{"id":47403,"date":"2010-09-28T13:11:35","date_gmt":"2010-09-28T13:11:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/09\/28\/homilia-de-d-antonio-carrilho-nos-350-anos-da-morte-de-s-vicente-de-paulo-e-de-santa-luisa-de-marillac\/"},"modified":"2010-09-28T13:11:35","modified_gmt":"2010-09-28T13:11:35","slug":"homilia-de-d-antonio-carrilho-nos-350-anos-da-morte-de-s-vicente-de-paulo-e-de-santa-luisa-de-marillac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-antonio-carrilho-nos-350-anos-da-morte-de-s-vicente-de-paulo-e-de-santa-luisa-de-marillac\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Ant\u00f3nio Carrilho nos 350 anos da morte de S. Vicente de Paulo e de Santa Lu\u00edsa de Marillac"},"content":{"rendered":"<p>Ap&oacute;stolos da Caridade, um testemunho sempre actual!<\/p>\n<p>Celebramos, hoje, com j&uacute;bilo e em ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as, o encerramento das festividades dos 350 anos da morte de S. Vicente de Paulo e de Santa Lu&iacute;sa de Marillac. Ambos, ap&oacute;stolos &iacute;mpares da Caridade: o primeiro conhecido como o grande santo do grande s&eacute;culo, pai dos pobres, e declarado por Le&atilde;o XIII, em 05 de Maio de 1883, Padroeiro especial de todas as obras de caridade; a segunda, declarada por Jo&atilde;o XXIII, em 1960, Padroeira de todos os que se dedicam &agrave;s obras sociais crist&atilde;s.<\/p>\n<p>Ambos franceses, nascidos no final do s&eacute;culo XVI, Vicente de Paulo em 1581, Lu&iacute;sa de Marillac em 1591 e falecidos em Paris, no mesmo ano, ele em 27 de Setembro, ela em 15 de Mar&ccedil;o. Foram duas vidas que se cruzaram na primeira metade do s&eacute;culo XVII e se colocaram ao servi&ccedil;o do Pobre, qualquer que fosse o seu rosto, numa aten&ccedil;&atilde;o e actividade constante contra a pobreza. Tal aconteceu, porque o encontro de Vicente de Paulo com o Pobre fora anterior, em 1617, na Par&oacute;quia de Folleville &agrave; cabeceira de um campon&ecirc;s. Foi este o sinal de que Deus se serviu para converter Vicente &agrave; causa do Pobre&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Carisma Vicentino, presente na Madeira<\/p>\n<p>A partir daqui toda a sua vida gira &agrave; volta de um eixo: o Pobre. No mesmo ano, surge o primeiro fruto: as Confrarias da Caridade, as Senhoras da Caridade, que hoje chamamos a Associa&ccedil;&atilde;o Internacional das Caridades. Trabalham na nossa Diocese desde 1876, sempre ligadas ao Hosp&iacute;cio D. Maria Am&eacute;lia. Bem-hajam pelo trabalho socio-caritativo que realiza entre n&oacute;s, desde essa data, junto dos mais pobres da nossa sociedade.<\/p>\n<p>Para melhor realizar o servi&ccedil;o dos Pobres e os evangelizar, Vicente de Paulo&nbsp; re&uacute;ne, em 1625, padres que, sem ser religiosos, aceitassem viver como religiosos. Estavam criados os Padres da Miss&atilde;o ou, como hoje s&atilde;o conhecidos entre n&oacute;s, os Padres Vicentinos. Chegaram, pela primeira vez, &agrave; Madeira, em 1757 e por c&aacute; permaneceram 10 anos, no&nbsp; Semin&aacute;rio Diocesano, pregando retiros e em miss&otilde;es populares. O regresso dos Padres fez-se, depois, em 1874, ligados &agrave; Funda&ccedil;&atilde;o do Hosp&iacute;cio, mas tamb&eacute;m com um la&ccedil;o muito estreito ao Semin&aacute;rio Diocesano e &agrave;s Miss&otilde;es populares. Desde ent&atilde;o continuam presentes na nossa Diocese, como Capel&atilde;es no Hosp&iacute;cio e dispon&iacute;veis para diferentes minist&eacute;rios pastorais.<\/p>\n<p>Em 1630, uma jovem pastora, Margarida Naseau, apresenta a Vicente de Paulo o projecto auspicioso de, com outras jovens, cuidar e servir os pobres sem remunera&ccedil;&atilde;o. Estava aqui o embri&atilde;o das Servas dos Pobres. Vicente de Paulo pede a Lu&iacute;sa de Marillac que oriente estas jovens&#8230; Nasciam em 1633 as Filhas da Caridade! Desembarcaram na Madeira em 1862 a pedido da Imperatriz D. Maria Am&eacute;lia para assumir a Funda&ccedil;&atilde;o do Hosp&iacute;cio, onde se encontram ainda hoje. Mais tarde assumiriam o Ref&uacute;gio de S. Vicente de Paulo, em Gaula, e a Funda&ccedil;&atilde;o Santa Lu&iacute;sa de Marillac, no Caminho do Monte. Saudamo-las pela ac&ccedil;&atilde;o socio-caritativa que exercem entre n&oacute;s junto dos carenciados, desde os mais pequeninos at&eacute; aos mais idosos!<\/p>\n<p>Embebido do esp&iacute;rito vicentino, Frederico Ozanam funda as Confer&ecirc;ncias Vicentinas em 1831 e, coisa admir&aacute;vel, em 1875, &eacute; fundada, na&nbsp; Par&oacute;quia de S. Pedro do Funchal, a 1&ordf; Confer&ecirc;ncia madeirense e 2&ordf; nacional! Hoje, os Vicentinos actuam em 39 das nossas Par&oacute;quias no contacto directo e pessoal com os mais pobres! Saudamo-los e auguramos-lhes, nos tempos de crise que correm, muita escuta e presen&ccedil;a!<\/p>\n<p>Ainda de esp&iacute;rito vicentino a Juventude Mariana Vicentina e as Filhas de Maria: ambas animam em diferentes par&oacute;quias da nossa Diocese, nos sectores que lhes s&atilde;o mais espec&iacute;ficos, a vida das comunidades crist&atilde;s, difundindo a caridade que abrasava os cora&ccedil;&otilde;es de Vicente de Paulo e de Lu&iacute;sa de Marillac. Saudamo-las vivamente, tamb&eacute;m, pelo seu trabalho apost&oacute;lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pr&aacute;tica da Caridade<\/p>\n<p>Tanto a vida de Vicente de Paulo como a de Lu&iacute;sa de Marillac se centraram em&nbsp; torno da caridade e do Pobre, traduzindo para o seu tempo, mais pela ac&ccedil;&atilde;o do que pelo discurso, o Evangelho das Bem-aventuran&ccedil;as de Jesus Cristo (cf. Mt 5,1-12). Nas palavras do Profeta Isa&iacute;as, eles foram&nbsp; sobre os montes os p&eacute;s dos mensageiros que anunciam a paz, trazem a boa nova e proclamam a salva&ccedil;&atilde;o (cf. Is 52,7-10).<\/p>\n<p>A pr&aacute;tica da caridade sem limites levou-os &agrave; pr&aacute;tica do Reino de Deus, porque &agrave; medida que criavam hospitais, recolhiam crian&ccedil;as abandonadas, acolhiam jovens,&nbsp; matavam a fome &agrave;s v&iacute;timas da guerra, eles estavam a trabalhar para unir as pessoas, a diminuir as diferen&ccedil;as entre elas, tornar a caridade&nbsp; uma realidade concreta.<\/p>\n<p>Se, hoje, a caridade &eacute; tantas vezes mal compreendida, n&atilde;o estranharemos que a qualidade, que Vicente de Paulo lhe incutiu, fosse at&eacute; reconhecida por ateus e por esp&iacute;ritos como o de um Voltaire, por exemplo. Michel Riquel chama-a&nbsp; o &ldquo;realismo da caridade&rdquo;, porque abarcava o ser humano na sua totalidade. N&atilde;o se trata de simples benefic&ecirc;ncia, de uma caridade assistencial, porque Vicente de Paulo pensava sempre na dignidade do Pobre, por isso equacionava lucidamente caridade e justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Caridade no sentido de que ela s&oacute; &eacute; verdadeira, se for efectiva, solid&aacute;ria e interpeladora, sustentando que nem a justi&ccedil;a prevalece sobre a caridade, porque a pessoa precisa de ser atendida com amor, nem a caridade prevalece sobre a justi&ccedil;a, porque &ldquo;Deus nos concede a gra&ccedil;a de enternecer os nossos cora&ccedil;&otilde;es em favor dos miser&aacute;veis e de crer que, ao socorr&ecirc;-los, estamos a fazer justi&ccedil;a&#8230;&rdquo;<\/p>\n<p>&Eacute; por esta raz&atilde;o que ele ia ao encontro de todas as for&ccedil;as vivas da na&ccedil;&atilde;o em favor do pobre e n&atilde;o se cansava de afirmar: &ldquo;a caridade &eacute; inventiva at&eacute; ao infinito&rdquo; e ainda: &ldquo;amemos a Deus, meus irm&atilde;os, mas com o suor dos nossos rostos e o esfor&ccedil;o dos nossos bra&ccedil;os&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Causa do Pobre, a causa de Cristo<\/p>\n<p>Tudo aconteceu em 1617 quando Vicente de Paulo se encontrou face a face com o Pobre. O Pobre converteu-o, tornou-se para Vicente de Paulo, sacramento de Cristo, media&ccedil;&atilde;o viva e express&atilde;o real do Senhor, lugar preferencial para o encontro com&nbsp; Deus sofredor e crucificado, isto &eacute;, ponto de partida e de chegada da sua reflex&atilde;o e do seu agir espiritual.<\/p>\n<p>A causa do Pobre tornou-se a causa de Cristo. Esta descoberta despoletou a fecundidade da vida crist&atilde; de Vicente de Paulo: &ldquo;Vede como o principal para Nosso Senhor era trabalhar pelos pobres&rdquo;; &ldquo;Jesus Cristo n&atilde;o fez outra coisa no mundo sen&atilde;o servir os pobres&rdquo;. Por esta raz&atilde;o, ele n&atilde;o hesitar&aacute; em cham&aacute;-los &ldquo;nossos senhores e nossos mestres&rdquo;, porque s&atilde;o os pobres que nos dizem qual &eacute; a vontade de Deus, porque eles constituem&nbsp; a raz&atilde;o de ser das institui&ccedil;&otilde;es vicentinas, configuram as suas origens, rectificam o seu presente e dinamizam o compromisso do seu futuro.<\/p>\n<p>Se a caridade de Vicente de Paulo pelo pobre se enra&iacute;za t&atilde;o profundamente no mist&eacute;rio de Deus, ele n&atilde;o cessa de afirmar que ela deve ser vivida concretamente no servi&ccedil;o prestado ao pobre, com respeito e devo&ccedil;&atilde;o, para evidenciar a dignidade que lhe &eacute; devida, seguindo uma pedagogia libertadora, isto &eacute;, que o trabalho junto do pobre o leve a caminhar pelos seus pr&oacute;prios p&eacute;s e o incite a que outros o fa&ccedil;am tamb&eacute;m. S&atilde;o palavras suas: &ldquo;Assim como o Verbo-Pobre foi enviado para encarnar em Jesus Pobre, assim os pobres s&atilde;o convidados a continuar a miss&atilde;o junto de seus irm&atilde;os pobres&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Caridade e justi&ccedil;a, valores fundamentais<\/p>\n<p>Trezentos e cinquenta anos nos separam de Vicente de Paulo e de Santa Lu&iacute;sa de Marillac. Vemos, ainda hoje, o n&uacute;mero de pobres a aumentar, de tal modo que as Na&ccedil;&otilde;es Unidas proclamaram 1996&nbsp; o ano da erradica&ccedil;&atilde;o da Pobreza; e agora &eacute; a vez da Europa declarar 2010 o ano da luta contra a Pobreza e exclus&atilde;o social. O que evidencia que a Pobreza continua a estar longe de ser debelada e a mensagem de Vicente de Paulo de amor ao pobre e de luta contra a pobreza mant&eacute;m toda a sua actualidade.<\/p>\n<p>Num mundo globalizado como o nosso, cada um de n&oacute;s &eacute; chamado a empenhar-se na causa da justi&ccedil;a, como valor evang&eacute;lico fundamental. A caridade-justi&ccedil;a conduz-nos a um conjunto de atitudes e ac&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias &agrave;s daqueles que gravitam em torno dos interesses econ&oacute;micos, sobrepondo-os ao incompar&aacute;vel e excelso valor do ser humano que, em todas as circunst&acirc;ncias, deve ser respeitado na sua dignidade fundamental, como pessoa que &eacute;.<\/p>\n<p>S. Vicente de Paulo oferece-nos a l&oacute;gica da partilha, da solidariedade, da comunh&atilde;o, da dignidade humana, dos direitos do pobre. O Reino de Deus, que o mesmo &eacute; dizer o Reino das Bem-aventuran&ccedil;as, vai-se construindo com todos os que promovem a paz, porque ser&atilde;o chamados filhos de Deus. S&atilde;o estes, que estabelecer&atilde;o entre si la&ccedil;os de fraternidade, e que poder&atilde;o, na caridade e na justi&ccedil;a, dizer: Pai Nosso!<\/p>\n<p>Funchal, 27 de Setembro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; Ant&oacute;nio Carrilho, Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap&oacute;stolos da Caridade, um testemunho sempre actual! Celebramos, hoje, com j&uacute;bilo e em ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as, o encerramento das festividades dos 350 anos da morte de S. Vicente de Paulo e de Santa Lu&iacute;sa de Marillac. 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