{"id":4782,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/redemptor-hominis-faz-30-anos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"redemptor-hominis-faz-30-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/redemptor-hominis-faz-30-anos\/","title":{"rendered":"\u00abRedemptor Hominis\u00bb faz 30 anos"},"content":{"rendered":"<p>Um olhar sobre a concep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica na primeira enc\u00edclica do falecido Papa polaco, assinada a 4 de Mar\u00e7o de 1979 <!--more--> Uma fenomenologia da condi\u00e7\u00e3o humana: O ponto de partida da reflex\u00e3o antropol\u00f3gica que suporta o documento papal, e que vai estruturar muitas outras interven\u00e7\u00f5es ao longo do Pontificado, estabelece tr\u00eas vectores de an\u00e1lise que s\u00e3o, ao mesmo tempo, as dimens\u00f5es constituintes da manifesta\u00e7\u00e3o da realidade humana: a pr\u00f3pria experi\u00eancia do homem, a raz\u00e3o e o sentido da dignidade. Em articula\u00e7\u00e3o com sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9-mica na \u00e1rea da fenomenologia (as teses sobre Max Scheler e sobre \u2018a pessoa que age\u2018), Jo\u00e3o Paulo II n\u00e3o apenas destaca do plano vivencial os universais nele contidos como amplia o pr\u00f3prio conceito de experi\u00eancia de modo a que ela integre toda a produ\u00e7\u00e3o intencional do ser humano, convertendo-se ent\u00e3o em sin\u00f3nimo de hist\u00f3ria ou de cultura, o horizonte da experi\u00eancia integral do homem. A Cultura humana, manifestando-se numa essencial prolifera\u00e7\u00e3o de culturas e de uma cong\u00e9nita diversidade no seio de cada cultura, \u00e9 efectivamente matriz de identidade e aut\u00eantica fenomenologia da verdade do homem: a natureza deste, em sentido estrito, \u00e9 ser cultura, pois tudo o que somos, somo-lo culturalmente, mesmo no que transcende todas as culturas. Da condi\u00e7\u00e3o humana assim perspe-ctivada, o Papa insiste privilegiadamente na viv\u00eancia do tempo, do tempo individual e do tempo colectivo, da tradi\u00e7\u00e3o e da actualidade, da mem\u00f3ria e da esperan\u00e7a, da biografia, da hist\u00f3ria e da aventura. E o tempo \u00e9 inquieta\u00e7\u00e3o radical e consubstancial ambiguidade: experi\u00eancia de uma caducidade, intr\u00ednseca \u00e0 natureza criada ou provocada pela iniciativa dos homens, de uma morte multiforme, anunciada ou antecipada pela malevol\u00eancia dos homens; mas \u00e9 tamb\u00e9m oportunidade de cria\u00e7\u00e3o e nele \u00ab pulsa aquilo que \u00e9 mais profundamente humano: a busca da verdade, a insaci\u00e1vel necessidade do bem, a fome da liberdade, a nostalgia do belo e o apelo da consci\u00eancia \u00bb ( Redemptor Hominis, n\u00ba 18 ). A situa\u00e7\u00e3o da nossa \u00e9poca actualiza esta \u00abnatureza dial\u00e9ctica fundamental do cuidado do homem pelo homem\u00bb: em face de realiza\u00e7\u00f5es tremendas do g\u00e9nio humano emerge em novas formas e com uma seriedade in\u00e9dita a alternativa crucial entre a promessa e a amea\u00e7a, o progresso e a regress\u00e3o, a liberdade e a aliena\u00e7\u00e3o, o entusiasmo e o medo, a cultura da vida e a anti-cultura da morte. A presen\u00e7a destas tens\u00f5es acompanha a g\u00e9nese da consci\u00eancia de si; mas, na perspectiva do Papa, esta aten\u00e7\u00e3o si exige o \u201cdi\u00e1logo\u201c, ou seja, o reconhecimento do outro, sem se deter a\u00ed, pois importa passar ao \u201c col\u00f3quio \u201c, essa comunh\u00e3o a muitas vozes de um encontro essencial. A raz\u00e3o da humanidade: o fen\u00f3meno humano alude a um modo de ser diferenciado em planos: em primeiro lugar \u00e0 singularidade irredut\u00edvel de uma exist\u00eancia, \u201c cada homem \u201c; depois, \u00e0 totalidade da esp\u00e9cie, que n\u00e3o \u00e9 mera colec\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos, \u201c todos os homens \u201c; por \u00faltimo, \u00e0 humanidade em qualquer dos seres humanos, fundamento do reconhecimento de uma mesma origem e de um id\u00eantico destino de uma unidade, identidade e comunidade insecantes. O discurso antropol\u00f3gico n\u00e3o pode omitir nenhum destes sedimentos de sentido. Da constitui\u00e7\u00e3o do humano, Jo\u00e3o Paulo II releva primariamente a corporeidade: o homem \u00e9, segundo a express\u00e3o de Malebranche \u201cum esp\u00edrito encarnado\u201c, e o Papa, subvertendo s\u00e9culos de plato-nismo popularizado e de espiritualismo descarnado, afirma luminosamente, a prop\u00f3sito da frase \u201c O esp\u00edrito \u00e9 que vivifica, a carne para nada serve \u201c, \u00abestas palavras, malgrado as apar\u00eancias, exprimem a mais alta afirma\u00e7\u00e3o do homem: a afirma\u00e7\u00e3o do corpo, que o esp\u00edrito vivifica\u00bb (Red. Hom., n\u00ba 18 ). O corpo singulariza e faz comunicar: a socialidade, como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade mesma de emerg\u00eancia do humano como tal, \u00abdesde o momento da sua concep\u00e7\u00e3o\u00bb, integra-o numa rede de contactos, situa\u00e7\u00f5es e estruturas sociais que n\u00e3o s\u00f3 o determinam, mas o identificam como solicita\u00e7\u00e3o a uma resposta. A institucionalidade, que estabiliza e alarga as rela\u00e7\u00f5es sociais no \u00e2mbito de povos e na\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 um elemento exterior e formal da exist\u00eancia humana, mas a viabiliza\u00e7\u00e3o mesma da sua realidade cultural. Todos estes lugares do humano s\u00e3o operadores da sua pr\u00f3pria humanidade como processo hist\u00f3rico, plural  e de apropria\u00e7\u00e3o por perten\u00e7a. A dignidade como iniciativa e perten\u00e7a: este conceito designa na enc\u00edclica a protagoniza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, nos planos pessoal, comunit\u00e1rio e social e ainda como membro do g\u00e9nero humano; \u00e9 assim assimil\u00e1vel ao conceito de liberdade, impedindo este de se confundir quer com o recuo ego\u00edsta quer com a expans\u00e3o da vontade de poder; ele descreve a passagem do instinto de auto-afirma\u00e7\u00e3o \u00e0 vontade cultivada de aceder a si pela realiza\u00e7\u00e3o do que torna comum e n\u00e3o segrega. Tr\u00eas tra\u00e7os definem, segundo o Papa, os contornos de uma exist\u00eancia em liberdade: o primado do Direito no espa\u00e7o p\u00fablico, a exig\u00eancia da \u00c9tica na promo\u00e7\u00e3o de humanidade, e a cria\u00e7\u00e3o da beleza da Arte como transfigura\u00e7\u00e3o do humano. No horizonte, a experi\u00eancia da F\u00e9 que abre para a derradeira verdade do homem. A experi\u00eancia religiosa revela-se coextensiva \u00e0 hist\u00f3ria da humanidade: na pluralidade das suas express\u00f5es apontam a mesma converg\u00eancia do sentido de Deus e do sentido do humano. Testemunham que o homem n\u00e3o fica prisioneiro de si mesmo, mas que se ultrapassa infinitamente e \u00e9 capaz de reden\u00e7\u00e3o; a f\u00e9 dos crist\u00e3os v\u00ea como ela \u00abproduz no homem  frutos de profunda maravilha perante si pr\u00f3prio. [ &#8230; ]. Aquela profunda estupefac\u00e7\u00e3o a respeito do valor e da dignidade do homem chama-se Evangelho\u00bb ( Red. Hom. n\u00ba 10 ).  <i>Manuel Jos\u00e9 do Carmo Ferreira, Professor Catedr\u00e1tico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um olhar sobre a concep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica na primeira enc\u00edclica do falecido Papa polaco, assinada a 4 de Mar\u00e7o de 1979<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[201,237],"class_list":["post-4782","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-etica","tag-joao-paulo-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4782"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4782\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}