{"id":4866,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/de-portugal-para-santiago\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"de-portugal-para-santiago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/de-portugal-para-santiago\/","title":{"rendered":"De Portugal para Santiago"},"content":{"rendered":"<p>Testemunho do Pe. Jos\u00e9 Antunes da Silva sobre as peregrina\u00e7\u00f5es a Santiago de Compostela <!--more--> A tradi\u00e7\u00e3o, mais ou menos lend\u00e1ria, diz que S\u00e3o Tiago anunciou o Evangelho na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Regressado a Jerusal\u00e9m, a\u00ed foi martirizado. Depois, dois dos seus disc\u00edpulos teriam trasladado o seu corpo numa barca para ser sepultado na regi\u00e3o onde evangelizara. Atravessaram o mar Mediterr\u00e2neo, entraram no oceano Atl\u00e2ntico e aportaram na costa da actual Galiza. Vencidos alguns obst\u00e1culos, sepultaram o corpo num bosque da regi\u00e3o.  Durante a ocupa\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana perdeu-se o rasto do local onde se encontrava o t\u00famulo do Ap\u00f3stolo. No s\u00e9culo IX deu-se o \u201cdescobrimento\u201d do t\u00famulo e come\u00e7ou a erguer-se a catedral. Em breve, Santiago de Compostela transformou-se num dos lugares de peregrina\u00e7\u00e3o mais importantes do cristianismo, a par de Jerusal\u00e9m e de Roma. De toda a Europa come\u00e7aram a afluir peregrinos dando origem a numerosos caminhos. O itiner\u00e1rio mais famoso e conhecido \u00e9 o chamado caminho franc\u00eas que atravessa todo o Norte de Espanha desde os Pirin\u00e9us, onde convergiam quatro grandes rotas de peregrinos provenientes de todos os pa\u00edses da Europa.  Desde cedo, tamb\u00e9m os crist\u00e3os de Portugal come\u00e7aram a peregrinar ao t\u00famulo do Ap\u00f3stolo Tiago. Atra\u00eddos pela sacralidade do lugar onde &#8211; segundo a tradi\u00e7\u00e3o &#8211; repousam os restos mortais do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Tiago, dirigiam-se para Compostela pelos mais variados motivos: pagar promessas, cumprir penit\u00eancias ou mera curiosidade. O cont\u00ednuo fluxo de peregrinos &#8211; sobretudo na Idade M\u00e9dia &#8211; foi tra\u00e7ando caminhos que, dirigindo-se para Norte, conduziam \u00e0 Galiza. Tal como a corrente de um rio a caminho da foz vai engrossando com a \u00e1gua dos seus afluentes, tamb\u00e9m os caminhos que tinham origem em diversos pontos do territ\u00f3rio portugu\u00eas iam convergindo uns nos outros at\u00e9 desembocarem em duas grandes rotas ao entrar na Galiza: uma pelo litoral, a partir de Valen\u00e7a-Tui e outra pelo interior a partir de Chaves.  O caminho que, vindo do Sul, segue pelo litoral \u00e9 conhecido como o caminho portugu\u00eas. Ao longo dos s\u00e9culos, este caminho foi utilizado n\u00e3o s\u00f3 por gente simples e an\u00f3nima, mas tamb\u00e9m por reis e por santos, nomeadamente o rei D. Sancho II, a rainha Santa Isabel e o rei D. Manuel I. Em 1594, o padre italiano Juan Batista Confalonieri viajou de Lisboa a Santiago, acompanhando Fabio de Montalto, Patriarca de Jerusal\u00e9m, deixando-nos um relato interessante e pormenorizado do caminho portugu\u00eas, cheio de coment\u00e1rios curiosos sobre os locais por onde ia passando. Confalonieri e companheiros partiram de Lisboa em direc\u00e7\u00e3o a Santar\u00e9m e, depois, seguiram por Goleg\u00e3, Tomar, Coimbra, \u00c1gueda, Grij\u00f3, Porto, Vila do Conde, Rates, Barcelos, Ponte de Lima e Valen\u00e7a. Entraram na Galiza por Tui e, passando por Redondela, Pontevedra e Padr\u00f3n, chegaram a Santiago. Hoje o caminho portugu\u00eas segue basicamente o mesmo percurso, apesar de j\u00e1 n\u00e3o ser poss\u00edvel percorrer o antigo caminho medieval na sua totalidade porque a constru\u00e7\u00e3o de estradas e de habita\u00e7\u00f5es destruiu alguns tro\u00e7os.  Para al\u00e9m deste percurso existem outros em territ\u00f3rio portugu\u00eas que foram utilizados no passado e que, tamb\u00e9m hoje o s\u00e3o, porque o caminho come\u00e7a quase sempre no local onde o peregrino reside.  No Porto alguns peregrinos optavam por seguir ao longo da costa por Vila do Conde e Viana do Castelo, atravessando o rio Minho em Caminha, Cerveira ou Valen\u00e7a. Outros seguiam por Braga. Aqui, alguns dirigiam-se para Ponte de Lima onde retomavam o caminho principal; outros atravessavam a fronteira do Ger\u00eas, na Portela do Homem e seguiam para Ourense. Os peregrinos oriundos do interior de Portugal tinham basicamente duas op\u00e7\u00f5es: ou se aproximavam do litoral tomando o caminho que vinha do Sul ou continuavam pelo interior cruzando a fronteira nas zonas de Chaves ou de Bragan\u00e7a at\u00e9 entroncar no caminho do Sudeste, tamb\u00e9m conhecido como a Via da Prata e, passando por Verin e Ourense, chegavam a Santiago. Havia ainda outros caminhos com alguma import\u00e2ncia, nomeadamente saindo de Braga em direc\u00e7\u00e3o a Ponte da Barca e entrando na Galiza por Mon\u00e7\u00e3o. Todavia, todos os caminhos do litoral iam confluindo num \u00fanico caminho que, a partir da zona de Tui, utiliza um \u00fanico trajecto e \u00e9 conhecido como o caminho portugu\u00eas. Das margens do rio Minho em Tui at\u00e9 \u00e0 catedral de Santiago s\u00e3o 115 quil\u00f3metros, pelo caminho a p\u00e9. Est\u00e1 bem sinalizado, com as famosas amarelas e, no territ\u00f3rio galego, servido por um excelente conjunto de albergues de peregrinos. O caminho portugu\u00eas est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o jacobeia por dois epis\u00f3dios. Um dos s\u00edmbolos do caminho de Santiago \u00e9 a concha ou vieira. Para al\u00e9m da sua utilidade pr\u00e1tica (podia servir para beber \u00e1gua das fontes), as conchas est\u00e3o associadas a um epis\u00f3dio lend\u00e1rio. Diz a lenda que um cavaleiro das Terras da Maia viu ao largo da costa a barca que transportava o corpo do Ap\u00f3stolo Tiago. Num \u00e1pice, o seu cavalo precipitou-se pelo mar adentro em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 barca. Pouco depois, ambos emergiram das \u00e1guas do Atl\u00e2ntico e regressaram a terra, s\u00e3os e salvos, cobertos de conchas. O outro epis\u00f3dio est\u00e1 relacionado com a cidade de Padr\u00f3n, j\u00e1 no tro\u00e7o final do caminho portugu\u00eas. Reza a tradi\u00e7\u00e3o que foi ali, nas margens do rio Sar, que os disc\u00edpulos de S\u00e3o Tiago amarraram o barco, que trazia o seu corpo, numa pequena coluna de pedra. O nome da cidade vem dessa pedra \u00e0 qual foi amarrada a barca do Ap\u00f3stolo.  A entrada tradicional dos peregrinos do caminho portugu\u00eas na velha urbe compostelana faz-se pela Rua do Franco, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 Pra\u00e7a do Obradoiro. Tradicionalmente, os peregrinos provindos do caminho portugu\u00eas e da Via da Prata entravam na catedral pela porta da Pra\u00e7a das Praterias. Os que percorriam os caminhos do norte, ingl\u00eas e franc\u00eas, faziam a entrada pela Porta do Para\u00edso, na Pra\u00e7a Acibecheria. Todavia, nos Anos Santos \u2013 como acontece este ano \u2013 todos os caminhos confluem na Pra\u00e7a da Quintana e a entrada na catedral faz-se atrav\u00e9s da Porta Santa ou do Perd\u00e3o. Ap\u00f3s o per\u00edodo \u00e1ureo das peregrina\u00e7\u00f5es medievais, o caminho de Santiago foi perdendo import\u00e2ncia, ao ponto de quase desaparecerem os peregrinos a p\u00e9. A viragem deu-se a partir dos anos 80 do s\u00e9culo XX. Segundo dados da catedral de Santiago, em 1986 fizeram a peregrina\u00e7\u00e3o a p\u00e9 4.918 pessoas. Em 2003, o n\u00famero subiu para 293.146. Destes, cerca de 16 mil utilizaram o caminho portugu\u00eas.  Actualmente, muitos crist\u00e3os redes-cobriram o valor da peregrina\u00e7\u00e3o a p\u00e9 e o seu significado como met\u00e1fora para a caminhada espiritual. Por seu lado, a sociedade civil descobriu o caminho de Santiago como itiner\u00e1rio cultural. Aos primeiros cabe divulgar o sentido crist\u00e3o do caminho; a todos compete preservar e proteger uma rede de percursos que s\u00e3o patrim\u00f3nio cultural da humanidade. Jos\u00e9 Antunes da Silva, SVD    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Testemunho do Pe. 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