensam o ponto de chegada de uma hist&oacute;ria, sem d&uacute;vida com muitas incertezas, mas marcada por um caminho que agora se torna claro e que j&aacute; n&atilde;o pode recuar quanto a essa clareza.<\/p>\n<p>Isso &eacute; evidente &ndash; e esta mensagem papal confirma-o &agrave; exaust&atilde;o &ndash; para a pr&aacute;tica eclesial, mesmo no contexto do an&uacute;ncio mission&aacute;rio do Evangelho. Esse an&uacute;ncio ter&aacute; que acontecer sempre no estrito respeito pela liberdade das op&ccedil;&otilde;es pessoais, sem recurso a qualquer tipo de coac&ccedil;&atilde;o &ndash; nem sequer &agrave; coac&ccedil;&atilde;o da manipula&ccedil;&atilde;o ret&oacute;rica ou propagand&iacute;stica, hoje mais eficaz e, por isso, mais perigosa.<\/p>\n<p>Mas esta posi&ccedil;&atilde;o afirma, tamb&eacute;m, que a import&acirc;ncia da liberdade pessoal nesta mat&eacute;ria se aplica a todos os humanos, em todas as circunst&acirc;ncias. Nesse sentido, tamb&eacute;m &eacute; absolutamente ileg&iacute;timo que crist&atilde;os sejam interditos de fazer a sua op&ccedil;&atilde;o crente espec&iacute;fica e de a acompanhar de pr&aacute;ticas correspondentes. Ora &eacute; precisamente o facto de isso n&atilde;o ser ainda pr&aacute;tica plena, na nossa actualidade e em todas as sociedades, que motivou o tema desta mensagem sobre a paz. Porque n&atilde;o haver&aacute; paz verdadeira sem o respeito por esta liberdade fundamental. E essa liberdade pode ser violada de dois modos fundamentais: um, atrav&eacute;s da proibi&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita de op&ccedil;&otilde;es religiosas contr&aacute;rias &agrave;s dominantes socialmente (o que acontece em determinados contextos culturais, por todo o globo); outro, atrav&eacute;s de uma &laquo;expuls&atilde;o&raquo; aberta ou subtil da dimens&atilde;o religiosa de toda a vida p&uacute;blica das sociedades. Prefiro concentrar-me neste segundo aspecto, pois parece-me ser o mais desafiante e problem&aacute;tico, nas sociedades ditas ocidentais.<\/p>\n<p>Sabemos que o denominado processo de &laquo;seculariza&ccedil;&atilde;o&raquo;, a que temos vindo a assistir no ocidente de h&aacute; alguns s&eacute;culos para c&aacute;, sendo ele pr&oacute;prio muito amb&iacute;guo, originou n&atilde;o poucas ambiguidades na forma como pretendemos desenhar a nossa vida social, dita &laquo;laica&raquo;. Em realidade, de facto, muitos aspectos do processo secularizante n&atilde;o o foram, pois apenas pretenderam substituir certas op&ccedil;&otilde;es religiosas (sobretudo as crist&atilde;s) por outras, com estatuto semelhante, isto &eacute;, com pretens&otilde;es na pr&aacute;tica igualmente religiosas, ou seja, relativas ao sentido primeiro e &uacute;ltimo de tudo. Talvez por esse motivo, o pretenso afastamento da dimens&atilde;o religiosa do &acirc;mbito p&uacute;blico tenha correspondido a uma luta de poderes entres op&ccedil;&otilde;es diferentes, com afirma&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a por parte de algumas. Ora isso corresponde a tudo menos &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade pac&iacute;fica. Como tal, a erradica&ccedil;&atilde;o do religioso da esfera p&uacute;blica pode ser interpretada como uma viol&ecirc;ncia que n&atilde;o respeita, precisamente, as op&ccedil;&otilde;es pessoais dos membros de uma sociedade. Ao mesmo tempo, contribui para a erradica&ccedil;&atilde;o de uma dimens&atilde;o da exist&ecirc;ncia fundamental para a humanidade dos humanos, isto &eacute;, para a realiza&ccedil;&atilde;o plena das suas exist&ecirc;ncias em paz &ndash; a &uacute;nica paz verdadeira, porque justa e respeitadora da dignidade humana.<\/p>\n<p>Bento XVI &eacute;, a este prop&oacute;sito, clar&iacute;ssimo: &ldquo;Negar ou limitar arbitrariamente esta liberdade significa cultivar uma vis&atilde;o redutiva da pessoa humana; obscurecer a fun&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da religi&atilde;o significa gerar uma sociedade injusta, porque esta seria desproporcionada &agrave; verdadeira natureza da pessoa; isto significa tornar imposs&iacute;vel a afirma&ccedil;&atilde;o de uma paz aut&ecirc;ntica e duradoura para toda a fam&iacute;lia humana&rdquo;. Ora, se a cultura ocidental recusa, hoje, outras formas de viol&ecirc;ncia religiosa &ndash; ou anti-religiosa &ndash; n&atilde;o se conseguiu libertar ainda completamente desta forma mais subtil de viol&ecirc;ncia. Porque, em realidade, fundamentou essa posi&ccedil;&atilde;o em falsas premissas: &ldquo;A ilus&atilde;o de encontrar no relativismo moral a chave para uma pac&iacute;fica conviv&ecirc;ncia &eacute;, na realidade, a origem da divis&atilde;o e da nega&ccedil;&atilde;o da dignidade dos seres humanos&rdquo;.<\/p>\n<p>Por tudo isto, considero que este elemento da Mensagem coloque, a todos os ocidentais e tamb&eacute;m ao nosso pa&iacute;s, o desafio fundamental: conseguir que a organiza&ccedil;&atilde;o da nossa vida p&uacute;blica seja respeitadora de todas as op&ccedil;&otilde;es religiosas &ndash; incluindo as que se afirmam n&atilde;o religiosas, mas correspondem a convic&ccedil;&otilde;es fundamentais que dever&atilde;o ser respeitadas &ndash; acolhendo essas op&ccedil;&otilde;es como modos importantes de o ser humano realizar a sua verdade. Na organiza&ccedil;&atilde;o dessa vida p&uacute;blica respeitadora e potenciadora das diversas op&ccedil;&otilde;es religiosas, cabe uma tarefa especial &agrave; Igreja Cat&oacute;lica, como vigilante e impulsionadora desse respeito, por todas as op&ccedil;&otilde;es religiosas, desde que essas sejam tamb&eacute;m respeitadoras da liberdade fundamental e das condi&ccedil;&otilde;es de uma conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica. Essa tarefa especial adv&eacute;m &agrave; Igreja da sua pr&oacute;pria miss&atilde;o de promover a paz no mundo, enquanto promo&ccedil;&atilde;o da liberdade da pessoa humana; e adv&eacute;m &agrave; Igreja, em Portugal, pelo facto de ser o grupo religioso maiorit&aacute;rio, por isso principal respons&aacute;vel por cuidar da liberdade religiosa de todos os outros.<\/p>\n<p>Essa responsabilidade cabe, sem d&uacute;vida, tamb&eacute;m ao Estado. E n&atilde;o pode faz&ecirc;-lo de modo simplesmente negativo, abstendo-se de qualquer interven&ccedil;&atilde;o. Ter&aacute; que cuidar da conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica dos crentes das diversas tradi&ccedil;&otilde;es religiosas. E dever&aacute; velar para que as gera&ccedil;&otilde;es futuras assumam esse compromisso pela paz, atrav&eacute;s da liberdade religiosa.<\/p>\n<p>Ora, a prepara&ccedil;&atilde;o das gera&ccedil;&otilde;es futuras s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel pela educa&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Se a liberdade religiosa &eacute; caminho para a paz, a educa&ccedil;&atilde;o religiosa &eacute; estrada privilegiada para habilitar as novas gera&ccedil;&otilde;es a reconhecerem no outro o seu pr&oacute;prio irm&atilde;o e a sua pr&oacute;pria irm&atilde;, com quem caminhar juntos e colaborar para que todos se sintam membros vivos de uma mesma fam&iacute;lia humana, da qual ningu&eacute;m deve ser exclu&iacute;do&rdquo;. N&atilde;o me parece, por isso, que seja poss&iacute;vel construir uma sociedade pac&iacute;fica sem cuidar da educa&ccedil;&atilde;o religiosa, que potencia a escolha livre dos cidad&atilde;os, mesmo a escolha n&atilde;o religiosa. N&atilde;o basta, pois, o combate &agrave; iliteracia tecnol&oacute;gica ou cient&iacute;fica. Porque um dos piores inimigos da liberdade e do respeito &eacute;, precisamente, a ignor&acirc;ncia, sobretudo a ignor&acirc;ncia religiosa.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Duque<\/p>\n<p>Professor Faculdade de Teologia\/UCP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;O direito &agrave; liberdade religiosa est&aacute; radicado na pr&oacute;pria dignidade da pessoa humana, cuja natureza transcendente n&atilde;o deve ser ignorada ou negligenciada. Deus criou o homem e a mulher &agrave; sua imagem e semelhan&ccedil;a (cf. Gn 1, 27). 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