{"id":49,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/dar-de-comer-a-quem-tem-fome-agora\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"dar-de-comer-a-quem-tem-fome-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dar-de-comer-a-quem-tem-fome-agora\/","title":{"rendered":"Dar de comer a quem tem fome\u2026 Agora"},"content":{"rendered":"<p>Inten\u00e7\u00e3o do Santo Padre para o Apostolado da Ora\u00e7\u00e3o \u2013 Fevereiro 2003 <!--more--> Que os crist\u00e3os, tomando consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o calamitosa dos povos que sofrem a fome e a sede, se tornem mais solid\u00e1rios para com esses irm\u00e3os.  1. \u00abVinde, benditos de meu Pai (\u2026). Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber\u2026\u00bb (Mt 25, 34-35). Por s\u00e9culos e mil\u00e9nios, a fome foi uma amea\u00e7a constante presente no quotidiano das popula\u00e7\u00f5es humanas. Era o resultado da incapacidade para enfrentar as situa\u00e7\u00f5es de escassez, quando a natureza se mostrava agreste e os campos n\u00e3o produziam alimentos, ou quando os desmandos dos poderosos, as guerras e as pestes impediam o cultivo dos campos. Basta ler o Antigo Testamento para perceber como a fome amea\u00e7ava, ciclicamente, a sobreviv\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es inteiras. Compreende-se, por isso, que Jesus tenha inclu\u00eddo no seu discurso sobre o \u00abjulgamento final\u00bb, logo no in\u00edcio, as \u00abobras de miseric\u00f3rdia\u00bb relativas aos esfomeados e aos sedentos. Mas n\u00e3o apenas por isso nem essencialmente por isso. 2. Jesus conhecia a sociedade do seu tempo, conhecia as desigualdades sociais, a situa\u00e7\u00e3o de tantos que passavam fome enquanto os ricos se banqueteavam. E tinha consci\u00eancia plena da injusti\u00e7a desta situa\u00e7\u00e3o e de como ela feria o plano de Deus, Pai comum de todos os homens. Veja-se, a prop\u00f3sito, a par\u00e1bola do pobre L\u00e1zaro e do rico avarento (cfr. Lc 16, 19-31). A prega\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica quase sempre aproveita esta par\u00e1bola apenas para meditar sobre a realidade do c\u00e9u e do inferno \u2013 e, \u00e0s vezes, para acentuar a paci\u00eancia a ter neste mundo, face \u00e0s priva\u00e7\u00f5es, em vista da recompensa no outro! Ora, a par\u00e1bola \u00e9 tamb\u00e9m, talvez essencialmente, uma fort\u00edssima den\u00fancia da injusti\u00e7a social e da falta de humanidade do rico (que nem sequer tem nome, de t\u00e3o desumano!), diante do pobre L\u00e1zaro (esse sim, plenamente humano, ao ponto de ser chamado pelo nome pr\u00f3prio). \u00c9 a desumanidade do rico, e n\u00e3o a riqueza, que o conduz ao \u00ablugar do tormento\u00bb; e \u00e9 a humanidade do pobre, e n\u00e3o a pobreza, que o leva \u00abao seio de Abra\u00e3o\u00bb. 3. Dois mil anos depois, a actualidade das palavras de Jesus anunciando a \u00abmat\u00e9ria\u00bb do julgamento final \u00e9 evidente: contam-se por milh\u00f5es as pessoas subnutridas; continuam a morrer pessoas \u00e0 fome, n\u00e3o algumas, mas milh\u00f5es, todos os anos; milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel, n\u00e3o sabem o que \u00e9 ter \u00e1gua canalizada em casa\u2026 nem sequer sabem o que \u00e9 ter uma casa. E, hoje, na maior parte dos casos, estas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o resultam da impot\u00eancia humana face \u00e0 natureza, s\u00e3o antes fruto da desavergonhada apropria\u00e7\u00e3o por alguns daquilo que deveria ser patrim\u00f3nio de todos. S\u00e3o fruto da sujei\u00e7\u00e3o de povos inteiros \u00e0 gan\u00e2ncia, prepot\u00eancia e desumanidade das classes dirigentes de muitos pa\u00edses, mas tamb\u00e9m da indiferen\u00e7a dos ricos (neste caso, os povos ricos do chamado \u00abprimeiro mundo\u00bb), face \u00e0 mis\u00e9ria dos pobres (os povos do \u00abterceiro mundo\u00bb) \u2013 indiferen\u00e7a patente na recusa em abrir as fronteiras \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses pobres, ou na destrui\u00e7\u00e3o de alimentos para evitar que os pre\u00e7os baixem no mercado mundial, ou no facto de se pagar aos agricultores para produzirem menos ou n\u00e3o produzirem&#8230; Claro que h\u00e1 \u00abboas\u00bb e \u00abracionais\u00bb explica\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas para tudo isto. O facto, por\u00e9m, permanece: milh\u00f5es de pessoas passam fome, quando existem meios para evitar que tal aconte\u00e7a. Esta foi a vergonha da civiliza\u00e7\u00e3o na segunda metade do s\u00e9culo XX e continua a ser a vergonha da humanidade no s\u00e9culo XXI. O facto de, no recente F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial, que decorreu em Davos, na Su\u00ed\u00e7a, nos finais do m\u00eas de Janeiro, se ter criado uma comiss\u00e3o de peritos para analisar, cada ano, os progressos feitos no sentido de, at\u00e9 2015(!), se reduzir \u00abpara metade\u00bb o n\u00famero de pessoas que passam fome \u00e9 a medida desta vergonha. 4. As palavras de Jesus continuam a ressoar aos ouvidos dos seus disc\u00edpulos: \u00abtive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber\u00bb. N\u00e3o apenas porque destes esmola ao \u00abpobrezinho\u00bb com fome, mas tamb\u00e9m, e essencialmente, porque fizestes o que estava ao vosso alcance para alterar as condi\u00e7\u00f5es que o levaram \u00e0 fome. \u00c9 esta a exig\u00eancia maior: mudar estruturas injustas, em primeiro lugar aquelas estruturas mentais que levam a considerar \u00abnormal\u00bb haver gente a passar fome. E, pelo caminho, enquanto as estruturas n\u00e3o mudam, \u00abdar de comer a quem tem fome\u00bb, aproveitando as estruturas j\u00e1 existentes \u2013 porque quem tem fome, n\u00e3o tem tempo para esperar \u00abat\u00e9 2015\u00bb, precisa de comer \u00abagora\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inten\u00e7\u00e3o do Santo Padre para o Apostolado da Ora\u00e7\u00e3o \u2013 Fevereiro 2003<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[285],"class_list":["post-49","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vaticano","tag-patrimonio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}