{"id":48454,"date":"2010-11-22T12:23:50","date_gmt":"2010-11-22T12:23:50","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/22\/homilia-de-d-antonio-carrilho-na-peregrinacao-diocesana-ao-monumento-de-cristo-rei\/"},"modified":"2010-11-22T12:23:50","modified_gmt":"2010-11-22T12:23:50","slug":"homilia-de-d-antonio-carrilho-na-peregrinacao-diocesana-ao-monumento-de-cristo-rei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-antonio-carrilho-na-peregrinacao-diocesana-ao-monumento-de-cristo-rei\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Ant\u00f3nio Carrilho na Peregrina\u00e7\u00e3o Diocesana ao Monumento de Cristo Rei"},"content":{"rendered":"<p><strong>Senhor, venha a n&oacute;s o Vosso Reino de Paz e de Amor!<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>Com a solenidade de Cristo-Rei, institu&iacute;da no dia 11 de Mar&ccedil;o de 1925 pelo Santo Padre Pio XI, a Igreja quer real&ccedil;ar a soberania de Jesus como centro da Hist&oacute;ria e do Universo. Assim, ao finalizar o ano lit&uacute;rgico, somos convidados a cantar, juntamente com todas as comunidades crist&atilde;s, a alegria da f&eacute; e da salva&ccedil;&atilde;o, trazida por Cristo atrav&eacute;s da Sua entrega na Cruz. &Eacute; para n&oacute;s um dia de louvor e ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as, pela imensa bondade de Deus e todas b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os derramadas sobre a Igreja e sobre o mundo.<\/p>\n<p>Aqui junto de n&oacute;s, sob a imensid&atilde;o do azul do c&eacute;u e frente ao mar, podemos contemplar a grandiosa est&aacute;tua do Sagrado Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus, memorial de f&eacute; e de amor do povo da Madeira e do Porto Santo. Este monumento, inaugurado a 30 de Outubro de 1927, &eacute; a concretiza&ccedil;&atilde;o de um voto do Conselheiro Aires de Ornelas, filho do &uacute;ltimo morgado do Cani&ccedil;o, e de sua esposa D. Maria de Jesus de Ornelas. Como a inaugura&ccedil;&atilde;o e b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o da est&aacute;tua coincidiu, nesse ano, com a solenidade lit&uacute;rgica de Cristo-Rei, a mesma ficou a denominar-se, na linguagem do nosso povo, o Cristo-Rei do Garajau.<\/p>\n<p>De bra&ccedil;os abertos, como que num abra&ccedil;o universal, Cristo Rei do Universo olha-nos e continua a repetir-nos, em convite sempre renovado, as Suas palavras de Vida: <em>&ldquo;Vinde a Mim, v&oacute;s todos os que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei, diz o Senho<\/em>r<em>&rdquo; <\/em>(Mt 11,28).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A realeza divina de Jesus<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>A Liturgia da Palavra convida-nos a contemplar a paradoxal realeza de Cristo, feita de humildade, mansid&atilde;o, servi&ccedil;o e entrega da pr&oacute;pria vida por n&oacute;s, na Cruz. &Eacute; o pre&ccedil;o da Encarna&ccedil;&atilde;o e humaniza&ccedil;&atilde;o do Verbo de Deus.<\/p>\n<p>A primeira leitura narra-nos a un&ccedil;&atilde;o do rei David, em Hebron, como Rei de todo o Israel. Escolhido por Deus para apascentar o Seu Povo, <em>&ldquo;O rei David concluiu com eles uma alian&ccedil;a diante do Senhor; eles ungiram David como rei de Israel&rdquo; <\/em>(2Sam 5,3)<em>.<\/em> Era o tempo da unifica&ccedil;&atilde;o da Palestina, da dinastia de esplendor, que ficar&aacute; gravada na mem&oacute;ria do povo de Deus e na hist&oacute;ria da Salva&ccedil;&atilde;o. No decorrer dos s&eacute;culos, perante a invas&atilde;o e dom&iacute;nio das na&ccedil;&otilde;es estrangeiras, os profetas messi&acirc;nicos evocavam o rei David como figura de Cristo, o Ungido do Pai, o verdadeiro Rei Messias, que havia de salvar definitivamente Israel.<\/p>\n<p>O hino da carta aos Colossenses, que escut&aacute;mos na segunda leitura (Cl 1,12-20), esclarece e celebra a supremacia de Cristo na cria&ccedil;&atilde;o e na reden&ccedil;&atilde;o da Humanidade. &Eacute; a chave de interpreta&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica, que confirma e sublinha a realeza divina de Jesus:<em> &ldquo;Ele (o Pai) nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a reden&ccedil;&atilde;o, o perd&atilde;o dos pecados&rdquo; <\/em>(Cl 1,13).<\/p>\n<p>Cristo &eacute; epifania de Deus, a grande manifesta&ccedil;&atilde;o do Seu superabundante e inexced&iacute;vel Amor pela Humanidade. Como nos diz S. Paulo, <em>&ldquo;Aprouve a Deus que n&rsquo;Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da Sua cruz, com todas as criaturas na Terra e nos C&eacute;us&rdquo;<\/em> (Cl 1, 20). O Amor e a Paz inundam de Luz este mundo e saciam a nossa fome e sede de Esperan&ccedil;a e de Verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Este &eacute; o Rei dos Judeus<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>O relato do evangelista S. Lucas, que escut&aacute;mos no Evangelho (Lc 23, 35-43), situa-nos no calv&aacute;rio, diante de um &ldquo;estranho Rei&rdquo; crucificado. Ao cimo da Cruz, o letreiro infamante com que pretendiam identific&aacute;-l&rsquo;O: <em>&ldquo;Este &eacute; o Rei dos Judeus&rdquo; <\/em>(Lc 23,38). Mas o Seu Reino n&atilde;o &eacute; deste mundo. Como se diz no Pref&aacute;cio desta Eucaristia, o Reino de Jesus &eacute; &ldquo;um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de gra&ccedil;a, reino de justi&ccedil;a, de amor e de paz&rdquo;. Jesus &eacute; Rei, porque entrega a pr&oacute;pria vida pelos irm&atilde;os, conhecendo Ele pr&oacute;prio o sofrimento e a morte.<\/p>\n<p>Jesus, o Filho de Deus, recusa um messianismo triunfante. Ele reina, desde a Cruz, entregando-Se totalmente a n&oacute;s, e nunca pela for&ccedil;a e pelo poder da realeza deste mundo. Mas &eacute; precisamente ali, no trono real da Cruz, que Jesus manifesta a plenitude da Beleza do Seu Rosto de Filho Amado e a grandeza do Seu Amor sem limites pelos homens e mulheres de todos os tempos. Jesus continua a salvar a Humanidade e a reinar nos cora&ccedil;&otilde;es daqueles que O acolhem: <em>&ldquo;Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com a tua realeza<\/em>. <em>Hoje mesmo estar&aacute;s comigo no Para&iacute;so&rdquo; <\/em>(Lc 23,42-43). A salva&ccedil;&atilde;o acontece &ldquo;hoje&rdquo;, na urg&ecirc;ncia do &ldquo;agora&rdquo; eterno de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para que o Reino cres&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja, nascida do Lado Trespassado do Senhor, &eacute; constantemente chamada e enviada pelo Esp&iacute;rito Santo a evangelizar, para que o Reino cres&ccedil;a e Cristo reine em todos os cora&ccedil;&otilde;es. E a metodologia a utilizar &eacute; sempre a mesma, como nos alvores do Cristianismo, sempre nova e vital: &ldquo;partir de Cristo, com Cristo, como Cristo&rdquo;, sem esquecer que, como referiu Bento XVI, &ldquo;a miss&atilde;o parte do cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Disse, ainda, o Santo Padre que &ldquo; somos chamados a servir a humanidade do nosso tempo, confiando unicamente em Jesus, deixando-nos iluminar pela sua Palavra: <em>&ldquo;N&atilde;o fostes v&oacute;s que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permane&ccedil;a&rdquo;<\/em> (Jo 15,16).<\/p>\n<p>Na verdade, a din&acirc;mica evangelizadora da Igreja nasce da intimidade pessoal com Cristo, Bom Pastor, surpreendente Boa Nova do Pai, que atrai a Si a Humanidade (cf. Jo 12,32). Importa estar vigilantes e despertos, entusiasmados pela &ldquo;profundidade e pela beleza da f&eacute;&rdquo;, para a transmitirmos com paix&atilde;o &ldquo;aos vizinhos, aos filhos e &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es futuras&rdquo;, como nos recorda a Confer&ecirc;ncia Episcopal, no seu recente documento <em>&ldquo;Para um Rosto da Igreja Mission&aacute;ria em Portugal&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><strong>Servi&ccedil;o aos mais pobres<\/strong><\/p>\n<p>Deste amor concreto a Cristo, encarnado na vida e em gestos solid&aacute;rios de amor fraterno, fala-nos a presen&ccedil;a aqui de tantos membros das Confer&ecirc;ncias de S. Vicente de Paulo, que em muitas das nossas par&oacute;quias se ocupam do servi&ccedil;o aos mais pobres e exclu&iacute;dos da sociedade.<\/p>\n<p>Esses nossos irm&atilde;os vicentinos que, h&aacute; muitos anos, neste dia, promovem e organizam a sua peregrina&ccedil;&atilde;o a este lugar, encontram no amor de Cristo e a Cristo um forte est&iacute;mulo para prosseguirem a sua ac&ccedil;&atilde;o de presen&ccedil;a fraterna, conforto espiritual e apoio material, junto daqueles que mais precisam de ajuda, para se erguerem e enfrentarem, com f&eacute; e coragem, os caminhos dif&iacute;ceis das suas vidas.<\/p>\n<p>&Eacute; bem claro para todos, certamente, que a luta contra a pobreza e a exclus&atilde;o social tem de constituir uma tarefa de toda a sociedade e n&atilde;o apenas de algumas pessoas ou grupos, crist&atilde;os ou n&atilde;o, nem t&atilde;o pouco uma responsabilidade exclusiva dos poderes p&uacute;blicos. A estes cabe, sem d&uacute;vida, prestar-lhes uma aten&ccedil;&atilde;o priorit&aacute;ria e comprometida, de facto, em projectos de desenvolvimento, que articulem, devidamente, as pol&iacute;ticas econ&oacute;micas e sociais.<\/p>\n<p>Mas sempre, e em particular na preocupante conjuntura de crise em que vivemos, a rela&ccedil;&atilde;o de proximidade, numa presen&ccedil;a discreta e amiga, atinge situa&ccedil;&otilde;es, que muitas estruturas sociais e organiza&ccedil;&otilde;es de solidariedade n&atilde;o atingem. Penetra-se, assim, mais facilmente, o campo da &ldquo;pobreza envergonhada&rdquo;, que s&oacute; na base de uma grande confian&ccedil;a e respeito poder&aacute; conhecer-se e apoiar-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Marca dos disc&iacute;pulos de Jesus<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>Como tive oportunidade de dizer, ainda muito recentemente, olhar a pobreza e a exclus&atilde;o social a partir da F&eacute; situa-nos &ldquo;no encontro pessoal com o outro, face a face, olhos nos olhos, partilhando as suas ang&uacute;stias e as suas esperan&ccedil;as, sentindo com ele, sofrendo com ele&rdquo; (Semin&aacute;rio sobre &ldquo;Pobreza e Exclus&atilde;o Social&rdquo;, C&acirc;mara de Lobos, 28 de Outubro de 2010).<\/p>\n<p>Na actual situa&ccedil;&atilde;o de crise econ&oacute;mica e social, repito, a interven&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas nas suas compet&ecirc;ncias pr&oacute;prias e necess&aacute;rias, n&atilde;o pode dispensar a aten&ccedil;&atilde;o e o cuidado de todos uns pelos outros. Passa por aqui o verdadeiro esp&iacute;rito de fraternidade, marca dos aut&ecirc;nticos disc&iacute;pulos de Jesus. Ele pr&oacute;prio Se identificou com os mais necessitados de tudo (famintos, sedentos, forasteiros, n&uacute;s, enfermos, encarcerados), convidando os Seus disc&iacute;pulos a acolh&ecirc;-los e ajud&aacute;-los. At&eacute; lhes disse: <em>&ldquo;sempre que fizestes isto a um destes Meus irm&atilde;os mais pequeninos a Mim mesmo o fizestes&rdquo;<\/em> (Mt 25,40).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Olhos postos no Amor<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>Em dia de Cristo-Rei, olhos postos no Amor que brota da vida de Jesus, Filho de Deus, e se reflecte em cada Eucaristia, no memorial da Sua entrega na cruz, aprofundemos o sentido do Amor-Servi&ccedil;o, testemunhando-o no compromisso de constru&ccedil;&atilde;o de uma nova sociedade, mais humana e mais fraterna. Saiba cada um de n&oacute;s dar o seu contributo para transformar este mundo dos homens em Reino de Deus! E rezemos: Senhor, venha a n&oacute;s o Vosso Reino!<\/p>\n<p align=\"right\">&nbsp;<\/p>\n<p>Garajau, 21 de Novembro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\">&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; Ant&oacute;nio Carrilho, Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senhor, venha a n&oacute;s o Vosso Reino de Paz e de Amor! Com a solenidade de Cristo-Rei, institu&iacute;da no dia 11 de Mar&ccedil;o de 1925 pelo Santo Padre Pio XI, a Igreja quer real&ccedil;ar a soberania de Jesus como centro da Hist&oacute;ria e do Universo. 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