{"id":48661,"date":"2010-11-30T11:17:31","date_gmt":"2010-11-30T11:17:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/30\/cristaos-na-palestina\/"},"modified":"2010-11-30T11:17:31","modified_gmt":"2010-11-30T11:17:31","slug":"cristaos-na-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cristaos-na-palestina\/","title":{"rendered":"Crist\u00e3os na Palestina"},"content":{"rendered":"<p>Adel Sidarus <!--more--> <\/p>\n<p>Uma das preocupa&ccedil;&otilde;es do recente S&iacute;nodo dos bispos do M&eacute;dio Oriente em Roma, era o &ecirc;xodo em massa das popula&ccedil;&otilde;es crist&atilde;s dos v&aacute;rios pa&iacute;ses da regi&atilde;o e a consequente diminui&ccedil;&atilde;o do seu n&uacute;mero, precisamente na regi&atilde;o que viu nascer e se desenvolver a religi&atilde;o inspirada pela vida e palavra de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>No Dia internacional da Palestina, cabe aqui falar dos crist&atilde;os da Terra Santa em particular.<\/p>\n<p>Em 1948, na v&eacute;spera da proclama&ccedil;&atilde;o unilateral da cria&ccedil;&atilde;o do Estado de Israel, os crist&atilde;os formavam 28% da popula&ccedil;&atilde;o palestina. Hoje, numa popula&ccedil;&atilde;o de quase sete milh&otilde;es, eles n&atilde;o representam mais que 2 a 3%!<\/p>\n<p>Dez anos depois da data nefasta de 1948, 80% dos crist&atilde;os palestinos tinham j&aacute; optado pelo ex&iacute;lio. Enquanto nos anos cinquenta, a popula&ccedil;&atilde;o crist&atilde; de Bel&eacute;m se situava nos 2\/3 do total, hoje j&aacute; n&atilde;o perfaz mais de 1\/3. Em Jerusal&eacute;m, outrora pouco habitada por mu&ccedil;ulmanos e judeus, mal se contabilizam hoje 12% de crist&atilde;os.<\/p>\n<p>N&atilde;o queria hoje demorar-me sobre este fen&oacute;meno como tal, analisar os seus mecanismos espec&iacute;ficos e as motiva&ccedil;&otilde;es &iacute;ntimas dos seus protagonistas. Gostava antes de responder a uma quest&atilde;o latente de muitos europeus, alimentada por uma certa propaganda israelita: perante o secular conflito israelo-palestino, essa emigra&ccedil;&atilde;o em massa n&atilde;o indicia uma posi&ccedil;&atilde;o crist&atilde; basicamente diferente da mu&ccedil;ulmana!<\/p>\n<p>Numa entrevista n&atilde;o muito velha com D. Michel Sabbah, patriarca latino em&eacute;rito de Jerusal&eacute;m, &agrave; quest&atilde;o sobre a situa&ccedil;&atilde;o dos crist&atilde;os na Palestina, respondeu que era exactamente igual para todos os &aacute;rabes do pa&iacute;s: &ldquo;Crist&atilde;os ou mu&ccedil;ulmanos, fazemos parte do mesmo povo e partilhamos a mesma cultura, a mesma hist&oacute;ria. Somos todos um povo oprimido por um outro povo. Um povo cuja terra &eacute; ocupada militarmente por um povo alheio.&rdquo;<\/p>\n<p><strong>&#8211; E o que tem a dizer &agrave;queles que defendem o choque das civiliza&ccedil;&otilde;es e das religi&otilde;es?<\/strong><\/p>\n<p>Responde o prelado: &ldquo;H&aacute;, pois, um confronto, mas ele n&atilde;o &eacute; nem religioso, nem cultural. &Eacute; simplesmente pol&iacute;tico! O Ocidente trata o Oriente e os que nele vivem como menores. Enquanto existir essa rela&ccedil;&atilde;o entre dominante e dominado, n&atilde;o sairemos da espirale da viol&ecirc;ncia. As ra&iacute;zes do terrorismo mundial est&atilde;o l&aacute;. O Oriente n&atilde;o &eacute; dono do seu destino, &eacute; submetido &agrave; vontade e dom&iacute;nio ocidental.<\/p>\n<p>Assim, para quem pretende estigmatizar o isl&atilde;o: &ldquo;o problema n&atilde;o &eacute; o isl&atilde;o, mas o confronto entre o Oriente e o Ocidente (eu especificaria: dito crist&atilde;o&#8230;). O colonialismo hist&oacute;rico (que durou cerca de dois s&eacute;culos&#8230;) cedeu o lugar a um outro mais sofisticado mas n&atilde;o menos real.&rdquo;<\/p>\n<p>Esta posi&ccedil;&atilde;o global duma autoridade eclesi&aacute;stica palestina, reflecte perfeitamente o que sente qualquer crist&atilde;o &aacute;rabe com o m&iacute;nimo de sentido cr&iacute;tico e o distanciamento necess&aacute;rio em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s dificuldades e impasses conjunturais que ele e os seus conterr&acirc;neos conhecem. De resto, encontramo-la repetida e variadamente expressa em muitas cartas pastorais emitidas pela assembleia dos patriarcas e bispos da Palestina e Israel, por ocasi&atilde;o p. ex. do Natal, do Ano novo (Dia mundial da Paz&#8230;) ou da P&aacute;scoa &#8209; cartas de que faz eco, esporadicamente, a imprensa portuguesa.<\/p>\n<p align=\"center\">*****<\/p>\n<p>Como &eacute; que esses discursos e tomadas de posi&ccedil;&atilde;o se concretizaram no terreno ao longo dos tempos, ao longo dos mais de sessenta anos que perdura o conflito israelo-palestino, perante a indiferen&ccedil;a da comunidade internacional?<\/p>\n<p>Pouca gente saber&aacute; que os fundadores das forma&ccedil;&otilde;es mais radicais do movimento nacional palestino, o FDLP e o FPLP, eram crist&atilde;os: Nayef Hawatmeh e George Habbash respectivamente. Obviamente trata-se duma perten&ccedil;a ao cristianismo sociol&oacute;gico, pois que eles eram militantes comunistas. A esse respeito, durante d&eacute;cadas em Israel, era este tipo de crist&atilde;os que representava a ossatura &ndash; se me puder exprimir assim &ndash; do Partido comunista, o &uacute;nico partido n&atilde;o sionista autorizado no pa&iacute;s!<\/p>\n<p>Tudo isto demonstra bem que desde a sua origem, o conflito israelo-palestino n&atilde;o &eacute; religioso (judeo-mu&ccedil;ulmano), mas verdadeiramente nacionalista, opondo colonos europeus com uma ideologia sionista racista aos habitantes de um dado territ&oacute;rio, na ocorr&ecirc;ncia um povo pluri-religioso (lembro que havia judeus palestinos &aacute;rabes ou arab&oacute;fonos, que foram ganhos &agrave; causa sionista e integrados mais tarde no Estado de Israel&#8230;).<\/p>\n<p>Os crist&atilde;os estiveram sempre no &acirc;mago desse conflito nacionalista, laico na sua globalidade (!), contribuindo grandemente na defini&ccedil;&atilde;o da luta respectiva. Ao lado dos combatentes no terreno, encontramos universit&aacute;rios exilados, como o saudoso Edward Sa&iacute;d, ou militantes dos direitos humanos, como Raj&aacute; Shehadeh. N&atilde;o &eacute; de resto pouco relevante que o l&iacute;der Yasser Arafat tenha esposado um crist&atilde;: se tivesse existido uma qualquer diverg&ecirc;ncia de princ&iacute;pio entre crist&atilde;os e mu&ccedil;ulmanos perante a quest&atilde;o nacional, isso n&atilde;o podia acontecer.<\/p>\n<p>Hoje em dia, s&atilde;o crist&atilde;os os artistas e intelectuais que criticam mais radicalmente Israel &ndash; criticas objectivas &agrave; luz dos direitos humanos e do direito internacional. Mencionemos o rec&eacute;m-falecido romanceiro Emile Habib, o escritor Ant&uacute;n Shamm&aacute;s, os cineastas Eleyya Suleim&aacute;n e H&aacute;ni Abu &Aacute;ssad (que vivem hoje todos no ex&iacute;lio), ou ainda o jornalista Antoine Shalh&aacute;t que, por um motivo desconhecido, &eacute; objecto de pris&atilde;o domicili&aacute;ria e interdito de sair do territ&oacute;rio israelita. O mais eminente pol&iacute;tico nacionalista &aacute;rabe em Israel &eacute; Azmi Bishara, tamb&eacute;m ele crist&atilde;o, e que se encontra perseguido pela justi&ccedil;a israelita al&eacute;m de ser particularmente maltratado pelos seus colegas do Knesset.<\/p>\n<p>Esse comprometimento resoluto dos crist&atilde;os &aacute;rabes, quer em territ&oacute;rio israelita, quer em territ&oacute;rio hoje palestino, incomoda muito os sionistas israelitas. Eles procuram todos os meios para encoraj&aacute;-los &ndash; para n&atilde;o dizer for&ccedil;&aacute;-los &ndash; a irem embora: uma verdadeira limpeza &eacute;tnico-religiosa (de que se passa aqui os pormenores e as estrat&eacute;gias&#8230;), que lhes permitiriam, de seguida, imputar esse &ecirc;xodo exclusivamente &agrave;s intimida&ccedil;&otilde;es e viol&ecirc;ncias perpetradas pelos mu&ccedil;ulmanos&#8230;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Adel Sidarus<\/em><\/p>\n<p align=\"right\">(&Eacute;vora, 29 de Novembro de 2010)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adel Sidarus<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[165,189,267,317],"class_list":["post-48661","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-dia-mundial-da-paz","tag-direitos-humanos","tag-natal","tag-terra-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48661"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48661\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}