{"id":47477,"date":"2010-10-01T12:00:49","date_gmt":"2010-10-01T12:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/10\/01\/d-antonio-barroso-um-bispo-mal-amado-pela-republica\/"},"modified":"2010-10-01T12:00:49","modified_gmt":"2010-10-01T12:00:49","slug":"d-antonio-barroso-um-bispo-mal-amado-pela-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-antonio-barroso-um-bispo-mal-amado-pela-republica\/","title":{"rendered":"D. Ant\u00f3nio Barroso, um Bispo mal-amado pela Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>Amadeu Gomes de Ara\u00fajo apresenta vida e obra de quem se insurgiu contra a injusti\u00e7a praticada para com a Igreja <!--more--> <\/p>\n<p>D. Carlos Azevedo e Amadeu Gomes de Ara&uacute;jo s&atilde;o autores da obra &laquo;O R&eacute;u da Rep&uacute;blica&raquo;, com a chancela da Aletheia Editores, e que apresenta a vida e obra de D. Ant&oacute;nio Barroso (1854-1918).<\/p>\n<p>Da obra brotam a densidade das caracter&iacute;sticas do seu tempo, permitindo no percurso da sua vida reunir os grandes debates de um arco de tempo significativo.<\/p>\n<p>Ant&oacute;nio Barroso nasceu em Remelhe, Barcelos, em 5 de Novembro de 1854. Formou-se no Col&eacute;gio das Miss&otilde;es Ultramarinas de Cernache do Bonjardim, de 1873 a 1879.<\/p>\n<p>Ordenado sacerdote mission&aacute;rio em 20 de Setembro de 1879, foi mission&aacute;rio no Congo, Angola, de 1880 a 1891. Destacou-se como Bispo Mission&aacute;rio em Mo&ccedil;ambique de 1891 a 1897 e em Meliapor, na &Iacute;ndia, de 1897  a 1899. Foi Bispo do Porto de 1899 a 1918. Faleceu a 31 de Agosto de 1918<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &ndash; O percurso de vida de D. Ant&oacute;nio Barroso &eacute; muito abrangente, mas ficar&aacute; conhecido como o &laquo;R&eacute;u da Rep&uacute;blica&raquo;? <\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Amadeu Gomes de Ara&uacute;jo (AGA) &ndash;<\/em> Tamb&eacute;m foi &laquo;R&eacute;u da Rep&uacute;blica&raquo;. D. Ant&oacute;nio Barroso &eacute; conhecido, sobretudo, como bispo do Porto e pelas rela&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis e conturbadas com Afonso Costa. Foi julgado duas vezes &#8211; uma em Lisboa e outra no Porto &ndash; e expulso da diocese. No entanto, para mim, a fase mais criativa e de ac&ccedil;&atilde;o pastoral foi quando era mission&aacute;rio. Em Portugal, as miss&otilde;es &eacute; um assunto que n&atilde;o tira o sono a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Essa criatividade passou pelo desbravar caminhos&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Na sua ac&ccedil;&atilde;o como missi&oacute;logo. Foi um homem que agia e reflectia sobre a sua ac&ccedil;&atilde;o. Tentou imprimir caminhos diferentes &agrave; missiona&ccedil;&atilde;o. Na altura em que ele foi enviado para Angola, existiam problemas graves nas miss&otilde;es.<\/p>\n<p>No m&ecirc;s de Agosto de 1880 foi para Angola com D. Jos&eacute; Sebasti&atilde;o Neto, novo bispo da diocese de Angola e Congo. Foi com a incumb&ecirc;ncia de restaurar a antiga Miss&atilde;o de S. Salvador do Congo porque esta estava, totalmente, abandonada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O seu vigor e novidade pastoral relan&ccedil;aram essa miss&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Em moldes novos e em &laquo;competi&ccedil;&atilde;o&raquo; com os Protestantes. Trabalhou muito e bem naquela zona durante oito anos. No Padroado, as miss&otilde;es situavam-se todas no litoral&#8230; Depois da prepara&ccedil;&atilde;o no Col&eacute;gio de Cernache do Bonjardim, os mission&aacute;rios iam para as terras de miss&atilde;o, mas ficavam na zona litoral desses pa&iacute;ses. Neste ponto, D. Ant&oacute;nio Barroso foi original. Tentou por tudo para que a missiona&ccedil;&atilde;o se fizesse, n&atilde;o do litoral para o interior, mas no sentido inverso. Fez longas viagens e ficou conhecido como &laquo;mission&aacute;rio todo-o-terreno&raquo;. Passou meses fora, com o intuito de criar miss&otilde;es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Depois desse per&iacute;odo volta a Portugal?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash; <\/em>Como colaborador e amigo do estadista Barros Gomes trabalhou na reorganiza&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas de ac&ccedil;&atilde;o de cada uma das dioceses do Padroado portugu&ecirc;s, em &Aacute;frica.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Evangelizador<\/strong><\/p>\n<p>AE &ndash; Por pouco tempo, visto que foi nomeado bispo no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 90?<\/p>\n<p>AGA &ndash; Foi ordenado bispo, com o t&iacute;tulo de bispo de Him&eacute;ria, em 1891, e seguiu para Mo&ccedil;ambique. Esteve tr&ecirc;s anos neste pa&iacute;s, mas passou o tempo todo fora. Dormia ao relento. Chegou a passar cinco meses no mato. Como os padres de Cernache tinham medo de avan&ccedil;ar para o interior do pa&iacute;s, D. Ant&oacute;nio Barroso foi a esses s&iacute;tios e indicou os pontos nevr&aacute;lgicos onde se deveriam criar miss&otilde;es novas. A missiona&ccedil;&atilde;o &eacute; para o povo.<\/p>\n<p>Ainda no cap&iacute;tulo das originalidades, D. Ant&oacute;nio Barroso apostou tamb&eacute;m nos irm&atilde;os leigos. Homens que ensinavam profiss&otilde;es aos nativos. Segundo ele, a missiona&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deveria ser feita apenas por padres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AE &ndash; A evangeliza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m passava pelo <em>trabalho e pelo ensino.<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Deu uma orienta&ccedil;&atilde;o nova &agrave; missiona&ccedil;&atilde;o. Deu grande import&acirc;ncia &agrave; forma&ccedil;&atilde;o da juventude. Foi ele que criou as primeiras escolas femininas em Mo&ccedil;ambique. Por outro lado, como o Col&eacute;gio de Cernache do Bonjardim era criticado por pol&iacute;ticos, militares e jornalistas, ele entendeu e repensou a forma&ccedil;&atilde;o dos padres daquele col&eacute;gio. Aquele tipo de padre n&atilde;o interessava para as miss&otilde;es. Para D. Ant&oacute;nio Barroso, o Col&eacute;gio das Miss&otilde;es Ultramarinas (Cernache do Bonjardim) estava ultrapassado.<\/p>\n<p>Sentiu a necessidade de criar um estilo de padre diferente. Um padre que esteja preparado para o povo. N&atilde;o se podem preparar padres que n&atilde;o conhe&ccedil;am o mundo onde v&atilde;o trabalhar. Pensou na cria&ccedil;&atilde;o de semin&aacute;rios em &Aacute;frica. Lutou muito para ter um semin&aacute;rio l&aacute;, mas n&atilde;o conseguiu&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; H&aacute; raz&otilde;es espec&iacute;ficas?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> O n&iacute;vel de escolaridade e de cristianiza&ccedil;&atilde;o era zero ou quase zero. N&atilde;o havia candidatos. Perante estes factos, pensou em reorganizar o Col&eacute;gio das Miss&otilde;es Ultramarinas, de Cernache. Ele &eacute; que projectou e sonhou aquilo que, actualmente, &eacute; a Sociedade dos Mission&aacute;rios da Boa Nova. Os Mission&aacute;rios da Boa Nova s&atilde;o os herdeiros do projecto mission&aacute;rio de Cernache do Bonjardim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; D. Ant&oacute;nio Barroso &eacute; o elo que liga os padres de Cernache (onde ele estudou e se formou) com a Sociedade dos Mission&aacute;rios da Boa Nova?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Sim. No entanto n&atilde;o viu nascer o projecto. Vingou somente depois de ele ter morrido. Ele morre em 1918 e a Sociedade dos Mission&aacute;rios da Boa Nova nasceu depois. Os padres antigos eram simples franco-atiradores. Iam para as miss&otilde;es, durante oito anos, e voltaram. Era o estilo de servi&ccedil;o obrigat&oacute;rio. N&atilde;o havia continuidade no trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Depois da sua &laquo;comiss&atilde;o de servi&ccedil;o&raquo; em Angola defendeu novas formas de missiona&ccedil;&atilde;o numa c&eacute;lebre confer&ecirc;ncia.<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Foi na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1889, sobre as miss&otilde;es. A convite de Luciano Cordeiro, ele relatou a sua experi&ecirc;ncia em Angola e as necessidades de reformar a missiona&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Rela&ccedil;&otilde;es com o poder<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Tinha boas rela&ccedil;&otilde;es com os &oacute;rg&atilde;os de poder?<\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Chegou a ser apoiado pela rainha em algumas das suas iniciativas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A &eacute;poca do Regalismo&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash; <\/em>A Igreja estava dependente do poder estatal. O facto da Igreja ter obriga&ccedil;&otilde;es &#8211; o Padroado obrigava a Igreja a cuidar algumas miss&otilde;es no Oriente &#8211; que n&atilde;o conseguia cumprir colocou-a em situa&ccedil;&atilde;o fragilizada. A Igreja n&atilde;o tinha padres para enviar. Quem acaba por suprir estas necessidades &eacute; a &laquo;Propaganda Fidei&raquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; neste contexto que D. Ant&oacute;nio Barroso &eacute; nomeado para Meliapor (&Iacute;ndia)?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Existiam problemas e car&ecirc;ncias graves no Oriente. Ele foi o mediador desses atritos entre a <em>Propaganda Fidei<\/em> e os padres da Igreja Cat&oacute;lica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Esse conhecimento &laquo;extra portas&raquo; (Angola, Mo&ccedil;ambique e &Iacute;ndia) deu-lhe novos rasgos pastorais. A diocese do Porto esperava por ele e pelas suas lutas em defesa da Igreja&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> D. Ant&oacute;nio Barroso foi formado dentro de ideais, marcadamente, mon&aacute;rquicos, tal como o projecto de Cernache. Quando chegou de Mo&ccedil;ambique, a primeira visita de D. Ant&oacute;nio foi &agrave; rainha. Apoiou-o sempre. Ele tinha boas rela&ccedil;&otilde;es com a monarquia. Chegou a ser candidato a deputado&#8230; Quando chegou a Rep&uacute;blica ele aceitou o novo regime.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Lei da Separa&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Tal como a Igreja em geral.<\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> &Eacute; verdade. S&oacute; que o projecto de Afonso Costa &#8211; Ministro da Justi&ccedil;a e respons&aacute;vel pelos assuntos eclesi&aacute;sticos &ndash; passava pela seculariza&ccedil;&atilde;o a todo o custo. Neste processo, as escolas s&atilde;o transformadas em grandes centros de seculariza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; proibido qualquer ensino religioso. Esta &eacute; uma das medidas que vai enfurecer D. Ant&oacute;nio Barroso e a Igreja. A expuls&atilde;o das Ordens Religiosas, a extin&ccedil;&atilde;o dos feriados religiosos e extin&ccedil;&atilde;o do ensino religioso irritam o episcopado. Este junta-se, na v&eacute;spera de Natal de 1910, e preparam uma Pastoral Colectiva que &eacute; elaborada pelos bispos de &Eacute;vora e por D. Ant&oacute;nio Barroso.<\/p>\n<p>Preparada para ser publicada no m&ecirc;s de Fevereiro de 1911, o regime tem conhecimento desse documento e pro&iacute;be a divulga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Ele n&atilde;o atende a essa ordem. <\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Ele jogou. Entendia que estavam a ser defendidos os interesses superiores da Igreja. Foi dizendo a Afonso Costa que sim e que n&atilde;o. H&aacute; uma c&eacute;lebre noite onde trocam telegramas. O documento acabou por ser lido nas missas. O Ministro da Justi&ccedil;a, Afonso Costa, chama-o a Lisboa onde lhe fazem um julgamento apressado. Foi apedrejado e apupado na Rua do Ouro. O diploma que o expulsa &eacute; datado do dia do julgamento e assinado por ministros que n&atilde;o estavam presentes. Estava tudo preparado&#8230; No dia 7 de Mar&ccedil;o de 1911 &eacute; julgado, condenado, preso e expulso da sua diocese.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"float: right; margin-left: 4px; margin-right: 4px;\" src=\"http:\/\/farm5.static.flickr.com\/4151\/5040940383_64862b54e1.jpg\" alt=\"\" width=\"149\" height=\"250\" \/><\/p>\n<p><strong>Ex&iacute;lio<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Foi &laquo;transferido&raquo; do Porto para Cernache do Bonjardim.<\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Mandou-o desterrado para Cernache, a tal casa onde ele tinha feito a forma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Conhecidos como c&aacute;rceres e casa de mentecaptos, os semin&aacute;rios eram detestados pelo regime. Com o anseio de seculariza&ccedil;&atilde;o, o regime cria n&uacute;cleos e grupos revolucion&aacute;rios dentro dos semin&aacute;rios.<\/p>\n<p>Um m&ecirc;s ap&oacute;s a sua ida para Cernache, na v&eacute;spera da publica&ccedil;&atilde;o da Lei da Separa&ccedil;&atilde;o (19 de Abril de 1911), h&aacute; uma grande reviravolta naquela casa. Um grupo de alunos apupa os padres: &laquo;morram, morram&#8230;&raquo;. Foi uma encena&ccedil;&atilde;o com vista a mudar o regime.<\/p>\n<p>Nessa noite, D. Ant&oacute;nio Barroso n&atilde;o dormiu no Semin&aacute;rio. No dia 20 de Abril &eacute; publicada a tal lei com um artigo dedicado a Cernache e ao destino a dar &agrave;quele Semin&aacute;rio. Naquele ambiente de revolu&ccedil;&atilde;o, ele n&atilde;o pode ficar no Semin&aacute;rio e vai para casa de um amigo m&eacute;dico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Mas sempre controlado&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Estava com autoriza&ccedil;&atilde;o do regime, mas continuava controlado. Ficou at&eacute; ao dia 10 de Junho. Nessa data foi para a sua terra natal, Remelhe, Barcelos. Ali viveu at&eacute; 1914. &Eacute; nesse per&iacute;odo que acontece o &laquo;c&eacute;lebre epis&oacute;dio&raquo; (deslocou-se a Cust&oacute;ias para fazer um Baptismo) da ida dele ao Porto e o novo julgamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; H&aacute; registos escritos desses tempos de ex&iacute;lio?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Ele tinha um secret&aacute;rio, o Pe. Sebasti&atilde;o Braz, que foi o seu primeiro bi&oacute;grafo. O Pe. Sebasti&atilde;o fala dessa &eacute;poca em Remelhe. Nesses tr&ecirc;s anos, foram ordenados por ele muitos padres da diocese do Porto. Secretamente &ndash; suponho que o governo fechava os olhos -, ele presidiu, numa capelinha de Remelhe, a cerca de 60 ordena&ccedil;&otilde;es presbiterais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Comunicava com a diocese atrav&eacute;s de Cartas Pastorais?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Ele escreveu muitas Cartas Pastorais e trabalhos ligados &agrave; sua ac&ccedil;&atilde;o pastoral. Foi tamb&eacute;m um excelente tradutor. Por outro lado, D. Ant&oacute;nio Barroso escreveu tamb&eacute;m sobre a agricultura. Interessou-se muito pelo mundo do trabalho e mostrou um grande apego &agrave; lavoura. Habituou-se a ver, com olhos cr&iacute;ticos, o ritmo do ciclo agr&iacute;cola. Incitou as pessoas a organizarem-se no esp&iacute;rito cooperativo e associativo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O regresso<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Em 1914, um grupo de deputados manifesta-se contra a &laquo;injusti&ccedil;a ao bispo do Porto&raquo;.<\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Sim. A Lei fundamental da Rep&uacute;blica n&atilde;o permitia que uma pessoa fosse expulsa por toda a vida. A situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o poderia manter-se indefinidamente&#8230; e voltou &agrave; diocese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Foi recebido em clima de festa<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Fez-se uma grande festa e foi recebido de bra&ccedil;os abertos. As fotografias mostram essa manifesta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Tem um bom esp&oacute;lio fotogr&aacute;fico de D. Ant&oacute;nio Barroso?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Algumas delas s&atilde;o in&eacute;ditas. Muitas delas devo-as ao Pe. Ant&oacute;nio Trigueiros, que &eacute; descendente de um velho fidalgo que apoiou D. Ant&oacute;nio Barroso. Esse fidalgo estimulou-o a estudar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nas fotos, ele aparece com longas barbas. H&aacute; alguma raz&atilde;o espec&iacute;fica?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Era o &uacute;nico bispo que usava barbas. Faz parte do conceito de mission&aacute;rio usar barbas. Quando foi nomeado para bispo do Porto pediu &agrave; Santa S&eacute; &ndash; vi isto num jornal &ndash; autoriza&ccedil;&atilde;o para usar barbas. Para ele, as barbas eram um s&iacute;mbolo do seu passado de missiona&ccedil;&atilde;o. A fam&iacute;lia Trigueiros tem uma caixa com um peda&ccedil;o das barbas dele. Uma rel&iacute;quia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Preservar a mem&oacute;ria<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Pode deduzir-se que o interesse pela figura de D. Ant&oacute;nio Barroso come&ccedil;ou muito antes da ida dele para o Porto?<\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> O processo de canoniza&ccedil;&atilde;o de D. Ant&oacute;nio Barroso entrou em 1992, mas ele j&aacute; tinha fama de santo. Foi uma figura muito grande. A Rep&uacute;blica tinha medo dele. Afonso Costa tinha &laquo;medo&raquo; dele e tentou, por todas as formas, abaf&aacute;-lo. Em 1954, quando se comemorou o centen&aacute;rio do nascimento de D. Ant&oacute;nio Barroso, Barcelos engalanou-se para homenagear esta figura. Foi um acontecimento impressionante.<\/p>\n<p>Na parte mais nobre da cidade de Barcelos, o monumento maior &eacute; de D. Ant&oacute;nio Barroso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AE &ndash; H&aacute; mesmo a &laquo;Associa&ccedil;&atilde;o do Grupo <em>de Amigos de D. Ant&oacute;nio Barroso&raquo; que comemora as datas do nascimento e da morte deste bispo. Como surgiu a sua paix&atilde;o por esta causa?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Nasci em 1947 e conhe&ccedil;o D. Ant&oacute;nio Barroso desde muito novo porque sou de Barcelos. Em 1954, fiquei impressionado porque nunca tinha visto milhares de carros que acorreram a Barcelos para as comemora&ccedil;&otilde;es. Mais tarde entrei para o Semin&aacute;rio de Cernache do Bonjardim&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Por influ&ecirc;ncia dele?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> &Eacute; verdade. Eu fui para o Semin&aacute;rio por influ&ecirc;ncia de D. Ant&oacute;nio Barroso&#8230; Em Cernache existem imensas refer&ecirc;ncias (azulejos e outros) a este bispo lutador. Foi um homem que defendia causas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Defendia causas sem medo&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> H&aacute; uma frase dele &ndash; quando foi julgado &#8211; que &eacute; celebre: &laquo;H&aacute; duas coisas das quais sei que n&atilde;o irei morrer: parto e medo&raquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Com as comemora&ccedil;&otilde;es da Implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, a figura de D. Ant&oacute;nio Barroso volta &agrave; ribalta. Marcou a hist&oacute;ria pela totalidade do seu percurso ou pelo ex&iacute;lio que sofreu?<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Nunca teria passado despercebido da hist&oacute;ria. Se n&atilde;o tivesse existido a Rep&uacute;blica, ele teria sido cardeal, tal como foi o seu antecessor, Cardeal D. Am&eacute;rico. Era uma figura de prest&iacute;gio&#8230; Ele &eacute; grande no Porto e Barcelos pela sua bondade. Ele tinha a imagem do homem santo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Falta o milagre para a canoniza&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>AGA &ndash;<\/em> Ele dava tudo&#8230; Quando foi ordenado bispo, a m&atilde;e ofereceu-lhe o seu cord&atilde;o de ouro. Com um alicate desfez o cord&atilde;o e deu as argolas aos mais necessitados. Tinha uma bondade infinita&#8230; N&atilde;o foi a persegui&ccedil;&atilde;o que lhe deu a aur&eacute;ola. Tanto os pobres como os membros do clero defenderam-no sempre. Quando ele esteve em Cernache, o clero do Porto visitava-o com frequ&ecirc;ncia. O clero do Porto apoiou sempre a causa de D. Ant&oacute;nio Barroso.<\/p>\n<p>O que falta &eacute; o milagre&#8230; Se aparecesse o milagre, tudo se alterava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amadeu Gomes de Ara\u00fajo apresenta vida e obra de quem se insurgiu contra a injusti\u00e7a praticada para com a Igreja<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[106,187,267],"class_list":["post-47477","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-angola","tag-diocese-do-porto","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47477","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47477"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47477\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}