{"id":49073,"date":"2010-12-21T11:30:42","date_gmt":"2010-12-21T11:30:42","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/12\/21\/liberdade-religiosa-e-um-bem-publico\/"},"modified":"2010-12-21T11:30:42","modified_gmt":"2010-12-21T11:30:42","slug":"liberdade-religiosa-e-um-bem-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/liberdade-religiosa-e-um-bem-publico\/","title":{"rendered":"Liberdade religiosa \u00e9 um bem p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;Liberdade religiosa, caminho para a paz&rdquo; &eacute; o tema que sustenta a mensagem de Sua Santidade Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, o dia com que o ano 2011 se anuncia.<\/p>\n<p>1. Serenamente, mas com a firmeza de quem desde sempre se dedicou &agrave; reflex&atilde;o, Sua Santidade conduz-nos numa viagem a lugares de dif&iacute;cil acesso, com um objectivo preciso: mostrar que a paz que ambicionamos como espa&ccedil;o de realiza&ccedil;&atilde;o da nossa identidade pessoal, a paz por que, em comunidade, clamamos como espa&ccedil;o de concretiza&ccedil;&atilde;o alargada da humanidade, &eacute; uma realidade que se constr&oacute;i em liberdade, uma liberdade a assumir como valor que, por isso mesmo, se deve preservar.<\/p>\n<p>Nessa viagem, em que a teologia, a pol&iacute;tica e o direito entram em di&aacute;logo estreito, a hist&oacute;ria do homem em comunidade vai adquirindo particular nitidez, fluindo e entretecendo-se na dignidade da pessoa, que ao longo dos s&eacute;culos se foi culturalmente enriquecendo, ao mesmo tempo que procurando meios de se garantir.<\/p>\n<p>2. Emergindo da dignidade da pessoa, a liberdade clarifica-se no reconhecimento do homem como ser espiritual capaz de se abrir ao transcendente, e assume-se fundamentalmente como liberdade de escolher Deus como princ&iacute;pio e fim de todas as coisas. Com efeito, no reconhecimento do homem como ser espiritual que n&atilde;o s&oacute; se relaciona com os outros mas com o Outro que o transcende e, por essa via, sente o apelo a elevar-se e a permanentemente se ultrapassar, vai impl&iacute;cita a realiza&ccedil;&atilde;o do homem e, logo, tamb&eacute;m, a pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o da comunidade a que pertence.<\/p>\n<p>Poder exercer essa escolha primeira de com Ele se &ldquo;religar&rdquo;, vinculando-se livremente a esse relacionamento, corres-ponde ao exerc&iacute;cio da liberdade religiosa. E n&atilde;o admira que a liberdade religiosa seja compreendida, para o homem e, por seu interm&eacute;dio, para a comunidade, a afirma&ccedil;&atilde;o da capacidade de ambas plenamente se desenvolverem.<\/p>\n<p>3. A partir daqui, dizer que a liberdade religiosa &eacute; um bem ou valor universal, enquanto dele participam todos os homens, tal como dizer que a liberdade religiosa &eacute; um bem ou valor p&uacute;blico, enquanto sobre ele se edificam as diferentes comunidades humanas, j&aacute; que estas se esfor&ccedil;am permanentemente por criar as condi&ccedil;&otilde;es para a maior realiza&ccedil;&atilde;o dos seus membros, torna-se uma evid&ecirc;ncia. E uma evid&ecirc;ncia se torna tamb&eacute;m o reconhecimento da necessidade de conferir um especial estatuto de garantia &agrave; liberdade religiosa, j&aacute; que esta liberdade &eacute;, na sua ess&ecirc;ncia, a afirma&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria dignidade humana, o fundamento primeiro das demais liberdades.<\/p>\n<p>4. No processo hist&oacute;rico de assun&ccedil;&atilde;o da garantia da liberdade perante o poder pol&iacute;tico atrav&eacute;s de documentos jur&iacute;dicos constitutivos dos diferentes Estados modernos, tenham tais documentos a forma de constitui&ccedil;&otilde;es ou declara&ccedil;&otilde;es de direitos, logo, compreensivelmente, a liberdade religiosa foi elevada a valor jur&iacute;dico e pol&iacute;tico fundamental e, com isso, sujeita a estatuto especial no &acirc;mbito do Direito e do Estado.<\/p>\n<p>Recordamos, exemplificativamente, o Bill of Rights da Virg&iacute;nia (1776), que, no artigo 18&ordm;, consagra a liberdade religiosa, bem como o artigo 10&ordm; da Declara&ccedil;&atilde;o dos Direitos do Homem e do Cidad&atilde;o (1789) e o 1&ordm; Aditamento &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos da Am&eacute;rica (1791), ambos, embora em termos distintos, garantindo o exerc&iacute;cio da liberdade religiosa.<\/p>\n<p>Em Portugal, da 1&ordf; Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa, de 1822, &agrave; actual Constitui&ccedil;&atilde;o de 1976, os diplomas fundamentais asseguram, de forma expressa, a liberdade religiosa, com relevo para a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1976. Tudo porque a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1976, ao utilizar o adjectivo &ldquo;inviol&aacute;vel&rdquo; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; liberdade religiosa -&rdquo;A liberdade de &#8230; religi&atilde;o&#8230; &eacute; inviol&aacute;vel&rdquo; -, deixa clara a caracteriza&ccedil;&atilde;o essencial desta liberdade no quadro constitucional. E, como as Constitui&ccedil;&otilde;es Portuguesas, Constitui&ccedil;&otilde;es de in&uacute;meros Estados garantem esta liberdade.<\/p>\n<p>No plano das organiza&ccedil;&otilde;es internacionais, a Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos do Homem, aprovada sob os ausp&iacute;cios da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (1948), tamb&eacute;m reconhece, no artigo 18&ordm;, a liberdade religiosa, e a mesma Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas reafirma-a em 1966, quer no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Pol&iacute;ticos, no artigo 18&ordm;, quer no Pacto Internacional dos Direitos Econ&oacute;-micos, Sociais e Culturais, no artigo 13&ordm;. O mesmo se diga, a n&iacute;vel europeu, da Conven&ccedil;&atilde;o Europeia dos Direitos do Homem (artigo 9&ordm;) e da recente Carta Fundamental dos Direitos da Uni&atilde;o Europeia (artigo 10&ordm;).<\/p>\n<p>6. Mas, ao eleger a liberdade religiosa como tema do Dia Mundial da Paz, Sua Santidade vai mais fundo e obriga-nos a refrescar nas origens a compreens&atilde;o desta liberdade nos tempos turbulentos em que vivemos.<\/p>\n<p>Nesse percurso &agrave;s fontes, a liberdade religiosa ressurge transparente na rela&ccedil;&atilde;o fundamental entre o homem e Deus. N&atilde;o se reconhece na exist&ecirc;ncia de Deus ou de uma certa ideia de Deus. Reconhece-se mais profundamente numa capacidade de relacionamento do homem diferente da que desenvolve com os outros homens, um relacionamento superior, vital, com a Verdade, com o Absoluto.<\/p>\n<p>Neste momento, a liberdade religiosa volve-se em valor que agrega e &eacute; suscept&iacute;vel de gerar la&ccedil;os entre todos os homens. A liberdade religiosa torna-se capaz de construir um &ldquo;caminho para a paz&rdquo;.<\/p>\n<p>7. Por tudo, &ldquo;Liberdade religiosa, caminho para a paz&rdquo;, tema que sustenta a celebra&ccedil;&atilde;o de Sua Santidade Bento XVI do Dia Mundial para a Paz, &eacute; tamb&eacute;m tema que ilumina, tema que nos faz participar da esperan&ccedil;a de um mundo melhor.<\/p>\n<p>Maria da Gl&oacute;ria F.P.D. Garcia<br \/>Professora Faculdade de Direito\/UCP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Liberdade religiosa, caminho para a paz&rdquo; &eacute; o tema que sustenta a mensagem de Sua Santidade Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, o dia com que o ano 2011 se anuncia. 1. 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