{"id":47149,"date":"2010-09-14T10:42:59","date_gmt":"2010-09-14T10:42:59","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/09\/14\/igreja-catolica-e-arte-cinematografica\/"},"modified":"2010-09-14T10:42:59","modified_gmt":"2010-09-14T10:42:59","slug":"igreja-catolica-e-arte-cinematografica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-catolica-e-arte-cinematografica\/","title":{"rendered":"Igreja Cat\u00f3lica e arte cinematogr\u00e1fica"},"content":{"rendered":"<p>A professora de cinema In\u00eas Gil, que participou no j\u00fari Signis do Festival de Veneza, fala tamb\u00e9m dos filmes distinguidos pela Associa\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Mundial para a Comunica\u00e7\u00e3o <!--more--> <\/p>\n<p>A professora de cinema In&ecirc;s Gil marcou a estreia de Portugal no j&uacute;ri Signis do <a href=\"http:\/\/www.labiennale.org\/it\/cinema\/index.html\" target=\"_blank\">Festival de Veneza<\/a>, uma das mais importantes mostras internacionais da 7.&ordf; arte, que decorreu entre 1 e 11 de Setembro.<\/p>\n<p>A participa&ccedil;&atilde;o da docente universit&aacute;ria na 67.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o do certame, inserido na Bienal daquela cidade italiana, contou com o apoio dos secretariados nacionais das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais e da <a href=\"http:\/\/www.snpcultura.org\/\" target=\"_blank\">Pastoral da Cultura<\/a>.<\/p>\n<p>A delega&ccedil;&atilde;o da <a href=\"http:\/\/www.signis.net\/\" target=\"_blank\">Signis<\/a> (Associa&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Mundial para a Comunica&ccedil;&atilde;o), composta por sete jurados da Europa, &Aacute;sia e Am&eacute;rica Latina, atribuiu o pr&eacute;mio principal ao filme &ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo; (&ldquo;O atalho de Meek&rdquo;), da realizadora norte-americana Kelly Reichardt.<\/p>\n<p>O j&uacute;ri decidiu igualmente distinguir com uma men&ccedil;&atilde;o honrosa o filme &ldquo;Silent souls&rdquo; (&ldquo;Almas silenciosas&rdquo;), do russo Alexei Fedorchenko, que tamb&eacute;m ganhou o pr&eacute;mio de melhor fotografia.<\/p>\n<p>Em entrevista &agrave; Ag&ecirc;ncia Ecclesia e ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, In&ecirc;s Gil falou sobre as implica&ccedil;&otilde;es religiosas dos filmes premiados e da rela&ccedil;&atilde;o entre a Igreja e o cinema.<\/p>\n<p><strong>Qual a import&acirc;ncia da presen&ccedil;a da Igreja Cat&oacute;lica portuguesa no j&uacute;ri Signis do Festival de Veneza?<\/strong><br \/>Foi uma oportunidade &uacute;nica para expressar a nossa vontade de mostrar trabalho e participar em festivais internacionais. O j&uacute;ri, que era composto por sete pessoas de idades e proveni&ecirc;ncias diversas &ndash; Hong Kong, It&aacute;lia, Alemanha, M&eacute;xico, B&eacute;lgica, al&eacute;m de Portugal &ndash; proporcionou uma experi&ecirc;ncia muito rica devido &agrave; troca de pontos de vista, por vezes muito distintos. Penso que esta presen&ccedil;a foi uma forma de Portugal entrar no palco internacional da Signis.<br \/>Tive a sorte de encontrar a direc&ccedil;&atilde;o do IndieLisboa [festival de cinema que este ano incluiu, pela primeira vez, um j&uacute;ri da Signis]. Foi muito importante porque valoriza a parceria entre aquela mostra e a Igreja Cat&oacute;lica.<\/p>\n<p><strong>Falemos agora do filme a que o j&uacute;ri Signis atribuiu o pr&eacute;mio principal, &ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo;, da realizadora norte-americana Kelly Reichardt. Quem &eacute; Meek?<br \/><\/strong>&Eacute; um guia contratado por tr&ecirc;s fam&iacute;lias que, no s&eacute;c. XIX, queriam atravessar os Estados Unidos. Ele prop&ocirc;s um atalho mas a caravana acabou por perder-se ao seguir a sua sugest&atilde;o. Entretanto conheceram um &iacute;ndio nativo, com quem estabeleceram uma rela&ccedil;&atilde;o que passou da desconfian&ccedil;a para a confian&ccedil;a, precisamente o contr&aacute;rio do que sucedeu entre os imigrantes e Meek.<\/p>\n<p><strong>Al&eacute;m da confian&ccedil;a, o filme sugere outros temas, como o encontro entre culturas e a dificuldade de comunica&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/><\/strong>Uma grande dificuldade de comunica&ccedil;&atilde;o que surge quando deixa de haver refer&ecirc;ncias e quando se trata de uma quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia. Eles est&atilde;o no deserto, perdidos, completamente &agrave; merc&ecirc; de Meek, que assegura conhecer o atalho, ou do &iacute;ndio, que as fam&iacute;lias n&atilde;o percebem por n&atilde;o falar a sua l&iacute;ngua. &Eacute; uma personagem muito amb&iacute;gua mas que, a pouco e pouco, parece ser extremamente honesta. A dificuldade na comunica&ccedil;&atilde;o, que faz deste filme uma hist&oacute;ria muito contempor&acirc;nea, coloca-se tamb&eacute;m entre os membros das fam&iacute;lias, verificando-se uma tens&atilde;o entre homens e mulheres, sendo estas bastante solid&aacute;rias entre elas. <br \/>Os obst&aacute;culos &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o traduzem-se tamb&eacute;m no desconhecimento da cultura e dos rituais que o nativo vai utilizar para invocar os esp&iacute;ritos, dado que os imigrantes nunca sabem se ele est&aacute; a gozar ou a aplicar bruxarias, boas ou m&aacute;s. E n&oacute;s, como espectadores, tamb&eacute;m n&atilde;o sabemos o que o &iacute;ndio diz e faz. Mas progressivamente vamos identificando-nos com ele porque a sua personalidade deixa transparecer a autenticidade.<br \/>Por outro lado, os personagens fazem uma viagem &agrave; procura de &aacute;gua, que &eacute; o s&iacute;mbolo da vida e da espiritualidade. Esse itiner&aacute;rio transfere-se para uma procura do transcendente, ligada ao imanente, que &eacute; a sobreviv&ecirc;ncia. &Eacute; uma busca da confian&ccedil;a e da f&eacute;.<\/p>\n<p><strong>Para os crist&atilde;os, esta viagem pelo deserto recorda a narrativa b&iacute;blica da caminhada do povo hebreu pelo deserto, fugindo do Egipto em busca da terra prometida por Deus&#8230;<br \/><\/strong>Sem d&uacute;vida. Eu acho que o filme &eacute; profundamente religioso. E se &eacute; verdade que o fim &eacute; amb&iacute;guo, essa incerteza d&aacute; ao espectador a possibilidade de imaginar um caminho positivo.<\/p>\n<p><strong>O filme salienta tamb&eacute;m o problema da imigra&ccedil;&atilde;o e o papel das mulheres&#8230;<br \/><\/strong>Acho que a quest&atilde;o das mulheres &eacute; muito interessante porque elas s&atilde;o as encarregadas do trabalho f&iacute;sico e do cuidado pelos filhos, enquanto que os homens t&ecirc;m a responsabilidade de guiar a caravana. H&aacute; de facto um desequil&iacute;brio, al&eacute;m de a comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o passar bem entre eles. Mas &eacute; preciso n&atilde;o esquecer que a narrativa decorre no s&eacute;c. XIX. &Eacute; um filme extremamente rico, que toca muitas quest&otilde;es merecedoras de aprofundamento.<\/p>\n<p><strong>O que &eacute; que levou o j&uacute;ri a escolher &ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo;?<br \/><\/strong>O filme &eacute; um &ldquo;anti-western&rdquo; que mostra a caminhada de pioneiros americanos na esperan&ccedil;a de um futuro melhor. Esta esperan&ccedil;a &eacute; fundamentada no encontro com o desconhecido: as pessoas &ndash; o &iacute;ndio e os pr&oacute;prios familiares, que por vezes aparentam ser estranhos uns para os outros &ndash; a cultura e o deserto.<br \/>O filme tamb&eacute;m trabalha a dimens&atilde;o do tempo, o que &eacute; lind&iacute;ssimo: qualquer coisa &eacute; dif&iacute;cil de fazer e leva tempo. &Eacute; preciso tempo para fazer um pouco de comida. &Eacute; preciso tempo para arranjar um sapato. E surgem sempre obst&aacute;culos que v&atilde;o atrasar o que estava previsto. &Eacute; preciso quase moldar o tempo. O tempo &eacute; o que nos vai permitir esperar, sentir e viver as coisas. &Eacute; um aspecto que tem muito a ver com a f&eacute; e a espiritualidade.<\/p>\n<p><strong>A lentid&atilde;o do tempo pode ser exasperante para o espectador&#8230;<br \/><\/strong>Alguns sa&iacute;ram da sala, infelizmente. &Eacute; preciso deixar sentir o tempo, como nos filmes de Tarkowski. &Eacute; preciso ter tempo para sentir o tempo, e hoje em dia isso n&atilde;o &eacute; muito comum. Queremos &eacute; esquec&ecirc;-lo fazendo milhares de coisas.<\/p>\n<p><strong>O deserto poderia proporcionar grandes panor&acirc;micas, mas a realizadora opta por um formato que o reduz&#8230;<br \/><\/strong>Acho que ela quis quebrar o g&eacute;nero do western. &Eacute; outra coisa que se joga. At&eacute; porque os personagens s&atilde;o anti-her&oacute;is. Mas, ao mesmo tempo, a fotografia &eacute; bel&iacute;ssima e a paisagem tamb&eacute;m &eacute; protagonista: &eacute; dura, n&atilde;o tem &aacute;gua, faz-se dif&iacute;cil e, por isso, a sua rela&ccedil;&atilde;o com os personagens &eacute; um dos conflitos da narrativa.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo; pode ser visto como uma met&aacute;fora da exist&ecirc;ncia humana aberta ao transcendente?<br \/><\/strong>Sim, perfeitamente. No entanto, na confer&ecirc;ncia de imprensa, Kelly Reichardt n&atilde;o real&ccedil;ou muito a quest&atilde;o religiosa. Tenho a impress&atilde;o que ela continua a ser um bocadinho tabu no cinema. &Eacute; dif&iacute;cil para os cineastas admitirem que est&atilde;o a exprimir, de forma religiosa, uma s&eacute;rie de coisas. &Eacute; dif&iacute;cil hoje em dia reconhecer que, por exemplo, a religi&atilde;o crist&atilde; est&aacute; baseada na liberdade, e n&atilde;o numa ideia de fechamento. Embora sem o dizerem explicitamente, estes filmes mostram que todos os valores cat&oacute;licos assentam na liberdade, n&atilde;o entendida de qualquer maneira, obviamente.<\/p>\n<p><strong>O filme que recebeu a men&ccedil;&atilde;o honrosa da Signis, &ldquo;Silent souls, tamb&eacute;m fala de uma caminhada&#8230;<br \/><\/strong>Foi muito dif&iacute;cil para alguns membros do j&uacute;ri &ndash; e eu fui um deles &ndash; escolher entre os dois. Ao princ&iacute;pio optei por &ldquo;Silent souls&rdquo; porque &eacute; um filme obviamente espiritual e extremamente po&eacute;tico, enquanto que &ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo; &eacute; um pouco mais ilustrativo. O trabalho do realizador russo Alexei Fedorchenko fala de imagens atrav&eacute;s de imagens, com muito simbolismo. Tamb&eacute;m tem a ver com quest&otilde;es culturais.<br \/>O erotismo, que n&atilde;o est&aacute; presente no filme de Kelly Reichardt, apresenta-se de maneira muito forte em &ldquo;Silent souls&rdquo;. &Eacute; um tema interessante porque est&aacute; muito ligado &agrave; espiritualidade. Trata-se de uma quest&atilde;o que ainda n&atilde;o &eacute; suscitada com frequ&ecirc;ncia, dado que, durante muitos anos, os dois conceitos opuseram-se, em vez de se interligarem. E nesse filme h&aacute; uma reconcilia&ccedil;&atilde;o.<br \/>O j&uacute;ri considerou que &ldquo;Silent souls&rdquo; mostra como o amor pode ultrapassar a morte. O filme sublinha igualmente o papel das tradi&ccedil;&otilde;es e rituais quando enfrentam os desafios existenciais da vida.<\/p>\n<p><strong>A hist&oacute;ria centra-se num homem que, acompanhado por um amigo, faz um longo trajecto para cremar a sua mulher rec&eacute;m-falecida, seguindo as antigas e quase extintas tradi&ccedil;&otilde;es religiosas da esposa&#8230;<br \/><\/strong>O homem queria despedir-se da mulher a partir de um ritual que consiste em queimar o corpo e lan&ccedil;ar as cinzas num lago. A narrativa revela que ela era amada pelos dois homens. E h&aacute; tamb&eacute;m uma hist&oacute;ria de aves &ndash; o t&iacute;tulo original do filme, &ldquo;Ovsyanki&rdquo;, &eacute; o nome de uma esp&eacute;cie comum de p&aacute;ssaros &ndash; que s&atilde;o levadas pelo amigo no mesmo carro onde &eacute; transportado o corpo da mulher at&eacute; ao local do ritual. <br \/>Aqui h&aacute; tamb&eacute;m um trabalho sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre homem e mulher. O vi&uacute;vo n&atilde;o era certamente o mais delicado dos homens, chegando mesmo a falar de forma grosseira da esposa, enquanto que o amigo, que n&atilde;o teve nada com ela, mostra um grande respeito. <br \/>Do ponto de vista da forma f&iacute;lmica, &eacute; mais interessante do que &ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo;, e por isso o j&uacute;ri esteve indeciso. Foi por pouco que o filme russo n&atilde;o ganhou o pr&eacute;mio principal da Signis.<br \/>Na confer&ecirc;ncia de imprensa com o realizador, os jornalistas come&ccedil;aram a falar da tradi&ccedil;&atilde;o do cinema russo em que Alexei Fedorchenko se inscreve. Ele preferiu desmistificar o filme e pediu para que n&atilde;o o intelectualizassem. Acho que a posi&ccedil;&atilde;o dele foi muito bonita porque optou pela simplicidade.<\/p>\n<p><strong>&Eacute; tamb&eacute;m um filme sobre a capacidade (ou incapacidade) de expressar o amor&#8230;<br \/><\/strong>Exactamente. A narrativa, que &eacute; feita pelo amigo, acaba na quest&atilde;o do amor, que &eacute; o mais importante, que salva. O amor &eacute; o que torna a pessoa infinita. E o facto de o tema ser t&atilde;o bem mostrado faz com que o filme seja muito forte.<br \/>A partir do momento em que a dimens&atilde;o l&iacute;rica e po&eacute;tica se manifesta, &ldquo;Silent souls&rdquo; sai do ilustrativo e toca mais o espectador. Tem muito a ver com emo&ccedil;&otilde;es que fazem pensar, d&atilde;o liberdade e abrem ao questionamento, enquanto que a identifica&ccedil;&atilde;o emocional tradicional projecta emo&ccedil;&otilde;es no espectador e este n&atilde;o pensa &ndash; simplesmente sente o que lhe est&aacute; a ser transmitido.<br \/>Mas em &ldquo;Silent souls&rdquo; h&aacute; algumas coisas de que n&atilde;o gostei muito. Por exemplo, a grosseria com que o vi&uacute;vo fala, um aspecto que tamb&eacute;m foi referido por outros membros do j&uacute;ri. Pode chegar a pensar-se que ele &eacute; ligeiramente mis&oacute;gino. Acho que n&atilde;o era preciso dizer certas coisas&#8230; Foi por isso que, no fim, dei o meu voto a &ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Meek&rsquo;s cutoff&rdquo; e &ldquo;Silent souls&rdquo; &lsquo;correm o risco&rsquo; de n&atilde;o deixar o espectador confort&aacute;vel e passivo&#8230;<br \/><\/strong>Sim, mas &eacute; bom que os filmes despertem novos universos emocionais e mentais. O j&uacute;ri Signis quer obras que fiquem, que possamos transportar connosco, que deixem sensa&ccedil;&otilde;es fortes, que questionem, toquem e transformem. <br \/>Nos 24 filmes que concorreram ao Le&atilde;o de Ouro [pr&eacute;mio principal do Festival de Veneza] havia, infelizmente, muitos trabalhos baseados no entretenimento e na viol&ecirc;ncia. Para n&oacute;s essas obras n&atilde;o interessam porque assentam na artificialidade e na superficialidade, e por isso n&atilde;o fazem pensar. Podem tocar emocionalmente mas n&atilde;o questionam.<br \/>O que &eacute; interessante na religi&atilde;o, e em particular no cristianismo, &eacute; que ele questiona, renova, est&aacute; sempre &agrave; procura de uma justifica&ccedil;&atilde;o. E quando n&atilde;o h&aacute; resposta poss&iacute;vel, tenta descobrir como podemos viver melhor.<br \/>Acho que uma das fun&ccedil;&otilde;es dos filmes &eacute; trazer &agrave; consci&ecirc;ncia do espectador aquilo que est&aacute; inconsciente. E, de repente, a consci&ecirc;ncia abre novas portas.<br \/>Muitos dos filmes fora da competi&ccedil;&atilde;o para o galard&atilde;o principal enquadravam-se muito melhor no &acirc;mbito do pr&eacute;mio da Signis. E no total dos 24, foi &oacute;bvio para o j&uacute;ri que n&atilde;o haveria mais do que cinco que poderiam obter essa distin&ccedil;&atilde;o. &Eacute; pouco&#8230;<\/p>\n<p><strong>Entre os filmes da competi&ccedil;&atilde;o oficial, que outras escolhas recomendaria?<br \/><\/strong>Havia um filme italiano de que gostei muito, &ldquo;La pecora nera&rdquo; [de Ascanio Celestini], sobre a doen&ccedil;a mental: saber onde &eacute; que ela come&ccedil;a e acaba e se os doentes s&atilde;o os que est&atilde;o dentro das institui&ccedil;&otilde;es. Penso que a obra ter&aacute; ficado em 3.&ordm; lugar na nossa escolha. <br \/>E recordo o filme surpresa da competi&ccedil;&atilde;o, &ldquo;The ditch&rdquo; [co-produ&ccedil;&atilde;o de Hong Kong, Fran&ccedil;a e B&eacute;lgica realizada por Wang Bing], sobre os campos de reeduca&ccedil;&atilde;o na China maoista. Apesar de ser uma fic&ccedil;&atilde;o, parece um document&aacute;rio. &Eacute; uma obra que questiona a experi&ecirc;ncia de Deus. Pertence &agrave;quele g&eacute;nero de filmes que nos fazem duvidar para acreditarmos ainda mais.<\/p>\n<p><strong>Chegou a ver os filmes de Manoel de Oliveira e Jo&atilde;o Nicolau [realizadores portugueses que apresentaram obras em Veneza]?<br \/><\/strong>O filme de Jo&atilde;o Nicolau [&ldquo;A espada e a rosa&rdquo;] foi exibido &agrave; mesma hora da projec&ccedil;&atilde;o de uma obra que eu tinha mesmo de assistir. Mas espero v&ecirc;-lo em Portugal. Quanto &agrave; curta-metragem de Manoel de Oliveira [&ldquo;Pain&eacute;is de S&atilde;o Vicente de Fora &#8211; Vis&atilde;o po&eacute;tica&rdquo;], achei muito interessante. &Eacute; uma forma muito original de apresentar os pain&eacute;is.<\/p>\n<p><strong>Como classifica a rela&ccedil;&atilde;o actual entre a Igreja e o cinema?<br \/><\/strong>A Igreja est&aacute; pronta para um di&aacute;logo livre. Em Portugal h&aacute; uma grande vontade de dialogar com as artes contempor&acirc;neas, incluindo o cinema. <br \/>No entanto penso que subsiste a ideia errada de que a Igreja est&aacute; fechada e &eacute; dogm&aacute;tica. H&aacute; muitos preconceitos. Em Fran&ccedil;a, por exemplo, a rela&ccedil;&atilde;o entre o cinema e a religi&atilde;o est&aacute; completamente posta de parte. Todos os cr&iacute;ticos e te&oacute;ricos est&atilde;o desinteressados dessa quest&atilde;o. Para eles, abordar a religi&atilde;o &eacute; quase como entrar num campo que n&atilde;o faz parte do cinema.<br \/>A rela&ccedil;&atilde;o entre Igreja e cinema nunca foi pac&iacute;fica. Mas eu vejo que a Signis d&aacute; pr&eacute;mios a filmes que n&atilde;o s&atilde;o confessionais. S&atilde;o obras muito interessantes, que tocam assuntos como a sexualidade e a viol&ecirc;ncia. Obviamente que h&aacute; sempre uma cr&iacute;tica muito forte quando estes aspectos s&atilde;o enquadrados de forma negativa. Mas quando a aproxima&ccedil;&atilde;o &eacute; positiva, a Igreja reconhece-o.<\/p>\n<p><strong>A rela&ccedil;&atilde;o entre a Igreja e o cinema n&atilde;o passa apenas por filmes explicitamente religiosos, mas tamb&eacute;m por trabalhos que recorrem a imagens, cenas e palavras que alguns cat&oacute;licos podem considerar chocantes quando confrontadas com a mensagem evang&eacute;lica&#8230;<br \/><\/strong>Exactamente. Muitas vezes, para construir &eacute; preciso desconstruir. No caso da viol&ecirc;ncia, por exemplo, um dos crit&eacute;rios da avalia&ccedil;&atilde;o dos filmes que a Signis prop&otilde;e &eacute; questionar o j&uacute;ri sobre se essa agressividade pode ser construtiva. O facto de um filme ser violento n&atilde;o implica que ele n&atilde;o tenha qualidade e que sejamos obrigados a rejeit&aacute;-lo logo &agrave; partida. <br \/>Estou a lembrar-me de Jesus, quando entrou no templo e derrubou as bancas onde os comerciantes faziam os seus neg&oacute;cios. &Eacute; certo que se trata de viol&ecirc;ncia, mas n&atilde;o &eacute; gratuita, isto &eacute;, procura revelar uma verdade essencial da identidade de Deus.<\/p>\n<p><strong>Para quando um festival de cinema religioso em Portugal?<br \/><\/strong>&Eacute; um projecto que temos, mas talvez n&atilde;o a curto termo. Penso que em Portugal essa iniciativa vai estar aliada ao aprofundamento teol&oacute;gico. Se &eacute; para mostrar filmes comerciais, como a &ldquo;Paix&atilde;o de Cristo&rdquo;, de Mel Gibson, n&atilde;o acho muito interessante. Acredito mais na ideia de exibir e discutir obras que n&atilde;o sejam explicitamente religiosas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.snpcultura.org\/pcm_igreja_premiou_filmes_festival_veneza.html\" target=\"_blank\">Veja aqui<\/a> fotogramas dos filmes premiados e o &ldquo;trailer&rdquo; de &ldquo;Silent Souls&rdquo;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A professora de cinema In\u00eas Gil, que participou no j\u00fari Signis do Festival de Veneza, fala tamb\u00e9m dos filmes distinguidos pela Associa\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Mundial para a Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[199,203,276],"class_list":["post-47149","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-espiritualidade","tag-europa","tag-pastoral-da-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47149"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47149\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}