{"id":48104,"date":"2010-11-05T18:08:17","date_gmt":"2010-11-05T18:08:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/05\/intervencao-do-presidente-da-cep-no-congresso-ordens-e-congregacoes-religiosas-em-portugal\/"},"modified":"2010-11-05T18:08:17","modified_gmt":"2010-11-05T18:08:17","slug":"intervencao-do-presidente-da-cep-no-congresso-ordens-e-congregacoes-religiosas-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/intervencao-do-presidente-da-cep-no-congresso-ordens-e-congregacoes-religiosas-em-portugal\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o do presidente da CEP no congresso \u00abOrdens e Congrega\u00e7\u00f5es Religiosas em Portugal\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><strong>Presen&ccedil;a Eloquente<\/strong><\/p>\n<p>O Congresso Internacional, &ldquo;Ordens e Congrega&ccedil;&otilde;es Religiosas em Portugal &ndash; mem&oacute;rias, Presen&ccedil;as e Di&aacute;sporas&rdquo;, permite-me, na qualidade de Presidente da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa, reafirmar o que foi dito na Nota Pastoral de 2004, a prop&oacute;sito dos 50 anos da CNIR e da FNIR, agora fundidas, desde 2005, na CIRP. A referida nota dizia o seguinte: &ldquo;procuramos ajud&aacute;-las (Comunidades crist&atilde;s), para que tenham uma maior compreens&atilde;o e apre&ccedil;o pela vida religiosa (e se sintam estimuladas a colaborar na promo&ccedil;&atilde;o das voca&ccedil;&otilde;es de Consagra&ccedil;&atilde;o). &Eacute; tamb&eacute;m uma mensagem amiga, express&atilde;o de gratid&atilde;o e de estima dirigida a todos os religiosos e religiosas de Portugal, que queremos estimular sempre mais na sua fidelidade e na disponibilidade para com Deus e os irm&atilde;os&rdquo; (n.1).<\/p>\n<p>A Igreja e a sociedade portuguesa agradecem o testemunho e o amplo trabalho realizado pelas Ordens e Congrega&ccedil;&otilde;es religiosas em prol da f&eacute; e da humanidade. A nossa hist&oacute;ria est&aacute; cheia de exemplos de homens e mulheres que se entregaram de corpo e alma &agrave; causa do Evangelho. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel pensar a hist&oacute;ria portuguesa sem o contributo das ordens religiosas na constru&ccedil;&atilde;o da nossa identidade cultural. Para traduzir o nosso sentimento colectivo de gratid&atilde;o, permitam-me que recorra novamente &agrave; referida Carta Pastoral, real&ccedil;ando, em primeiro lugar, a dimens&atilde;o material, para depois recordar os frutos da dedica&ccedil;&atilde;o no interior da Igreja e das suas estruturas e no servi&ccedil;o em v&aacute;rios sectores da sociedade de harmonia com a pluralidade de carismas.<\/p>\n<p>Assim, &ldquo;queremos, neste momento e por este modo, recordar e assinalar, com gratid&atilde;o e admira&ccedil;&atilde;o, o que a Igreja em Portugal deve aos religiosos e religiosas, pelo seu trabalho e zelo em tempos passados e, actualmente, pela sua ac&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria, percorrendo, ontem e hoje, os caminhos do Evangelho vivo que Jesus proclamou. S&atilde;o muitos os marcos hist&oacute;ricos a assinalar, durante s&eacute;culos, de modo eloquente, a vida e a ac&ccedil;&atilde;o dos religiosos e religiosas nos seus conventos e comunidades, espalhados de norte a sul. Para al&eacute;m do apostolado realizado, que deixou ra&iacute;zes em muitas gera&ccedil;&otilde;es e por todo o pa&iacute;s, temos ainda a record&aacute;-los a arte das suas igrejas, a riqueza das suas bibliotecas, a tradi&ccedil;&atilde;o da sua cultura e zelo, a sua ac&ccedil;&atilde;o transformadora junto das popula&ccedil;&otilde;es rurais. A espolia&ccedil;&atilde;o dos bens, casas e obras de arte, que atingiu a Igreja em Portugal nos s&eacute;culos XIX e XX, que enriqueceu o Estado de im&oacute;veis monumentais e encheu os seus museus de valiosas obras de arte, atingiu, de um modo especial, as ordens e congrega&ccedil;&otilde;es religiosas&rdquo; (n&deg; 3).<\/p>\n<p>&laquo;Actualmente encontramos os religiosos e religiosas activos no campo da cultura, educa&ccedil;&atilde;o, comunica&ccedil;&atilde;o social, sa&uacute;de, no cuidado dos mais pobres, na entrega abnegada a crian&ccedil;as e adolescentes, na dedica&ccedil;&atilde;o, sem limites, aos idosos das institui&ccedil;&otilde;es, na entrega di&aacute;ria a doentes do foro ps&iacute;quico, no acolhimento privilegiado aos jovens de todas as condi&ccedil;&otilde;es, na assist&ecirc;ncia e promo&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias mais vulner&aacute;veis e fragilizadas.<\/p>\n<p>Encontramos religiosos e religiosas por esse mundo al&eacute;m, no acolhimento e ajuda espiritual e fraterna aos emigrantes portugueses e, tamb&eacute;m, aos imigrantes que, rapidamente e nem sempre nas melhores condi&ccedil;&otilde;es, vieram at&eacute; n&oacute;s e se espalharam por todas as nossas dioceses. Encontramo-los activos em in&uacute;meras par&oacute;quias, nas catequeses, na anima&ccedil;&atilde;o lit&uacute;rgica das assembleias dominicais, na forma&ccedil;&atilde;o dos agentes pastorais, na aten&ccedil;&atilde;o dialogante aos dinamismos sociais hoje mais determinantes.<\/p>\n<p>Encontramo-los ainda, com o ardor que lhes vem de um grande amor dedicado &agrave; causa mission&aacute;ria, a partir, cada ano, para os mais variados campos de miss&atilde;o, e a animar projectos que entusiasmem e comprometam jovens e adultos, a responder, de diversos modos, &agrave; urg&ecirc;ncia da evangeliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E na pluralidade das situa&ccedil;&otilde;es humanas e sociais mais preocupantes e marcadas pelas maiores necessidades, que surgiram e continuam a surgir os carismas fundacionais, mostrando o cuidado e o carinho de Deus para com todos. Estes carismas s&atilde;o abra&ccedil;ados e seguidos depois, ao longo dos tempos, por jovens e adultos que se sentem chamados a seguir Jesus na peugada dos seus fundadores, e estimulados, diariamente, pelo seu generoso testemunho, a responder a iguais situa&ccedil;&otilde;es e car&ecirc;ncias humanas, sociais e eclesiais&raquo; (n&deg; 4).<\/p>\n<p>Se o estudo e o reconhecimento do trabalho realizado pelas Ordens e Congrega&ccedil;&otilde;es suscitam gratid&atilde;o e admira&ccedil;&atilde;o, este momento deve tornar-se, tamb&eacute;m, um est&iacute;mulo de esperan&ccedil;a para confirmar o percurso espiritual e humano e ousar reinterpretar o papel dos carismas na edifica&ccedil;&atilde;o da Igreja e no servi&ccedil;o ao ser humano. Fa&ccedil;o-o atrav&eacute;s de tr&ecirc;s considera&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 &ndash; Interioridade e escuta do Esp&iacute;rito <\/strong><\/p>\n<p>Ao longo da hist&oacute;ria a Igreja sempre soube lidar com a pluralidade fecunda de carismas, que sob a for&ccedil;a do Esp&iacute;rito Santo, fez de muitos homens e mulheres aut&ecirc;nticos testemunhos de vida. Foram muitos os momentos de tens&atilde;o criativa entre a Igreja hier&aacute;rquica e a Igreja Carism&aacute;tica. A primeira apostada teimosamente em conservar ritmos de vida e a segunda mais aberta &agrave; novidade porque sens&iacute;vel &agrave; realidade. O Esp&iacute;rito confirmava esses caminhos novos de que a Igreja e o mundo viriam a beneficiar.<\/p>\n<p>Esta capacidade de discernir as interpela&ccedil;&otilde;es do Esp&iacute;rito na complexidade das situa&ccedil;&otilde;es hodiernas poderia ser um contributo precioso, n&atilde;o exclusivo, dos Carismas &agrave; Igreja hier&aacute;rquica, aqui e agora. A vertente da interioridade e do sil&ecirc;ncio, n&atilde;o substituindo ningu&eacute;m, &eacute; o ambiente gerador das condi&ccedil;&otilde;es para um acolhimento daquilo que Deus quer dizer &agrave; Igreja em Portugal. A renova&ccedil;&atilde;o pastoral que se pretende pode correr um risco: um sonho demasiado t&eacute;cnico, alicer&ccedil;ado nas for&ccedil;as e c&aacute;lculos meramente humanos. &Eacute; sempre oportuno reconhecer que a Igreja vem doutro lado e o condutor do Povo de Deus &eacute; sempre o Esp&iacute;rito a agir em todos, embora com responsabilidades particulares para alguns.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2 &ndash; Fuga\/presen&ccedil;a no Mundo <\/strong><\/p>\n<p>Se no passado as Ordens e Congrega&ccedil;&otilde;es se refugiavam nos conventos e mosteiros, no desejo da &ldquo;<em>fuga mundi<\/em>&rdquo; como condi&ccedil;&atilde;o para o encontro com Deus, hoje, face ao tumulto ruidoso dos problemas, encontramo-nos diante da necessidade da eloqu&ecirc;ncia do sil&ecirc;ncio meditativo. Essa fuga denotava por vezes exageros e medos que s&oacute; podem compreendidos &agrave; luz duma situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica concreta. Tratava-se dum abandono quase absoluto pois tudo era visto como perigo ou uma nega&ccedil;&atilde;o da bondade das coisas e das pessoas. S&oacute; a fuga facilitava e proporcionava as condi&ccedil;&otilde;es para um amor ablativo e exclusivo. 4<\/p>\n<p>Hoje, esta mesma fuga deve converter-se num &ecirc;xodo permanente e encontro com as grandes quest&otilde;es da sociedade, no respeito pela especificidade de cada carisma. O mundo n&atilde;o pode atemorizar o disc&iacute;pulo de Cristo. A vida do crist&atilde;o encontra-se ancorada na certeza inconfund&iacute;vel do Seu amor e na esperan&ccedil;a duma comunidade verdadeiramente fraterna. Tal como Cristo, incarnado, se edificou com as situa&ccedil;&otilde;es de nega&ccedil;&atilde;o de Deus colocando-as no horizonte da salva&ccedil;&atilde;o, hoje, o mundo &eacute; o campo aberto e inspirado duma presen&ccedil;a criativa de solu&ccedil;&otilde;es. O testemunho torna-se di&aacute;logo e este permite o an&uacute;ncio de verdades em confronto com um pluralismo cultural e religioso. &Eacute; aqui, numa liberdade interior que nada nem ningu&eacute;m pode condicionar, que hoje devemos montar a tenda conventual, de modo a gerar vida nova no servi&ccedil;o simples e humilde aos mais carenciados. Tudo isto se pode realizar no maior dos sil&ecirc;ncios porque a gratuidade e a generosidade n&atilde;o se compagina com a espectaculariza&ccedil;&atilde;o da vida humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3 &ndash; Abertura ao P&aacute;tio dos Gentios <\/strong><\/p>\n<p>A Presen&ccedil;a no mundo, como nova express&atilde;o da <em>Fuga Mundi<\/em>, pode e deve ter um sentido de miss&atilde;o. A itiner&acirc;ncia era o estilo dos Ap&oacute;stolos e S. Paulo deixa-nos experi&ecirc;ncias que podem ser paradigm&aacute;ticas.<\/p>\n<p>A sua estadia no are&oacute;pago de Atenas, perante uma pluralidade cultural, levou-o a interpelar os ilustres atenienses sobre o &ldquo;Deus desconhecido&rdquo;. A luta da comunidade primitiva estava na d&uacute;vida de ir ou n&atilde;o ao encontro dos gentios, daqueles que estavam fora do &acirc;mbito considerado religioso. Triunfa a orienta&ccedil;&atilde;o mission&aacute;ria com a responsabilidade de a Igreja aprender a estar perante a diferen&ccedil;a, testemunhando Jesus Cristo por uma presen&ccedil;a alegre no quotidiano da vida.<\/p>\n<p>O Santo Padre falou-nos duma experi&ecirc;ncia pastoral que ainda n&atilde;o foi acolhida. Trata-se do <strong><em>&ldquo;P&aacute;tio dos Gentios&rdquo;<\/em><\/strong>. Seriam lugares abertos &ndash; e s&atilde;o tantos na sociedade actual &ndash; onde nos sentamos para dialogar sobre as raz&otilde;es da nossa f&eacute;. Outrora constru&iacute;ram-se catedrais, hoje teremos de ser mais despretensiosos e construir comunidades de pessoas com f&eacute; viva que se interrogam sobre as quest&otilde;es centrais da nossa exist&ecirc;ncia. A arte, com o colorido das suas manifesta&ccedil;&otilde;es, pode encontrar a nossa simpatia e deixar a Beleza manifestar-se no amor cruciforme que salva o mundo.<\/p>\n<p>O mundo das ci&ecirc;ncias exactas e da cultura s&atilde;o permanentemente <strong><em>P&aacute;tios Abertos <\/em><\/strong>ao di&aacute;logo entre a f&eacute; e a raz&atilde;o na procura progressiva da verdade do Homem, de Deus e do mundo. Sei que este ou estes &ldquo;p&aacute;tios&rdquo; n&atilde;o s&atilde;o confiados s&oacute; aos religiosos. Hoje, os leigos s&atilde;o chamados a direccionarem o seu compromisso de crist&atilde;os para estes ambientes. Esta presen&ccedil;a humilde ser&aacute; actuante e abrir&aacute; novos caminhos a toda a Igreja se as comunidades religiosas assumirem os seus diversos carismas na forma&ccedil;&atilde;o de um laicado maduro e identificado com os valores do Evangelho.<\/p>\n<p>Creio que a obra dos carismas crist&atilde;os ao longo dos anos &eacute; algo de patente e muito claro. Muitos poder&atilde;o n&atilde;o querer aceitar; outros pretender&atilde;o desconsiderar. N&oacute;s afirmamos que &ldquo;se houve exemplos menos positivos n&atilde;o ofuscam nem minimizam em nada a riqueza imensa deste dom de Deus &agrave; Igreja, que &eacute; a vida religiosa&rdquo; (Nota pastoral n&ordm; 2).<\/p>\n<p>Gostaria de terminar a minha partilha com a express&atilde;o do conhecido Principezinho &ldquo;o essencial &eacute; invis&iacute;vel aos olhos&rdquo;. Talvez muitos nunca cheguem a compreender isto. O facto &eacute; que ao longo da hist&oacute;ria as ordens e congrega&ccedil;&otilde;es religiosas nunca estiveram ausentes na constru&ccedil;&atilde;o da Igreja, da cultura e da sociedade em geral. O essencial ficar&aacute; sempre por dizer. Reconhe&ccedil;amos esta presen&ccedil;a cheia de vida e da sua import&acirc;ncia para a renova&ccedil;&atilde;o da Igreja face a um mundo em constante mudan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, Lisboa, 05-11-10<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; Jorge Ortiga, A.P.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presen&ccedil;a Eloquente O Congresso Internacional, &ldquo;Ordens e Congrega&ccedil;&otilde;es Religiosas em Portugal &ndash; mem&oacute;rias, Presen&ccedil;as e Di&aacute;sporas&rdquo;, permite-me, na qualidade de Presidente da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa, reafirmar o que foi dito na Nota Pastoral de 2004, a prop&oacute;sito dos 50 anos da CNIR e da FNIR, agora fundidas, desde 2005, na CIRP. 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