{"id":47231,"date":"2010-09-17T17:38:25","date_gmt":"2010-09-17T17:38:25","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/09\/17\/bento-xvi-visita-coracao-do-anglicanismo\/"},"modified":"2010-09-17T17:38:25","modified_gmt":"2010-09-17T17:38:25","slug":"bento-xvi-visita-coracao-do-anglicanismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bento-xvi-visita-coracao-do-anglicanismo\/","title":{"rendered":"Bento XVI visita \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb do anglicanismo"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Borges de Pinho, professor de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica, aborda passagem do Papa pelo Reino Unido <!--more--> <\/p>\n<p>Bento XVI est&aacute; a realizar uma visita oficial ao Reino Unido, entre 16 e 19 de Setembro. A ag&ecirc;ncia ECCLESIA procurou perceber, junto de Jos&eacute; Borges de Pinho, especialista em mat&eacute;ria de di&aacute;logo ecum&eacute;nico, que resultados pr&aacute;ticos poder&atilde;o sair deste evento, principalmente ao n&iacute;vel do di&aacute;logo&nbsp;entre cat&oacute;licos e anglicanos.<\/p>\n<p><strong>Podemos esperar que esta visita traga desenvolvimentos significativos para a rela&ccedil;&atilde;o entre cat&oacute;licos e anglicanos?<\/strong><\/p>\n<p><em>Ter&aacute; certamente consequ&ecirc;ncias, que eu&nbsp;julgo e espero virem a ser positivas, mas, neste momento, ainda &eacute; dif&iacute;cil prever o que resultar&aacute; globalmente desta visita. Creio que a&nbsp;pessoa de Bento XVI se vai &#8220;impor&#8221;&nbsp;como uma figura representativa e simbolicamente importante do nosso tempo. Espero tamb&eacute;m que a sua presen&ccedil;a e as suas palavras contribuam para &#8220;desmitificar&#8221; um pouco o peso que o papado tem tido e continua a ter, a partir de toda a sua autoridade no espa&ccedil;o cat&oacute;lico, dentro do imagin&aacute;rio anglicano. No entanto, n&atilde;o &eacute; no decurso destas&nbsp;visitas que acontecem as decis&otilde;es mais importantes. Eu recordo que, no fim do ano passado, quando se publicou a Constitui&ccedil;&atilde;o Apost&oacute;lica Anglicanorum&nbsp;coetibus, atrav&eacute;s da qual a Igreja cat&oacute;lica abriu a possibilidade de acolhimento de crist&atilde;os anglicanos em condi&ccedil;&otilde;es especiais de viv&ecirc;ncia lit&uacute;rgico-espiritual e de organiza&ccedil;&atilde;o can&oacute;nica, dentro da Igreja cat&oacute;lica, logo foi decidido retomar o di&aacute;logo teol&oacute;gico entre as duas confiss&otilde;es crist&atilde;s atrav&eacute;s da reactiva&ccedil;&atilde;o da ARCIC III (Comiss&atilde;o&nbsp; Mista Teol&oacute;gica Internacional Anglicana Cat&oacute;lica Romana). Quer dizer: uma coisa s&atilde;o situa&ccedil;&otilde;es pontuais que merecem porventura uma resposta espec&iacute;fica; outra coisa &eacute; a atitude global irrevers&iacute;vel de aproxima&ccedil;&atilde;o ecum&eacute;nica.<\/em><\/p>\n<p><strong>Quais s&atilde;o os principais pontos de diverg&ecirc;ncia, nesta altura, entre as duas doutrinas?<\/strong><\/p>\n<p><em>Como &eacute; sabido, h&aacute;&nbsp;um aspecto fundamental de converg&ecirc;ncia em que o anglicanismo se afirma muito mais pr&oacute;ximo da Igreja cat&oacute;lica que outras confiss&otilde;es ditas protestantes:&nbsp;o reconhecimento da import&acirc;ncia estrutural do episcopado hist&oacute;rico na sucess&atilde;o apost&oacute;lica. A esta vis&atilde;o associam-se outros elementos de doutrina e piedade &#8211; por exemplo, a devo&ccedil;&atilde;o mariana nalguns sectores anglicanos -, o que n&atilde;o acontece do mesmo modo nas Comunidades Eclesiais +provenientes da Reforma. Isso tem-se expressado&nbsp;numa ampla converg&ecirc;ncia doutrinal, nalguns casos mesmo em afirma&ccedil;&otilde;es de consenso, no &acirc;mbito da referida Comiss&atilde;o (ARCIC).<\/em><\/p>\n<p><em>Em termos pontuais, uma das quest&otilde;es a esclarecer &eacute; a quest&atilde;o da validade das ordena&ccedil;&otilde;es anglicanas (quest&atilde;o formalmente decidida de forma negativa no tempo do Papa Le&atilde;o XIII &ndash; s&eacute;culo XIX). Emerge agora de forma particular a quest&atilde;o da ordena&ccedil;&atilde;o&nbsp;presbiteral e episcopal de mulheres.&nbsp;No campo sacramental, &eacute; sabido que o anglicanismo valoriza dois sacramentos maiores (baptismo e eucaristia), n&atilde;o dando o mesmo peso a outras realidades sacramentais. E ainda um exemplo: no &acirc;mbito da doutrina eucar&iacute;stica, a afirma&ccedil;&atilde;o consensual da &#8220;presen&ccedil;a real&#8221; de Cristo na Eucaristia n&atilde;o significa que os anglicanos estejam abertos &agrave; pr&aacute;tica da &#8220;adora&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica&#8221; como sucede no espa&ccedil;o cat&oacute;lico.<\/em><\/p>\n<p><em>As diverg&ecirc;ncias pontuais adquiriram ultimamente maior peso no &acirc;mbito moral. &Eacute; aqui que se situa a quest&atilde;o da homossexualidade &#8211; ordena&ccedil;&atilde;o de ministros declaradamente homossexuais ou a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de casais homossexuais. Esta &eacute; certamente &ndash; apesar do aspecto espec&iacute;fico dos casos de rela&ccedil;&atilde;o com o minist&eacute;rio ordenado &#8211; a ponta de um &#8220;iceberg&#8221; em diversas quest&otilde;es de ordem moral que manifestam as diverg&ecirc;ncias pontuais mais salientes.<\/em><\/p>\n<p><em>De qualquer forma, &eacute; importante notar que a hist&oacute;ria confessional do anglicanismo explicitou-se num ambiente, numa mentalidade, num modo de viver o cristianismo que n&atilde;o &eacute; exactamente aquilo que acontece &#8211; com as suas virtudes, mas tamb&eacute;m com alguns limites, obviamente &#8211; no espa&ccedil;o cat&oacute;lico. Ou seja: seria errado olhar s&oacute; para os pontos de diverg&ecirc;ncia sem procurar inseri-los na globalidade da vida concreta de duas realidades eclesiais que se encontram separadas desde o s&eacute;culo XVI e desenvolverem identidades confessionais diferentes.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/><strong>A Igreja anglicana tem enfrentado uma crise, relacionada com algumas decis&otilde;es pouco &#8220;populares&#8221;, relacionadas com a ordena&ccedil;&atilde;o de bispos homossexuais ou de bispos femininos. Decis&otilde;es que t&ecirc;m aberto a hip&oacute;tese de muitos anglicanos se converterem ao catolicismo. Esta visita do Papa n&atilde;o poder&aacute; ser entendida como um favorecimento a essa convers&atilde;o, uma tentativa de aproveitamento?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que n&atilde;o &eacute; e n&atilde;o dever&aacute; ser. N&atilde;o digo que n&atilde;o possa haver &#8220;efeitos colaterais&#8221; &#8211; &nbsp;de sentido positivo ou negativo &#8211; nessa mat&eacute;ria. Mas &eacute; claro que o Papa n&atilde;o quer instrumentalizar a sua visita pastoral nesse sentido, nem os anglicanos abertos a um poss&iacute;vel regresso &agrave; Igreja cat&oacute;lica gostariam de se verem instrumentalizados nesta mat&eacute;ria. A prud&ecirc;ncia, ser&aacute; certamente a atitude indicada e praticada nesta mat&eacute;ria neste momento.&nbsp;&nbsp;Conv&eacute;m nunca esquecer que &ldquo;sentir-se mal na Igreja anglicana&rdquo; n&atilde;o exacta e imediatamente equivalente a &ldquo;sentir-se bem na Igreja cat&oacute;lica&rdquo;. A hist&oacute;ria de vida do Cardeal Newmann pode servir aqui de motivo de reflex&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>A Igreja anglicana n&atilde;o tem um l&iacute;der religioso, como o Papa, estando a cargo da Rainha. N&atilde;o h&aacute; uma separa&ccedil;&atilde;o clara entre o poder pol&iacute;tico e religioso. Poder&aacute; a visita de Bento XVI contribuir para uma mudan&ccedil;a de mentalidades, a esse n&iacute;vel?<\/strong><\/p>\n<p><em>Creio que se tem valorizado excessivamente esse aspecto. S&atilde;o restos do passado, como existem ainda em pa&iacute;ses escandinavos (neste caso, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s Igrejas Luteranas) e houve, de algum modo (ainda que em contexto jur&iacute;dico-constitucional muito diferente) tamb&eacute;m em Portugal antes do 25 de Abril. Os problemas ecum&eacute;nicos atr&aacute;s definidos n&atilde;o existem por raz&otilde;es dessa ordem. Na minha opini&atilde;o, se o objectivo pretendido desta visita fosse contribuir para uma separa&ccedil;&atilde;o mais clara entre o poder pol&iacute;tico e religioso, a visita de Bento XVI&nbsp; n&atilde;o deveria ter sido uma &ldquo;visita de Estado&rdquo;, mas uma &ldquo;visita pastoral&rdquo;.&nbsp; As mudan&ccedil;as no relacionamento entre o poder pol&iacute;tico e religioso acontecer&atilde;o naturalmente, e sem grandes dramas, quando a mentalidade cultural envolvente no Reino Unido (tanto do ponto de vista religioso como pol&iacute;tico) o considerar necess&aacute;rio.<\/em><\/p>\n<p><strong>No seu primeiro discurso em territ&oacute;rio brit&acirc;nico, o Papa pediu para que &ldquo;n&atilde;o se obscure&ccedil;am os fundamentos crist&atilde;os&rdquo; que sust&ecirc;m as liberdades dos povos residentes no pa&iacute;s e fez um apelo para que esse patrim&oacute;nio inspire o &ldquo;exemplo&rdquo; que o pa&iacute;s &ldquo;d&aacute; aos dois mil milh&otilde;es de membros da Commonwealth e &agrave; grande fam&iacute;lia das na&ccedil;&otilde;es de l&iacute;ngua inglesa. Alertou tamb&eacute;m para a influ&ecirc;ncia de &laquo;formas mais agressivas de secularismo&raquo;, que nem sempre favorecem o respeito pelos valores tradicionais e pela cultura. Que leitura &eacute; que se pode fazer deste primeiro discurso de Bento XVI?<\/strong><\/p>\n<p><em>Na minha perspectiva esse &eacute; o problema priorit&aacute;rio e aquele que motiva verdadeiramente a visita de Bento XVI ao Reino Unido. O Papa quer alertar as consci&ecirc;ncias &ndash; em termos de razoabilidade humana e de sensibilidade crist&atilde; &ndash; para a urg&ecirc;ncia de se pensar e come&ccedil;ar a construir um mundo novo &ndash; em termos de valores comuns, de liberdade e de justi&ccedil;a na conviv&ecirc;ncia humana, de resposta solid&aacute;ria aos grandes desafios que o presente e o futuro nos apresentam. A Europa tem as suas responsabilidades; os &ldquo;velhos&rdquo; pa&iacute;ses da Europa n&atilde;o podem negar a sua hist&oacute;ria; as ra&iacute;zes crist&atilde;s que moldaram a cultura europeia n&atilde;o podem ser ignoradas sob pena de n&atilde;o sermos dignos de n&oacute;s pr&oacute;prios como seres humanos. Isto est&aacute; &ndash; claro, por outras palavras &ndash; na Caritas in veritate. Ou seja, a grande quest&atilde;o que est&aacute; subjacente &agrave; intencionalidade primeira desta visita &ndash; muito para al&eacute;m at&eacute; de todas as diverg&ecirc;ncias e conflitualidades no &acirc;mbito ecum&eacute;nico &ndash; &eacute; contribuir para que o cristianismo seja mais capaz de propor a verdade que transporta consigo e de cumprir a sua miss&atilde;o de servir, com credibilidade e sentido pr&aacute;tico, a verdadeira humanidade dos seres humanos e das comunidades que eles constituem.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Borges de Pinho, professor de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica, aborda passagem do Papa pelo Reino Unido<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[92,120,203,294],"class_list":["post-47231","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-25-de-abril","tag-bento-xvi","tag-europa","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47231\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}