{"id":47338,"date":"2010-09-23T16:38:53","date_gmt":"2010-09-23T16:38:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/09\/23\/republica-comunicacao-e-igreja\/"},"modified":"2010-09-23T16:38:53","modified_gmt":"2010-09-23T16:38:53","slug":"republica-comunicacao-e-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/republica-comunicacao-e-igreja\/","title":{"rendered":"Rep\u00fablica, Comunica\u00e7\u00e3o e Igreja"},"content":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente na abertura das Jornadas Nacionais das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais <!--more--> <\/p>\n<p>No centen&aacute;rio da Rep&uacute;blica em Portugal, as nossas Jornadas n&atilde;o podiam deixar de a ter em conta. Mas, ainda mais do que a fixa&ccedil;&atilde;o no 5 de Outubro de 1910 e no que o antecedeu e prolongou imediatamente, interessa-nos verificar se efectivamente se cruzam da&iacute; para c&aacute; as tr&ecirc;s palavras que d&atilde;o o tom ao nosso encontro. Ou seja, se a viv&ecirc;ncia &ldquo;republicana&rdquo;, o influxo da comunica&ccedil;&atilde;o social e a pr&oacute;pria maneira de &ldquo;ser Igreja&rdquo; tiveram e t&ecirc;m liga&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica e cronol&oacute;gica evidente.<\/p>\n<p>Permitam-me trazer-vos das &ldquo;leituras de Ver&atilde;o&rdquo; duas refer&ecirc;ncias apenas. A primeira, dum recente livro sobre o Estado moderno de Wolfgang Reinhard, conhecido historiador de Friburgo, quando escreve assim: &ldquo;O moderno estado nacional democr&aacute;tico, vivia, efectivamente, da auto-identifica&ccedil;&atilde;o incondicional dos cidad&atilde;os com ele. Com o enfraquecimento dessa auto-identifica&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou o decl&iacute;nio do Estado, como se verificou em todo o mundo no &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XX. Para tal decl&iacute;nio contribu&iacute;ram diversos factores, come&ccedil;ando pela desmistifica&ccedil;&atilde;o do Estado por parte da ci&ecirc;ncia [hist&oacute;rico-pol&iacute;tica] e [&hellip;] dos <em>mass media<\/em>&rdquo; (cf. W. Reinhard, <em>Storia dello Stato moderno<\/em>, Bologna, Il Mulino, 2010, p. 107; ed. alem&atilde; de 2007).<\/p>\n<p>O autor evidenciara antes como o Estado moderno nasceu da soma da centraliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica com o nacionalismo oitocentista, este como nova alma daquela. Seguidamente, o esgotamento das possibilidades de auto-realiza&ccedil;&atilde;o dos Estados e a internacionaliza&ccedil;&atilde;o dos contactos pessoais e da informa&ccedil;&atilde;o relativizaram o Estado-na&ccedil;&atilde;o como ideal e como viabilidade.<\/p>\n<p>Que isto mesmo se relacione com o influxo da comunica&ccedil;&atilde;o social, cada vez menos limitada por barreiras pol&iacute;ticas, parece tamb&eacute;m evidente. Situando a an&aacute;lise numa das fronteiras da Europa, Bernard Lewis, professor de Princeton, sublinha o papel do jornalismo nas transforma&ccedil;&otilde;es verificadas na Turquia, de h&aacute; um s&eacute;culo para c&aacute;, da pol&iacute;tica &agrave; linguagem: &ldquo;O advento do jornal nas terras do Isl&atilde;o introduziu uma nova concep&ccedil;&atilde;o e um novo conhecimento do que acontecia, especialmente na Europa [&hellip;]. A exig&ecirc;ncia de discutir e explicar tais acontecimentos fez nascer uma nova linguagem, donde sa&iacute;ram o &aacute;rabe, o persa e o turco modernos. Da&iacute; emergiu tamb&eacute;m uma nova e portentosa figura, a do jornalista, que desempenhou depois um important&iacute;ssimo papel no desenvolvimento do mundo isl&acirc;mico moderno. [&hellip;] Em 1925, a Turquia, depois seguida pela maioria dos outros pa&iacute;ses do mundo mu&ccedil;ulmano, abriu caminho &agrave;s transmiss&otilde;es radiof&oacute;nicas. A televis&atilde;o foi introduzida nos anos sessenta, ganhando tamb&eacute;m difus&atilde;o universal nesse mesmo mundo. [&hellip;] Hoje em dia, o ouvinte ou telespectador pode, pelo menos, escolher entre v&aacute;rias mensagens [&hellip;]. A possibilidade e o exerc&iacute;cio de tal escolha podem considerar-se como uma entre muitas manifesta&ccedil;&otilde;es da europeiza&ccedil;&atilde;o do mundo isl&acirc;mico&rdquo; (cf. B. Lewis, <em>L&rsquo; Europa e l&rsquo;Islam<\/em>, Bari, Laterza, 2007, p. 84-85; ed. inglesa de 1990).<\/p>\n<p>Estas an&aacute;lises estendem-se por um &acirc;mbito temporal t&atilde;o grande ou maior do que o da nossa Rep&uacute;blica. Mas &eacute; um facto que os factores apontados tamb&eacute;m incidiram aqui, antes e depois da mudan&ccedil;a do regime.<\/p>\n<p>O ide&aacute;rio de h&aacute; cem anos &ndash; como j&aacute; o da anterior e determinante Gera&ccedil;&atilde;o de Setenta &#8211; vinha muito &ldquo;de fora&rdquo;, da Fran&ccedil;a, da Alemanha ou doutras partes, em permanente contraste com o tradicionalismo cultural end&oacute;geno, ou refor&ccedil;ando este com argumentos similares de al&eacute;m-fronteiras. O que sucedeu antes e depois de 1910 foi, muito especialmente, um grande debate cultural, quer nos temas, quer no modo de os tratar, mais como convencimento e debate, do que como certifica&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via e excludente.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m no que &agrave; Igreja se refere. E n&atilde;o s&oacute; porque os cat&oacute;licos tiveram de se definir como tais e &ldquo;dar raz&otilde;es da sua esperan&ccedil;a&rdquo;, mas porque inclu&iacute;ram na pr&oacute;pria vida interna do catolicismo militante o novo modo de pensar em di&aacute;logo e afirmar em contradita.<\/p>\n<p>Trago-vos uma das muitas refer&ecirc;ncias da &eacute;poca, que podiam ser, quase quatro d&eacute;cadas anterior ao 5 de Outubro, mas j&aacute; reivindicando o termo que depois se tornaria em regime. Creio que este trecho do Conde de Samod&atilde;es (1828-1918), um dos mentores do nosso &ldquo;movimento cat&oacute;lico&rdquo;, pode ficar como boa sugest&atilde;o do t&iacute;tulo e do escopo das nossas Jornadas deste ano. &ldquo;Houve tempo em que a teologia n&atilde;o precisava de ser popular. Estava esta ci&ecirc;ncia reservada para os s&aacute;bios e os doutores. Hoje &eacute; mister que ela se torne acess&iacute;vel e, servindo-me dum ep&iacute;teto hoje na moda, republicana, isto &eacute;, ao n&iacute;vel de todos, perfeitamente igualit&aacute;ria [&hellip;]. Aqui [na Associa&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica do Porto] hoje e sempre que nos reunirmos, congregados em academia, comunicamos nossos pensamentos, transmitimos nossas ideias, comungamos no saber de todos [&hellip;]. &Eacute; indispens&aacute;vel que haja academia, confer&ecirc;ncias, congressos, jornais, livros, tudo quanto seja conducente a apoiar a causa do catolicismo&rdquo; (Conde de Samod&atilde;es, <em>Discurso em honra da Cruz<\/em>, 1873, p. 33-35).<\/p>\n<p>Creio que este mon&aacute;rquico &ldquo;republicano&rdquo; se sentaria de bom grado nas nossas Jornadas, para versar connosco a rela&ccedil;&atilde;o entre Rep&uacute;blica, Comunica&ccedil;&atilde;o e Igreja. Sobretudo porque, na defesa das suas convic&ccedil;&otilde;es foi sempre capaz de apurar e valorizar o que os seus opositores traziam para consolidar valores comuns, como fossem o servi&ccedil;o do pr&oacute;ximo, a liberdade c&iacute;vica &ndash; incluindo a religiosa &#8211; e a promo&ccedil;&atilde;o cultural, com grande respiro universalista; sem deixar de ser cat&oacute;lico e portugu&ecirc;s &ndash; ou exactamente por s&ecirc;-lo.<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente<br \/>Presidente da Comiss&atilde;o Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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