{"id":48000,"date":"2010-10-31T12:38:39","date_gmt":"2010-10-31T12:38:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/10\/31\/quando-o-luto-da-a-costa-2\/"},"modified":"2010-10-31T12:38:39","modified_gmt":"2010-10-31T12:38:39","slug":"quando-o-luto-da-a-costa-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/quando-o-luto-da-a-costa-2\/","title":{"rendered":"Quando o luto d\u00e1 \u00e0 costa&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>A incerteza do mar e a certeza da f\u00e9 na comunidade de Caxinas <!--more--> <\/p>\n<p>A ondula&ccedil;&atilde;o do mar marca a vida dos pescadores de Caxinas, em Vila do Conde. H&aacute; d&eacute;cadas era a for&ccedil;a dos bra&ccedil;os que quebrava as ondas nos barcos de boca aberta. O mar &eacute; o mesmo, mas hoje s&atilde;o os motores que rasgam o caminho rumo &agrave; faina. As mudan&ccedil;as nas embarca&ccedil;&otilde;es trouxeram a aud&aacute;cia de tentar novos mares e novos pescados, mas tamb&eacute;m por isso, trouxeram maiores trag&eacute;dias e mais l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>Numa comunidade piscat&oacute;ria como Caxinas todos s&atilde;o pescadores na hora do luto. Casa sim, casa n&atilde;o conheceram-se l&aacute;grimas por algu&eacute;m que ficou no mar. &Eacute; no mar que os pescadores encontram o sustento, mas &eacute; tamb&eacute;m ele que em dia de tempestade tira a vida em terra que vive para a pesca.<\/p>\n<p>Marisa Frasco conheceu a realidade do luto muito recentemente. As palavras e o negro carregado que veste n&atilde;o escondem a saudade do seu marido, Jos&eacute; Pereira dos Santos, maquinista de uma embarca&ccedil;&atilde;o. Depois de 15 dias ao largo dos A&ccedil;ores na pesca do espadarte, os tripulantes do &laquo;Fasc&iacute;nios do Mar&raquo; foram ao porto de Vigo descarregar o pescado. Na viagem de regresso a carrinha onde seguiam nove tripulantes despistou-se. O marido de Marisa foi uma das cinco v&iacute;timas mortais.<\/p>\n<p>&ldquo;O meu marido dizia-me muitas vezes que gostava do que fazia, mas temia muito o mar, por causa dos perigos. Dizia-me muitas vezes que se pudesse fazer o mesmo em terra preferia, porque tinha muito medo de morrer com a boca cheia de &aacute;gua&rdquo;.<\/p>\n<p>Este &eacute; um medo recorrente nos pescadores em Caxinas. Sameiro Gra&ccedil;a recorda o medo que o seu irm&atilde;o pescador tinha, mas foi o mar que o sepultou h&aacute; tr&ecirc;s anos. J&aacute; perdeu, al&eacute;m de um irm&atilde;o, tamb&eacute;m um tio e um primo. Vive com a dor da aus&ecirc;ncia mas nunca conheceu a revolta.<\/p>\n<p>&ldquo;Eu nunca me revoltei. Pelo contr&aacute;rio, eu sentia que precisava da for&ccedil;a da ora&ccedil;&atilde;o, precisa da for&ccedil;a de Deus na minha vida&rdquo;.<\/p>\n<p>&Eacute; a f&eacute; que conforta quando as palavras dos homens se gastam. Marisa Frasco recorda a f&eacute; inabal&aacute;vel do marido e &eacute; a&iacute; que encontra for&ccedil;as para continuar a viver. &ldquo;O meu marido era muito temente a Deus e acreditava na vida depois da morte. Ele dizia que falava com ele. H&aacute; dias descobri no meio de uns livros, poemas que ele escrevia onde falava de Deus, que tanto amava e ansiava. Parece que pressentia&rdquo;.<\/p>\n<p>&Eacute; tamb&eacute;m a f&eacute; que conforta a m&atilde;e de Jos&eacute; Pereira dos Santos. O dia em que soube da morte do filho, diz Maria Isabel Santos, foi o dia em que entregou o seu filho a outra m&atilde;e. &ldquo;Senti que Deus estava ali, me estava a dar for&ccedil;a e me dizia que enquanto ele tinha sido vivo tinha sido meu, agora que tinha partido j&aacute; n&atilde;o era&rdquo;.<\/p>\n<p>&Eacute; com saudade mas tamb&eacute;m com serenidade que assume que &eacute; Deus quem a conforta. &ldquo;A dor que sinto, vem do amor. Porque n&atilde;o h&aacute; amor sem haver dor. &Eacute; isto que me conforta e fortalece a minha confian&ccedil;a em Deus&rdquo;.<\/p>\n<p>A certeza dos perigos do mar e a certeza de uma f&eacute; inabal&aacute;vel convivem no caxineiro, quer fique em terra ou esteja no barco. A cada entrada ou sa&iacute;da da barra, o pescador benze-se porque sabe &ldquo;que sai para uma faina que pode sempre ser surpreendente&rdquo;, conta o padre Domingos de Ara&uacute;jo, p&aacute;roco h&aacute; 34 anos em Caxinas.<\/p>\n<p>H&aacute; muito que se habituou a ver os rituais dos pescadores. &ldquo;Eles sabem que sair da barra ou entrar na barra &eacute; importante. Quando v&atilde;o para o alto mar sabem que isso pode trazer dificuldades e quando entram, sabem que entram em porto seguro. Por isso invocam o Senhor &agrave; sa&iacute;da e agradecem ao Senhor &agrave; entrada da barra&rdquo;.<\/p>\n<p>Homem da terra, mas filho de pescador, o padre Domingos tem mem&oacute;rias da sua inf&acirc;ncia marcadas por redes e sarga&ccedil;o. Conhece bem o amor e o temor ao mar. &ldquo;Costumo dizer que os pescadores n&atilde;o t&ecirc;m medo do mar mas t&ecirc;m temor, um grande respeito que os faz olhar para Deus numa perspectiva de pai e de filhos&rdquo;.<\/p>\n<p>A devo&ccedil;&atilde;o a Deus e aos santos, &ldquo;em especial aos que est&atilde;o ligados ao mar, &eacute; muito forte num povo que parte de uma realidade concreta, dura e perigosa que &eacute; a vida do mar&rdquo;.<\/p>\n<p>Em 34 anos o padre Domingos enterrou 92 pescadores. &ldquo;S&atilde;o homens a mais&rdquo;, assume prontamente. Tamb&eacute;m prontas s&atilde;o as palavras de conforto do p&aacute;roco quando o luto d&aacute; &agrave; costa.<\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o me abstraindo da realidade concreta que &eacute; a dor profunda da perda, procuro valorizar a vida e o acontecimento nobre que &eacute; uma pessoa morrer a trabalhar&rdquo;.<\/p>\n<p>[[i,d,1595,]]Quando em terra se pressentem os perigos do mar, as mulheres rumam &agrave; igreja de Nosso Senhor dos Navegantes, constru&iacute;da em forma de barco, para em conjunto rezar e procurar conforto.<\/p>\n<p>&Eacute; tamb&eacute;m nas dificuldades econ&oacute;micas que a solidariedade se faz presente. O padre Domingos Ara&uacute;jo diz que Caxinas n&atilde;o &eacute; terra de &ldquo;gente rica, mas aqui ningu&eacute;m passa fome&rdquo;.<\/p>\n<p>&ldquo;A par&oacute;quia &eacute; uma fam&iacute;lia num sentido global. Quando morre algu&eacute;m no mar, ligado ao mar ou motivado pelo mar, toda a comunidade de 18 mil pessoas se une e &eacute; uma fam&iacute;lia &uacute;nica&rdquo;, garante.<\/p>\n<p>A morte de um pescador toca v&aacute;rias fam&iacute;lias em Caxinas. &ldquo;H&aacute; sempre uma rela&ccedil;&atilde;o entre as pessoas, seja familiar ou afectiva, e ningu&eacute;m fica insens&iacute;vel&rdquo;, traduz o padre Domingos.<\/p>\n<p>Apesar das trag&eacute;dias que a terra vai conhecendo, &eacute; necess&aacute;rio colocar os alimentos na mesa. Por isso, os barcos continuam a sair para a faina, num movimento cont&iacute;nuo como as ondas do mar&#8230;<\/p>\n<p><em>Dizem <br \/><\/em><em>Que o amor<br \/><\/em><em>Se encontra nas coisas<br \/><\/em><em>Mais simples.<br \/><\/em><em>Ent&atilde;o olho para a <br \/><\/em><em>Vida e analiso entre<br \/><\/em><em>O real e o imagin&aacute;rio.<br \/><\/em><em>Ai a vejo a passar<br \/><\/em><em>Pelo tempo&#8230;<br \/><\/em><em>&#8230; questiono se o <br \/><\/em><em>Amor n&atilde;o passa de simples <br \/><\/em><em>Palavras ou simples actos<br \/><\/em><em>Se a morte nos deixa<br \/><\/em><em>Ausentes de quem amamos<br \/><\/em><em>Ent&atilde;o a vida n&atilde;o<br \/><\/em><em>Tem fundamento e o <br \/><\/em><em>Amor n&atilde;o faz<br \/><\/em><em>Qualquer sentido<\/em><\/p>\n<p><em>Porque vivemos no<br \/><\/em><em>Ausente constante&#8230; <\/em><\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Pereira dos Santos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>PR\/LS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A incerteza do mar e a certeza da f\u00e9 na comunidade de Caxinas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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