{"id":47159,"date":"2010-09-14T11:58:39","date_gmt":"2010-09-14T11:58:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/09\/14\/ecos-do-centenario-da-republica\/"},"modified":"2010-09-14T11:58:39","modified_gmt":"2010-09-14T11:58:39","slug":"ecos-do-centenario-da-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ecos-do-centenario-da-republica\/","title":{"rendered":"Ecos do Centen\u00e1rio da Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>Quando o Sumo Pont&iacute;fice, o Papa Bento XVI, pouco depois de chegar a Lisboa, em Maio &uacute;ltimo, fez quest&atilde;o de saudar as institui&ccedil;&otilde;es e referir o facto de decorrer em 2010 o ano das comemora&ccedil;&otilde;es do primeiro centen&aacute;rio da implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica em Portugal quis dar um sinal claro de que a Igreja Cat&oacute;lica defende e respeita a concep&ccedil;&atilde;o segundo a qual as esferas pol&iacute;tica e religiosa est&atilde;o separadas e n&atilde;o se confundem, como o Conc&iacute;lio Vaticano II afirmou com muita clareza, na sequ&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o e do ensino multisseculares da Boa Nova.<\/p>\n<p>De facto, a Igreja Cat&oacute;lica n&atilde;o se identifica com regimes pol&iacute;ticos e a hist&oacute;ria revela terem tido tantas vezes os excessos clericais resultados perniciosos, tendo o anticlericalismo de h&aacute; cem anos sido superado, gra&ccedil;as a uma evolu&ccedil;&atilde;o complexa e longa na qual muitos cat&oacute;licos assumiram genuinamente os ideais republicanos. Nesse sentido, o sinal do Papa foi fundamental, em conson&acirc;ncia com a atitude da Igreja portuguesa, de acordo com a mais moderna historiografia e segundo uma preocupa&ccedil;&atilde;o fundamentalmente prospectiva, n&atilde;o centrada no reabrir de feridas antigas e de dif&iacute;ceis debates passados, muito marcados pelo drama hist&oacute;rico de uma sociedade que ao longo de todo o s&eacute;culo XIX viveu dividida entre o tradicionalismo rural e o cosmopolitismo urbano &ndash; desde as guerras civis at&eacute; &agrave;s quest&otilde;es religiosas e sociais com que a monarquia constitucional e o republicanismo tiveram de lidar. Ali&aacute;s, um estudo atento dos acontecimentos que levaram &agrave; implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica permite compreender que h&aacute; influentes factores de continuidade e de ruptura, n&atilde;o podendo esquecer-se que h&aacute; em Portugal um republicanismo intelectual latente desde a Revolu&ccedil;&atilde;o de 1820 e da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1822, que se manifesta na Regenera&ccedil;&atilde;o de 1851 e no compromisso do Acto Adicional &agrave; Carta Constitucional (1852).<\/p>\n<p>Com efeito, h&aacute; um republicanismo no novo partido regenerador, do mesmo modo que no final do s&eacute;culo haver&aacute; regeneradores a aderirem &agrave; causa da Rep&uacute;blica, de que o exemplo mais marcante &eacute; o de Bernardino Machado. O Portugal profundo e o Portugal moderno sempre se digladiaram e as feridas de 1820 (depois da sa&iacute;da da corte para o Brasil e da aus&ecirc;ncia do Rei, dos efeitos das invas&otilde;es francesas, do peso da influ&ecirc;ncia brit&acirc;nica, da subalterniza&ccedil;&atilde;o da Metr&oacute;pole&hellip;) prolongaram-se nas guerras civis, s&oacute; terminadas no meio do s&eacute;culo. A Rep&uacute;blica de 1910 reafirmou, pois, a tend&ecirc;ncia liberal oitocentista. A divis&atilde;o do Pa&iacute;s, desde Pombal, passando por D. Pedro IV, arrastou a sociedade toda e por isso a quest&atilde;o religiosa evidenciou-se, naturalmente &ndash; desde as diatribes de Jos&eacute; Agostinho de Macedo at&eacute; &agrave; influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica de sinal contr&aacute;rio do Bispo de Viseu, D. Ant&oacute;nio Alves Martins, um liberal dos quatro costados. O Portugal moderno resulta de uma s&iacute;ntese muito complexa e dif&iacute;cil de elementos contradit&oacute;rios.<\/p>\n<p>Como tem salientado D. Manuel Clemente, em 1910, &ldquo;no campo cat&oacute;lico havia adeptos do regime republicano em abstracto, como o (&hellip;) Padre Sena de Freitas e antigos mon&aacute;rquicos que aceitavam bem o novo regime como Ab&uacute;ndio da Silva, julgando-o at&eacute; prefer&iacute;vel ao anterior no tocante &agrave; Igreja: e tamb&eacute;m havia mon&aacute;rquicos que o continuavam a ser, negando a possibilidade de resolver o problema religioso sem voltar ao regime anterior&rdquo;. J&aacute; Lu&iacute;s Salgado de Matos tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o para a evolu&ccedil;&atilde;o sentida depois de 1910 nas rela&ccedil;&otilde;es entre o Estado e a Igreja, no sentido da normaliza&ccedil;&atilde;o, em virtude da entrada de Portugal na Grande Guerra, da pol&iacute;tica colonial da Rep&uacute;blica, especialmente cautelosa quanto ao Padroado e &agrave;s miss&otilde;es cat&oacute;licas (merecendo aten&ccedil;&atilde;o a figura do Padre Joaquim Alves Correia e os mission&aacute;rios do Esp&iacute;rito Santo). Refira-se, ainda, o envolvimento da Rep&uacute;blica na beatifica&ccedil;&atilde;o de Nuno &Aacute;lvares Pereira, num tempo de valoriza&ccedil;&atilde;o patri&oacute;tica em que a assist&ecirc;ncia religiosa ao Corpo Expedicion&aacute;rio Portugu&ecirc;s foi importante, e o facto de, na homenagem prestada aos her&oacute;is desconhecidos da guerra, no Congresso da Rep&uacute;blica (em 7 de Abril de 1921), o Presidente Ant&oacute;nio Jos&eacute; de Almeida ter qualificado o Condest&aacute;vel como &ldquo;companheiro&rdquo; de Portugal, personificando os ideais c&iacute;vicos e republicanos, para al&eacute;m dos valores m&iacute;sticos e prof&eacute;ticos.<\/p>\n<p>Cem anos passados, tem sido poss&iacute;vel com serenidade e sentido cr&iacute;tico, olhar a hist&oacute;ria contempor&acirc;nea a uma outra luz, fora do dramatismo da quest&atilde;o religiosa e dos seus efeitos, que a Democracia e a Rep&uacute;blica Moderna sa&iacute;das do movimento de 25 de Abril de 1974 e o regime da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1976 souberam prevenir e superar positivamente. As iniciativas tomadas no &acirc;mbito do centen&aacute;rio, a participa&ccedil;&atilde;o de uma jovem pl&ecirc;iade de investigadores, a preocupa&ccedil;&atilde;o de encarar os valores da Rep&uacute;blica para al&eacute;m das circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas como fundamentos de uma sociedade aberta, pluralista, cosmopolita e democr&aacute;tica constituem factores positivos que nos permitem tirar boas li&ccedil;&otilde;es da experi&ecirc;ncia comemorativa.<\/p>\n<p>Guilherme d&rsquo;Oliveira Martins<br \/>Presidente do CNC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o Sumo Pont&iacute;fice, o Papa Bento XVI, pouco depois de chegar a Lisboa, em Maio &uacute;ltimo, fez quest&atilde;o de saudar as institui&ccedil;&otilde;es e referir o facto de decorrer em 2010 o ano das comemora&ccedil;&otilde;es do primeiro centen&aacute;rio da implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica em Portugal quis dar um sinal claro de que a Igreja Cat&oacute;lica defende 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