{"id":48172,"date":"2010-11-08T16:26:11","date_gmt":"2010-11-08T16:26:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/08\/discurso-do-presidente-da-cep-na-abertura-da-assembleia-plenaria-2\/"},"modified":"2010-11-08T16:26:11","modified_gmt":"2010-11-08T16:26:11","slug":"discurso-do-presidente-da-cep-na-abertura-da-assembleia-plenaria-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-do-presidente-da-cep-na-abertura-da-assembleia-plenaria-2\/","title":{"rendered":"Discurso do presidente da CEP na abertura da Assembleia Plen\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>A visita pastoral do Santo Padre a Portugal, no passado m&ecirc;s de Maio, trouxe &agrave; Igreja um novo ardor evang&eacute;lico, de confirma&ccedil;&atilde;o e de renova&ccedil;&atilde;o da nossa miss&atilde;o. &Agrave; sociedade portuguesa trouxe apre&ccedil;o cordial e a todos deixou mensagens de &acirc;nimo, solidariedade e esperan&ccedil;a. Neste sentido, expressamos ao Papa Bento XVI, por interm&eacute;dio do Senhor N&uacute;ncio Apost&oacute;lico, a quem fraternalmente saudamos, a nossa gratid&atilde;o por tudo quanto aconteceu em Portugal e o compromisso de fidelidade ao sucessor de Pedro, na constru&ccedil;&atilde;o de uma Igreja e sociedade melhores. Este acontecimento emerge particularmente em &laquo;tempos sombrios&raquo; (Bertolt Brecht) que, para al&eacute;m da turbul&ecirc;ncia presente, confirmam a necess&aacute;ria mudan&ccedil;a de paradigma pastoral e de uma nova ordem mundial. Acredito que a conjuntura actual abre novas hip&oacute;teses e novos caminhos para levar o Evangelho ao mundo e para a evangeliza&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>I &ndash; Igreja, que dizes de ti mesma? <\/strong><\/p>\n<p>Nos in&iacute;cios dos anos 70, na esteira do Conc&iacute;lio Vaticano II, o te&oacute;logo Joseph Ratzinger expunha profeticamente as caracter&iacute;sticas da Igreja de Jesus Cristo no s&eacute;c. XXI: &laquo;Uma Igreja de crentes&hellip; com sacerdotes que n&atilde;o sejam &ldquo;funcion&aacute;rios sociais&rdquo;, mas homens que, a partir de Deus, se p&otilde;em &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de outros homens&hellip; com novas formas ministeriais, e consagrando crist&atilde;os experimentados que permane&ccedil;am na sua profiss&atilde;o&hellip; Uma Igreja que ter&aacute; perdido muitos, mais pequena&hellip; sem privil&eacute;gios&hellip; comunh&atilde;o de pequenas comunidades&hellip; &agrave;s quais s&oacute; se pertenceria por uma decis&atilde;o livre&hellip; Uma Igreja que dever&aacute; come&ccedil;ar completamente de novo&raquo; (1).<\/p>\n<p>No seguimento desta leitura, e com a responsabilidade que nos toca, n&atilde;o podemos fugir hoje a algumas interroga&ccedil;&otilde;es. Que Igreja somos neste in&iacute;cio de s&eacute;culo? Que caminhos j&aacute; percorridos mas com metas ainda n&atilde;o alcan&ccedil;adas? Como percorrer, de forma sempre nova, o caminho de Ema&uacute;s onde Ele nos explica o sentido das Escrituras? Como fazer do momento actual um impulso prof&eacute;tico que coloque a Igreja no espa&ccedil;o p&uacute;blico, para que &laquo;viva no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas&raquo;(2)? Que sinais dos tempos s&atilde;o estes que est&atilde;o a pedir respostas colegiais, coordenadas e participativas de toda a Igreja de Portugal? Que testemunho e esperan&ccedil;a temos para dar &agrave; Igreja e &agrave; sociedade portuguesa?<\/p>\n<p>Estas e outras interroga&ccedil;&otilde;es fazem-nos repensar <em>como<\/em> transmitir o Evangelho de Jesus neste nosso s&eacute;culo. As transforma&ccedil;&otilde;es do mundo vieram redefinir as fronteiras da ac&ccedil;&atilde;o pastoral, colocando em causa uma pastoral eminentemente <em>enquadrativa<\/em>, liderada pela figura do p&aacute;roco. Diante de uma pluralidade de transforma&ccedil;&otilde;es, contextos e mudan&ccedil;as, a Igreja v&ecirc;-se na necessidade de voltar o seu olhar e o seu cora&ccedil;&atilde;o para a pedagogia do Evangelho. De gerar uma evangeliza&ccedil;&atilde;o que conduza ao encontro com Cristo, fraternalmente aberta e actuante, que toque na verdade de cada situa&ccedil;&atilde;o e de cada pessoa.<\/p>\n<p>Uma pastoral radicada na &laquo;constru&ccedil;&atilde;o de caminhos de comunh&atilde;o&raquo;, na edifica&ccedil;&atilde;o de um corpo org&acirc;nico, geradora de consci&ecirc;ncias livres na op&ccedil;&atilde;o por Cristo e pela sua Boa Nova (3). Assim, padres e leigos, na clareza e distin&ccedil;&atilde;o de minist&eacute;rios, tornam-se co-respons&aacute;veis e fi&eacute;is cooperadores do Esp&iacute;rito Santo na transmiss&atilde;o do Evangelho a todos os homens e mulheres. Propor o Evangelho &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o de toda a Pastoral. &Eacute; aqui que se joga a ades&atilde;o a um quadro de valores originalmente crist&atilde;os, compreens&iacute;vel e acess&iacute;vel a todos os crentes, porque a miss&atilde;o da Igreja n&atilde;o &eacute; &laquo;falar primeiramente de si mesma, mas de Deus&raquo; (4), a si pr&oacute;pria, e ao mundo (5). Deste modo a Igreja oferecer&aacute; o perfume da manh&atilde; de P&aacute;scoa no seio das suas comunidades e suscitar&aacute; vida, onde ela &eacute; d&eacute;bil e prec&aacute;ria (6).<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>II &ndash; Igreja, que esperam os homens de ti? Urg&ecirc;ncia de uma s&iacute;ntese pastoral<\/strong><\/p>\n<p>Diante da necessidade de uma s&iacute;ntese eclesiol&oacute;gica onde Cristo preside &agrave; comunh&atilde;o da Igreja, urge fazer uma s&iacute;ntese pastoral, segundo os crit&eacute;rios da pedagogia de Jesus, que v&aacute; para al&eacute;m das quest&otilde;es organizativas. Uma s&iacute;ntese baseada no lugar teologal da Igreja, centrada na experi&ecirc;ncia pessoal e comunit&aacute;ria de f&eacute; em Cristo (7) e no servi&ccedil;o fraterno a todas as pessoas.<\/p>\n<p>Uma s&iacute;ntese sem simplismos e imediatismos, mas profunda e acutilante, que nos coloque na senda de uma renova&ccedil;&atilde;o pastoral sustentada e alargada &agrave; participa&ccedil;&atilde;o decisiva de todos (clero, leigos, movimentos, ordens e congrega&ccedil;&otilde;es religiosas). Talvez precisemos de rever os <em>metros quadrados<\/em> da nossa ac&ccedil;&atilde;o para partilharmos com confian&ccedil;a as alegrias, os anseios e tristezas da Igreja, das comunidades e das pessoas de hoje, como esperan&ccedil;as e interroga&ccedil;&otilde;es de cada um.<\/p>\n<p>Precisamos de ac&ccedil;&otilde;es mais sistem&aacute;ticas, colegiais e concertadas para uma evangeliza&ccedil;&atilde;o forte e intensa, personalizada, que v&aacute; para al&eacute;m do p&uacute;lpito e das formas tradicionais de evangeliza&ccedil;&atilde;o (8). O mundo necessita de uma Igreja viva, plural, na diversidade de pessoas e carismas, que seja espelho vivo da comunh&atilde;o trinit&aacute;ria; de uma Igreja amor, alegre, humilde, desinstalada das suas certezas, que saiba partilhar com generosidade; de uma Igreja mission&aacute;ria que testemunhe seriamente, convoque e provoque os seus membros para as bem-aventuran&ccedil;as do Reino de Deus. Sintetizando, diante dos sinais dos tempos, precisamos de colocar permanentemente e sem subterf&uacute;gios a pergunta: Igreja, que esperam de ti os homens de hoje?<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>III &ndash; Formar uma mem&oacute;ria crist&atilde; no quotidiano da vida<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na fidelidade ao Evangelho, urge formar crist&atilde;os que queiram viver a partir de uma experi&ecirc;ncia exigente de encontro e de seguimento do Mestre. Crist&atilde;os com rasgos de esperan&ccedil;a, capazes de abrirem caminhos novos e criativos nos diversos &acirc;mbitos pastorais face &agrave; nebulosa existencial e de assentarem a sua f&eacute; no encontro pessoal e quotidiano com Cristo.<\/p>\n<p>&Eacute; neste sentido que o Santo Padre constata que o momento actual<em> &laquo;exige um novo vigor mission&aacute;rio dos crist&atilde;os, chamados a formar um laicado maduro, identificado com a Igreja, solid&aacute;rio com a complexa transforma&ccedil;&atilde;o do mundo. H&aacute; necessidade de verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos onde o sil&ecirc;ncio da f&eacute; &eacute; mais amplo e profundo: pol&iacute;ticos, intelectuais, profissionais de comunica&ccedil;&atilde;o [&hellip;]. Em tais &acirc;mbitos, n&atilde;o faltam crentes envergonhados que d&atilde;o as m&atilde;os ao secularismo, construtor de barreiras &agrave; inspira&ccedil;&atilde;o crist&atilde;&raquo;(9).<\/em><\/p>\n<p>A constata&ccedil;&atilde;o generalizada da d&eacute;bil forma&ccedil;&atilde;o crist&atilde; dos leigos coloca-nos algumas quest&otilde;es para reflex&atilde;o. Que mem&oacute;ria crist&atilde; estamos a construir e a transmitir &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es vindouras? Quais as raz&otilde;es de algum laicado imaturo ao n&iacute;vel da f&eacute;? Como narramos e testemunhamos o Evangelho? N&atilde;o estaremos n&oacute;s ainda num paradigma eclesial demasiado clerical e jurisdicista? Que gera&ccedil;&otilde;es estamos a formar com a catequese e a educa&ccedil;&atilde;o crist&atilde; actual? Que espa&ccedil;o e acompanhamento temos dado aos novos movimentos, minist&eacute;rios e grupos apost&oacute;licos na vida da Igreja? N&atilde;o estaremos, porventura, excessivamente instalados no ritualismo sacramental e intra-eclesial? Falta&#8209;nos o elemento expectativa (10) diante das grandes quest&otilde;es da vida e da morte?<\/p>\n<p>Torna-se, por isso, premente olhar para a inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, os seus agentes, formas e conte&uacute;dos, de modo que a Igreja, sob a ac&ccedil;&atilde;o actuante do Esp&iacute;rito Santo, fa&ccedil;a disc&iacute;pulos conscientes da sua f&eacute;, testemunhas e seguidores expectantes da salva&ccedil;&atilde;o de Deus. Isso exigiria adoptar o catecumenado adulto como modelo de inicia&ccedil;&atilde;o &agrave; f&eacute; crist&atilde; (11), de modo a fazer disc&iacute;pulos que, na sua liberalidade, saibam ler, interpretar, agir e testemunhar os acontecimentos da hist&oacute;ria &agrave; luz da Palavra eloquente de Deus. Isso colocar&aacute; o Evangelho no centro da vida das comunidades crist&atilde;s, numa interpela&ccedil;&atilde;o permanente &agrave; sociedade, &agrave; cultura, &agrave; pol&iacute;tica, ao trabalho, &agrave;s artes, &agrave; economia e aos grandes are&oacute;pagos da comunica&ccedil;&atilde;o (12).<\/p>\n<p>Necessitamos de um laicado comprometido e id&oacute;neo, devidamente preparado e em profunda comunh&atilde;o eclesial, para decidir, assumir, agir, rezar e evangelizar <em>intra<\/em> e <em>extra<\/em> eclesialmente; profundamente enraizado na medita&ccedil;&atilde;o da Palavra, nas fontes cl&aacute;ssicas e contempor&acirc;neas da espiritualidade crist&atilde;, na hist&oacute;ria e na arte crist&atilde;s, na doutrina teol&oacute;gica e social da Igreja, na leitura e na imita&ccedil;&atilde;o da vida dos grandes santos e santas da Igreja e no cumprimento da caridade crist&atilde;. Assim, o mundo clerical sentir&aacute; a mudan&ccedil;a como uma necessidade interior e n&atilde;o apenas como uma atitude sociol&oacute;gica face a um mundo em transforma&ccedil;&atilde;o. Comunidades formadas e preparadas interpelar&atilde;o a vida sacerdotal na condu&ccedil;&atilde;o espiritual do Povo de Deus.<\/p>\n<p>N&atilde;o podemos ficar por uma renova&ccedil;&atilde;o epid&eacute;rmica, superficial, sob o risco de ficarmos anestesiados e combalidos! Espera-nos uma mudan&ccedil;a radical de atitudes e comportamentos para que esta renova&ccedil;&atilde;o chegue a tempo, sem se fechar no imediatismo e na voracidade do tempo. Faz-nos falta compreender que a renova&ccedil;&atilde;o est&aacute; no testemunho (13) que torna cred&iacute;vel e apetec&iacute;vel o an&uacute;ncio de Cristo, livre da banalidade e de prefer&ecirc;ncias triviais, de gostos lit&uacute;rgicos superficiais e comerciais, que colocam as pessoas e comunidades &agrave; margem do encontro silencioso e pessoal com o <em>Belo Pastor<\/em> e fora da aut&ecirc;ntica comunh&atilde;o eclesial.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>IV &ndash; Igreja que tens a dizer ao mundo? Um apelo &agrave; Verdade<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; necess&aacute;rio que a Igreja fortalecida pela comunh&atilde;o dos seus membros se sinta enviada at&eacute; aos confins da terra. Liberta de todo o tipo de amarras, no respeito pela diferen&ccedil;a, sem nada impor, propor&aacute; o Evangelho como acontecimento feliz e libertador. Uma proposta que tem como conte&uacute;do a pessoa de Jesus Cristo e todo o seu acontecimento; como protagonista a voz do Esp&iacute;rito Santo que nos chama e envia quotidianamente a cada lugar e a cada pessoa (14).<\/p>\n<p>Reconhecemos que o Estado e o poder pol&iacute;tico n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos respons&aacute;veis no governo da na&ccedil;&atilde;o. O esp&iacute;rito de miss&atilde;o e de humanidade imp&otilde;e que todas a for&ccedil;as e todos os quadrantes colaborem em ordem ao bem comum. A presen&ccedil;a de leigos crist&atilde;os na vida pol&iacute;tica, cultural, econ&oacute;mica, financeira, na comunica&ccedil;&atilde;o social, ser&aacute; certamente um contributo em ordem &agrave; humaniza&ccedil;&atilde;o da vida p&uacute;blica. Um laicado, em sintonia com o Evangelho e com a doutrina social da Igreja, exercer&aacute; certamente uma for&ccedil;a positiva na resolu&ccedil;&atilde;o dos problemas do nosso pa&iacute;s. O sentido de responsabilidade p&uacute;blica e de participa&ccedil;&atilde;o na vida democr&aacute;tica exigir&aacute; l&iacute;deres com propostas novas e s&eacute;rias que visem promover a equidade e a coes&atilde;o da sociedade portuguesa.<\/p>\n<p>Pela miss&atilde;o que nos cumpre de anunciar, n&atilde;o podemos deixar de evidenciar tamb&eacute;m a nossa perplexidade pela falta de verdade nos centros de decis&atilde;o da gest&atilde;o p&uacute;blica, pela aus&ecirc;ncia de vontade em solucionar os desafios actuais e pela &acirc;nsia obsessiva do lucro que conduz &agrave; desumaniza&ccedil;&atilde;o da vida. Inverdade frequentemente resultante de querelas pessoais e de jogos pol&iacute;tico-partid&aacute;rios pouco transparentes, que aprisionam os l&iacute;deres aos interesses instalados nas estruturas p&uacute;blico-privadas. A comunidade humana n&atilde;o pode pactuar com a teoria dos consensos pol&iacute;ticos m&iacute;nimos que geralmente n&atilde;o resultam em solu&ccedil;&otilde;es sustentadas. O apelo &agrave; justi&ccedil;a e &agrave; igualdade surge esvaziado de conte&uacute;do porque sem resultados pr&aacute;ticos. As novas gera&ccedil;&otilde;es n&atilde;o t&ecirc;m expectativas em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro, quer pela falta de trabalho, quer por falta de horizontes para a vida. Cada vez mais os centros sociais e lares se enchem de pessoas que j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;m lugar &agrave; mesa das suas fam&iacute;lias, tanto por raz&otilde;es de ordem laboral e econ&oacute;mica, como pela banaliza&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os familiares. Surgem novas formas de liberaliza&ccedil;&atilde;o e de imposi&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada de uma cultura da morte sem precedentes e minimalista, em que as propostas conduzem tendencialmente para a desumaniza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es humanas.<\/p>\n<p>Neste contexto de incerteza, o apelo da Igreja &agrave; &laquo;verdade na caridade&raquo; (Bento XVI) faz todo o sentido. O sinal distintivo da Igreja, com todos os seus membros e estruturas, &eacute; estar presente nos lugares onde a vida do pr&oacute;ximo &eacute; prec&aacute;ria e banalizada, maltratada e escarnecida. O an&uacute;ncio expectante dum tempo novo traz necessariamente consigo a den&uacute;ncia e a proposta de ac&ccedil;&otilde;es concretas. A verdade &eacute; um imperativo colocado a todos, &eacute; um acto de honestidade, sobretudo ao n&iacute;vel dos centros de decis&atilde;o dos diversos cargos pol&iacute;ticos, econ&oacute;micos, sociais e culturais. A&iacute; falta, por vezes, uma verdade objectiva que &eacute; relativizada em detrimento do prest&iacute;gio e do protagonismo pessoal. Sem o testemunho nem os exemplos das lideran&ccedil;as, como se poder&aacute; exigir sacrif&iacute;cios &agrave;s pessoas? N&atilde;o ser&atilde;o necess&aacute;rios esfor&ccedil;os de concerta&ccedil;&atilde;o e de mobiliza&ccedil;&atilde;o na procura de um modelo social que perdure e d&ecirc; esperan&ccedil;a &agrave; gera&ccedil;&atilde;o presente e futura?<\/p>\n<p>A Igreja, com os seus leigos, clero, estruturas, volunt&aacute;rios e pessoas de boa vontade, continuar&aacute; a anunciar a P&aacute;scoa do Senhor, na expectativa de cumprirmos o mandato do amor de Cristo, de realizar as bem-aventuran&ccedil;as no quotidiano das pessoas, nos locais onde as estruturas do Estado n&atilde;o chegam ou desistem de chegar. Com todas as dificuldades e entraves que surjam, nas nossas par&oacute;quias ou dioceses, procuraremos realizar o Evangelho e marcar presen&ccedil;a onde a vida humana &eacute; desrespeitada e debilitada por falta de bens e por aus&ecirc;ncia de sentido para a vida (15). Cabe-nos a responsabilidade apost&oacute;lica de propor com desassombro a beleza do Evangelho de Cristo aos crentes e &agrave; humanidade e de semear a possibilidade de uma vida feliz para todos.<\/p>\n<p>Na presente conjuntura, n&atilde;o posso deixar silenciado o fundamental direito da liberdade de ensino, consignado na Constitui&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Portuguesa, o que significa ser imperioso respeitar o direito que t&ecirc;m os pais de escolher para seus filhos a Escola que julgarem melhor. Todas as poss&iacute;veis tentativas de estatiza&ccedil;&atilde;o, que pretendam conquistar o terreno do ensino particular e cooperativo, nomeadamente &agrave; Igreja, violam este princ&iacute;pio fundamental de uma sociedade livre e democr&aacute;tica. Al&eacute;m disso, estando n&oacute;s em tempo de restri&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas, seria um desperd&iacute;cio e esbanjamento imperdo&aacute;veis desproteger as Escolas particulares que poupam ao Estado verbas avultad&iacute;ssimas. Confiamos firmemente que as conversa&ccedil;&otilde;es em curso com o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o cheguem a bom porto, para bem dos alunos, de seus pais e do Pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Passando a sociedade portuguesa por particulares tempos de crise e estando em processo de efectiva&ccedil;&atilde;o duras medidas de austeridade, apelamos &agrave;s inst&acirc;ncias governativas para que as classes mais desfavorecidas sejam menos penalizadas e mais ajudadas. Apelamos tamb&eacute;m &agrave; partilha e &agrave; solidariedade de todos, sabendo que a sociedade espera gestos concretos da Igreja neste campo.<\/p>\n<p>Termino recordando, com saudade e ora&ccedil;&atilde;o, D. Armindo Lopes Coelho e D. Tomaz Pedro Barbosa Silva Nunes. Com eles, e muitos outros que nos antecederam, sentimo-nos ancorados na f&eacute; e sem medo destes novos tempos. N&atilde;o esquecemos tamb&eacute;m os nossos irm&atilde;os no episcopado que est&atilde;o doentes e seguem os nossos trabalhos em esp&iacute;rito de comunh&atilde;o eclesial. Que a todos a alegria pascal contagie em gra&ccedil;a e sabedoria fraternal.<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 2010-11-08<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; Jorge Ferreira da Costa Ortiga,<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>Presidente da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa<\/em><\/p>\n<p>(NOTAS)<\/p>\n<p>1 -Joseph RATZINGER, <em>Fe y futuro<\/em>, S&iacute;gueme, Salamanca 1972.<\/p>\n<p>2 &#8211; JO&Atilde;O PAULO II, <em>Christifideles Laici<\/em>, n&ordm;26.<\/p>\n<p>3 &#8211; Philipe BACQ, <em>Vers une pastorale d&rsquo;engendrement<\/em>, in AA.VV., <em>Une Nouvelle chance pour l&rsquo;&eacute;vangile<\/em>. <em>Vers une pastorale d&rsquo;engendrement<\/em>, ed. Lumen Vitae, Bruxelas 2004.<\/p>\n<p>4 &#8211; Bento XVI, Discurso aos Bispos da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa por ocasi&atilde;o da visita<em> Ad Limina Apostolorum<\/em>, 10 de Novembro de 2007.<\/p>\n<p>5 &#8211; &laquo;O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que tamb&eacute;m v&oacute;s tenhais comunh&atilde;o connosco. Quanto &agrave; nossa comunh&atilde;o, ela &eacute; com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo&raquo; (<em>Jo<\/em> 1,3).<\/p>\n<p>6 &#8211; &laquo;Achava-se ali, diante dele, um hidr&oacute;pico. Jesus, dirigindo a palavra aos doutores da Lei e fariseus, disse-lhes: &ldquo;&Eacute; permitido ou n&atilde;o curar ao s&aacute;bado?&rdquo; Mas eles ficaram calados. Tomando-o, ent&atilde;o, pela m&atilde;o, curou-o e mandou-o embora&raquo; (<em>Lc<\/em> 14, 1-6).<\/p>\n<p>7 &#8211; &laquo;Lembra-te de que Jesus Cristo, descendente de David, ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho, pelo qual eu sofro [&hellip;] Mas a Palavra de Deus n&atilde;o est&aacute; encadeada. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que obtenham a salva&ccedil;&atilde;o que est&aacute; em Cristo Jesus e a salva&ccedil;&atilde;o eterna&raquo; (<em>2 Tim<\/em> 2, 8&#8209;10).<\/p>\n<p>8 &#8211; BENTO XVI, <em>Homilia na Avenida dos Aliados<\/em>, Porto, 14 de Maio de 2010: &laquo;Temos de vencer a tenta&ccedil;&atilde;o de nos limitarmos ao que ainda temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a prazo, enquanto presen&ccedil;a da Igreja no mundo, que ali&aacute;s s&oacute; pode ser mission&aacute;ria&raquo;.<\/p>\n<p>9 &#8211; Bento XVI, Discurso aos Bispos da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa, por ocasi&atilde;o da visita<em> Ad Limina Apostolorum<\/em>, 10 de Novembro de 2007.<\/p>\n<p>10 &#8211; &ldquo;Acredito que a resist&ecirc;ncia ao cristianismo vem em grande parte do facto de os crist&atilde;os, abertamente ou n&atilde;o, erguerem a pretens&atilde;o de possuir Deus e terem assim perdido o elemento de expectativa.&#8221; (Paul Tillich).<\/p>\n<p>11 &#8211; Cf. Cartas Pastorais de 1983.<\/p>\n<p>12 &#8211; CONFER&Ecirc;NCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Carta Pastoral <em>&laquo;Como eu vos fiz, fazei v&oacute;s tamb&eacute;m&raquo; &#8211; Para um rosto mission&aacute;rio da Igreja em Portugal<\/em>, n&ordm; 26: &laquo;&eacute; urgente saber aproveitar todas as oportunidades, mas tamb&eacute;m saber provoc&aacute;-las, e lan&ccedil;ar m&atilde;os de capacidades e aptid&otilde;es, mas tamb&eacute;m saber cultiv&aacute;-las, para oferecer o Evangelho ao nosso mundo&raquo;.<\/p>\n<p>13 &#8211; BENTO XVI, <em>Discurso no encontro com os bispos de Portugal, <\/em>F&aacute;tima, 13 de Maio de 2010: &laquo;A f&eacute; cat&oacute;lica muito dificilmente poder&aacute; tocar os cora&ccedil;&otilde;es gra&ccedil;as a simples discursos ou apelos morais e menos ainda a gen&eacute;ricos apelos aos valores crist&atilde;os [&hellip;]. Aquilo que fascina &eacute; sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua f&eacute;, atraem para a gra&ccedil;a de Cristo dando testemunho dele&raquo;.<\/p>\n<p>14 &#8211; &laquo;Ides receber uma for&ccedil;a, a do Esp&iacute;rito Santo, que descer&aacute; sobre v&oacute;s, e sereis minhas testemunhas em Jerusal&eacute;m, por toda a Judeia e Samaria e at&eacute; aos confins do mundo&raquo; (<em>Act<\/em> 1,8).<\/p>\n<p>15 &#8211; Bento XVI, Carta Enc&iacute;clica <em>Caritas in Veritate<\/em>, n&ordm; 9: &laquo;A Igreja n&atilde;o tem solu&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas para oferecer [&hellip;], mas tem uma miss&atilde;o ao servi&ccedil;o da verdade para cumprir, em todo o tempo e conting&ecirc;ncia, a favor de uma sociedade &agrave; medida do homem, da sua dignidade, da sua voca&ccedil;&atilde;o&raquo;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A visita pastoral do Santo Padre a Portugal, no passado m&ecirc;s de Maio, trouxe &agrave; Igreja um novo ardor evang&eacute;lico, de confirma&ccedil;&atilde;o e de renova&ccedil;&atilde;o da nossa miss&atilde;o. &Agrave; sociedade portuguesa trouxe apre&ccedil;o cordial e a todos deixou mensagens de &acirc;nimo, solidariedade e esperan&ccedil;a. Neste sentido, expressamos ao Papa Bento XVI, por interm&eacute;dio do Senhor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,127,160,187,191,199,314,327],"class_list":["post-48172","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-d-armindo-lopes-coelho","tag-diocese-do-porto","tag-economia","tag-espiritualidade","tag-solidariedade","tag-visita-ad-limina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48172"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48172\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}