{"id":47198,"date":"2010-09-16T13:38:22","date_gmt":"2010-09-16T13:38:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/09\/16\/homilia-de-d-carlos-azevedo-na-celebracao-de-encerramento-da-xxvi-da-semana-pastoral-social\/"},"modified":"2010-09-16T13:38:22","modified_gmt":"2010-09-16T13:38:22","slug":"homilia-de-d-carlos-azevedo-na-celebracao-de-encerramento-da-xxvi-da-semana-pastoral-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-carlos-azevedo-na-celebracao-de-encerramento-da-xxvi-da-semana-pastoral-social\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Carlos Azevedo na celebra\u00e7\u00e3o de encerramento da XXVI da Semana Pastoral Social"},"content":{"rendered":"<p>1. &ldquo;Ao ver isto&rdquo;, o fariseu da narra&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica fica impressionado. O que v&ecirc;? O pecado social da mulher que ousa lavar os p&eacute;s a Jesus com l&aacute;grimas, servir-se dos cabelos como toalha e ungi-los com perfume. O fariseu v&ecirc; isto e pensa consigo, melhor: pensa a contar s&oacute; consigo, fica no simplista debate interno, centrado no seu preconceito, metido na sua mentalidade de exclus&atilde;o. E Jesus apanha-o exactamente no olhar e pergunta: &ldquo;V&ecirc;s esta mulher?&rdquo;. &Eacute; que o fariseu est&aacute; a ver-se a si, nas suas ideias, nos seus clich&eacute;s e n&atilde;o v&ecirc; livremente a realidade. Era preciso olhar de novo e ent&atilde;o dar-se conta de toda a verdade, reconhecer o contraste entre os gestos de ternura da mulher e a falta de hospitalidade manifestada por ele, reveladora de certo desprezo para com Jesus, apesar de o ter convidado para sua casa, talvez mais por si do que pelo profeta de Nazar&eacute;.<\/p>\n<p>&ldquo;Ao ver isto&rdquo;, a interroga&ccedil;&atilde;o faz-se geral: &ldquo;Quem &eacute; este?&rdquo;. Donde vem a raiz de um perd&atilde;o provocante. Dar-se at&eacute; perdoar inquieta e suscita quest&otilde;es. Quem &eacute; que se deixa amar assim, porque portador de um amor infinito?<\/p>\n<p>&Eacute; este o estilo de Jesus, revelador do amor de Deus. Supera os males do mundo, perdoa os pecados, entrega-se verdadeiramente, permitindo as ousadias da mulher pecadora, capaz de lavar os p&eacute;s ao pobre Jesus, mal recebido pelo importante fariseu.<\/p>\n<p>Superar o pecado, seja dos drogados ou dos banqueiros, s&oacute; acontece por um encontro que aproxime do dom, chegue &agrave; delicadeza do perd&atilde;o, converta o interior e transforme a posse em d&aacute;diva. A profunda mudan&ccedil;a de estilo de vida implicar&aacute; compromisso comunit&aacute;rio e revolu&ccedil;&atilde;o na mentalidade dos gestores e dos agentes pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>Como afirma o texto paulino de hoje, n&atilde;o abra&ccedil;amos a f&eacute; em v&atilde;o (1 Cor 15) e todo o processo da viv&ecirc;ncia da caridade crist&atilde; decorre do mist&eacute;rio pascal de Jesus. Requer morrer para si, desapego de vis&otilde;es limitadas para abrir-se &agrave; novidade do renascer, de ressuscitar na inova&ccedil;&atilde;o das atitudes.<\/p>\n<p>&Eacute; por gra&ccedil;a de Deus que somos disc&iacute;pulos na l&oacute;gica da gratuidade e trabalhamos, por gra&ccedil;a de Deus, neste campo, pertencendo a comunidades crist&atilde;s, sob inspira&ccedil;&atilde;o de diversos carismas, integrados em institui&ccedil;&otilde;es com orienta&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas. Por gra&ccedil;a de Deus, somos chamados a viver, a seguir o estilo prof&eacute;tico de Jesus, exigente nas atitudes, pautadas pelo puro dom, pela beleza da entrega.<\/p>\n<p>2. Ao longo destes tr&ecirc;s dias vimos isto, olhamos para a condi&ccedil;&atilde;o pecadora da sociedade. &ldquo;Ao ver isto&rdquo; sentimo-nos todos respons&aacute;veis. O pecado &eacute; inicialmente de pessoas concretas, mas plasma-se em rela&ccedil;&otilde;es, situa&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es negadoras da pessoa e contr&aacute;rias ao plano de Deus. Somos solid&aacute;rios no mal moral ou no pecado. Pode parecer estranha a express&atilde;o &ldquo;solidariedade no mal&rdquo;, mas &eacute; poderosamente verdadeira. Os meus pecados s&atilde;o de todos e prejudicam a todos. Os dos outros s&atilde;o meus e prejudicam-me. O pecado do mundo &eacute; uma grande ferida do corpo total que sangra em todos. Todo o corpo social &eacute; afectado pelo ass&eacute;dio da maldade, sem respeito pelo bem comum, insens&iacute;vel aos pobres. A grande contamina&ccedil;&atilde;o do individualismo e do dom&iacute;nio sobre os outros atinge-nos. Este pecado social fere sobretudo os pobres e exclu&iacute;dos, chegando a destrui-los como pessoas. Ali&aacute;s, a gravidade do pecado pessoal pode medir-se pela intensidade dos seus v&iacute;nculos com o pecado social. Romper, por isso, com o &ldquo;pecado do mundo&rdquo; (Jo 1,29; 15,18), lutar contra o mal &eacute; caminho de convers&atilde;o. Fomos educados no pecado de n&atilde;o &ldquo;ver isto&rdquo;. Taparam os pobres com as vit&oacute;rias dos ricos. A sede de triunfo particular envenenou o ambiente, debilitou em muitos cora&ccedil;&otilde;es o servi&ccedil;o humilde dos outros.<\/p>\n<p>A humanidade aspira ansiosamente por libertar-se desta l&oacute;gica escravizadora, tamb&eacute;m presente no mercado: &ldquo;quem nos liberta desta for&ccedil;a que leva &agrave; morte?&rdquo; (Rom 7), deste modelo de desenvolvimento que nos sequestra o futuro? Seria tr&aacute;gico, se Jesus n&atilde;o tivesse transformado a solidariedade na desgra&ccedil;a em solidariedade universal na gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Aceitemos o convite para sair do c&iacute;rculo da solidariedade do pecado, para entrar na solidariedade da salva&ccedil;&atilde;o de Jesus. A causa de Jesus, a salva&ccedil;&atilde;o da humanidade e do universo, passa por enfrentarmos a injusti&ccedil;a e a pobreza.<\/p>\n<p>O perd&atilde;o misericordioso com que Jesus enfrenta o pecado das pessoas, n&atilde;o nos fecha os olhos para ver o dom&iacute;nio de perspectivas negativas, para sentir e vibrar com os desastres que essas vis&otilde;es provocam. A l&oacute;gica do amor impele-nos a actuar. A for&ccedil;a do Esp&iacute;rito, presente na Palavra escutada, faz-nos fermento de um futuro novo. N&atilde;o podemos continuar a juntar-nos &agrave; l&oacute;gica farisaica. N&atilde;o podemos inibir-nos. Resta opor-nos, com energia sempre refeita, ao pecado do mundo, na sociedade portuguesa e em cada um de n&oacute;s, para construir a solidariedade da gra&ccedil;a, o dar-se de verdade.<\/p>\n<p>Desejamos multiplicar gestos de amor porque somos muito amados, muito perdoados. &Eacute; maravilhoso ver como l&aacute;grimas de convers&atilde;o podem ser refrescantes para os p&eacute;s de construtores de uma sociedade segundo o cora&ccedil;&atilde;o de Deus. Teremos de apressar os passos para socorrer tantos aflitos. Teremos de inovar caminhos pastorais para, muito coesos, ir ao encontro de solu&ccedil;&otilde;es justas e dignas. O amor recriador de Deus acende-nos a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 16 de Setembro de 2010<\/p>\n<p>D. Carlos Moreira Azevedo<br \/>Presidente da Comiss&atilde;o Episcopal de Pastoral Social<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. &ldquo;Ao ver isto&rdquo;, o fariseu da narra&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica fica impressionado. 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