{"id":48418,"date":"2010-11-20T11:38:25","date_gmt":"2010-11-20T11:38:25","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/20\/os-dilemas-de-tolstoi-um-genio-da-literatura\/"},"modified":"2010-11-20T11:38:25","modified_gmt":"2010-11-20T11:38:25","slug":"os-dilemas-de-tolstoi-um-genio-da-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-dilemas-de-tolstoi-um-genio-da-literatura\/","title":{"rendered":"Os dilemas de Tolst\u00f3i: um g\u00e9nio da literatura"},"content":{"rendered":"<p>Calcula-se que cerca de quatro mil pessoas assistiram ao funeral de Leon Tolst&oacute;i far&aacute;, no pr&oacute;ximo dia 20 de Novembro, cem anos. Um n&uacute;mero impressionante se se tiver em conta que as cerim&oacute;nias decorreram na aldeia onde vivia, perto de Tula, e que as autoridades, devido &agrave;s suas posi&ccedil;&otilde;es contra a Igreja Ortodoxa e contra o imp&eacute;rio russo, proibiram leitores e admiradores de viajarem de Moscovo ou S&atilde;o Petersburgo.<\/p>\n<p>Nascido a 28 de Agosto de 1828 no seio de uma fam&iacute;lia nobre russa, Tolst&oacute;i fica &oacute;rf&atilde;o de m&atilde;e aos dois anos e sete anos depois perde tamb&eacute;m o pai. Na Universidade de Kazan (em 1844) come&ccedil;a a sua educa&ccedil;&atilde;o formal. Tr&ecirc;s depois, abandona a universidade e muda-se para Moscovo. Em 1852 come&ccedil;a a escrever o livro &laquo;Inf&acirc;ncia&raquo; e a &laquo;Adolesc&ecirc;ncia&raquo; em 1854. De volta &agrave; sua terra natal (Isnaia Poliana) cria (1859) uma escola na sua propriedade onde lecciona de acordo com os seus ideais pedag&oacute;gicos.<\/p>\n<p>Era o escritor mais conhecido da sua &eacute;poca, fama que o tempo n&atilde;o esmoreceu. Da monumental &laquo;Guerra e Paz&raquo; &agrave; tr&aacute;gica &laquo;Anna Kar&eacute;nina&raquo;, passando pelas pequenas p&eacute;rolas que s&atilde;o &laquo;A Morte de Ivan Iliitch&raquo;, &laquo;A Sonata de Kreutzer&raquo; ou &laquo;A Felicidade Familiar&raquo;, &eacute; um autor que atravessa modas e gera&ccedil;&otilde;es, permanecendo como exemplo de precis&atilde;o e mestria narrativa.<\/p>\n<p>Desde muito cedo que lhe reconheceram o g&eacute;nio art&iacute;stico e a sua capacidade &uacute;nica de efabular. Jogava com as personagens e as situa&ccedil;&otilde;es, sendo capaz de combinar uma vis&atilde;o &eacute;pica com o ritmo e destino individual da personagem. Segundo Filipe Guerra (in: Jornal de Letras, n&ordm; 1041) &ldquo;nunca houve escritor mais biografado e autobiografado (os livros &laquo;Inf&acirc;ncia&raquo;, &laquo;Adolesc&ecirc;ncia&raquo; e &laquo;Juventude&raquo;)&rdquo;.<\/p>\n<p>No entanto h&aacute; um adjectivo que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel omitir quando se qualifica este escritor: crist&atilde;o. O homem Tolst&oacute;i e o escritor Tolst&oacute;i (nem sempre em sintonia) &ldquo;foi um crist&atilde;o que escreveu e praticou princ&iacute;pios anarquistas&rdquo;&nbsp; &#8211; l&ecirc;-se no artigo de Filipe Guerra. Numa viagem a Moscovo fica chocado com a pobreza da grande cidade. &ldquo;N&atilde;o pode ser, assim n&atilde;o pode ser&rdquo; &ndash; diz. Tem necessidade de fazer algo, a incapacidade consome-o. A mulher (casa com Sophia Behrs em 1862 e teve mais de uma dezena de filhos) tenta consol&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Com o tempo Tolst&oacute;i afasta-se cada vez mais da mulher e come&ccedil;a a ter desprezo pelos apetites carnais. Est&aacute; convencido que o prazer sexual &ldquo;&eacute; um grave defeito&rdquo; (In: &laquo;Oitenta Vidas que a Morte n&atilde;o apaga&raquo;). No livro &laquo;A Sonata de Kreutzer&raquo; prega a rela&ccedil;&atilde;o casta no casamento, no entanto Sophia d&aacute; &agrave; luz &ldquo;o seu d&eacute;cimo terceiro filho. Contradi&ccedil;&otilde;es&hellip;&rdquo; (In: &laquo;Oitenta Vidas que a Morte n&atilde;o apaga&raquo;). Uma vida cheia de dilemas&hellip; Preocupava-o a mis&eacute;ria alheia e decide fugir do conforto de sua casa e vai viver para longe de Isnaia.<\/p>\n<p>&ldquo;Parece-me poder considerar, sem erro, como objectivo da minha vida a aspira&ccedil;&atilde;o consciente de um completo desenvolvimento de todo o ser. Seria o mais infeliz dos homens se n&atilde;o encontrasse um objectivo para a minha vida, um objectivo geral e &uacute;til; &uacute;til, porque a alma imortal, ao desenvolver-se, passa naturalmente a um ser superior e mais correspondente &agrave; sua natureza&rdquo; (In: &laquo;A Raiz do Mal&raquo; de Tolst&oacute;i).<\/p>\n<p>Depois da profunda crise espiritual que o atormenta, converte-se ao cristianismo e decide adoptar uma vida de pobreza e simplicidade. A Tolst&oacute;i nada resta sen&atilde;o escrever. Publica: &laquo;A Morte de Ivan Iliitch&raquo;, &laquo;A Sonata de Kreutzer&raquo;, &laquo;Senhor e Servo&raquo; e &laquo;Ressurrei&ccedil;&atilde;o&raquo;.<\/p>\n<p>Em 1901, na sequ&ecirc;ncia da sua obra &laquo;Ressurrei&ccedil;&atilde;o&raquo;, em que exp&otilde;e a sua pr&oacute;pria concep&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o, &eacute; excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa. Perante este facto responde: &ldquo;N&atilde;o partilho, &eacute; verdade, a f&eacute; do Santo S&iacute;nodo, mas creio em Deus, que para mim &eacute; o esp&iacute;rito, o amor, o princ&iacute;pio de todas as coisas&rdquo;. Tamb&eacute;m o governo passa a consider&aacute;-lo uma amea&ccedil;a e muitos dos seus livros s&atilde;o proibidos.<\/p>\n<p>Um ano antes de morrer decide deixar os direitos de publica&ccedil;&atilde;o das suas obras e di&aacute;rios ao seu amigo Chertkov (um ex-oficial do ex&eacute;rcito com quem trava profunda amizade desde 1883). A sua mulher e este disc&iacute;pulo travam uma discuss&atilde;o em torno do &laquo;Di&aacute;rio &Iacute;ntimo de Tolst&oacute;i&raquo;, que deve ser publicado depois da sua morte.<\/p>\n<p>No ano da sua morte e com 82 anos viaja pela R&uacute;ssia de comboio. As m&aacute;s condi&ccedil;&otilde;es da sua viagem acabam por faz&ecirc;-lo adoecer. No seu di&aacute;rio explica a &ldquo;a vontade terr&iacute;vel de partir&rdquo;: &ldquo;A minha alma aspira, com todas as for&ccedil;as, ao repouso, &agrave; solid&atilde;o, para viver em harmonia com a minha consci&ecirc;ncia, ou se isto n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, para fugir ao desacordo gritante que existe entre a minha vida actual e a minha f&eacute;&rdquo;. Por sua vez, Henry Troyat, bi&oacute;grafo de Tolst&oacute;i, escreve: &ldquo;O seu drama &eacute; o de n&atilde;o se poder evadir de uma felicidade material que ele condena&rdquo;.<\/p>\n<p>Luis&nbsp;Filipe Santos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Calcula-se que cerca de quatro mil pessoas assistiram ao funeral de Leon Tolst&oacute;i far&aacute;, no pr&oacute;ximo dia 20 de Novembro, cem anos. 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