{"id":47900,"date":"2010-10-25T16:42:05","date_gmt":"2010-10-25T16:42:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/10\/25\/missao-marcos-metodos-e-teologias\/"},"modified":"2010-10-25T16:42:05","modified_gmt":"2010-10-25T16:42:05","slug":"missao-marcos-metodos-e-teologias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/missao-marcos-metodos-e-teologias\/","title":{"rendered":"Miss\u00e3o: Marcos, M\u00e9todos e Teologias"},"content":{"rendered":"<p>Come&ccedil;ou-se nas cidades, ou de cidade em cidade.   Assim Cristo, os Ap&oacute;stolos, especialmente Paulo. E ainda depois, diria Eus&eacute;bio de Cesareia, j&aacute; no s&eacute;culo IV, salientando este aspecto itinerante e, antes de mais, a convers&atilde;o do pregador e a prega&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Disc&iacute;pulos not&aacute;veis destes homens, edificaram Igrejas sobre os fundamentos que os Ap&oacute;stolos tinham come&ccedil;ado a estabelecer por toda a parte. Desenvolveram sempre mais a prega&ccedil;&atilde;o. Lan&ccedil;avam as sementes salutares do reino dos c&eacute;us em toda a extens&atilde;o da terra habitada. Com efeito, muitos disc&iacute;pulos foram ent&atilde;o marcados no seu esp&iacute;rito pelo Verbo de Deus, com um viv&iacute;ssimo amor da sabedoria. Primeiro cumpriam o conselho do Senhor, distribuindo os seus bens aos pobres. Depois, deixavam a sua terra para cumprir a fun&ccedil;&atilde;o de evangelistas, querendo pregar a palavra da f&eacute; aos que ainda a n&atilde;o tinham ouvido [&hellip;]. Deixavam apenas os fundamentos da f&eacute; nos pa&iacute;ses estrangeiros, a&iacute; estabelecendo outros pastores, aos quais confiavam o cuidado de formar aqueles que tinham introduzido na Igreja. Feito isto, voltavam a partir para outros povos e outros pa&iacute;ses, sustentados pela gra&ccedil;a e o socorro divino&rdquo; (Eus&eacute;bio de Cesareia, <em>Hist&oacute;ria eclesi&aacute;stica<\/em>, III, 37-38).&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o tempo de Eus&eacute;bio era j&aacute; o das Igrejas &ldquo;estabelecidas&rdquo;, nas cidades do Imp&eacute;rio de Constantino. A preocupa&ccedil;&atilde;o maior era a de integrar na comunidade crist&atilde;, pelo catecumenado, as multid&otilde;es de aderentes. Como se fosse mais o tempo de receber quem vinha do que procurar quem n&atilde;o estava&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fosse como fosse, o quadro muda com a ruraliza&ccedil;&atilde;o geral, subsequente &agrave; queda do Imp&eacute;rio do Ocidente no s&eacute;culo V, provocada pelas invas&otilde;es b&aacute;rbaras. Foi o tempo da segunda miss&atilde;o europeia, feita em meio rural e prevalentemente por monges, a partir de comunidades est&aacute;veis sucessivamente fundadas. Beda o Vener&aacute;vel, conta-nos assim a (re)evangeliza&ccedil;&atilde;o da Inglaterra (Kent), feita pelos monges &ldquo;beneditinos&rdquo; &nbsp;de Agostinho de Cantu&aacute;ria, enviados pelo papa Greg&oacute;rio Magno no final do s&eacute;culo VI: &ldquo;Quando entraram na morada que lhes fora oferecida, come&ccedil;aram a imitar a vida apost&oacute;lica da Igreja primitiva: serviam a Deus rezando assiduamente, velando e jejuando; e pregavam a palavra da vida a todo o que chegasse. [&hellip;] Rapidamente, muitos [aut&oacute;ctones] acreditaram e foram baptizados, admirados que ficaram com a vida simples e pura [dos monges] e com a do&ccedil;ura da sua celeste doutrina. Perto e a leste da cidade havia uma igreja outrora erigida em honra de S. Martinho [de Tours], quando os romanos ainda habitavam na Gr&atilde;-Bretanha. [&hellip;] A&iacute; mesmo come&ccedil;aram a juntar-se, a recitar os salmos, a celebrar a missa, a pregar e a baptizar, at&eacute; que receberam do rei, entretanto convertido, mais autoriza&ccedil;&atilde;o de pregarem em toda a parte e de construir ou restaurar igrejas&rdquo; (<em>Hist&oacute;ria eclesi&aacute;stica&hellip;<\/em>, I, 26).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando as cidades renascerem, precisar&atilde;o duma nova modalidade mission&aacute;ria, prevalentemente urbana, mas tamb&eacute;m presente na malha paroquial entretanto desenvolvida e muito ligada a ritos ancestrais e &agrave; sacraliza&ccedil;&atilde;o de tempos, lugares e coisas, sempre apetecida pela religiosidade popular. E volta-se a insistir na prega&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica, certamente mais do que no ritualismo fixo e c&iacute;clico. Muito emblem&aacute;ticos desta terceira &ldquo;miss&atilde;o&rdquo; europeia ser&atilde;o os mendicantes, como neste passo de S. Francisco de Assis: &ldquo;Por este mesmo tempo entrou na Ordem um outro homem de bem, elevando-se a oito o n&uacute;mero de irm&atilde;os. Reuniu-os a todos o Santo Pai [Francisco] e, depois de longamente lhes ter falado do Reino de Deus, do desprezo do mundo, da ren&uacute;ncia &agrave; vontade pr&oacute;pria e da sujei&ccedil;&atilde;o da carne, dividiu-os em quatro grupos e disse-lhes: &lsquo;Ide, car&iacute;ssimos, dois a dois, por todo o mundo e anunciai aos homens a paz e a penit&ecirc;ncia para a remiss&atilde;o dos pecados [&hellip;].&rsquo; E recebendo eles com grande j&uacute;bilo o mandato que a santa obedi&ecirc;ncia lhes confiava, prostraram-se diante do bem-aventurado Pai que depois os aben&ccedil;oou, enternecido e devoto, e disse a cada um: &lsquo;P&otilde;e a tua confian&ccedil;a no Senhor e Ele cuidar&aacute; de ti&rsquo;. Eram as palavras que sempre repetia quando enviava os seus frades a cumprir qualquer miss&atilde;o&rdquo; (Tom&aacute;s de Celano, <em>Vida Primeira<\/em>, XII, 29).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Idade Moderna trouxe &agrave; miss&atilde;o crist&atilde; o duplo desafio duma Europa ocidental dividida entre cat&oacute;licos e protestantes e do contacto com outros Continentes, abertos pela expans&atilde;o ib&eacute;rica. O Conc&iacute;lio de Trento (1545-1563) insistiu num clero mais pastoral e melhor formado; algumas congrega&ccedil;&otilde;es, entretanto formadas ou reformadas, lan&ccedil;aram-se em novas miss&otilde;es internas ou &ldquo;populares&rdquo;, reanimando as comunidades ou o que sobrava destas. Do entusiasmo e da urg&ecirc;ncia quase &ldquo;escatol&oacute;gica&rdquo; com que tantos se lan&ccedil;avam na miss&atilde;o ultramarina, d&atilde;o-nos conta alguns trechos de S. Francisco Xavier, escritos na &Iacute;ndia: &ldquo;Viemos por povoa&ccedil;&otilde;es de crist&atilde;os, que se converteram h&aacute; uns oito anos. [&hellip;] Os crist&atilde;os destes lugares, por n&atilde;o terem quem os instrua na nossa f&eacute;, somente sabem dizer que s&atilde;o crist&atilde;os. [&hellip;] Quando eu chegava a estas povoa&ccedil;&otilde;es, baptizava todas as crian&ccedil;as por baptizar. [&hellip;] Ao entrar nos povoados, as crian&ccedil;as n&atilde;o me deixavam rezar o Of&iacute;cio divino, nem comer, nem dormir, e s&oacute; queriam que lhes ensinasse algumas ora&ccedil;&otilde;es. [&hellip;] Como seria &iacute;mpio negar-me a pedido t&atilde;o santo, comecei pela confiss&atilde;o do Pai, do Filho e do Esp&iacute;rito Santo, pelo Credo, Pai-nosso, Ave-Maria, e assim os fui ensinando. Se houvesse quem os instru&iacute;sse na f&eacute;, tenho por certo que seriam bons crist&atilde;os. [&hellip;] Muitas vezes me vem ao pensamento ir aos col&eacute;gios da Europa, levantando a voz como homem que perdeu o ju&iacute;zo e, principalmente, &agrave; Universidade de Paris, falando na Sorbona aos que t&ecirc;m mais letras que vontade para se disporem a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir &agrave; gl&oacute;ria e v&atilde;o ao inferno por neglig&ecirc;ncia deles!&rdquo; (<em>Cartas<\/em> de 20 de Outubro de 1542 e 15 de Janeiro de 1544). E &eacute; um facto que interpela&ccedil;&otilde;es deste g&eacute;nero contagiaram muitos europeus para a miss&atilde;o ultramarina, nos v&aacute;rios espa&ccedil;os descobertos. Concomitantemente, desenvolveram-se miss&otilde;es internas na Europa, como as de Frei Ant&oacute;nio das Chagas, na segunda metade do s&eacute;culo XVII, em v&aacute;rias dioceses portuguesas e a pedido dos respectivos bispos. Apenas um curto trecho ilustrativo, quer do que fazia quer do entusiasmo popular que o acompanhava, como se o brasido que restava s&oacute; o esperasse para atear de novo: &ldquo;Cursou as estradas, que pareceu pr&oacute;prio mandado por Deus com avisos seus a todas as terras [&hellip;]: sa&iacute;am-no a receber povos inteiros, acompanhavam-no turbas pelos caminhos como a Cristo pelos desertos: em suas entradas na freguesias se repicavam os sinos, como nas maiores festas e de festa eram todos os dias que ele l&aacute; se detinha nelas; pregando, confessando, ensinando a doutrina crist&atilde; e ora&ccedil;&atilde;o mental, fazendo pazes, alcan&ccedil;ando perd&otilde;es e outros servi&ccedil;os de Deus; porque nos tais dias n&atilde;o havia qem trabalhasse mais que pelo ouvir e se confessar&rdquo; (Padre Manoel Godinho, <em>Vida e morte [&hellip;] do Vener&aacute;vel Padre Fr. Ant&oacute;nio das Chagas<\/em>, Lisboa, 1712, p. 68). Podemos dizer que este estilo &ldquo;moderno&rdquo; da miss&atilde;o, quer europeu quer ultramarino, se manteve at&eacute; bem perto de n&oacute;s, reanimando as comunidades daqui ou criando as novas de al&eacute;m. Ganhar&atilde;o um tom mais apolog&eacute;tico na Europa p&oacute;s-Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, mas n&atilde;o diferem essencialmente nos t&oacute;picos nem nos modos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O s&eacute;culo XX, por&eacute;m inaugurar&aacute; um novo per&iacute;odo, qual quinta etapa mission&aacute;ria, caracterizada quer pela indigeniza&ccedil;&atilde;o da Igreja nos antigos territ&oacute;rios coloniais, quer pela redescoberta da Europa como espa&ccedil;o de miss&atilde;o, com outra densidade s&oacute;cio cultural. Da primeira refer&ecirc;ncia, &eacute; exemplo o seguinte passo da Carta apost&oacute;lica <em>Maximum illud<\/em>, de Bento XV, 30 de Novembro de 1919: &ldquo;Assinalemos, finalmente, aquilo que deve constituir uma das preocupa&ccedil;&otilde;es principais de todo o director de miss&atilde;o: a forma&ccedil;&atilde;o e a organiza&ccedil;&atilde;o de um clero ind&iacute;gena [&hellip;]. Os papas sempre pediram com insist&ecirc;ncia aos superiores de miss&atilde;o para fazerem uma alta ideia dessa parte t&atilde;o importante do seu m&uacute;nus e empregarem nela todos os seus esfor&ccedil;os. [&hellip;] &Eacute; lament&aacute;vel que, a despeito dessa vontade dos sumos pont&iacute;fices, regi&otilde;es nascidas h&aacute; s&eacute;culos para a f&eacute; cat&oacute;lica ainda se achem desprovidas de clero ind&iacute;gena digno deste nome&rdquo;. Sabemos como a partir daqui se caminhou muito mais depressa nesse sentido. Entretanto, a pr&oacute;pria Europa exigiu recome&ccedil;os, ficando c&eacute;lebre o apelo de H. Godin e Y. Daniel em <em>La France<\/em><em>, pays de mission?<\/em>, 1943: &ldquo;H&aacute; toda uma popula&ccedil;&atilde;o parisiense, mesmo educada, que n&atilde;o tem nada de crist&atilde;o. [&hellip;] Como todas as miss&otilde;es, a conquista do proletariado &eacute; um trabalho duro e que pode ficar muito tempo est&eacute;ril; tamb&eacute;m exige a todos os que o empreendem que se entreguem a ele totalmente. [&hellip;] Uma tarefa de tal g&eacute;nero exige padres absolutamente decididos, que se entreguem a este trabalho preferido de Cristo sem esperarem muito poder voltar atr&aacute;s. H&aacute; partidas para a miss&atilde;o que n&atilde;o deixam pensar no regresso&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O final do s&eacute;culo XX trouxe-nos algo de diferente como repto mission&aacute;rio e neo-evangelizador, porque menos estruturado e mais arredio &agrave; oferta tradicional das comunidades de partida e de destino. Partia-se duma comunidade mais ou menos definida, para perto ou para longe, para convidar ao regresso, ou ao ingresso numa nova que se criasse. Hoje, a rarefac&ccedil;&atilde;o mental e sentimental p&oacute;s-moderna n&atilde;o gosta de definir posi&ccedil;&otilde;es ou oposi&ccedil;&otilde;es e a complexifica&ccedil;&atilde;o da sociedade, com as suas itiner&acirc;ncias e v&aacute;rias perten&ccedil;as, bem como as m&uacute;ltiplas conex&otilde;es medi&aacute;ticas e inform&aacute;ticas, tornam menos simples a indispens&aacute;vel reconfigura&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria, indispens&aacute;vel para a vida crist&atilde;. Seja como for, &eacute; esse o objectivo declarado da nova evangeliza&ccedil;&atilde;o, e mesmo da miss&atilde;o em geral: &ldquo;&Eacute; urgente, sem d&uacute;vida, refazer em toda a parte o tecido crist&atilde;o da sociedade humana. Mas a condi&ccedil;&atilde;o &eacute; a de se refazer o tecido crist&atilde;o das pr&oacute;prias comunidades eclesiais que vivem nesses pa&iacute;ses e nessas na&ccedil;&otilde;es. [&hellip;] Esta nova evangeliza&ccedil;&atilde;o, dirigida n&atilde;o apenas aos indiv&iacute;duos mas a inteiras faixas de popula&ccedil;&atilde;o, nas suas diversas situa&ccedil;&otilde;es, ambientes e culturas, tem por fim formar comunidades eclesiais maduras, onde a f&eacute; desabroche e realize todo o seu significado origin&aacute;rio de ades&atilde;o &agrave; pessoa de Cristo e ao seu Evangelho, de encontro e de comunh&atilde;o sacramental com Ele, de exist&ecirc;ncia vivida na caridade e no servi&ccedil;o&rdquo; (Jo&atilde;o Paulo II, Exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica p&oacute;s-sinodal <em>Christifideles laici<\/em>, 1988, n&ordm; 34).<\/p>\n<p>Porto, 23 de Outubro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>+ Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come&ccedil;ou-se nas cidades, ou de cidade em cidade. Assim Cristo, os Ap&oacute;stolos, especialmente Paulo. 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