{"id":48825,"date":"2010-12-07T23:03:39","date_gmt":"2010-12-07T23:03:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/12\/07\/homilia-de-d-manuel-clemente-nas-exequias-de-d-julio-tavares-rebimbas\/"},"modified":"2010-12-07T23:03:39","modified_gmt":"2010-12-07T23:03:39","slug":"homilia-de-d-manuel-clemente-nas-exequias-de-d-julio-tavares-rebimbas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-clemente-nas-exequias-de-d-julio-tavares-rebimbas\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Clemente nas ex\u00e9quias de D J\u00falio Tavares Rebimbas"},"content":{"rendered":"<p><strong>D. J&uacute;lio, bispo do Porto e amigo para sempre<\/strong><\/p>\n<p>Tr&ecirc;s meses depois de nos termos reunido nesta catedral para celebrar as ex&eacute;quias de D. Armindo Lopes Coelho, eis-nos de novo aqui, pedindo agora o eterno repouso de D. J&uacute;lio Tavares Rebimbas, Arcebispo-Bispo em&eacute;rito do Porto, na feliz recompensa dos seus muitos e generosos trabalhos pastorais.<\/p>\n<p>Muitos e generosos, de facto foram. E com uma cad&ecirc;ncia especialmente rara e exigente, para qualquer percurso episcopal.<\/p>\n<p>Oriundo do Presbit&eacute;rio de Aveiro, onde foi not&aacute;vel p&aacute;roco de &Iacute;lhavo, a&iacute; deixando larga obra pastoral e social, percorreu depois Portugal Continental de Sul a Norte, sendo sucessivamente Bispo do Algarve, Auxiliar do Patriarca de Lisboa (com o t&iacute;tulo de Arcebispo de Mitilene), 1&ordm; Bispo de Viana do Castelo e finalmente Bispo do Porto (1982-1997), na exigente sucess&atilde;o de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes.<\/p>\n<p>Em todos estes relevantes cargos eclesiais, o Senhor D. J&uacute;lio foi dedicado Pastor do Povo de Deus, concretizando o esp&iacute;rito e as determina&ccedil;&otilde;es do Conc&iacute;lio Vaticano II, quer nas iniciativas que tomou, quer no seu modo cordial e pr&oacute;ximo de estar e proceder com todos. Foi constante amigo do seu clero e deixou pelas Dioceses que serviu um rasto de gratid&atilde;o e simpatia, inteiramente merecidas.<\/p>\n<p>Desde a resigna&ccedil;&atilde;o, residia na Casa Diocesana de Vilar, estrutura de grande import&acirc;ncia para a ac&ccedil;&atilde;o pastoral, que edificou com muito empenho e bem denota a sua clarivid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; com este brev&iacute;ssimo curr&iacute;culo que aqui lembramos D. J&uacute;lio e agradecemos a Deus o grande dom da sua vida. Curr&iacute;culo verdadeiro escreveu ele no cora&ccedil;&atilde;o de tanta gente &#8211; cl&eacute;rigos, religiosos e leigos &ndash; que acompanhou em horas boas ou dif&iacute;ceis, com grande solicitude e amizade repetida. Mais verdadeiro ainda &eacute; o que indelevelmente ficou no pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o de Deus, onde &ldquo;a caridade nunca acabar&aacute;&rdquo;.<\/p>\n<p>Ouvimos no Evangelho que &ldquo;naquele tempo, ao ver a multid&atilde;o, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Rodearam-no os disc&iacute;pulos e Ele come&ccedil;ou a ensin&aacute;-los, dizendo: &lsquo;Bem-aventurados os pobres em esp&iacute;rito, porque deles &eacute; o reino dos C&eacute;us&hellip;&rsquo;&rdquo;.<\/p>\n<p>Deixai-me repartir convosco o sentimento que agora mantenho, precisamente a partir deste trecho: Aquele olhar de Jesus sobre a multid&atilde;o incide particularmente sobre D. J&uacute;lio; aquela bem-aventuran&ccedil;a enunciada, dirige-se especialmente a ele.<\/p>\n<p>Esp&iacute;rito pobre e dispon&iacute;vel teve-o ele em alt&iacute;ssimo grau, s&oacute; assim se explicando a cad&ecirc;ncia de nomea&ccedil;&otilde;es que aceitou, como que montando e desmontando a tenda dos antigos patriarcas, para seguir o apelo divino, eclesialmente mediado.<\/p>\n<p>Foram efectivamente muitas e variadas as suas sucessivas moradas, inesperadas sempre, no tempo e na localiza&ccedil;&atilde;o. De Aveiro ao Algarve, onde notavelmente estreou o seu episcopado, h&aacute; alguma semelhan&ccedil;a ribeirinha, e a&iacute; se sentiria bem, na primeira aplica&ccedil;&atilde;o das indica&ccedil;&otilde;es conciliares. (A&iacute; mesmo o conheci na minha juventude, quando nos visitou numa actividade escutista, perto de Faro, deixando em todos agradabil&iacute;ssima impress&atilde;o.)<\/p>\n<p>Menos expect&aacute;vel e quase in&eacute;dita foi a nomea&ccedil;&atilde;o seguinte, para Auxiliar do n&oacute;vel Patriarca de Lisboa, D. Ant&oacute;nio Ribeiro, de saudosa mem&oacute;ria. N&atilde;o me lembro de caso assim, de algu&eacute;m passar de Bispo Diocesano para Auxiliar dum colega mais jovem e mais recente no episcopado. Mas com D. J&uacute;lio n&atilde;o houve hesita&ccedil;&atilde;o nem problema e a sua estada em Lisboa foi sempre simples, prest&aacute;vel e animadora para todos n&oacute;s, naqueles tempos complexos e perplexos de antes e depois de 1974.<\/p>\n<p>Contando j&aacute; servi&ccedil;o em tr&ecirc;s Dioceses, foi chamado a inaugurar a de Viana do Castelo, com tudo o que implica organizar de raiz uma nova Igreja local. A&iacute; voltou D. J&uacute;lio para o Norte, com a mesma discri&ccedil;&atilde;o e id&ecirc;ntico &acirc;nimo, recome&ccedil;ando sempre.<\/p>\n<p>Alguns anos passados, assumiu a sucess&atilde;o de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes, exigente para qualquer prelado, dada a excepcional craveira episcopal, cultural e c&iacute;vica de quem tinha de substituir. E assim chegou D. J&uacute;lio a esta catedral que foi a sua, durante quinze preenchidos anos, de muito labor e solicitude. Em todos deixou a impress&atilde;o feliz que s&oacute; deixam os homens bons, em tudo ficou a marca positiva de quem s&oacute; queria acertar. No final do seu trabalho portuense, a Diocese ganhara muito do cariz pessoal do seu Bispo, em comunh&atilde;o, simplicidade e bom esp&iacute;rito. Esp&iacute;rito de disponibilidade evang&eacute;lica, precisamente essa que &eacute; conatural ao reino dos C&eacute;us.<\/p>\n<p>Com o amor ao clero e a aten&ccedil;&atilde;o aos pobres, juntava D. J&uacute;lio a acertada vis&atilde;o do trabalho conjunto de Secretariados, Associa&ccedil;&otilde;es e Movimentos. Isto mesmo o levou a perspectivar e concluir a Casa Diocesana de Vilar, de que aproveitamos tanto. Obra de grande envergadura, f&ecirc;-la com a determina&ccedil;&atilde;o consequente e discreta de quem n&atilde;o desiste das ideias boas e necess&aacute;rias. Estou certo de que a Diocese n&atilde;o teria hoje a coes&atilde;o que apresenta sem esta excelente iniciativa, que tanto aproxima militantes e crist&atilde;os em geral. &#8211; Tamb&eacute;m por isto, muito obrigado D. J&uacute;lio!<\/p>\n<p>Como fiz com o Senhor D. Armindo, tamb&eacute;m vou incluir aqui, ao modo de testamento pastoral, algumas das &uacute;ltimas reflex&otilde;es de D. J&uacute;lio, praticamente na sua despedida de Bispo diocesano. Retiro-as dum escrito intitulado Palavra aos seminaristas, datado de 2 de Maio de 1997.<\/p>\n<p>Alguns par&aacute;grafos referem-se ao clero, cuja alma conhecia bem, com pleno envolvimento paterno. Vivera com os padres de cinco dioceses sucessivas os sonhos e os dramas de antes, durante e depois do Conc&iacute;lio. Considerava que &ldquo;sendo aqueles que mais de perto e mais dolorosamente sofreram os duros golpes dos &uacute;ltimos cinquenta anos, tamb&eacute;m foram os que mais assistiram os outros, sem eles, na maioria dos casos, terem consci&ecirc;ncia da assist&ecirc;ncia devida&rdquo;. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil adivinhar aqui a refer&ecirc;ncia pessoal aos muitos que acompanhara discretamente. Precisamente aos muitos que agora, j&aacute; diante de Deus, agradecem a solicitude de D. J&uacute;lio. Mas, a atitudes destas, s&oacute; podemos aludir.<\/p>\n<p>Dos padres fala ainda mais, no referido escrito. Homem de Igreja e para a Igreja, assim os divisava, como se divisaria a si mesmo: &ldquo;A dimens&atilde;o pastoral da comunh&atilde;o eclesial leva-nos a considerar uma das mais profundas atitudes espirituais do presb&iacute;tero, a sua eclesialidade. Com efeito, o minist&eacute;rio presbiteral n&atilde;o &eacute; um minist&eacute;rio isolado [&hellip;]. A sua tarefa &eacute; um trabalho eclesial em que est&aacute; presente um grande amor &agrave; Igreja, um cuidado particular pela sua unidade e uma atitude predominantemente reconciliadora nela&rdquo;. Todos quantos privaram com D. J&uacute;lio reconhec&ecirc;-lo-&atilde;o nestas linhas, como o primeiro cumpridor do que estipula aos padres: grande amor &agrave; Igreja, cuidado pela sua unidade, atitude reconciliadora sempre.<\/p>\n<p>Finalmente o programa &ndash; o seu pr&oacute;prio e especial programa -, quando postula &ldquo;sacerdotes que evangelizem, tentando abrir o cora&ccedil;&atilde;o dos nossos contempor&acirc;neos &agrave; experi&ecirc;ncia de Deus, para que reencontrem a dignidade do homem procurando e fortalecendo a f&eacute;, com aten&ccedil;&atilde;o preferencial aos pobres e oprimidos, [&hellip;] suscitando na Igreja um laicado respons&aacute;vel, com sentido mission&aacute;rio, com todas as formas de associativismo cat&oacute;lico; cuidando especialmente das voca&ccedil;&otilde;es sacerdotais e consagradas, voca&ccedil;&otilde;es de servi&ccedil;o, de entrega ao pr&oacute;ximo&hellip;&rdquo;.<\/p>\n<p>Amados irm&atilde;os e irm&atilde;s aqui presentes, como presente est&aacute; D. J&uacute;lio junto de Deus: aquele que sufragamos, de algum modo nos sufraga a n&oacute;s, para cumprirmos este programa que nos deixou e nada perdeu em treze anos passados.<\/p>\n<p>O seu escrito acabava com palavras que traduziam a sua alma sempre generosa: &ldquo;At&eacute; sempre, amigos e irm&atilde;os. Alegria e paz para todos v&oacute;s&hellip;&rdquo;. Digamos ent&atilde;o: &ldquo;- At&eacute; sempre, Senhor D. J&uacute;lio! Alegria e paz tamb&eacute;m para si, que tanto as comunicou a todos!&rdquo;.<\/p>\n<p>Em nome pessoal e da Diocese, agrade&ccedil;o profundamente a Monsenhor Virg&iacute;lio Vieira Resende, a D&ordf; Miraldina de Oliveira Novo e a quantos &ndash; ao longo da vida, ou em tempos mais pr&oacute;ximos &ndash; acompanharam de perto o Senhor D. J&uacute;lio, com grande solicitude e amizade.<\/p>\n<p>S&eacute; do Porto, 7 de Dezembro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>+ Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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