{"id":48102,"date":"2010-11-05T17:15:41","date_gmt":"2010-11-05T17:15:41","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/05\/intervencao-do-bispo-do-porto-no-congresso-internacional-ordens-e-congregacoes-religiosas-em-portugal\/"},"modified":"2010-11-05T17:15:41","modified_gmt":"2010-11-05T17:15:41","slug":"intervencao-do-bispo-do-porto-no-congresso-internacional-ordens-e-congregacoes-religiosas-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/intervencao-do-bispo-do-porto-no-congresso-internacional-ordens-e-congregacoes-religiosas-em-portugal\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o do Bispo do Porto no Congresso Internacional Ordens e Congrega\u00e7\u00f5es Religiosas em Portugal"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposi&ccedil;&atilde;o dos frades que a dos bar&otilde;es. O caso estava em a saber conter e aproveitar. O Progresso e a Liberdade perdeu, n&atilde;o ganhou. Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ru&iacute;nas, os egressos a pedir esmola e os bar&otilde;es de berlinda, tenho saudades dos frades &ndash; n&atilde;o dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. [&hellip;] N&atilde;o senhor: o frade, que &eacute; patriota e liberal na Irlanda, na Pol&oacute;nia, no Brasil, podia e devia s&ecirc;-lo entre n&oacute;s, e n&oacute;s fic&aacute;vamos muito melhor do que estamos com meia dizia de cl&eacute;rigos de requiem para nos dizer missa, e com duas grosas de bar&otilde;es, n&atilde;o para a tal oposi&ccedil;&atilde;o salutar, mas para exercer toda a influ&ecirc;ncia moral e intelectual &ndash; porque n&atilde;o h&aacute; de outra c&aacute;&rdquo; (Almeida Garrett, Viagens na minha Terra (1846), Cap&iacute;tulo XIII[1]).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os anos quarenta do s&eacute;culo XIX j&aacute; eram de revis&atilde;o liberal. Desde 1820, sucederam-se as tentativas constitucionais &ndash; 1820, 1834, 1836 &ndash; com avan&ccedil;os e recuos. Quando Almeida Garrett (1799-1854) publica as suas Viagens, a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica andava de novo agitada (da Maria da Fonte &agrave; Patuleia) e tudo poderia acontecer, at&eacute; que a Regenera&ccedil;&atilde;o chegasse em 1851.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, muita coisa mudara. Tirando o per&iacute;odo miguelista (1828-1834), a monarquia passara de &ldquo;absoluta&rdquo; a constitucional, sob o regime sucessivo da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1822, da Carta Constitucional de 1834, da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1838 (em cuja redac&ccedil;&atilde;o Garrett colaborara) e da Carta outra vez, depois de 1842. Com a monarquia constitucional viera tamb&eacute;m a nova governa&ccedil;&atilde;o, dos &ldquo;amigos de D. Pedro&rdquo; ou dos seus opositores mais radicais, basicamente conformes com os novos princ&iacute;pios da divis&atilde;o de poderes, do ideal do m&eacute;rito individual antes da hereditariedade, da crescente autonomia de cada um face &agrave;s obedi&ecirc;ncias institucionais, da reorganiza&ccedil;&atilde;o formal do pa&iacute;s em detrimento das quadr&iacute;culas herdadas, da liberdade de compra e venda de patrim&oacute;nios e da iniciativa econ&oacute;mica para quem pudesse e quisesse&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tinham-se sucedido reformas nesse sentido, de Mousinho da Silveira a Passos Manuel, amigo de Garrett, n&atilde;o postas em causa, fundamentalmente, com os governos subsequentes de Costa Cabral, restaurador da Carta nos anos quarenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Anos quarenta, anos de profundas mudan&ccedil;as na Europa que nos dizia mais respeito, entre Fran&ccedil;a e It&aacute;lia. Em Fran&ccedil;a, a monarquia liberal de Lu&iacute;s Filipe durou at&eacute; &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o de 1848, pr&oacute;dromo das reivindica&ccedil;&otilde;es s&oacute;cio-laborais contempor&acirc;neas. Anos tamb&eacute;m do Risorgimento italiano, que poria em causa a subsist&ecirc;ncia dos Estados Pontif&iacute;cios, agravando o dissentimento entre o liberalismo latino e o catolicismo romano. Dissentimento este, que j&aacute; tivera em Portugal uma grave concretiza&ccedil;&atilde;o, do desembarque liberal perto do Porto em 1832 ao reatamento das rela&ccedil;&otilde;es entre Lisboa e Roma em 1841: reatamento em que Garrett colaborara, manifestando a filia&ccedil;&atilde;o &ldquo;cat&oacute;lica&rdquo;, que em geral manteve[2].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tinham passado duas d&eacute;cadas, depois do entusiasmo juvenil dos anos vinte, tempo suficiente para que os nossos primeiros liberais fizessem contas ao &ldquo;deve e haver&rdquo; dos prop&oacute;sitos e resultados. E, se em v&aacute;rios sectores da vida nacional se verificavam profundas mudan&ccedil;as institucionais e pr&aacute;ticas, em nenhum eram t&atilde;o evidentes como no que &agrave; vida &ldquo;religiosa&rdquo; dizia respeito. A&iacute; tudo fora dr&aacute;stico, do suporte material &agrave; pr&oacute;pria subst&acirc;ncia pessoal e ideal. Tratara-se e tratava-se duma aut&ecirc;ntica mudan&ccedil;a &ldquo;cultural&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aqui nos fixaremos neste breve apontamento, nem precisando de sair daquele trecho de Garrett, analisando-o frase a frase.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposi&ccedil;&atilde;o dos frades que a dos bar&otilde;es. O caso estava em a saber conter e aproveitar&rdquo;. &ndash; Que levaria Garrett a tal afirma&ccedil;&atilde;o? Admitamos, antes de mais, que mantinha boa recorda&ccedil;&atilde;o dalguns religiosos que conhecera. Assim do seu tio e tutor, o franciscano D. Frei Alexandre da Sagrada Fam&iacute;lia, bispo de Angra, que o acompanhara na adolesc&ecirc;ncia a&ccedil;oriana. Assim de dois prelados beneditinos, presentes e activos no pr&oacute;prio vintismo, D. Frei Francisco de S&atilde;o Lu&iacute;s Saraiva e D. Frei Vicente da Soledade e Castro, um no governo e outro nas cortes constituintes. N&atilde;o lhe faltariam outros frades e monges &ldquo;liberais&rdquo; nos anos seguintes, tantos foram eles, de facto, mesmo que tivessem raz&otilde;es para admitir que o triunfo pol&iacute;tico do novo ide&aacute;rio acarretaria o cerceamento ou o fim da vida religiosa. Isto mesmo teria como certo a maioria dos religiosos e explicaria a sua reac&ccedil;&atilde;o, passiva ou activa, at&eacute; 1834.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Maio deste ano o decreto de D. Pedro e Joaquim Ant&oacute;nio de Aguiar imp&ocirc;s o fim abrupto da vida religiosa masculina em Portugal, ficando a feminina a extinguir-se a prazo, pois n&atilde;o eram admitidos novos ingressos. N&atilde;o se atenderam modera&ccedil;&otilde;es nem matizes, mesmo provindos de liberais confessos. N&atilde;o se consideraram direitos de religiosos n&atilde;o-miguelistas, que n&atilde;o eram poucos, nem insignificantes. N&atilde;o se atenderam &agrave;s reais possibilidades de reforma da vida religiosa, que, esbo&ccedil;adas desde a segunda metade do s&eacute;culo XVIII, tinham sido obviadas pelo transtorno geral da sociedade portuguesa trazido pelas invas&otilde;es napole&oacute;nicas, mas recuperadas &ndash; ao menos na inten&ccedil;&atilde;o &ndash; depois destas. Nada disto contou, verificando-se outrossim o confisco imediato dos bens, a expuls&atilde;o de monges e frades dos seus mosteiros e conventos, o desaparecimento institucional da vida religiosa masculina em Portugal, miss&otilde;es ultramarinas inclu&iacute;das.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outros factores pesaram mais. Contara decerto a possibilidade de dispor rapidamente dum patrim&oacute;nio material significativo, de muitas terras e outros bens, n&atilde;o faltando candidatos a ele entre os vencedores da guerra civil. Mas nisto mesmo havia a raz&atilde;o econ&oacute;mica de quem defendia o livre acesso &agrave; propriedade e &agrave; sua compra e venda, sem as peias tradicionais de &ldquo;m&atilde;o morta&rdquo; e v&iacute;nculos de qualquer esp&eacute;cie, como se veria s&eacute;culo fora. Somavam-se motivos ideol&oacute;gicos, ligados &agrave; pr&oacute;pria legitimidade da vida religiosa no novo quadro do liberalismo, perguntando-se, por exemplo, se algu&eacute;m podia optar por n&atilde;o casar nem ter filhos, quando a prosperidade do pa&iacute;s requeria o aumento da popula&ccedil;&atilde;o, ou se algu&eacute;m podia abdicar de vontade pr&oacute;pria, obedecendo a superiores nacionais ou estrangeiros, atrav&eacute;s do voto de obedi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o faltava, obviamente, quem respondesse, dizendo e escrevendo que os preceitos evang&eacute;licos de pobreza, castidade e obedi&ecirc;ncia, eram, antes demais, uma verdadeira manifesta&ccedil;&atilde;o de liberdade pessoal, por significarem o seguimento estrito da vida de Cristo, que nada tivera de exclusivamente seu, cumprira a vontade divina e n&atilde;o constitu&iacute;ra outra fam&iacute;lia sen&atilde;o a dos seus disc&iacute;pulos em geral. Mas a apet&ecirc;ncia de disponibilidade individual permanente &ndash; de pessoas e coisas &ndash; j&aacute; prevalecia em grande parte da nova elite social e cultural, precisamente aquela que venceria em 1834; e a extin&ccedil;&atilde;o geral da vida religiosa masculina s&oacute; demorou alguns dias, depois da rendi&ccedil;&atilde;o miguelista de &Eacute;vora Monte[3].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como &eacute; sabido, os bens confiscados &agrave;s Ordens contribu&iacute;ram para estabelecer a nova classe dos &ldquo;bar&otilde;es&rdquo; do liberalismo, para usar a palavra de Garrett. Nova classe que o poeta n&atilde;o apreciava, nem substitu&iacute;ra vantajosamente os religiosos, sempre na sua opini&atilde;o. Mais ainda, &ldquo;ministerial do Progresso&rdquo; como se afirmava, teria preferido a oposi&ccedil;&atilde;o dos frades, que j&aacute; n&atilde;o existiam, &agrave; dos bar&otilde;es, que estavam para durar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A imposs&iacute;vel prefer&ecirc;ncia de Garrett teria tamb&eacute;m raz&otilde;es culturais. Nos &ldquo;frades&rdquo; havia doutrina, nos bar&otilde;es apenas proveito, o que n&atilde;o chegava para consolidar, ou mesmo legitimar, um regime. Teria sido mesmo poss&iacute;vel &ldquo;conter&rdquo; e &ldquo;aproveitar&rdquo; os frades&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, sabia de religiosos ilustrados e adeptos do ide&aacute;rio liberal &ndash; como Lacordaire, deputado da Rep&uacute;blica de 1848 e restaurador dos Dominicanos em Fran&ccedil;a. Ou noutros pa&iacute;ses, adiantar&aacute; um pouco &agrave; frente, insistindo na vantagem perdida: &ldquo;o frade, que &eacute; patriota e liberal na Irlanda, na Pol&oacute;nia, no Brasil, podia e devia s&ecirc;-lo entre n&oacute;s, e n&oacute;s fic&aacute;vamos muito melhor do que estamos com meia d&uacute;zia de cl&eacute;rigos de requiem para nos dizer missa, e com duas grosa de bar&otilde;es, n&atilde;o para a tal oposi&ccedil;&atilde;o salutar, mas para exercer toda a influ&ecirc;ncia moral e intelectual da sociedade &ndash; porque n&atilde;o h&aacute; outra c&aacute;&rdquo;. Mas assim n&atilde;o acontecera e a conclus&atilde;o sa&iacute;a rotunda: &ldquo;O Progresso e a Liberdade n&atilde;o ganhou&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Detenhamo-nos um pouco na alus&atilde;o de Garrett ao patriotismo e liberalismo dos frades da Irlanda e da Pol&oacute;nia, al&eacute;m do Brasil. Acerta bem nos qualificativos e por aquela ordem: patriotas e liberais. Na Irlanda, a resist&ecirc;ncia &agrave; Inglaterra refor&ccedil;ava-se com a diverg&ecirc;ncia confessional entre cat&oacute;licos e anglicanos; algo de semelhante se passava na Pol&oacute;nia, especialmente em rela&ccedil;&atilde;o aos seus vizinhos russos e ortodoxos. Por isso, patriotismo e liberdade se aproximavam naqueles pa&iacute;ses, o que n&atilde;o acontecera propriamente entre n&oacute;s. Bem pelo contr&aacute;rio: nos anos quarenta, ainda muitos portugueses, inclusive eclesi&aacute;sticos, achavam que o patriotismo os levava muito mais para o campo tradicionalista, ou legitimista, do que para o liberalismo de direita ou de esquerda. Aqui, o liberalismo n&atilde;o significara de imediato vantagem religiosa para todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nem significaria depois. S&eacute;culo fora, os militantes cat&oacute;licos mais apostados em conciliar religi&atilde;o e liberalismo sempre encontraram dificuldades em ultrapassar o regalismo dos governantes e o preconceito anti-congregacionista difuso. Sem liberdade de organiza&ccedil;&atilde;o interna para a Igreja, incluindo na rela&ccedil;&atilde;o com o seu centro romano, e sem possibilidade legal de manter ou relan&ccedil;ar a vida &ldquo;religiosa&rdquo;, o catolicismo portugu&ecirc;s teve sempre dificuldade em afirmar-se como &ldquo;oposi&ccedil;&atilde;o salutar&rdquo;, atendendo ao desiderato de Garrett.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda que algumas das manifesta&ccedil;&otilde;es da vitalidade do nosso catolicismo oitocentista se verificassem precisamente neste t&atilde;o melindroso campo do congregacionismo. &Eacute; sabido como a opini&atilde;o liberal logo se alvoro&ccedil;ava perante qualquer hip&oacute;tese de retorno ou recome&ccedil;o da vida religiosa. Assim aconteceu na viragem dos anos cinquenta para os sessenta com a presen&ccedil;a das Irm&atilde;s da Caridade francesas, que tinham vindo ajudar as portuguesas durante as graves epidemias da altura: concitaram tal oposi&ccedil;&atilde;o, que o Governo de Napole&atilde;o III promoveu o seu regresso a Fran&ccedil;a. Mas este mesmo incidente ter&aacute; contribu&iacute;do para refor&ccedil;ar nalgumas jovens portuguesas o prop&oacute;sito de inaugurarem congrega&ccedil;&otilde;es, ainda que sem cobertura legal, como seriam as Franciscanas Hospitaleiras de Lib&acirc;nia do Carmo (M&atilde;e Clara), ou as Dominicanas de Teresa de Saldanha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mesmo se diga &ndash; e pela mesma altura &ndash; quanto &agrave; vida religiosa masculina, totalmente proibida esta. Subsistiam legalmente em Lisboa os Dominicanos irlandeses no Corpo Santo e os Vicentinos franceses em S. Lu&iacute;s, sendo estrangeiros diplomaticamente protegidos. Estes &uacute;ltimos foram mesmo respons&aacute;veis pela divulga&ccedil;&atilde;o de novas pr&aacute;ticas pastorais e devocionais (primeiras comunh&otilde;es, confer&ecirc;ncias vicentinas&hellip;) entre n&oacute;s, no terceiro quartel do s&eacute;culo e por isso criticados por quem sempre achava que &ldquo;era religi&atilde;o a mais&rdquo;. Mas o certo &eacute; que tamb&eacute;m mantinham a chama e o apelo da vida consagrada, redobrados ambos nos anos sessenta, com o recome&ccedil;o dos Jesu&iacute;tas e dos Franciscanos em Portugal, seguidos depois por outros, especialmente os que se dedicavam &agrave;s miss&otilde;es ultramarinas: sempre e tudo sem cobertura legal. Longe de serem a &ldquo;oposi&ccedil;&atilde;o salutar&rdquo; que Garrett pretendia, os religiosos e religiosas &ndash; que, ali&aacute;s, nem quereriam ser oposi&ccedil;&atilde;o &ndash; n&atilde;o puderam contribuir &ldquo;salutarmente&rdquo; para a recomposi&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas voltemos &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es de Garrett: &ldquo;&hellip; tenho saudades dos frades &ndash; n&atilde;o dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser&rdquo;. Dos frades que tinham sido, rejeitava certamente a oposi&ccedil;&atilde;o de muitos deles &agrave; implanta&ccedil;&atilde;o do liberalismo, pela qual tanto se batera. Censurava-os tamb&eacute;m por n&atilde;o terem compreendido o tempo, as ideias e a gera&ccedil;&atilde;o nova. Por n&atilde;o perceberem que a liberdade seria afinal sua aliada, ainda que necessariamente os reformasse. Assim escrevera pouco atr&aacute;s, repartindo culpas: &ldquo;Ora o frade foi quem errou primeiro em nos n&atilde;o compreender, a n&oacute;s, ao nosso s&eacute;culo, &agrave;s nossas aspira&ccedil;&otilde;es; com o que falsificou a sua posi&ccedil;&atilde;o, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infal&iacute;vel e sem rem&eacute;dio. Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o n&atilde;o amava sen&atilde;o relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe n&atilde;o servia nem o servia. N&oacute;s tamb&eacute;m erramos em n&atilde;o entender o desculp&aacute;vel erro do frade, em lhe n&atilde;o dar outra direc&ccedil;&atilde;o social, e evitar assim os bar&otilde;es, que &eacute; muito mais daninho bicho e mais roedor&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A soma de factos e figuras n&atilde;o nos deixa corroborar Garrett neste passo e ele pr&oacute;prio conhecia frades e monges do seu tempo que teriam preferido a liberdade pol&iacute;tica, at&eacute; para a continua&ccedil;&atilde;o e o melhoramento da vida religiosa. Mesmo D. Pedro IV n&atilde;o tivera assim tanta dificuldade em substituir por cl&eacute;rigos constitucionais &ndash; seculares ou religiosos &ndash; os prelados que encontrou no pa&iacute;s miguelista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas Garrett n&atilde;o queria os frades de 1834, em geral. Queria outros, mais indefinidos para o leitor do que o estariam porventura no seu esp&iacute;rito. Como ele pr&oacute;prio escreve queria &ldquo;os frades que podiam ser&rdquo;. Era destes que tinha saudades, mesmo que saudades futur&iacute;veis&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E aqui entra a imagina&ccedil;&atilde;o rom&acirc;ntica do autor. Idealizava-os de modo est&eacute;tico, para uma sociedade po&eacute;tica, em absoluto contraste com o materialismo prosaico, que tanto o incomodava mos bar&otilde;es. Logo a abrir este fundamental cap&iacute;tulo XIII das suas Viagens e depois de rejeitar os frades que vira, esbo&ccedil;ava assim os que gostaria de ver: &ldquo;No ponto de vista art&iacute;stico, por&eacute;m, o frade faz muita falta. Nas cidades, aquelas figuras graves e s&eacute;rias, com os seus h&aacute;bitos talares, quase todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multid&otilde;es de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha ra&ccedil;a europeia &ndash; cortavam a monotonia do rid&iacute;culo e davam fisionomia &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. Nos campos, o efeito era ainda muito maior: eles caracterizavam a paisagem, poetizavam a situa&ccedil;&atilde;o mais prosaica de monte ou de vale [&hellip;]. Al&eacute;m disso, o convento no povoado e o mosteiro no ermo animavam, amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: eles protegiam as &aacute;rvores, santificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solenidade&rdquo;. Para concluir, pouco depois, convictamente: &ldquo;&Eacute; muito mais po&eacute;tico o frade que o bar&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Poesia imposs&iacute;vel, doze anos depois da extin&ccedil;&atilde;o das Ordens. Mas ainda dispon&iacute;vel para a reconstitui&ccedil;&atilde;o rom&acirc;ntica da vida religiosa e mission&aacute;ria, que se prolongou pela segunda metade do s&eacute;culo XIX, em torno da recupera&ccedil;&atilde;o cultural de figuras como S. Francisco de Assis ou da gesta mission&aacute;ria em geral, mesmo al&eacute;m do campo confessional estrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, romantismo e liberalismo conjugavam-se bem na idealiza&ccedil;&atilde;o p&aacute;tria. Quando Garrett recolhia romances populares, ou quando Herculano preferia deter-se na hist&oacute;ria medieval, era pela alma &ldquo;nacional&rdquo; que indagavam, para n&atilde;o dizer que a forjavam, para que se realizasse germinal e aut&ecirc;ntica. Mas, ainda a&iacute;, encontrariam &ldquo;frades&rdquo;, como Garrett a terminar o mesmo cap&iacute;tulo: &ldquo;Desde mil cento e tantos que come&ccedil;ou Portugal, at&eacute; mil oitocentos e trinta e tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que o levou a breca, n&atilde;o sei que se passasse ou pudesse passar nesta terra coisa alguma p&uacute;blica ou particular em que o frade n&atilde;o entrasse&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na verdade, at&eacute; ao s&eacute;culo XVIII &ndash; ou mesmo o XIX &ndash; toda a idealiza&ccedil;&atilde;o portuguesa tem matriz religiosa, de gente consagrada. Talvez nem pudesse ser doutro modo, uma vez que s&oacute; em destaque existencial e mental se ganha dist&acirc;ncia e amplid&atilde;o de conjunto. Destaque mon&aacute;stico, conventual, ou outro, que os ambientes religiosos permitiam &ndash; e quase s&oacute; eles permitiam at&eacute; &agrave; individualiza&ccedil;&atilde;o moderna, o mesmo se dizendo de escolas, bibliotecas e encomendas culturais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso &ndash; sobretudo por isso &ndash; a primeira legitima&ccedil;&atilde;o p&aacute;tria se teceu em Santa Cruz de Coimbra, em torno de D. Afonso Henriques e das promessas de Ourique. Por isso, a restaura&ccedil;&atilde;o portuguesa teve nos cronistas alcobacenses a sua promessa, como teria depois na profecia de Ant&oacute;nio Vieira o seu programa. E mesmo quando em meados do s&eacute;culo XVIII Lu&iacute;s Ant&oacute;nio Verney prop&otilde;e para o pa&iacute;s uma pedagogia nova e ilustrada, &eacute; como &ldquo;padre barbadinho&rdquo; que se apresenta aos leitores, ainda que o n&atilde;o fosse&hellip; Contempor&acirc;neo e por vezes pr&oacute;ximo de Garrett era ainda Frei Francisco de S&atilde;o Lu&iacute;s, &ldquo;Cardeal Saraiva&rdquo; em 1843, que passara o desterro imposto pelo miguelismo a estudar e interpretar a hist&oacute;ria p&aacute;tria&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas faltavam agora os &ldquo;frades&rdquo;, como actores e int&eacute;rpretes da vida portuguesa. Garrett lamentava a sua falta, ou a falta que fariam, sendo como ele os queria. Pouco antes, em 1842, Herculano, seu companheiro de ex&iacute;lios e lutas pelo liberalismo, pedira compaix&atilde;o e socorro para os &ldquo;egressos&rdquo;, os exclaustrados de 1834, que sofriam pen&uacute;rias v&aacute;rias. E fizera-o nestes termos: &ldquo;P&atilde;o para a velhice desgra&ccedil;ada! P&atilde;o para metade dos nossos s&aacute;bios, dos nossos homens virtuosos, do nosso sacerd&oacute;cio! P&atilde;o para os que foram v&iacute;timas das cren&ccedil;as, minhas, vossas, do s&eacute;culo, e que morrem de fome e de frio!&rdquo;[4].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi esta &ldquo;metade dos nossos s&aacute;bios&rdquo; que continuou a faltar; como irrecuper&aacute;veis foram as saudades de Garrett.<\/p>\n<p>Lisboa, 5 de Novembro de 2010<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuel Clemente<\/em><\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>[1] GARRETT, Almeida &ndash; Viagens na minha Terra. Mira Sintra: Europa-Am&eacute;rica, 1976, p.61.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[2] Sobre a conota&ccedil;&atilde;o &ldquo;cat&oacute;lica&rdquo; de Garrett, relembre-se o que escreveria depois o Conde de Samod&atilde;es (1828-1918), paladino da liberdade de reconstitui&ccedil;&atilde;o das Ordens religiosas em Portugal: &ldquo;A minha dedica&ccedil;&atilde;o para com o episcopado &eacute; mais lata, amplia-se a todo o clero, cuja causa me comprazo em ter defendido toda a minha vida como defendido tenho a religi&atilde;o cat&oacute;lica, apost&oacute;lica, romana, pelo modo que tenho sabido e podido, imitando nisto e mal (por mais n&atilde;o poder) o Visconde de Almeida Garrett, que um dia me deu esse conselho em 1854&rdquo; (CONDE DE SAMOD&Atilde;ES &#8211; A liberdade da Igreja em Portugal, 1880, p. 35). Precisamente no ano em que Garrett morreria, assistido por Irm&atilde;s da Caridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[3] N&atilde;o deixando de ser significativo que, nos pr&oacute;prios meios cat&oacute;licos e especialmente &ldquo;apost&oacute;licos&rdquo;, se aceitasse como inevit&aacute;vel a aus&ecirc;ncia das Ordens religiosas. Assim neste trecho dum dos principais mentores da Sociedade Cat&oacute;lica Promotora da Moral Evang&eacute;lica na Monarquia Portuguesa, fundada em 1843 por um grupo de leigos e cl&eacute;rigos para de algum modo suprir as car&ecirc;ncias religiosas do pa&iacute;s: &ldquo;Antes de n&oacute;s a utilidade destes institutos [corpora&ccedil;&otilde;es regulares e associa&ccedil;&otilde;es seculares] foi geralmente reconhecida; mas com o volver das gera&ccedil;&otilde;es apareceram circunst&acirc;ncias, que, fazendo depreciar os primeiros, tornaram absolutamente necess&aacute;rios os segundos, e os t&ecirc;m modificado e aumentado diferentemente: parece imposs&iacute;vel a restitui&ccedil;&atilde;o daqueles ou pelo menos n&oacute;s o julgamos tal; mas se o s&eacute;culo admite estes, e se com eles alcan&ccedil;amos sustentar a majestade do templo, e fazer melhor quem l&aacute; deve concorrer, n&atilde;o nos podemos dispensar de dar-lhes apoio&rdquo; (CASTELO BRANCO, Jos&eacute; Barbosa Canaes de Figueiredo &ndash; A Sociedade Cat&oacute;lica examinada e defendida dos inimigos e recomendada com substitui&ccedil;&atilde;o de alguns artigos do seu Estatuto aos amigos. Lisboa, 1845, p. 4).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[4] HERCULANO, Alexandre &ndash; Os egressos. Peti&ccedil;&atilde;o humil&iacute;ssima a favor de uma classe desgra&ccedil;ada. Op&uacute;sculos. Organiza&ccedil;&atilde;o de Jorge Cust&oacute;dio e Jos&eacute; Manuel Garcia. Porto: Presen&ccedil;a, 1982. Vol. 1, p. 99.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposi&ccedil;&atilde;o dos frades que a dos bar&otilde;es. O caso estava em a saber conter e aproveitar. O Progresso e a Liberdade perdeu, n&atilde;o ganhou. Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ru&iacute;nas, os egressos a pedir esmola e os bar&otilde;es de berlinda, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[122,169,174,187,190,203,213,325,326],"class_list":["post-48102","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-brasil","tag-diocese-de-angra","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-do-porto","tag-dominicanos","tag-europa","tag-franciscanos","tag-vicentinos","tag-vida-consagrada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48102"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48102\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}