{"id":48656,"date":"2010-11-30T10:55:53","date_gmt":"2010-11-30T10:55:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/30\/bento-xvi-reflectindo-e-comunicando-em-roda-livre\/"},"modified":"2010-11-30T10:55:53","modified_gmt":"2010-11-30T10:55:53","slug":"bento-xvi-reflectindo-e-comunicando-em-roda-livre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bento-xvi-reflectindo-e-comunicando-em-roda-livre\/","title":{"rendered":"Bento XVI reflectindo e comunicando em roda livre?"},"content":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Marcelino, bispo em\u00e9rito de Aveiro <!--more--> <\/p>\n<p align=\"right\">\n<div style=\"text-align: -webkit-auto;\">A Igreja de Cristo deve ser sempre um espa&ccedil;o de liberdade. Nela ningu&eacute;m se deve sentir aprisionado, tanto na reflex&atilde;o, como na ac&ccedil;&atilde;o. Uma depend&ecirc;ncia injusta destr&oacute;i as pessoas e mina a sua identidade. J&aacute; Pio XII defendia a livre opini&atilde;o no seio a Igreja, sempre que n&atilde;o estejam em causa as verdades da f&eacute;. O Papa, qualquer Papa, tem direito a ter a sua opini&atilde;o e a comunic&aacute;-la, a sentir perplexidades sobre caminhos a seguir, a reconhecer, publicamente, decis&otilde;es menos certas, a dar o seu contributo de reflex&atilde;o a temas melindrosos, que n&atilde;o se podem, nem devem considerar fechados.<\/div>\n<\/p>\n<p>Jo&atilde;o XXIII n&atilde;o se coibiu de dizer o que pensava e queria, mesmo que &agrave; sua volta, o coro entoasse noutro tom. Assim, o Conc&iacute;lio deu passos antes inesperados, tratou temas e abriu caminhos que n&atilde;o eram da simpatia da C&uacute;ria Romana. Paulo VI remou contra a mar&eacute; para que a Igreja n&atilde;o se desviasse do rumo conciliar. Quando foi &agrave; ONU fez op&ccedil;&otilde;es, desgarradas das teias da tradi&ccedil;&atilde;o romana. Nos &ldquo;Di&aacute;logos com Jean Ghitton&rdquo;, abriu a sua alma com muita liberdade interior, ao reflectir sobre quest&otilde;es candentes e complexas, que a Igreja n&atilde;o pode p&ocirc;r de lado s&oacute; porque n&atilde;o tem ainda para elas uma resposta satisfat&oacute;ria. Jo&atilde;o Paulo I seguiu o seu estilo evangelizador, simples e compreens&iacute;vel mas pouco curial, ao comunicar com os crist&atilde;os. P&ocirc;s os cabelos em p&eacute; aos cardeais romanos, que se consideravam os donos da ortodoxia e do modo de a expor e defender. Jo&atilde;o Paulo II decidiu p&ocirc;r, at&eacute; ao fim, a sua vida ao servi&ccedil;o de uma rota evangelizadora. Partiu sem medo, mundo fora, denunciando que o Papa de Roma &eacute; o Papa dos crist&atilde;os de todo o mundo, a testemunha de Cristo junto dos poderes da Terra, o defensor dos humildes, dos oprimidos e dos esquecidos. E, por esse mundo fora, n&atilde;o temeu ter gestos e express&otilde;es, que, no seio do Vaticano e nas suas solenes celebra&ccedil;&otilde;es, lhe seriam desaconselhados. Tudo isto mostra que, historicamente, os Papas n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o livres como se pensa, mas podem sempre abrir caminhos novos.<\/p>\n<p>Bento XVI chegou &agrave; luz da ribalta, vindo directamente de um mundo eclesi&aacute;stico, que ele bem conhecia. Um mundo por vezes emparedado pelas exig&ecirc;ncias de fidelidade &agrave; &agrave; praxis romana e curial, onde as opini&otilde;es discordantes incomodam sempre. Um mundo que n&atilde;o gosta que lhe levem problemas da vida. A&iacute; viveu longos anos de servi&ccedil;o devotado &agrave; sua miss&atilde;o de guardi&atilde;o da f&eacute;, por vezes e para muitos, em aparente contradi&ccedil;&atilde;o com o te&oacute;logo livre, aberto e l&uacute;cido, que fora antes e durante o Conc&iacute;lio. S&oacute; conhecendo-se a natureza do cargo exigente a que foi chamado e a for&ccedil;a de uma pesada tradi&ccedil;&atilde;o a que, em tais circunst&acirc;ncias estava sujeito, se poder&aacute; perceber agora, a liberdade de express&atilde;o que foi adquirindo, como Papa, sem tenta&ccedil;&otilde;es vanguardistas e sempre, de modo muito claro, fiel ao essencial.<\/p>\n<p>Pelo Cardeal Prefeito da Congrega&ccedil;&atilde;o da Doutrina da F&eacute; e, agora, no dia a dia da sua miss&atilde;o de chefe da Igreja, Cat&oacute;lica, passaram e continuam a passar, de modo premente e como desafios ao compromisso de uma resposta da Igreja, grandes problemas humanos e sociais das comunidades crist&atilde;s, da sociedade em geral, dos crentes e dos n&atilde;o crentes, da ci&ecirc;ncia e da cultura, dos pobres e das fam&iacute;lias, das muitas afirma&ccedil;&otilde;es e atitudes que, no seio da Igreja, por vezes paralisam a vida e empobrecem o vigor evang&eacute;lico da mensagem crist&atilde;.<\/p>\n<p>Bento XVI foi sempre um pensador e um te&oacute;logo inconformado, incapaz de dormir descansado quando outros sofrem, mormente quando pensa que, pelas suas ac&ccedil;&otilde;es ou omiss&otilde;es, ele pode estar, de algum modo, na causa desse sofrimento. Ele sabe bem, tal como o sabia e dizia Paulo VI a prop&oacute;sito da ac&ccedil;&atilde;o interventiva do Papa, que &eacute; mais f&aacute;cil estudar e reflectir os problemas complexos, que decidir sobre eles. Por&eacute;m, na Igreja, muitas vezes at&eacute; o reflectir sobre os problemas se foi tornando dif&iacute;cil, por via de normas paralisantes que se p&otilde;em a uma reflex&atilde;o livre.<\/p>\n<p>O papa Bento XVI n&atilde;o enterrou o te&oacute;logo Ratzinger. Antes, tem agora consigo toda a sua capacidade reflexiva, o seu saber teol&oacute;gico, humanista e hist&oacute;rico, a sua sensibilidade aos problemas actuais e dif&iacute;ceis, o enquadramento hist&oacute;rico e cultural dos mesmos, o respeito pelos que, crist&atilde;os ou n&atilde;o, lutam, em campo aberto, por respostas v&aacute;lidas e s&eacute;rias. &Eacute; um homem incapaz de se instalar nas certezas da f&eacute;, mas que procura, na sua mais profunda compreens&atilde;o, um contributo maior &agrave; solu&ccedil;&atilde;o dos problemas que afligem as pessoas e a humanidade no seu conjunto, ao modo de comunicar que chegue aos destinat&aacute;rios, lhes aque&ccedil;a o cora&ccedil;&atilde;o e estimule a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>A entrevista &ldquo; Luz do Mundo&rdquo;, dada a um jornalista alem&atilde;o, e agora, em livro &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de todos, vai, para a Igreja e para a sociedade, muito al&eacute;m do que a comunica&ccedil;&atilde;o social, no seu pendor redutor, mais uma vez dominada pelo espectacular, quer fazer crer. Bento XVI abre um novo modo de reflectir e de comunicar, agora em roda livre e para al&eacute;m da maneira normal de o fazer atrav&eacute;s dos actos e documentos do magist&eacute;rio pontif&iacute;cio. H&aacute; problemas sociais graves que tocam a vida de muita gente, que t&ecirc;m de ser compreendidos em todas a suas vertentes, e debatidos, com liberdade e respeito, em ordem a novas orienta&ccedil;&otilde;es e decis&otilde;es. Se n&atilde;o se trata de fazer e dizer para agradar, tamb&eacute;m n&atilde;o se pode passar ao lado e fazer sil&ecirc;ncio por se temerem as consequ&ecirc;ncias. Quem est&aacute; ainda fascinado pelos faustos hist&oacute;ricos e s&oacute; v&ecirc; a Igreja como casa pacificada e bem arrumada, afasta os que podem trazer perturba&ccedil;&atilde;o. Bento XVI mostra que n&atilde;o &eacute; esse o seu caminho e n&atilde;o pode ser esse o caminho da Igreja. As imposi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o resultam e as propostas t&ecirc;m de ser v&aacute;lidas e em conson&acirc;ncia com os tempos. O Papa vem aflorando, pela consci&ecirc;ncia que deles tem, problemas da Igreja, que s&atilde;o tamb&eacute;m problemas das pessoas que desumanizam a sociedade, atrofiam e relativizam a verdade. A reflex&atilde;o sobre estes problemas n&atilde;o se pode fazer apenas em circuito fechado.<\/p>\n<p>Bento XVI n&atilde;o teve pejo em dizer que, em coisas graves, lhe sonegaram informa&ccedil;&atilde;o e lhe encobriram factos. Os chefes em lugar cimeiro est&atilde;o sempre sujeitos a ser enganados por gente que os rodeia. Abundam hist&oacute;rias desta empobrecida realidade, mesmo em rela&ccedil;&atilde;o aos papas. A melhor den&uacute;ncia acaba por ser falar fora do sistema, em circunst&acirc;ncias em que n&atilde;o se tenha de passar pelo crivo de se saber o que conv&eacute;m dizer ou calar. Mesmo quando na Igreja se justifica alguma diplomacia, consequ&ecirc;ncia de um tempo a que agora &eacute; dif&iacute;cil fugir, a mensagem evangelizadora tem, por certo, outros caminhos. J&aacute; no Conc&iacute;lio este grito se fez ouvir.<\/p>\n<p>Bento XVI deu, publicamente, um passo renovador ao falar de problemas, concretos e actuais, fora dos canais tradicionais. Deu, deste modo, esperan&ccedil;a a muitos que, na Igreja, por amor &agrave; Miss&atilde;o e fieis ao essencial, sentem que, antes da &uacute;ltima palavra, &eacute; importante que outras se digam e se escutem. Deu espa&ccedil;o aos que, na sociedade, lutam pelas causas fundamentais das pessoas, para que tenham voz que possa ajudar a esclarecer e a decidir. Mostra como a Igreja n&atilde;o tem de ter medo sen&atilde;o dos seus medos, sofre a urg&ecirc;ncia de se converter, com coragem evang&eacute;lica, para ser Igreja ao servi&ccedil;o do Reino e do reconhecimento e promo&ccedil;&atilde;o dos seus valores, onde quer que eles se manifestem. Anunciou como os problemas t&ecirc;m de ser equacionados em plano global, para que seja v&aacute;lida e aceit&aacute;vel a sua solu&ccedil;&atilde;o. Ao responder &agrave;s 90 perguntas do jornalista, sem fugir nem camuflar, Bento XVI diz &agrave; Igreja que n&atilde;o h&aacute; problemas que n&atilde;o devam ser reflectidos e que fugir &agrave;s quest&otilde;es vitais &eacute; fugir &agrave; vida, atitude hist&oacute;rica de que nem sempre ela esteve isenta.<\/p>\n<p>Os passos dolorosos, antes e depois do Conc&iacute;lio, dados por te&oacute;logos eminentes; as lutas corajosas e perseverantes de alguns her&oacute;icos padres conciliares; os caminhos novos, teimosamente procurados por bispos, padres e leigos, ao longo dos &uacute;ltimos quarenta anos; a tentativa persistente de derrubar os muros de divis&atilde;o dentro da Igreja e da Igreja com o mundo, tudo isto tem agora mais brilho e est&iacute;mulo, assim esperamos.<\/p>\n<p>Deus conserve o Papa para que deixe &agrave; Igreja n&atilde;o s&oacute; novos caminhos abertos, mas, tamb&eacute;m, muita gente j&aacute; a caminhar por eles, sem outros interesses que os de Cristo e os daqueles que, ao longo da hist&oacute;ria, Lhe foram fieis. Possa, tamb&eacute;m, mostrar ao mundo que a Igreja est&aacute;, de facto, inserida nele e a considerar, como seus, os problemas dos homens e das mulheres de cada tempo e lugar.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Ant&oacute;nio Marcelino, bispo de Aveiro, em&eacute;rito<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Marcelino, bispo em\u00e9rito de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,170],"class_list":["post-48656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-diocese-de-aveiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48656"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48656\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}