{"id":48628,"date":"2010-11-29T12:37:49","date_gmt":"2010-11-29T12:37:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/29\/homilia-de-d-jorge-ortiga-na-vigilia-pela-vida-nascente\/"},"modified":"2010-11-29T12:37:49","modified_gmt":"2010-11-29T12:37:49","slug":"homilia-de-d-jorge-ortiga-na-vigilia-pela-vida-nascente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-jorge-ortiga-na-vigilia-pela-vida-nascente\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Jorge Ortiga na vig\u00edlia pela vida nascente"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, v&eacute;spera do I Domingo do Advento, a Igreja diocesana une-se &agrave; Igreja Universal para rezar pela vida nascente. Um apelo lan&ccedil;ado a todos os crentes, &agrave;s comunidades paroquiais, Semin&aacute;rios, as associa&ccedil;&otilde;es, movimentos e institutos religiosos.<\/p>\n<p>A Palavra de Deus recordava-nos que &ldquo;chegou a hora de acordar do sono&rdquo;. &Eacute; um alerta pertinente e desafiante. Pode acontecer que muitos crist&atilde;os, absorvidos pelas preocupa&ccedil;&otilde;es do presente, se tenham habituado &agrave; ideia da desvaloriza&ccedil;&atilde;o da vida nascente, pactuando indirectamente com as pol&iacute;ticas que colocam em causa a vida humana dos mais fr&aacute;geis. Mesmo em tempo de incerteza social n&atilde;o podemos colocar de lado os valores que fundamentam e d&atilde;o profundidade ao nosso agir &eacute;tico e moral. A f&eacute; n&atilde;o &eacute; uma moral mas tem consequ&ecirc;ncias morais para a nossa vida crente.<\/p>\n<p>O &ldquo;Verbo fez-se carne e habitou no meio de n&oacute;s&rdquo;. Tal como Deus cuidou do seu Filho tamb&eacute;m n&oacute;s temos a responsabilidade partilhada de cuidar da vida toda e da vida de todos (Cf. E.V. 87-91). O Natal, dia do nascimento do rebento, &eacute; o &ldquo;grande Sim de Deus &agrave; vida humana&rdquo;, porque Deus veio estabelecer a sua tenda no meio dos homens e mulheres atrav&eacute;s do Seu Filho, Jesus Cristo.<\/p>\n<p>A defesa da vida move-nos pelo princ&iacute;pio de sermos cria&ccedil;&atilde;o amorosa de Deus, formados &agrave; imagem e semelhan&ccedil;a, dignos de respirar a beleza da cria&ccedil;&atilde;o e de constituirmos la&ccedil;os fraternos no mundo. A dignidade de cada pessoa revela-se na preocupa&ccedil;&atilde;o que cada sociedade tem pela humaniza&ccedil;&atilde;o da vida. A vida n&atilde;o pode ser decidida com base em meras vontades legislativas ou pol&iacute;ticas &agrave; revelia da dimens&atilde;o humana e espiritual do ser humano.<\/p>\n<p>As orienta&ccedil;&otilde;es da Igreja s&atilde;o claras porque nos movemos pelos passos de Jesus, Ele que &eacute; o &ldquo;Caminho, a Verdade e a Vida&rdquo;. Por isso &ldquo;a Igreja, sentindo que deve, com igual coragem, dar voz a quem a n&atilde;o tem&rdquo;, faz uma reafirma&ccedil;&atilde;o preciosa e firme do valor da vida humana e da sua inviolabilidade, e, conjuntamente, um ardente apelo dirigido em nome de Deus a todos e a cada um: respeitar, defender, amar e servir a vida &eacute; tarefa que Deus confia a cada homem&rdquo; (Cf. E.V. 5).<\/p>\n<p>Reconhecer a vida como dom inviol&aacute;vel, n&atilde;o manipul&aacute;vel, para al&eacute;m das vontades individuais, coloca-a tamb&eacute;m no &acirc;mbito do religioso. A exist&ecirc;ncia humana s&oacute; &eacute; plena quando compreendida na sua globalidade e inteligibilidade, onde nascimento, crescimento e morte interagem na defini&ccedil;&atilde;o de qualidade de vida. Integridade e complementaridade nem sempre aceite pelas sociedades actuais. Qualidade de vida que integra necessariamente a transcend&ecirc;ncia e a espiritualidade. Sem o horizonte de Deus a vida perde sentido porque termina na materialidade dos nossos corpos. Se n&atilde;o colocamos o horizonte da vida eterna que sentido ter&aacute; lutarmos pela vida?<\/p>\n<p>&Eacute; por causa da desvaloriza&ccedil;&atilde;o da vida como um todo (vida-morte-eternidade) que assistimos a um &ldquo;Inverno Demogr&aacute;fico&rdquo; que assola o nosso pa&iacute;s e o Ocidente. Eu tive a oportunidade de expressar esta minha preocupa&ccedil;&atilde;o no Encontro das Confer&ecirc;ncias Episcopais da Europa, em Zagreb, afirmando que &ldquo;est&atilde;o em causa a viabilidade e a sobreviv&ecirc;ncia de Portugal como pa&iacute;s e como na&ccedil;&atilde;o. Sem uma reposi&ccedil;&atilde;o do justo equil&iacute;brio geracional entraremos numa situa&ccedil;&atilde;o delicada. A opini&atilde;o p&uacute;blica vive absorvida pelas quest&otilde;es socioecon&oacute;micas esquecendo a responsabilidade &eacute;tica que determina os comportamentos&rdquo;.<\/p>\n<p>Na verdade, trata-se de consciencializarmo-nos da necessidade permanente de uma cultura da vida que valoriza a alegria da paternidade e da maternidade, que sublinhe o direito &agrave; vida desde a concep&ccedil;&atilde;o at&eacute; &agrave; morte e que se comprometa na realiza&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas familiares verdadeiras. A aceita&ccedil;&atilde;o passiva das leis contra a vida &ndash; liberaliza&ccedil;&atilde;o do aborto, anticonceptivos, eutan&aacute;sia &ndash; promovidas por minorias sob o signo da igualdade deveria levar a repensar o modelo de sociedade que estamos a gerar.<\/p>\n<p>Fabrice Hadjadj, no seu livro Para uma m&iacute;stica da carne, ao comparar a morte premeditada e a morte por guerra ou fome [caso chin&ecirc;s de popula&ccedil;&atilde;o excessiva] descreve bem a perversidade de um determinado tipo de compaix&atilde;o: &ldquo;O meu filho morrer&aacute;, porventura nos meus bra&ccedil;os, ter&aacute; talvez uma vida dolorosa, mas esta cruz da hist&oacute;ria &eacute; melhor do que a calma apavorante de t&ecirc;-la suprimido sem remorsos &ndash; em nome de uma compaix&atilde;o altaneira, que por nada se deixa surpreender&rdquo;. Compaix&atilde;o sem remorsos e sem mem&oacute;ria que n&atilde;o &eacute; mais do que simples assistencialismo e exerc&iacute;cio de poder sobre vontades debilitadas. O problema &eacute; esse mesmo: &eacute; que j&aacute; nada nos surpreende e tudo &eacute; permitido em nome dos mais altos valores da cidadania!<\/p>\n<p>&Eacute; curioso ver que muitos apelidaram a Igreja e sua doutrina social de conservadora quando esta alertou para os riscos do modelo econ&oacute;mico baseado na maximiza&ccedil;&atilde;o dos lucros. Mas, em nome do progresso e do avan&ccedil;o civilizacional, a mensagem da Igreja n&atilde;o foi ouvida. E qual foi o resultado? O p&acirc;ntano econ&oacute;mico-financeiro. O mesmo est&aacute; acontecer em rela&ccedil;&atilde;o aos valores e aos comportamentos.<\/p>\n<p>No entanto, a Igreja continuar&aacute; a propor uma antropologia da beleza da vida, com base no compromisso, na fidelidade e no respeito do corpo humano. Somos acusados de retr&oacute;gradas! N&atilde;o tarda nada veremos as sociedades a repensarem o quadro moral com que edificaram e formaram as novas gera&ccedil;&otilde;es. Quadro esse que j&aacute; est&aacute; a merecer reflex&atilde;o s&eacute;ria em muitos pa&iacute;ses tidos como refer&ecirc;ncia absoluta ao n&iacute;vel dos valores humanos e morais.<\/p>\n<p>Por isso, a liturgia da Palavra de hoje &eacute; um convite &agrave; vigil&acirc;ncia. &Eacute; um apelo para que &ldquo;abandonemos as obras das trevas e nos revistamos das armas da luz&rdquo;, porque &ldquo;os filhos das trevas s&atilde;o mais astutos que os filhos da luz&rdquo;. O Advento exige convers&atilde;o pessoal ao evento de Cristo. Convers&atilde;o que apela ao trabalho pessoal de transformarmos as sombras da morte em vida, de modo a &ldquo;revestir-nos do Senhor Jesus&rdquo;.<\/p>\n<p>Preparemo-nos para o Natal para que nas&ccedil;a na sociedade uma nova mentalidade, defensora dos valores da vida. Olhemos para as situa&ccedil;&otilde;es de precariedade e procuremos levar a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, a paz e o amor de Deus.<\/p>\n<p>Que Maria e S. Jos&eacute; nos ajudem a acolher alegremente o dom misterioso da maternidade e da paternidade para sermos anunciadores da esperan&ccedil;a e do amor de Deus por toda a humanidade.<\/p>\n<p>S&eacute; Catedral, 27-11-10<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; Jorge Ortiga, A.P.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, v&eacute;spera do I Domingo do Advento, a Igreja diocesana une-se &agrave; Igreja Universal para rezar pela vida nascente. Um apelo lan&ccedil;ado a todos os crentes, &agrave;s comunidades paroquiais, Semin&aacute;rios, as associa&ccedil;&otilde;es, movimentos e institutos religiosos. A Palavra de Deus recordava-nos que &ldquo;chegou a hora de acordar do sono&rdquo;. &Eacute; um alerta pertinente e desafiante. 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