{"id":48027,"date":"2010-11-02T18:12:14","date_gmt":"2010-11-02T18:12:14","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/11\/02\/acho-importante-que-se-conserve-na-biblia-o-caracter-de-livro-sagrado\/"},"modified":"2010-11-02T18:12:14","modified_gmt":"2010-11-02T18:12:14","slug":"acho-importante-que-se-conserve-na-biblia-o-caracter-de-livro-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/acho-importante-que-se-conserve-na-biblia-o-caracter-de-livro-sagrado\/","title":{"rendered":"\u00abAcho importante que se conserve na B\u00edblia o car\u00e1cter de livro sagrado\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Pela segunda vez Lu\u00eds Miguel Cintra l\u00ea, na Capela do Rato, livros da B\u00edblia. Ap\u00f3s a leitura do livro do Apocalipse em Junho, o padre Tolentino Mendon\u00e7a desafiou-o para a leitura do Eclesiastes. Esta \u00e9 uma experi\u00eancia que tem conduzido o encenador ao \u00edntimo da natureza humana e da vida actual. <!--more--> <\/p>\n<p><em>AE &#8211; Quando o padre Tolentino Mendon&ccedil;a o desafiou a ler o livro do Eclesiastes na Capela do Rato, respondeu-lhe nunca o ter lido. Ele aconselhou-o a ler dizendo que &iacute;a adorar. E hoje? O que lhe parece?<br \/><\/em>LMC &#8211; Que ele tinha raz&atilde;o. &Eacute; impressionante a quantidade de temas que aparecem no Eclesiastes relacionados com a efemeridade da vida e das v&aacute;rias vaidades<span style=\"color: #000000;\"> &#8211;<\/span> um tema muito tratado ao longo do tempo, que me interessa e me toca pessoalmente.<\/p>\n<p>&Eacute; um tema muito querido a toda a &eacute;poca barroca mas aparece no Eclesiastes em toda a sua for&ccedil;a e de forma muito cruel. O livro mesmo diz &ndash; n&atilde;o sabemos nada do que ali vai acontecer. Tanta coisa acontece de mal no mundo, porque havemos de nos esfor&ccedil;ar e trabalhar? Porque havemos de querer saber? A resposta &eacute; terr&iacute;vel. N&atilde;o temos raz&atilde;o. A &uacute;nica raz&atilde;o &eacute; o prazer do quotidiano, do dia&nbsp;e do momento presente e isso &eacute; obra de Deus. A &uacute;nica hip&oacute;tese que temos &eacute; confiar em Deus e viver o que Deus nos deu, agradecidos.<\/p>\n<p>&Eacute; terr&iacute;vel. &Eacute; quase como se estiv&eacute;ssemos a negar o valor da iniciativa humana. Ao mesmo tempo &eacute; fant&aacute;stico como reflex&atilde;o sobre a pequenez do homem perante a imensidade do conceito de Deus.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; &Eacute; tamb&eacute;m o conceito da liberdade &#8230;<br \/><\/em>LMC &#8211; Sim, o conceito da liberdade aparece constantemente porque o homem pode fazer o que quiser e tem de encontrar um valor para o que faz. O &uacute;nico valor que persiste &eacute; o da sua pequenez perante a imensidade de Deus e tamb&eacute;m o valor da confian&ccedil;a do homem em Deus.<\/p>\n<p>A valoriza&ccedil;&atilde;o da vida individual perante a imensidade do que significa a vida humana em geral, ao longo dos s&eacute;culos e de todos os tempos toca-me especialmente.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O texto come&ccedil;a com a frase &laquo;Vaidade das vaidades, tudo &eacute; vaidade&raquo;. Esta express&atilde;o poderia ter sido formulada pelo encenador Lu&iacute;s Miguel Cintra?<br \/><\/em>LMC &#8211; Sim. Creio que na &eacute;poca em que vivemos estamos sempre a ouvir o contr&aacute;rio. Tudo o que &eacute; ef&eacute;mero, tudo o que n&atilde;o tem passado ou futuro &eacute; mais valorizado. Isso assusta-me, tal como assusta o autor do Eclesiastes, porque &eacute; pouco para dar um sentido &agrave; vida humana. No fundo temos de ter consci&ecirc;ncia da efemeridade da vida, consci&ecirc;ncia da morte para dar um valor a si pr&oacute;prio, aos outros e &agrave; vida de todos, integrado numa traject&oacute;ria mais vasta e que nos transcende.<\/p>\n<p>Lembrarmo-nos de que o que alimenta o nosso dia-a-dia &eacute; a vaidade<span style=\"color: #000000;\"> &#8211;<\/span> no sentido ef&eacute;mero, do que n&atilde;o tem valor em si pr&oacute;prio<span style=\"color: #000000;\"> &#8211;<\/span> &eacute; muito importante para encontrar um rumo para a nossa vida.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Um encenador &eacute; tamb&eacute;m um pregador?<br \/><\/em>LMC &#8211; Qualquer artista &eacute;. Um artista, seja ele qual for &ndash; escritor, pintor, cineasta &ndash; est&aacute; a fazer uma interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, est&aacute; a dirigir-se &agrave; cidade, ao conjunto de cidad&atilde;os. H&aacute; algo de pregador nisso.<\/p>\n<p>Lembro-me de o realizador Manuel de Oliveira me ter dito que se representa no cinema como se esquec&ecirc;ssemos que aquilo vai ser visto por outras pessoas. Como se estiv&eacute;ssemos num mundo imagin&aacute;rio e algu&eacute;m espreitasse pelo buraco da fechadura.<\/p>\n<p>Nos filmes de Manuel de Oliveira os actores olham directamente para dentro da c&acirc;mara, o que em si despista muitos actores. Uma vez ele disse-me: &laquo;lembre-se que quando est&aacute; a olhar para a c&acirc;mara, est&aacute; a olhar para o p&uacute;blico que o v&ecirc; numa sala de teatro&raquo;. E quando ele me disse isto, fez-se luz. Percebi que isto &eacute; verdade.<\/p>\n<p>A apresenta&ccedil;&atilde;o de um filme ou espect&aacute;culo &eacute;&nbsp;uma ac&ccedil;&atilde;o nossa que se dirige a um pr&oacute;ximo. O artista &eacute; de alguma forma um pregador porque tem uma responsabilidade p&uacute;blica e social tremenda.<\/p>\n<p>Lembrei-me disto em toda a minha vida. Sempre trabalhei com sentido de miss&atilde;o, coisa que &eacute; dif&iacute;cil perceber nos espect&aacute;culos actualmente, mas que n&atilde;o me sai da cabe&ccedil;a. Quando estou a fazer um espect&aacute;culo penso no p&uacute;blico n&atilde;o como um comprador de bilhetes, mas como uma pessoa igual a mim, com quem eu gostaria de dialogar e provocar. Este respeito pelo p&uacute;blico &eacute; algo muito importante para um artista, mas facilmente esquecido porque a arte &eacute; encarada como mercado, logo o p&uacute;blico &eacute; um comprador a quem se pode enganar.<\/p>\n<p>Mas se a ideia de pregador sup&otilde;e algu&eacute;m que tem uma verdade e que a transmite a outras pessoas, essa ideia repugna-me. Nunca penso em mim numa situa&ccedil;&atilde;o de autoridade. J&aacute; experimentei fazer serm&otilde;es do padre Ant&oacute;nio Vieira, sei o que &eacute; o poder de um p&uacute;lpito, o que s&oacute; aumenta a responsabilidade dos pregadores e, aproveitando a imagem, a responsabilidade dos artistas.<\/p>\n<p>A&iacute; condeno completamente os artistas que consideram o p&uacute;blico inferior e se consideram como portadores da verdade. Acho que o artista n&atilde;o &eacute; um pregador nesse sentido, mas um provocador por natureza de outras liberdades e de outras consci&ecirc;ncias.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Quem est&aacute; em palco tem no&ccedil;&atilde;o de cada pessoa sentada no p&uacute;blico ou h&aacute; uma dilui&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/em>LMC &#8211; Depende dos espect&aacute;culos porque h&aacute; uma qualidade de cada sala. Cada dia de espect&aacute;culo sente-se a sala de forma diferente. O p&uacute;blico forma um grupo com caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias. A consci&ecirc;ncia individual &eacute; dif&iacute;cil.<\/p>\n<p>Eu penso no p&uacute;blico como um conjunto de indiv&iacute;duos todos diferentes entre si. E concebo-os como se eles fossem, pelo menos, t&atilde;o inteligentes como eu. Se n&atilde;o s&atilde;o, paci&ecirc;ncia, mas eu espero sempre que o p&uacute;blico seja algu&eacute;m com quem eu gostaria de conversar.<\/p>\n<p>N&atilde;o tenho desprezo por ningu&eacute;m nem por diferentes graus de instru&ccedil;&atilde;o, gosto muito de conversar com pessoas portadoras de culturas diferentes da minha. N&atilde;o estou a falar de cultura, mas de intelig&ecirc;ncia, de sensibilidade. H&aacute; qualidades no ser humano que me merecem tanto respeito como o seu n&iacute;vel cultural.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E nas provoca&ccedil;&otilde;es, vai tendo respostas?<br \/><\/em>LMC &#8211; Muitas. O espect&aacute;culo recente, baseado num texto de Gil Vicente, o &laquo;Miserere&raquo;, chocou muita gente e foi rejeitado por pessoas com uma cultura paralela &agrave; minha. Pessoas que conhecem muito bem Gil Vicente e aqueles textos, com no&ccedil;&otilde;es desenvolvidas de teologia, rejeitaram o espect&aacute;culo. Outras mais ing&eacute;nuas mas mais generosas na forma de se abrirem ao mundo e ao que &eacute; proposto foram profundamente tocadas pelo espect&aacute;culo. Isso &eacute; engra&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Era um espect&aacute;culo de natureza religiosa, o texto &eacute; de natureza teol&oacute;gica. Mas pessoas que n&atilde;o tinham nenhuma esp&eacute;cie de forma&ccedil;&atilde;o religiosa foram tocadas pelo espect&aacute;culo. Houve pessoas que me apareciam a chorar no fim. Interpreto essa reac&ccedil;&atilde;o como, mesmo entre pessoas que se julgam ateias, existe uma necessidade de explica&ccedil;&atilde;o da vida que transcende o que vivemos. H&aacute; uma necessidade de absoluto no ser humano, caso contr&aacute;rio n&atilde;o se tinham inventado tantas religi&otilde;es ao longo da Hist&oacute;ria.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E o religioso vai passando nessas pequenas provoca&ccedil;&otilde;es? <br \/><\/em>LMC &#8211; N&atilde;o &eacute; o meu &uacute;nico objectivo, mas encaro o meu trabalho no teatro como devendo ser sempre provocat&oacute;rio. &Agrave;s vezes a provoca&ccedil;&atilde;o &eacute; am&aacute;vel. H&aacute; espect&aacute;culos que n&atilde;o incomodam o espectador. Mas h&aacute; espect&aacute;culos que abrem ao espectador zonas de sensibilidade que ele normalmente n&atilde;o pratica &ndash; um tipo de humor diferente, uma imag&eacute;tica diferente, uma forma de representar a que n&atilde;o est&aacute; habituado.<\/p>\n<p>Isto provoca uma experi&ecirc;ncia diferente e, sendo feito de uma forma muito simples, pode conduzir o espectador a outros mundos.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; A busca do absoluto pode ser feita nas diversas formas de arte? Atrav&eacute;s do teatro, por exemplo?<br \/><\/em>LMC &#8211; Claro que sim. &Eacute; uma das raz&otilde;es pelas quais gosto de ser actor. A nossa vida tem as limita&ccedil;&otilde;es que cada vida tem. Todas elas. Um actor tem a possibilidade de experimentar, de pensar, de lhe passar pelo corpo experi&ecirc;ncias de vida imagin&aacute;rias pelas quais nunca passaria. E n&atilde;o s&oacute; isso, mas conceitos de humanidade que s&atilde;o banidos da nossa &eacute;poca.<\/p>\n<p>Para um actor representar um her&oacute;i rom&acirc;ntico &eacute; uma experi&ecirc;ncia diferente e que o obriga a confrontar-se com uma no&ccedil;&atilde;o de ser humano, de esperan&ccedil;a no futuro e na humanidade, com graus de paix&atilde;o pela liberdade que ele nunca experimentou. E que me consolam no meu anseio de absoluto. D&atilde;o-me a possibilidade de uma ideia muito mais generosa para o ser humano do que aquela que&nbsp;&eacute; dado viver no quotidiano.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O livro do Eclesiastes seria um bom texto para levar &agrave; cena?<br \/><\/em>LMC &#8211; A literatura no geral, sem ser a literatura dram&aacute;tica, causa-me problema na sua transposi&ccedil;&atilde;o para teatro. Claro que se pode fazer teatro com tudo mas um romance &eacute; um romance, um poema &eacute; um poema e uma pe&ccedil;a de teatro &eacute; uma pe&ccedil;a de teatro.<\/p>\n<p>Os livros da B&iacute;blia n&atilde;o s&atilde;o pe&ccedil;as de teatro. Acho importante que se conserve na B&iacute;blia o car&aacute;cter de livro sagrado.&nbsp; &Eacute; ali que est&aacute; a matriz de todo o Cristianismo. Faz-me impress&atilde;o manipul&aacute;-lo cenicamente, dessacraliza-o.<\/p>\n<p>L&ecirc;-lo em voz alta, como tenho feito, parece-me importante. L&ecirc;-lo em conjunto com outros mesmo sem debate, &eacute; uma forma de se conhecer melhor o c&acirc;non dos livros sagrados. Confesso que n&atilde;o tenho muita vontade de o levar &agrave; cena. Mas j&aacute; interpretei uma parte da B&iacute;blia, do Livro de Job, no filme de Manoel de Oliveira &laquo;O&nbsp;meu caso&raquo;. Gostei muito de o fazer, mas foi diferente, n&atilde;o&nbsp;foi o livro integral.<\/p>\n<p>Gil Vicente, por exemplo, reescreveu a B&iacute;blia em &laquo;Breve sum&aacute;rio da hist&oacute;ria de Deus&raquo;. &Eacute; uma pe&ccedil;a deslumbrante com epis&oacute;dios da B&iacute;blia. Acho mais certo.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Tem descoberto o texto b&iacute;blico nestes v&aacute;rios desafios de ler em p&uacute;blico?<br \/><\/em>LMC &#8211; Eu tive uma educa&ccedil;&atilde;o crist&atilde; muito s&eacute;ria, do mais cat&oacute;lico poss&iacute;vel. Cheguei a querer ser catequista quando era muito jovem. N&atilde;o &eacute; um livro desconhecido. Mas o Antigo Testamento e determinados textos, que n&atilde;o os Evangelhos do Novo Testamento, conhecem-se mal.<\/p>\n<p>A B&iacute;blia &eacute; composta por muitos mais textos que de facto &eacute; importante conhecer porque os Evangelhos est&atilde;o integrados num conjunto de textos de natureza muito diferente, que conferem um outro valor aos pr&oacute;prios Evangelhos. Isso &eacute; que ultimamente tenho lido, a outra B&iacute;blia que n&atilde;o conhecia tanto.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Gostaria de ler em p&uacute;blico mais algum livro da B&iacute;blia?<br \/><\/em>LMC &#8211; H&aacute; um livro, que &eacute; best&ndash;seller, de todas pessoas, mesmo que n&atilde;o sejam crist&atilde;s, que &eacute; o C&acirc;ntico dos C&acirc;nticos. &Eacute; deslumbrante como pura poesia. N&atilde;o &eacute; um livro t&atilde;o profundamente tr&aacute;gico como os que li at&eacute; agora (ndr. Apocalipse e Eclesiastes).<\/p>\n<p><em>AE<span style=\"color: #000000;\"> &#8211;<\/span> Como encara este cruzamento entre a B&iacute;blia e estes actos p&uacute;blicos de cultura?<br \/><\/em>LMC<span style=\"color: #000000;\"> &#8211; <\/span>Acho que s&atilde;o muito importantes. Devemos lembrar que a origem do Cristianismo est&aacute; num conjunto de homens que resolveram fundar uma religi&atilde;o depois da experi&ecirc;ncia, de conhecer ou ouvir falar, da passagem de Cristo na terra.<\/p>\n<p>Essas pessoas inventaram uma religi&atilde;o na sua pr&oacute;pria &eacute;poca. Deixaram um legado com princ&iacute;pios e rituais que foram sendo transformados ao longos dos s&eacute;culos. &Eacute; natural que com a expans&atilde;o do Cristianismo, quem o dirige tenha uma necessidade de conserva&ccedil;&atilde;o, caso contr&aacute;rio seria f&aacute;cil haver dispers&atilde;o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a necessidade de adapta&ccedil;&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o &agrave; &eacute;poca contempor&acirc;nea &eacute; urgent&iacute;ssima. E n&atilde;o vejo nisto uma tarefa&nbsp;dos ministros da Igreja. Acho que a responsabilidade dos leigos &eacute; t&atilde;o grande como a dos religiosos. Creio que essa responsabilidade devia existir nos crist&atilde;os actuais.<\/p>\n<p>Os leigos deveriam perceber que &eacute; mais dif&iacute;cil a modifica&ccedil;&atilde;o dentro da Igreja a partir dela pr&oacute;pria do que atrav&eacute;s dos pr&oacute;prios leigos. A Igreja tem um peso hist&oacute;rico atr&aacute;s de si que &eacute; muito dif&iacute;cil libertar-se. H&aacute; muitos erros, como muitos religiosos reconhecem, na pr&aacute;tica da Igreja, mas &eacute; mais dif&iacute;cil para eles modific&aacute;-la.<\/p>\n<p>Tenho tomado consci&ecirc;ncia, e &eacute;-me simp&aacute;tico perceber, que h&aacute; grupos de leigos que se est&atilde;o a organizar.<\/p>\n<p>No ano passado, de f&eacute;rias em Roma, entrei na Basilica di Santa Maria, em Trastevere. Deparei-me com uma celebra&ccedil;&atilde;o de v&eacute;speras de leigos que me deixou boquiaberto. O car&aacute;cter religioso manifestava-se de forma diferente. Eram pessoas novas, desempoeiradas, muito contentes de estarem em conjunto e celebravam v&eacute;speras de acordo com a sua vida quotidiana. Ao fim da tarde, em vez de irem ao caf&eacute;, estavam ali. Liam textos, cantavam c&acirc;nticos e sobretudo, gostavam muito de estar umas com as outras, em nome de princ&iacute;pios comuns. Pude depois perceber que se tratava de um grupo especialmente activo, respons&aacute;vel politicamente. Acho importante que isto comece a acontecer.<\/p>\n<p>Em Espanha falei, a diferentes pessoas, do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, e ficaram de boca aberta. Fiquei com a sensa&ccedil;&atilde;o de que a fama, e provavelmente a pr&aacute;tica da Igreja em Espanha, &eacute; muito mais conservadora do que o que se passa em Portugal. Um espect&aacute;culo como &laquo;A Dan&ccedil;a da Morte&raquo;, promovido pela pr&oacute;pria Pastoral da Cultura, em Portugal, em Espanha teve outro tratamento. Em Seg&oacute;via, o bispo n&atilde;o deixou que fosse representado dentro da Catedral.<\/p>\n<p>Hoje, num mundo em que tudo se sabe, pode vir a desempenhar uma fun&ccedil;&atilde;o n&atilde;o exclusiva a Portugal.<\/p>\n<p><em>AE<span style=\"color: #000000;\"> &#8211;<\/span> Os leigos n&atilde;o ser&atilde;o crist&atilde;os envergonhados?<br \/><\/em>LMC<span style=\"color: #000000;\"> &#8211;<\/span> &Eacute; capaz de haver muita gente envergonhada. Mas s&atilde;o coisas muito delicadas e que n&atilde;o podem ser tratadas da mesma forma como tratamos assuntos pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>O Papa esteve c&aacute; recentemente e eu indignei-me muito com a mistura dos assuntos. O Papa &eacute; uma figura simb&oacute;lica de uma zona extremamente &iacute;ntima e livre das pessoas, eu vou &agrave; missa se me apetecer, sigo os preceitos da Igreja se quiser. A visita do Papa a Lisboa parecia a visita de um chefe de Estado. Custa-me pensar na religi&atilde;o dessa forma. &Eacute; uma das zonas mais livres da experi&ecirc;ncia humana.<\/p>\n<p>Dever&iacute;amos ter algum recuo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Igreja e n&atilde;o dever&iacute;amos pedir &agrave;s pessoas que se manifestem imediatamente como crist&atilde;os. Porqu&ecirc;? N&atilde;o precisam. Deve ser feito de acordo com aquilo que as pessoas sentem necessidade. S&atilde;o quest&otilde;es delicadas.<\/p>\n<p>A educa&ccedil;&atilde;o que se teve, a experi&ecirc;ncia religiosa que se associa a pessoas que n&atilde;o se gostou, contactos com padres que n&atilde;o se portavam bem, zonas que a Igreja pro&iacute;be, isso pode afastar pessoas da pr&aacute;tica religiosa.<\/p>\n<p>Compete &agrave; consci&ecirc;ncia das pessoas aceitar ou n&atilde;o. H&aacute; uma confus&atilde;o que considero ser preciso esclarecer em termos muito mais simples e mais humildes, aceitando as imperfei&ccedil;&otilde;es e as contradi&ccedil;&otilde;es das pessoas. Isso faz parte da vida.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; preciso tornar em lei o que o Cristianismo anulou como lei. O Cristianismo n&atilde;o &eacute; o mesmo que o Juda&iacute;smo com as suas t&aacute;buas da lei, nem tem uma no&ccedil;&atilde;o de Deus cruel como antigamente. &Eacute; uma outra coisa. N&atilde;o vamos desesperar-nos por as pessoas n&atilde;o aparecerem a dizer que s&atilde;o crist&atilde;s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela segunda vez Lu\u00eds Miguel Cintra l\u00ea, na Capela do Rato, livros da B\u00edblia. Ap\u00f3s a leitura do livro do Apocalipse em Junho, o padre Tolentino Mendon\u00e7a desafiou-o para a leitura do Eclesiastes. 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