{"id":47089,"date":"2010-09-09T15:46:48","date_gmt":"2010-09-09T15:46:48","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/09\/09\/a-visita-do-papa-a-portugal-a-enciclica-caritas-in-veritate-e-a-sociedade-portuguesa\/"},"modified":"2010-09-09T15:46:48","modified_gmt":"2010-09-09T15:46:48","slug":"a-visita-do-papa-a-portugal-a-enciclica-caritas-in-veritate-e-a-sociedade-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-visita-do-papa-a-portugal-a-enciclica-caritas-in-veritate-e-a-sociedade-portuguesa\/","title":{"rendered":"A visita do Papa a Portugal, a Enc\u00edclica \u00abCaritas in Veritate\u00bb e a sociedade portuguesa"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>A visita do Papa Bento XVI a Portugal,<br \/><\/strong><strong>a Enc&iacute;clica <em>Caritas in Veritate<\/em> e a sociedade portuguesa<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>A&nbsp;visita de Sua Santidade o Papa a Portugal, que t&atilde;o profundo e universal acolhimento recebeu e que em cada um dos locais de encontro, Lisboa, F&aacute;tima, Porto, teve as suas mensagens pr&oacute;prias, n&atilde;o pode deixar de nos estimular a uma reflex&atilde;o mais profunda sobre a aplica&ccedil;&atilde;o da doutrina papal &agrave; situa&ccedil;&atilde;o da sociedade em geral e em especial &agrave; sociedade portuguesa, com as suas realidades, esperan&ccedil;as e problemas. F&aacute;&#8209;lo&#8209;emos a partir da &uacute;ltima Enc&iacute;clica do Papa Bento XVI <em>Caritas in Veritate &ndash; <\/em>Caridade na Verdade.<\/p>\n<p>Portugal atravessa uma das mais profundas crises das &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Os portugueses sentem-se muito preocupados e desconcertados com uma s&eacute;rie de acontecimentos e not&iacute;cias que abalaram as suas convic&ccedil;&otilde;es, valores e expectativas. Sentem, por isso, a necessidade de orienta&ccedil;&otilde;es, sobretudo por parte de institui&ccedil;&otilde;es autorizadas como &eacute; o caso da Igreja.<\/p>\n<p>N&atilde;o pode, pois, a Igreja deixar de intervir, n&atilde;o partidariamente, que n&atilde;o &eacute; esse o seu terreno, mas pastoralmente, reafirmando os seus valores e verdades, partilhados por grande parte da sociedade portuguesa, e propondo caminhos aos portugueses.<\/p>\n<p>A Enc&iacute;clica <em>Caritas in Veritate <\/em>lan&ccedil;a um desafio aos cat&oacute;licos e &agrave;s sociedades contempor&acirc;neas, propondo-lhes reflectir e descobrir novos caminhos para o desenvolvimento. Entendemos que os ensinamentos que cont&eacute;m podem e devem inspirar a descoberta de solu&ccedil;&otilde;es para a actual crise portuguesa.<\/p>\n<p>Em Portugal, as &aacute;reas em que mais se fazem sentir a crise e a necessidade de uma orienta&ccedil;&atilde;o s&atilde;o as seguintes:<\/p>\n<p>1. A crise de valores e o modelo de desenvolvimento. A crise econ&oacute;mico&#8209;financeira e seus impactos sociais e pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>2. A crise moral e o relativismo.<\/p>\n<p>3. O problema da fam&iacute;lia e da educa&ccedil;&atilde;o. A educa&ccedil;&atilde;o, uma responsabilidade de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. A crise de valores e o modelo de desenvolvimento. A crise econ&oacute;mico&#8209;financeira e seus impactos sociais e pol&iacute;ticos<\/strong><\/p>\n<p>A recente crise econ&oacute;mico&#8209;financeira veio evidenciar <strong>uma profunda crise de valores<\/strong>, que obriga a colocar o problema do modelo de desenvolvimento da sociedade portuguesa.<\/p>\n<p>A desregula&ccedil;&atilde;o permitiu a irresponsabilidade financeira, que conduziu a uma recess&atilde;o econ&oacute;mica. Esta provocou uma onda de fal&ecirc;ncias e de desemprego, bem como uma diminui&ccedil;&atilde;o da qualidade e do n&iacute;vel de vida de uma significativa parte da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O que este processo dram&aacute;tico evidenciou &eacute; que a procura desenfreada do lucro, n&atilde;o entendido como um meio para o bem comum, como recorda o Papa na referida Enc&iacute;clica (n. 21), mas como objectivo &uacute;nico ou primordial de toda a actividade econ&oacute;mico-financeira, gera em cadeia problemas graves de repercuss&otilde;es incalcul&aacute;veis.<\/p>\n<p>Al&eacute;m da crise internacional que afectou todos os pa&iacute;ses, embora com intensidades desiguais, o nosso pa&iacute;s vinha evidenciando sinais de uma crise estrutural entre os quais avultava o excessivo endividamento nacional e das fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>Em Portugal n&atilde;o pode continuar a ser estimulada a atrac&ccedil;&atilde;o consumista que tem levado a gastar acima dos nossos recursos. No nosso pa&iacute;s, o consumo excede em mais de 10% a riqueza criada, o que o leva a endividar-se cumulativamente.<\/p>\n<p>A crise financeira mundial e as suas repercuss&otilde;es entre n&oacute;s s&atilde;o de uma gravidade sem precedentes, uma vez que atingem os fundamentos da pr&oacute;pria sociedade. O culto do ef&eacute;mero e do imediato, a exalta&ccedil;&atilde;o do ego&iacute;smo, a preval&ecirc;ncia das apar&ecirc;ncias, a desvaloriza&ccedil;&atilde;o da cria&ccedil;&atilde;o e da partilha de responsabilidades &ndash; tudo isso conduziu &agrave; gan&acirc;ncia, ao esgotamento dos recursos dispon&iacute;veis e &agrave; afecta&ccedil;&atilde;o dos meios que deveriam caber &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es futuras. Estas gera&ccedil;&otilde;es correm o risco de viver em piores condi&ccedil;&otilde;es, caso n&atilde;o sejam desde j&aacute; tomadas as medidas adequadas.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m a situa&ccedil;&atilde;o social portuguesa &eacute; agora de extrema gravidade, tendo-se verificado grande aumento do desemprego e do endividamento das fam&iacute;lias e das empresas, devendo ainda ser assinaladas as crescentes desigualdades sociais. A pobreza, que j&aacute; existia anteriormente &agrave; crise, alargou-se muito significativamente.<\/p>\n<p>Importa sublinhar que n&atilde;o &eacute; suficiente progredir tecnol&oacute;gica e economicamente para alcan&ccedil;ar o desenvolvimento humano. Os avan&ccedil;os cient&iacute;ficos, t&eacute;cnicos e econ&oacute;micos t&ecirc;m obrigatoriamente de ser postos ao servi&ccedil;o da dignidade da pessoa humana. Para os crist&atilde;os n&atilde;o deve ser esquecido que o testemunho do amor de Cristo se deve afirmar atrav&eacute;s da justi&ccedil;a, da paz e do desenvolvimento.<\/p>\n<p>O acesso ao trabalho e a sua manuten&ccedil;&atilde;o devem ser encarados como um objectivo priorit&aacute;rio das op&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas (n. 32). Ora t&ecirc;m prevalecido vis&otilde;es produtivistas da exist&ecirc;ncia humana, denunciadas pelo Papa (n. 34). O mercado &eacute; necess&aacute;rio, mas insuficiente para gerar a coes&atilde;o social, de que necessita para bem funcionar (n. 36). A l&oacute;gica mercantil n&atilde;o pode ser separada do agir pol&iacute;tico, que realiza a justi&ccedil;a atrav&eacute;s da distribui&ccedil;&atilde;o (n. 35). A actividade econ&oacute;mica n&atilde;o &eacute; eticamente neutra, por isso deve ser orientada desde o in&iacute;cio pela justi&ccedil;a. A economia de mercado deve ser sempre inclusiva.<\/p>\n<p>A empresa tem uma responsabilidade social, e n&atilde;o apenas perante os seus accionistas ou investidores, o que implica a revis&atilde;o dos modelos dominantes de administra&ccedil;&atilde;o, os quais n&atilde;o podem deixar de atender tamb&eacute;m aos interesses dos trabalhadores e da sociedade em geral. Da&iacute; que a especula&ccedil;&atilde;o e a &acirc;nsia do lucro n&atilde;o devem, como o Papa afirma nesta Enc&iacute;clica, asfixiar as finalidades sociais da empresa, &agrave;s quais deve ser dado o justo lugar.<\/p>\n<p>Deste modo, deve ser promovida <strong>uma verdadeira economia social<\/strong> que tenha em vista, designadamente, a protec&ccedil;&atilde;o e a promo&ccedil;&atilde;o dos mais fracos.<\/p>\n<p>Os apoios sociais aos mais desprotegidos devem favorecer o reingresso no mercado de trabalho e n&atilde;o fomentar a fuga a este nem dificultar a reintegra&ccedil;&atilde;o no emprego, evitando ainda criar depend&ecirc;ncias do paternalismo pol&iacute;tico estatal.&nbsp;<\/p>\n<p>O Estado tem um papel a desempenhar na sociedade e na vida econ&oacute;mica, pois ele &eacute; indispens&aacute;vel para a necess&aacute;ria concretiza&ccedil;&atilde;o da dignidade da pessoa humana. Por isso, a sua autoridade deve ser refor&ccedil;ada. Uma economia justa exige um Estado que n&atilde;o seja ref&eacute;m de interesses particulares, nem seja sujeito a press&otilde;es indevidas e il&iacute;citas.<\/p>\n<p>Tendo presente a crise que afecta muitas institui&ccedil;&otilde;es fora do Estado, este n&atilde;o pode nem deve demitir-se das suas fun&ccedil;&otilde;es essenciais, apoiando-as de acordo com o princ&iacute;pio da subsidiariedade, por forma a poderem dar resposta aos problemas presentes.<\/p>\n<p>A crise da justi&ccedil;a mina a autoridade do Estado, n&atilde;o levando a termo com celeridade os processos, n&atilde;o punindo devidamente os que violam a lei, revelando-se incapaz de p&ocirc;r cobro &agrave; desigualdade no acesso &agrave; justi&ccedil;a e ao alargamento e difus&atilde;o da corrup&ccedil;&atilde;o, de v&aacute;rias formas de criminalidade, da utiliza&ccedil;&atilde;o dos recursos p&uacute;blicos para fins privados, do enriquecimento il&iacute;cito e do abuso irrespons&aacute;vel da liberdade.<\/p>\n<p>O Estado, como garante da prossecu&ccedil;&atilde;o do bem comum, deve dotar-se da autoridade e da respeitabilidade indispens&aacute;veis ao desempenho das suas fun&ccedil;&otilde;es. Os governantes e representantes pol&iacute;ticos devem ser os primeiros a dar o exemplo da honestidade e da dedica&ccedil;&atilde;o, para serem refer&ecirc;ncia de valores e merecerem o respeito dos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>O Estado tem de fazer face aos perigos que podem afectar a seguran&ccedil;a e a paz, mormente o terrorismo e a grande criminalidade, que amea&ccedil;am as sociedades dotadas de um Estado de Direito. No entanto, deve ser sempre sublinhado que Estado com autoridade democr&aacute;tica n&atilde;o &eacute; sin&oacute;nimo de Estado enorme, que alastra permanente e indevidamente.<\/p>\n<p>A exig&ecirc;ncia de austeridade que agora enfrentamos implica n&atilde;o s&oacute; <strong>uma maior aten&ccedil;&atilde;o &agrave; justi&ccedil;a social<\/strong>, como refor&ccedil;a <strong>o imperativo de moralidade<\/strong> na actua&ccedil;&atilde;o dos agentes pol&iacute;ticos e econ&oacute;micos, designadamente no que respeita a vencimentos e outras regalias desproporcionadas.<\/p>\n<p>Perante esta situa&ccedil;&atilde;o, reconhecendo a necessidade de medidas com vista &agrave; viabilidade econ&oacute;mica e financeira de Portugal, <strong>apelamos vivamente para que os sacrif&iacute;cios sejam distribu&iacute;dos com justi&ccedil;a e equidade<\/strong>, de acordo com os rendimentos das pessoas e das fam&iacute;lias e poupando o mais poss&iacute;vel os mais pobres. Apelamos aos crist&atilde;os e &agrave;s pessoas de boa vontade para <strong>o desenvolvimento de todas as formas de solidariedade<\/strong> que possam dar resposta ao aumento de car&ecirc;ncias econ&oacute;micas e sociais que se verificam.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. <strong>A<\/strong><strong> crise moral e o relativismo<\/strong><\/p>\n<p>A crise de valores que afecta, hoje, a maior parte das sociedades ocidentais p&oacute;s modernas gerou um crescente relativismo moral e &eacute;tico que fundamenta uma cultura dominante e tem legitimado a imposi&ccedil;&atilde;o de um pensamento &uacute;nico, refor&ccedil;ado pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, agora amplificados pelas redes inform&aacute;ticas. As sociedades t&ecirc;m vindo a interiorizar como bons &ndash; ou inevit&aacute;veis &#8211; <strong>comportamentos desagregadores e destabilizadores de equil&iacute;brios sociais<\/strong> fundamentais. Desde logo, a expans&atilde;o de concep&ccedil;&otilde;es individualistas e hedonistas, que est&atilde;o na base do <strong>decr&eacute;scimo demogr&aacute;fico.<\/strong><\/p>\n<p>A consequente<strong> diminui&ccedil;&atilde;o da natalidade e da fertilidade<\/strong> contribui fortemente para o aumento do <strong>envelhecimento<\/strong> das sociedades, ao mesmo tempo que destr&oacute;i as redes familiares, propiciando novos fen&oacute;menos sociais de dram&aacute;ticas consequ&ecirc;ncias, como o aumento da exclus&atilde;o social, da solid&atilde;o, da depend&ecirc;ncia e do abandono, sobretudo dos mais vulner&aacute;veis, como as crian&ccedil;as e os idosos. A pr&oacute;pria sustentabilidade dos sistemas sociais tem sido afectada quer pela escassa renova&ccedil;&atilde;o geracional, quer pela crescente transfer&ecirc;ncia para o Estado de fun&ccedil;&otilde;es desde sempre assumidas pela fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>As referidas concep&ccedil;&otilde;es individualistas e hedonistas levaram, igualmente, a um aumento desproporcionado das expectativas individuais de uma crescente felicidade escorada na abund&acirc;ncia de bens materiais como paradigma de sucesso, na recusa das dificuldades e do esfor&ccedil;o e na nega&ccedil;&atilde;o do sofrimento.<\/p>\n<p>A isto acresceu a decad&ecirc;ncia dos valores de coes&atilde;o nacional e social, diluindo os sentimentos de perten&ccedil;a e de solidariedade. Por outro lado, o desequil&iacute;brio regional, provocado pela desertifica&ccedil;&atilde;o do interior e pela concentra&ccedil;&atilde;o urbana no litoral, p&otilde;e cada vez mais em causa a solidariedade e a coes&atilde;o nacional. Simultaneamente ocorreu um enfraquecimento das institui&ccedil;&otilde;es, manifestado no seu deficiente funcionamento e consequente descr&eacute;dito.<\/p>\n<p>Neste progressivo vazio, o Estado foi-se substituindo &agrave; consci&ecirc;ncia social e sentiu-se tentado a definir o que &eacute; a &eacute;tica e quais os seus princ&iacute;pios, numa insustent&aacute;vel redu&ccedil;&atilde;o do bem e do mal &agrave;quilo que ele pr&oacute;prio define como o que &eacute; legal e ilegal.<\/p>\n<p>O valor da solidariedade e a procura do bem exigem, para al&eacute;m da lei, que todos orientem as suas ac&ccedil;&otilde;es &agrave; luz dos problemas dram&aacute;ticos que atingem os outros. Pol&iacute;ticos, gestores econ&oacute;micos e decisores em geral, bem como os detentores de outros poderes, incluindo os chamados fazedores de opini&atilde;o, devem pautar as suas condutas por valores morais e pela pr&aacute;tica da solidariedade, hoje mais do que nunca essenciais ao refor&ccedil;o da coes&atilde;o social.<\/p>\n<p>A Igreja tem dado um permanente e decisivo testemunho social, atrav&eacute;s das redes de inspira&ccedil;&atilde;o crist&atilde; implantadas em todo o pa&iacute;s, que foram, desde sempre e tamb&eacute;m agora na grave crise econ&oacute;mica e social que vivemos, a porta aberta e sol&iacute;cita para acolher e apoiar os mais vulner&aacute;veis. Milhares de crist&atilde;os que oferecem o seu trabalho volunt&aacute;rio envolvendo-se em m&uacute;ltiplas formas de ac&ccedil;&atilde;o, constituem o testemunho vivo do valor fundamental da promo&ccedil;&atilde;o da dignidade de todas as pessoas, sobretudo as mais carenciadas, bem como do desenvolvimento solid&aacute;rio.<\/p>\n<p>Neste quadro, merece particular refer&ecirc;ncia a quest&atilde;o da <strong>mobilidade laboral<\/strong>, vista como uma desej&aacute;vel possibilidade do mundo globalizado, que n&atilde;o deve confundir-se com as existentes press&otilde;es for&ccedil;adas &agrave; <strong>emigra&ccedil;&atilde;o<\/strong> e &agrave; <strong>imigra&ccedil;&atilde;o. <\/strong>Os movimentos migrat&oacute;rios, particularmente nesta &eacute;poca de crise, devem ser objecto de uma vis&atilde;o humanista, lembrando a situa&ccedil;&atilde;o de tantos portugueses de novo obrigados a buscar trabalho fora do seu pa&iacute;s e daqueles estrangeiros que aqui chegaram em busca de melhores oportunidades e que deram a sua for&ccedil;a de trabalho, pagaram as suas contribui&ccedil;&otilde;es e aqui tiveram os seus filhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3. O problema da fam&iacute;lia e da educa&ccedil;&atilde;o.&nbsp; A educa&ccedil;&atilde;o, uma responsabilidade de todos<\/strong><\/p>\n<p>A fam&iacute;lia, realidade anterior ao Estado, constitui, desde sempre, <strong>a c&eacute;lula base da sociedade<\/strong>. A seguir ao primado da pessoa humana e na sua sequ&ecirc;ncia, deve ser imediatamente reconhecida a fam&iacute;lia e as suas insubstitu&iacute;veis fun&ccedil;&otilde;es. Por&eacute;m, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas verificou-se um forte ataque &agrave; fam&iacute;lia, nos seus fundamentos e na sua natureza, ao mesmo tempo que aceleradas mudan&ccedil;as culturais e sociais levaram ao enfraquecimento do tecido familiar, com dram&aacute;ticas consequ&ecirc;ncias que cair&atilde;o directamente sobre as gera&ccedil;&otilde;es futuras.<\/p>\n<p>Se &eacute; importante apelar para uma maior capacita&ccedil;&atilde;o parental, atrav&eacute;s da assump&ccedil;&atilde;o das responsabilidades dos pais e da redescoberta da enorme aventura da procria&ccedil;&atilde;o e da alegria maior e generosa da cria&ccedil;&atilde;o da vida, &eacute; igualmente importante analisar os enormes constrangimentos tecidos por uma cultura hedonista e individualista, a que se somam condi&ccedil;&otilde;es mais adversas de car&aacute;cter s&oacute;cio-econ&oacute;mico, a entrada da mulher no mercado de trabalho &#8211; Portugal &eacute; o pa&iacute;s da Uni&atilde;o Europeia em que maior n&uacute;mero de mulheres com filhos pequenos trabalha a tempo completo &#8211;&nbsp; sem que tal tenha sido efectivamente acompanhado por medidas de concilia&ccedil;&atilde;o entre a vida familiar e profissional e por uma fiscaliza&ccedil;&atilde;o rigorosa do cumprimento da legisla&ccedil;&atilde;o laboral.<\/p>\n<p>Um dos mais ferozes ataques &agrave; fam&iacute;lia centrou-se no desvirtuamento do casamento, banindo o horizonte da procria&ccedil;&atilde;o (com a sua aplica&ccedil;&atilde;o &agrave;s uni&otilde;es homossexuais), pela desestabiliza&ccedil;&atilde;o da unidade matrimonial e a facilita&ccedil;&atilde;o banalizadora do div&oacute;rcio, bem como pelo refreamento da natalidade e fertilidade num quadro de desvaloriza&ccedil;&atilde;o da vida humana, com a liberaliza&ccedil;&atilde;o do aborto.<\/p>\n<p>Tal tem sido agravado pela aus&ecirc;ncia de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas valorizadoras do casamento, da fam&iacute;lia e da natalidade em dom&iacute;nios t&atilde;o relevantes como as pol&iacute;ticas de habita&ccedil;&atilde;o, do desenvolvimento de redes de equipamentos sociais de apoio &agrave; primeira inf&acirc;ncia e aos idosos, muitas vezes com ascendentes a cargo, e de medidas adequadas no &acirc;mbito da fiscalidade.<\/p>\n<p>Deve sublinhar-se que, em grande parte, as causas radicam nos pressupostos errados em que tem assentado a ac&ccedil;&atilde;o do legislador e a pr&aacute;tica dos governos, ambas avessas a uma partilha de responsabilidades entre fam&iacute;lia e Estado, particularmente no que respeita ao sistema educativo. Isto exigiria uma clara separa&ccedil;&atilde;o das respectivas esferas de interven&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o, como se assiste, a uma invas&atilde;o da esfera privada, comprometedora das liberdades e dos direitos das fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>Os portugueses t&ecirc;m de tomar consci&ecirc;ncia <strong>da import&acirc;ncia da educa&ccedil;&atilde;o e da aprendizagem como factores essenciais de desenvolvimento humano<\/strong>. A liberdade de aprender e ensinar, a salvaguarda da igualdade na educa&ccedil;&atilde;o, a educa&ccedil;&atilde;o para todos, a articula&ccedil;&atilde;o entre a livre escolha e o direito &agrave; qualidade, a consagra&ccedil;&atilde;o de instrumentos que corrijam as desigualdades e discrimina&ccedil;&otilde;es na educa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o des&iacute;gnios que uma sociedade aberta deve defender e preservar. N&atilde;o podemos continuar a assistir &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o e ao agravamento das desigualdades e &agrave; degrada&ccedil;&atilde;o da qualidade do ensino e das aprendizagens. N&atilde;o podemos continuar indiferentes relativamente ao alheamento da sociedade e das fam&iacute;lias no que toca ao que se passa no ensino das nossas escolas. O tri&acirc;ngulo <strong>escola-fam&iacute;lia-comunidade<\/strong> deve ser aprofundado e efectivamente cultivado em nome da coes&atilde;o social, da justi&ccedil;a, da qualidade das aprendizagens e do desenvolvimento integral da pessoa humana. Os educadores s&atilde;o quer os professores como profissionais, quer os pais e as fam&iacute;lias. E s&oacute; compreendendo essa realidade e essa liga&ccedil;&atilde;o poderemos corresponder melhor aos desafios perante os quais nos encontramos quando se trata de ensinar e aprender.<\/p>\n<p>A educa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o fecunda e criadora que desperta as consci&ecirc;ncias para a liberdade e a responsabilidade e garante a cria&ccedil;&atilde;o de uma sociedade mais justa e mais fraterna na qual a aprendizagem e a partilha de conhecimentos se devem ligar &agrave; compreens&atilde;o dos outros e da riqueza das diferen&ccedil;as. Educar &eacute; aprender a ser com os outros, &eacute; aprender a saber, aprender a fazer e preparar uma sociedade melhor. Como afirma o Papa Bento XVI: &ldquo;<em>o primeiro capital a preservar e valorizar &eacute; o ser humano, a pessoa, na sua integridade<\/em>&rdquo; (n. 25).<\/p>\n<p>Na educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se transmitem apenas saberes e conhecimentos, gera-se compreens&atilde;o, interrogam-se valores e sentidos, suscita-se a liberdade e a responsabilidade. A educa&ccedil;&atilde;o integral da pessoa n&atilde;o pode ser uma abstrac&ccedil;&atilde;o, feita de preceitos vagos, desenraizados e individualistas. A experi&ecirc;ncia e o exemplo t&ecirc;m de ser a mat&eacute;ria-prima de uma educa&ccedil;&atilde;o capaz de incluir o entendimento da complexidade.<\/p>\n<p>&Eacute; tempo de perceber, com todas as suas consequ&ecirc;ncias, que a qualifica&ccedil;&atilde;o permanente das pessoas deve constituir um importante sustent&aacute;culo da sua liberdade, da sua capacidade para aceder ao emprego e ao pleno exerc&iacute;cio da sua responsabilidade social. Temos, assim, de tirar consequ&ecirc;ncias quanto a resultados em aspectos como: a comparabilidade internacional, a consagra&ccedil;&atilde;o de mecanismos efectivos de autonomia respons&aacute;vel, o respeito pela relev&acirc;ncia social das forma&ccedil;&otilde;es, a necessidade de existir motiva&ccedil;&atilde;o efectiva na aprendizagem e empregabilidade, a introdu&ccedil;&atilde;o de mecanismos de avalia&ccedil;&atilde;o que favore&ccedil;am a diferencia&ccedil;&atilde;o positiva, a articula&ccedil;&atilde;o efectiva entre a escola, a fam&iacute;lia e a comunidade. Por consequ&ecirc;ncia, o Estado tem de ser menos centralizador e mais incentivador de iniciativas e de um esp&iacute;rito criador aut&oacute;nomo, rigoroso e orientado para a modernidade e o desenvolvimento. A falta de qualidade na educa&ccedil;&atilde;o, o n&atilde;o reconhecimento do m&eacute;rito, a desvaloriza&ccedil;&atilde;o do trabalho, da disciplina e da exig&ecirc;ncia tornam-se factores de injusti&ccedil;a e de empobrecimento da sociedade toda. A uniformiza&ccedil;&atilde;o das vias de ensino tamb&eacute;m constitui um factor de fragiliza&ccedil;&atilde;o dos sistemas educativos. As fronteiras abertas obrigam &agrave; compara&ccedil;&atilde;o com o que de melhor se faz nas sociedades com que temos mais relacionamento. A ignor&acirc;ncia e a mediocridade s&atilde;o factores de decad&ecirc;ncia, de fragmenta&ccedil;&atilde;o e de empobrecimento. A educa&ccedil;&atilde;o e a forma&ccedil;&atilde;o de qualidade para todos s&atilde;o factores imprescind&iacute;veis de desenvolvimento humano.<\/p>\n<p>A <strong>liberdade de aprender e ensinar<\/strong> exige que o Estado n&atilde;o tenha o monop&oacute;lio do <strong>servi&ccedil;o p&uacute;blico de educa&ccedil;&atilde;o<\/strong>, apesar das suas especiais responsabilidades, designadamente quanto &agrave; concretiza&ccedil;&atilde;o da <strong>educa&ccedil;&atilde;o para todos<\/strong>. Se a iniciativa privada e a liberdade de ac&ccedil;&atilde;o est&atilde;o consagradas como regras constitucionais na vida econ&oacute;mica e social, n&atilde;o faz sentido uma interpreta&ccedil;&atilde;o limitativa sobre o papel da iniciativa particular no campo da educa&ccedil;&atilde;o. O Estado tem a obriga&ccedil;&atilde;o de criar condi&ccedil;&otilde;es efectivas para uma rede educativa, em p&eacute; de igualdade, envolvendo a iniciativa particular e social, com financiamento adequado.<\/p>\n<p>De facto, o moderno Estado social precisa de encontrar novas formas de concretiza&ccedil;&atilde;o da liberdade de aprender e ensinar, maximizando os recursos dispon&iacute;veis e assegurando uma justi&ccedil;a distributiva apta a evitar distor&ccedil;&otilde;es na distribui&ccedil;&atilde;o dos recursos p&uacute;blicos e a assegurar que n&atilde;o haja agravamento de desigualdades e privil&eacute;gios. N&atilde;o basta uma an&aacute;lise formal de preceitos constitucionais, exige-se, sim, um conceito integrado de rede de servi&ccedil;o p&uacute;blico de educa&ccedil;&atilde;o, na qual seja poss&iacute;vel uma adequada e equitativa utiliza&ccedil;&atilde;o de recursos dispon&iacute;veis. O Estado deve garantir <strong>a liberdade de ensino<\/strong> como liberdade de institui&ccedil;&atilde;o, autonomia e pluralismo, e <strong>a liberdade de escolha das escolas pelas fam&iacute;lias<\/strong>. Al&eacute;m disso, o Estado n&atilde;o deve prejudicar os que optem por escolas n&atilde;o estatais, tendendo a assegurar a real possibilidade de acesso de todos &agrave;s diversas formas de ensino. A afecta&ccedil;&atilde;o de meios &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e &agrave; forma&ccedil;&atilde;o tem de ser feita com base em crit&eacute;rios rigorosos, que permitam a sua melhor utiliza&ccedil;&atilde;o, segundo uma l&oacute;gica distributiva e de correc&ccedil;&atilde;o de desigualdades. E neste ponto devemos ser cada vez mais exigentes, de modo a compreender que a autonomia dos estabelecimentos de ensino e o pluralismo das escolas p&uacute;blicas t&ecirc;m de se tornar regra, em todos os sectores, considerando n&atilde;o s&oacute; a liga&ccedil;&atilde;o &agrave;s comunidades, mas tamb&eacute;m uma efectiva articula&ccedil;&atilde;o entre qualidade, avalia&ccedil;&atilde;o e responsabilidade. O Estado deve ainda garantir a seguran&ccedil;a nas escolas de todos os graus, importando que assegure o cumprimento do dever fundamental de zelar pela integridade f&iacute;sica, psicol&oacute;gica e &eacute;tica de alunos e professores.<\/p>\n<p>&Eacute; indispens&aacute;vel uma educa&ccedil;&atilde;o antropologicamente fundada, que se oriente pela <strong>educa&ccedil;&atilde;o integral de cada pessoa<\/strong>, em liberdade e pluralismo institucional, num quadro de conviv&ecirc;ncia solid&aacute;ria, em ambientes escolares de &aacute;rduo trabalho e pedagogicamente estimulantes, em que os professores sejam educadores competentes e eticamente dedicados. Uma aprendizagem s&atilde; e prof&iacute;cua obriga a que os alunos trabalhem, aprendam e sejam educados para uma inser&ccedil;&atilde;o social participativa, cr&iacute;tica e criativa e em que as comunidades locais apoiem e estimulem a educa&ccedil;&atilde;o e a forma&ccedil;&atilde;o de todos ao longo da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gabinete de Estudos Pastorais da C.E.P. (Confer&ecirc;ncia Episcopal&nbsp;Portuguesa):<\/p>\n<p>Ant&oacute;nio Vaz Pinto, S.J.<br \/>Francisco Sarsfield Cabral<br \/>Guilherme Oliveira Martins<br \/>Manuel Braga da Cruz<br \/>Maria Jos&eacute; Nogueira Pinto<br \/>Pedro Roseta&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lisboa, 8 de Setembro de 2010<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A visita do Papa Bento XVI a Portugal,a Enc&iacute;clica Caritas in Veritate e a sociedade portuguesa&nbsp; A&nbsp;visita de Sua Santidade o Papa a Portugal, que t&atilde;o profundo e universal acolhimento recebeu e que em cada um dos locais de encontro, Lisboa, F&aacute;tima, Porto, teve as suas mensagens pr&oacute;prias, n&atilde;o pode deixar de nos estimular a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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