{"id":4781,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/aborto\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"aborto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/aborto\/","title":{"rendered":"Aborto"},"content":{"rendered":"<p>Estou sentada a olhar para uma fotografia dos meus filhos e sobrinhos tirada h\u00e1 quase dezoito anos. S\u00e3o treze ao todo. O meu filho mais velho tem um beb\u00e9 nos bra\u00e7os, a mais nova nessa altura. Hoje a minha m\u00e3e tem vinte e um netos e seis bisnetos. Durante v\u00e1rios anos o Pedro aparece nas fotografias que a minha m\u00e3e insistia em tirar sempre que os conseguia juntar, com um beb\u00e9 nos bra\u00e7os. Tudo isto \u00e9 normal em fam\u00edlias grandes, mas o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum \u00e9 que est\u00e3o todos a rir e transmitem, atrav\u00e9s das posi\u00e7\u00f5es e da maneira como est\u00e3o encostados uns aos outros, uma alegria em estarem juntos, uma solidariedade que felizmente perdura ainda hoje. Se uma fam\u00edlia \u00e9 uma c\u00e9lula da sociedade pod\u00edamos esperar que esse sentimento de solidariedade, de entreajuda, essa alegria de pertencer \u00e0 mesma grande fam\u00edlia de portugueses, tamb\u00e9m existisse no pa\u00eds. Claro que todas as fam\u00edlias t\u00eam os seus desencontros, nenhuma \u00e9 \u201cideal\u201d, mas nalgumas a vontade de resolver esses desencontros, nunca esquecer que somos irm\u00e3os, como diz o Vasco, meu marido, acaba por se sobrepor \u00e0s zangas. Durante este \u00faltimo ano a grande fam\u00edlia portuguesa tem vivido momentos particularmente dif\u00edceis; problemas financeiros, desemprego, esc\u00e2ndalos, segredos de justi\u00e7a que n\u00e3o s\u00e3o respeitados e agora toda a discuss\u00e3o \u00e0 volta desse tema t\u00e3o pesado que \u00e9 o aborto. A fam\u00edlia que j\u00e1 se sentia t\u00e3o insegura ficou dividida, seus membros virados uns contra os outros com posi\u00e7\u00f5es extremadas, e esqueceu-se dos la\u00e7os de irmandade que a unia. Mas ser\u00e1 que a fam\u00edlia est\u00e1 t\u00e3o dividida ou ser\u00e1 que \u00e9 essa a imagem transmitida por alguns elementos da comunica\u00e7\u00e3o social que exploram o tema de uma maneira superficial, encorajando o conflito e n\u00e3o o di\u00e1logo s\u00e9rio, de tal maneira que muitos desligam a TV e o r\u00e1dio e fecham os jornais quando ouvem ou v\u00eaem a palavra aborto. No tempo dos romanos o aborto era pr\u00e1tica livre e, ap\u00f3s o nascimento, uma crian\u00e7a s\u00f3 adquiria identidade quando o pai lhe pegasse ao colo. Se isso n\u00e3o acontecesse a crian\u00e7a era posta de lado para morrer. Hoje parece que nos querem convencer que o beb\u00e9 ainda por nascer s\u00f3 tem identidade, e direito \u00e0 vida, se a m\u00e3e o aceita. Fala-se pouco ou nada no pai. Aflige-me que nas escolas e nos col\u00e9gios, muitos deles cat\u00f3licos, onde costumo fazer ac\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o sexual, a maior parte dos alunos dizem abertamente e com convic\u00e7\u00e3o, que basta que uma crian\u00e7a n\u00e3o seja desejada para se justificar o aborto. O direito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual e ao prazer n\u00e3o se questiona, mas n\u00e3o se admite que a vida fique \u201cestragada\u201d por uma gravidez. O que ser\u00e1 de uma gera\u00e7\u00e3o que s\u00f3 faz aquilo que deseja? Aflige-me que, mil e quinhentos anos ap\u00f3s os romanos, se continue a ver o aborto como uma solu\u00e7\u00e3o para uma gravidez problem\u00e1tica, que em nome da liberdade da mulher se crie uma clivagem entre m\u00e3e e filho, entre pai e filho, entre homem e mulher.  Aflige-me a esquizofrenia que muitos s\u00e3o obrigados a sofrer ao negarem a exist\u00eancia de vida quando o filho n\u00e3o \u00e9 desejado, para depois vibrarem com a primeira ecografia do filho desejado. Aflige-me a manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica que ocorre em torno de julgamentos, tornando imposs\u00edvel um di\u00e1logo sereno, sensato, fundamentado na ci\u00eancia e em reflex\u00f5es \u00e9ticas e filos\u00f3ficas. O aborto por si n\u00e3o resolve o problema que levou a mulher a abortar; a pobreza, a rela\u00e7\u00e3o complicada continuam. Basta olhar para os pa\u00edses onde o aborto foi liberalizado para ver que os problemas sociais que o aborto livre supostamente resolvia, continuam a existir. Muitos dos pa\u00edses que liberalizaram o aborto h\u00e1 anos, discutem agora a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia.  As propostas de liberaliza\u00e7\u00e3o do aborto (aborto a pedido) pedem que este seja livre at\u00e9 \u00e0s dez ou doze semanas. E depois? Porque n\u00e3o at\u00e9 \u00e0s dezasseis ou at\u00e9 \u00e0s vinte e quatro semanas (seis meses)? Uma fam\u00edlia que n\u00e3o cuida dos seus membros mais novos e mais fracos n\u00e3o investe no seu futuro.  Mary Anne d\u2019Avillez Fevereiro 2004  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou sentada a olhar para uma fotografia dos meus filhos e sobrinhos tirada h\u00e1 quase dezoito anos. S\u00e3o treze ao todo. O meu filho mais velho tem um beb\u00e9 nos bra\u00e7os, a mais nova nessa altura. 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