{"id":46775,"date":"2010-08-15T00:38:57","date_gmt":"2010-08-15T00:38:57","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/08\/15\/alegria-e-tranquilidade-na-hora-do-adeus\/"},"modified":"2010-08-15T00:38:57","modified_gmt":"2010-08-15T00:38:57","slug":"alegria-e-tranquilidade-na-hora-do-adeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/alegria-e-tranquilidade-na-hora-do-adeus\/","title":{"rendered":"Alegria e tranquilidade na hora do adeus"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Pedreira despede-se do cargo de Bispo de Viana do Castelo com alegria e tranquilidade interior, assegura em entrevista ao Programa ECCLESIA <!--more--> <\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira despede-se do cargo de Bispo de Viana do Castelo com &ldquo;uma certa alegria e tranquilidade interior&rdquo;, assegura em entrevista ao Programa ECCLESIA.<\/p>\n<p>Bispo de Viana desde 29 de Outubro de 1997, D. Jos&eacute; Pedreira completou 75 anos no &uacute;ltimo dia 10 de Abril, mas j&aacute; apresentara anteriormente a sua ren&uacute;ncia, alegando cansa&ccedil;o.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>ECCLESIA &#8211; O que sente neste momento em que se prepara para deixar a diocese de Viana do Castelo?<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Essa pergunta desencadeia em mim uma resposta mais alargada, ou seja, o que sinto ao final de 51 anos de presb&iacute;tero, 27 e meio de bispo e 12 anos e meio nesta diocese. A recorda&ccedil;&atilde;o da passagem como bispo de Viana do Castelo faz parte de um todo.<\/p>\n<p>Sinto, em primeiro lugar, uma certa alegria e tranquilidade interna por saber que vou entrar num ritmo de vida um bocadinho mais calmo. N&atilde;o quer dizer, de maneira nenhuma, que esteja a pensar ficar inactivo. Mas a sobrecarga da orienta&ccedil;&atilde;o de uma diocese que tem 291 par&oacute;quias e cerca de 150 sacerdotes acumula-nos muitas preocupa&ccedil;&otilde;es a cada dia.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, esta idade dos 75 anos e uns meses tamb&eacute;m j&aacute; nos habituou a olhar para tr&aacute;s. Sinto-me feliz por estes anos passados. Se outros tantos tiver para dar &agrave; vida, gostaria de os dar &agrave; mesma &agrave; Igreja, continuando a fazer o mesmo trabalho. Mas reconhe&ccedil;o que, ao fim de 75 anos, a Igreja s&oacute; lucra em que haja pessoas com maior capacidade juvenil para continuar o trabalho feito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Reconhece no seu sucessor a potencialidade para dar continuidade ao que D. Jos&eacute; Pedreira fez na diocese e tamb&eacute;m para inovar, ser criativo e dinamizar esta regi&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Com certeza. A passagem de mandato do governo de uma diocese de um bispo para outro n&atilde;o tem nada a ver com a transi&ccedil;&atilde;o de uma pasta governamental, em que se est&aacute; sempre a tentar descobrir qual dos ministros vai fazer mais e melhor.<\/p>\n<p>Na Igreja, a transmiss&atilde;o do minist&eacute;rio apost&oacute;lico &eacute; feita sempre em  continuidade. Naturalmente que cada bispo administra e evangeliza a diocese &agrave; sua maneira. N&atilde;o h&aacute; dois bispos iguais. Por isso h&aacute; uma continuidade de trabalho &ndash; &eacute; a mesma Igreja, a mesma verdade que queremos anunciar, a mesma mensagem da salva&ccedil;&atilde;o. Mas h&aacute; m&eacute;todos e modos diferentes.<\/p>\n<p>Tenho muita esperan&ccedil;a de que o novo bispo possui todas as qualidades, aptid&otilde;es e condi&ccedil;&otilde;es para poder n&atilde;o s&oacute; continuar, mas tamb&eacute;m inovar para os tempos novos. &Eacute; com muita esperan&ccedil;a que vou acompanhar a sua entrada na diocese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Neste ambiente de descristianiza&ccedil;&atilde;o e secularismo em que vivemos, estamos numa regi&atilde;o onde o toque do sino ainda mobiliza muito o &iacute;ntimo das pessoas. Este acorrer &agrave; voz do sino &eacute; apenas um sinal externo ou ainda tem correspond&ecirc;ncia no envolvimento lit&uacute;rgico e pastoral das popula&ccedil;&otilde;es?<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Respondendo de maneira simplista, diria que nesta regi&atilde;o os nossos fi&eacute;is ainda ouvem o toque do sino e se deixam mover por ele.<\/p>\n<p>Claro que esta afirma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o atinge 100 por cento da popula&ccedil;&atilde;o, embora chegue a uma percentagem muito grande. A diocese de Viana do Castelo ainda tem, em registo civil da pr&aacute;tica religiosa, mais de 92 por cento de pessoas que se declaram cat&oacute;licas, o que l&aacute; significa praticante. Essa maneira de ser praticante n&atilde;o implica o cumprimento pleno das obriga&ccedil;&otilde;es mas &eacute; uma consci&ecirc;ncia de que se pertence &agrave; Igreja e que se est&aacute; na sintonia do essencial.<\/p>\n<p>Por exemplo, no referendo sobre o aborto, os diocesanos de Viana do Castelo votaram negativamente numa percentagem de 55 ou 57 por cento. E h&aacute; zonas onde se ultrapassaram os 60 por cento. As verdades e os princ&iacute;pios crist&atilde;os ainda orientam o essencial da vida da maior parte da popula&ccedil;&atilde;o da diocese.<\/p>\n<p>Se me perguntar se j&aacute; n&atilde;o entrou aqui o secularismo e o materialismo, respondo-lhe que sim. Temos uma percentagem grande de pessoas que v&atilde;o vivendo como que em dois mundos quase paralelos ou complementares. Isto &eacute;, a cultura do f&aacute;cil, do material e do gozo da vida ao mesmo tempo que as obriga&ccedil;&otilde;es religiosas.<\/p>\n<p>Apenas acrescentaria que aquilo que me preocupou sempre como bispo desta diocese &eacute; o facto de eu saber que a maior parte da nossa popula&ccedil;&atilde;o praticante, que vive internamente a sua dimens&atilde;o religiosa, o faz ainda segundo express&otilde;es e valores de uma religiosidade popular.<\/p>\n<p>A maior preocupa&ccedil;&atilde;o de um bispo em Viana do Castelo n&atilde;o &eacute; a dimens&atilde;o religiosa em si, mas que caminhada pedag&oacute;gica e did&aacute;ctica devemos utilizar para que essa nossa gente, que &eacute; boa, que tem pr&aacute;tica religiosa com convic&ccedil;&atilde;o interna, seja capaz de a realizar em linguagem mais intelig&iacute;vel, especialmente para as gera&ccedil;&otilde;es jovens dos dias de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A religiosidade popular &eacute; um desafio pastoral muito intenso para o seu sucessor e tamb&eacute;m para os p&aacute;rocos, no sentido de abordarem essa potencialidade numa linha pedag&oacute;gica?<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; &Eacute; um problema que tem de ser visto sob m&uacute;ltiplas facetas. N&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de sim ou n&atilde;o. &Eacute; um problema de an&aacute;lise e de procura da melhor solu&ccedil;&atilde;o para facilitar o di&aacute;logo entre uma cultura religiosa tradicional e uma cultura da secularidade que nos envolve.<\/p>\n<p>Digo muitas vezes, a quem julga que a melhor solu&ccedil;&atilde;o &eacute; as pessoas se deixarem de religiosidade popular, que ela manteve a f&eacute; desta gente at&eacute; agora. &Eacute; uma esp&eacute;cie de religiosidade tel&uacute;rica, como diria o nosso Miguel Torga. Trata-se de um desafio sermos capazes de transmitir esta viv&ecirc;ncia, para a sociedade e para os outros, numa linguagem que condiga com as express&otilde;es e valores culturais do momento que estamos a viver, com um grande dom&iacute;nio da secularidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Identificava, em certa ocasi&atilde;o, alguma desorienta&ccedil;&atilde;o e falta de esperan&ccedil;a no futuro por parte dos portugueses. &Eacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o que traz consigo?<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Um soci&oacute;logo franc&ecirc;s, no virar do mil&eacute;nio, dizia que o s&eacute;culo XXI ser&aacute; religioso ou, simplesmente, n&atilde;o ser&aacute;. Isto &eacute;, auto-destr&oacute;i-se. A dimens&atilde;o religiosa constitui para n&oacute;s, ainda hoje, um motivo de esperan&ccedil;a, acrescido aos que existem na ci&ecirc;ncia, t&eacute;cnica, desenvolvimento e progresso econ&oacute;mico.<\/p>\n<p>Na minha catequese insisti por vezes na palavra da esperan&ccedil;a. N&atilde;o que aquelas realidades n&atilde;o sejam express&atilde;o dela, mas porque no contacto di&aacute;rio com as popula&ccedil;&otilde;es, e tamb&eacute;m no que lemos, ouvimos e vemos nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social, apercebo-me de que a informa&ccedil;&atilde;o e as mensagens transmitidas t&ecirc;m um substrato de falta de esperan&ccedil;a. Isto nota-se sobretudo nos jovens, nos casais, nas fam&iacute;lias e nos cientistas, inclusivamente naqueles que h&aacute; cinquenta anos nos disseram que em cinco d&eacute;cadas ter&iacute;amos vencido a pobreza, o desemprego, a doen&ccedil;a. Passado esse tempo, t&ecirc;m de reconhecer que, infelizmente, isto n&atilde;o est&aacute; melhor nesses campos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&Eacute; um desafio apresentar a Igreja como reduto de esperan&ccedil;a e dinamiza&ccedil;&atilde;o que entusiasma as pessoas, e n&atilde;o meramente um supermercado de sacramentos, onde as pessoas se apaziguam emocionalmente?<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; &Agrave;s vezes estamos preocupados &ndash; e eu falo como bispo &ndash; que a Igreja possa ser vista como uma esp&eacute;cie de supermercado de sacramentos. N&atilde;o quer dizer que num ou noutro ambiente crist&atilde;o isso n&atilde;o aconte&ccedil;a.<\/p>\n<p>A verdade &eacute; que a miss&atilde;o da Igreja nesta cultura p&oacute;s-moderna n&atilde;o est&aacute; nada diminu&iacute;da no contributo que lhe compete dar para que o mundo seja melhor, mais justo, fraterno e pac&iacute;fico. Sabemos que a sociedade de hoje necessita da colabora&ccedil;&atilde;o de todos, pelo que todos devemos contribuir para que ela seja melhor.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes cria-se o pensamento de que os maiores contributos v&ecirc;m de quem produz mais bens materiais. Mas a raz&atilde;o da crise n&atilde;o est&aacute; na falta de produtividade. Temos uma capacidade produtiva que daria para muito mais, mas n&atilde;o h&aacute; quem a consuma. N&atilde;o faltam meios de produtividade. O que acontece &eacute; que os produtos est&atilde;o mal distribu&iacute;dos e as comunidades carentes n&atilde;o saem dessa situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O que a sociedade necessita &eacute; de algu&eacute;m ou de alguma institui&ccedil;&atilde;o &ndash; e agora vou utilizar uma palavra que se usa na vossa linguagem, mas n&atilde;o na nossa &ndash; que transaccione bens espirituais. Que comunique e enrique&ccedil;a a cultura e a sociedade, que possuem coisas t&atilde;o bonitas mas que n&atilde;o t&ecirc;m horizonte para as utilizar. Faltam valores que d&ecirc;em seguran&ccedil;a, esperan&ccedil;a e sentido da vida para um futuro. Fica-se assim numa redoma, com os bens todos diante de si mas sem saber o que fazer deles. Tantas vezes vemos nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social que pessoas com todas as posses puseram termo &agrave; vida, a que n&atilde;o deram sentido.<\/p>\n<p>A Igreja vai passar por um momento dif&iacute;cil, mas &eacute; essencial, mais do que nunca, que cumpra a sua miss&atilde;o de transmitir valores, raz&otilde;es de confian&ccedil;a e gosto pela vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A aten&ccedil;&atilde;o &agrave; condi&ccedil;&atilde;o social do ser humano tamb&eacute;m foi uma das suas prioridades&hellip;<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Nenhum bispo, sacerdote ou crist&atilde;o adulto s&eacute;rio pode deixar de se preocupar com a situa&ccedil;&atilde;o de todas aquelas pessoas que lutam pela defesa dos seus direitos fundamentais, como o emprego, a sa&uacute;de e as condi&ccedil;&otilde;es que lhes permitam viver com dignidade.<\/p>\n<p>A express&atilde;o da Igreja &eacute; para que a sociedade seja melhor. A Igreja s&oacute; faz sentido estando ao servi&ccedil;o de toda a comunidade, para que, atrav&eacute;s da mensagem que recebeu, lhe leve maior bem-estar. E temos uma preocupa&ccedil;&atilde;o muito maior com as pessoas mais carenciadas, como os desempregados, doentes ou fam&iacute;lias sem condi&ccedil;&otilde;es para educar os filhos. Mas preocupa-me muito mais a situa&ccedil;&atilde;o dos nossos idosos.<\/p>\n<p>Estou numa diocese que tem uma &aacute;rea mais ou menos urbana &ndash; as cidades, aqui, s&atilde;o apenas duas, e pequenas. Nas muitas freguesias e par&oacute;quias de periferia h&aacute; zonas onde a m&eacute;dia et&aacute;ria da popula&ccedil;&atilde;o ultrapassa os 65 anos. Dessa idade para baixo, as pessoas emigraram ou deslocaram-se para outras cidades do pa&iacute;s para encontrar trabalho com mais facilidade.<\/p>\n<p>Muitos dos nossos idosos, que s&atilde;o uma percentagem grande da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa, n&atilde;o receberam as benesses do progresso social, isto &eacute;, n&atilde;o t&ecirc;m reformas condignas. Muitos est&atilde;o doentes. Mas a maior preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; a solid&atilde;o, dado que n&atilde;o t&ecirc;m ningu&eacute;m de fam&iacute;lia com eles. Lembro, por exemplo, os casos em que um marido e uma esposa de 70 ou 80 anos est&atilde;o sozinhos, numa casa antiga, com condi&ccedil;&otilde;es de vida m&iacute;nimas e com os filhos e netos longe. Se conferisse as minhas &uacute;ltimas homilias, verificaria que as pessoas da terceira idade ocuparam um lugar especial porque s&atilde;o mais de 30 por cento da popula&ccedil;&atilde;o da diocese. &Eacute; com elas que eu tenho de me preocupar todos os dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Essa preocupa&ccedil;&atilde;o est&aacute; patente na conclus&atilde;o da casa sacerdotal, que &eacute; fundamental no apoio ao clero mais idoso da diocese&hellip;<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Naturalmente que sim, por motivos f&aacute;ceis de elencar. Em primeiro lugar, sou bispo h&aacute; 27 anos, incluindo os 15 anos e meio que fui bispo auxiliar do Porto. Durante a minha vida episcopal j&aacute; assisti aos &uacute;ltimos dias de muitos sacerdotes em condi&ccedil;&otilde;es de vida inumana e indigna para algu&eacute;m que, desde a ordena&ccedil;&atilde;o, e &agrave;s vezes at&eacute; desde os 12 ou 13 anos, doou toda a sua vida aos outros. Entendi sempre que um padre que se doou sem estar a pensar em si tem um direito natural a que as popula&ccedil;&otilde;es cuidem da sua velhice.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o bispo tem de ser um pai ou um irm&atilde;o mais velho para os seus sacerdotes. O bispo, mais do que ningu&eacute;m, cond&oacute;i-se com as situa&ccedil;&otilde;es pouco humanas. E eu pensei sempre que antes de resolver a minha situa&ccedil;&atilde;o de bispo idoso, teria de resolver a situa&ccedil;&atilde;o dos padres idosos sob a minha orienta&ccedil;&atilde;o e dos meus colaboradores mais pr&oacute;ximos.<\/p>\n<p>Digo muitas vezes que um bispo tem de ser como o comandante de um navio: se h&aacute; borrasca &eacute; o &uacute;ltimo a salvar-se, depois de ter salvo todos os tripulantes.<\/p>\n<p>Na vis&atilde;o global da Igreja e no presbit&eacute;rio dos sacerdotes, pensei sempre em primeiro lugar na situa&ccedil;&atilde;o dos padres. E s&oacute; pensarei na minha se fizer falta. Nesse sentido, a minha primeira realiza&ccedil;&atilde;o como bispo diocesano foi dar in&iacute;cio a um projecto da casa sacerdotal, que tem as condi&ccedil;&otilde;es indispens&aacute;veis para um resto de vida com dignidade. Tenho muita alegria nos sacerdotes que por l&aacute; passaram e nos que l&aacute; est&atilde;o.<\/p>\n<p>Espero que a partir do dia 15 de Agosto eu pr&oacute;prio tenha l&aacute; um quarto para mim, para envelhecer tranquilamente e com dignidade humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A diocese de Viana do Castelo, que &eacute; a mais jovem do pa&iacute;s, tem mantido uma regularidade nas ordena&ccedil;&otilde;es que vai atenuando a elevada m&eacute;dia &eacute;taria dos padres&hellip;<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Os semin&aacute;rios e as voca&ccedil;&otilde;es s&atilde;o um elemento fundamental na vida de um bispo e de uma diocese. As popula&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m muita car&ecirc;ncia de sacerdotes no seu meio. Eu sei que os leigos fazem muitas mais coisas e podem fazer ainda muitas outras. Mas isso n&atilde;o dispensa a presen&ccedil;a dos padres.<\/p>\n<p>Esta diocese tem 33 anos. Durante os meus 12 anos e meio ordenei 32 sacerdotes e deixo dois di&aacute;conos para poderem ser ordenados daqui a pouco tempo. O meu antecessor, o senhor D. Armindo Lopes Coelho, ordenou 27 nos 15 anos em que esteve &agrave; frente da diocese. E o senhor D. J&uacute;lio [Tavares Rebimbas] ordenou n&atilde;o sei quantos nos cinco anos em que foi bispo diocesano.<\/p>\n<p>A verdade &eacute; que a diocese ordenou praticamente sempre alguns sacerdotes jovens. Da&iacute; que n&atilde;o temos aquela car&ecirc;ncia grave de minist&eacute;rio sacerdotal que existe noutras dioceses.<\/p>\n<p>Num congresso havido em Braga, algu&eacute;m teria dito &ndash; n&atilde;o o posso confirmar, at&eacute; porque essa informa&ccedil;&atilde;o carece de estudo &ndash; que a diocese de Viana seria a segunda mais jovem ao n&iacute;vel da Europa. Custa-me a crer que seja verdade. Creio que a Pol&oacute;nia teve muitos sacerdotes nos anos anteriores e h&aacute;-de ter dioceses com m&eacute;dia et&aacute;ria mais baixa.<\/p>\n<p>Estou convencido que a diocese tem o essencial. Mas h&aacute; campo para muito mais. Gostar&iacute;amos de ter mais padres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Tamb&eacute;m tem estimulado os sacerdotes a n&atilde;o andarem demasiado atarefados a organizar muita coisa, para terem sempre tempo para as pessoas. Isso &eacute; muito importante&hellip;<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Estou convencido que sim. Aprendi isso com os bispos mais idosos que ainda conheci. Como disse anteriormente, preocupamo-nos com as pessoas que est&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de car&ecirc;ncia. E muitos dos nossos sacerdotes e par&oacute;quias est&atilde;o a realizar um trabalho extraordin&aacute;rio na vertente s&oacute;cio-caritativa. Onde isso &eacute; poss&iacute;vel e necess&aacute;rio, julgo que a comunidade crist&atilde; deve faz&ecirc;-lo. Mas devemos acautelar o perigo de o sacerdote se esquecer da sua miss&atilde;o de anunciador da Boa Nova e dos valores, ficando, sem querer, absorvido no activismo de manter uma estrutura dif&iacute;cil e ter de arranjar dinheiro para ela. &Eacute; nesse sentido que eu costumo dizer aos padres: &ldquo;activos sim, mas activismo, n&atilde;o, porque perturba&rdquo;.<\/p>\n<p>O falecido D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes [antigo bispo do Porto], que era um homem com uma vis&atilde;o muito alargada, ficava impressionado com os sacerdotes muito &ldquo;edificantes&rdquo;, isto &eacute;, que edificavam muitas coisas. E costumava dizer: &ldquo;Eu nunca fui muito edificante&rdquo;, express&atilde;o com dois sentidos, mas que ele aplicava &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de obras materiais. Essas, os leigos t&ecirc;m obriga&ccedil;&atilde;o de as fazer e sabem faz&ecirc;-las bem. A nossa grande preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; transaccionarmos os valores espirituais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Chamou a aten&ccedil;&atilde;o, numa das suas interven&ccedil;&otilde;es, para a necessidade de estar atento aos novos m&eacute;todos&hellip;<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Eu costumo seguir na minha vida particular &ndash; e isso transparece na comunica&ccedil;&atilde;o que fa&ccedil;o aos sacerdotes &ndash; aquilo que o te&oacute;logo e cientista Jean Guitton escreveu na obra &ldquo;Um s&eacute;culo, uma vida&rdquo;, onde afirmou que um dos grandes desafios que temos hoje &eacute; o di&aacute;logo entre uma cultura de base crist&atilde; e uma cultura de base secularizada.<\/p>\n<p>Ele diz que aqueles que t&ecirc;m uma cultura baseada nos valores crist&atilde;os devem procurar aproximar-se o mais poss&iacute;vel das realidades da linguagem da cultura secularizada &ndash; dois mundos que &agrave;s vezes parecem paralelos. A nossa linguagem religiosa pode ser fechada, uma esp&eacute;cie de micro-cultura, hoje minorit&aacute;ria, que impede a comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No di&aacute;logo com os sacerdotes, procuro que eles estejam abertos a inova&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o na doutrina, porque n&atilde;o &eacute; ela que vai ser inovada, mas na maneira de a transmitirmos. A resposta aos problemas novos de hoje exige de um sacerdote, de um bispo ou de um crist&atilde;o s&eacute;rio uma abertura permanente aos valores e contravalores da sociedade e uma vis&atilde;o muito clara dos valores e contravalores &ndash; tamb&eacute;m h&aacute; um ou outro &ndash; da cultura crist&atilde;.<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio Vaticano II [1962-1965] diz, por exemplo, que h&aacute; determinados ritos na liturgia que, por j&aacute; terem passado do seu tempo, tornaram-se obsoletos, pelo que temos de os substituir. N&atilde;o &eacute; a verdade que est&aacute; mudada, mas a express&atilde;o que temos de fazer dela. Esta insist&ecirc;ncia de um bispo perante o seu clero, que &agrave;s vezes cria algum burburinho e desfasamento, tem de ser uma pedagogia permanente.<\/p>\n<p>Esta preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; a mesma de um professor na escola ou dos pais que utilizam linguagens e maneiras distintas de transmitir mensagens para educar filhos de idades diferentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como &eacute; que vai resistir &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o interferir no governo da diocese? Vai ser f&aacute;cil ou dif&iacute;cil manter a dist&acirc;ncia entre a Casa Sacerdotal e o Pa&ccedil;o Episcopal?<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Em primeiro lugar, n&atilde;o chego a sair da casa episcopal porque esta diocese n&atilde;o a tem. E eu nunca me esforcei nada para criar uma &ndash; e poderia faz&ecirc;-lo, porque temos uma d&aacute;diva de uma grande resid&ecirc;ncia destinada a esse fim.<\/p>\n<p>Nestes 12 anos e meio coloquei essa quest&atilde;o &agrave; considera&ccedil;&atilde;o, mas sempre para o meu sucessor, dado que para mim nunca pensei no assunto. N&atilde;o me preocupa minimamente. Tenho um quarto para dormir e uma sala para audi&ecirc;ncias. Para o meu servi&ccedil;o, chega. Por isso nunca vivi numa casa com grandes comodismos.<\/p>\n<p>Vou passar a residir num quarto mais pequeno com toda a liberdade e, ao mesmo tempo, toda a delicadeza. Estou convencido &ndash; o tempo dir&aacute; &ndash; de que n&atilde;o terei dificuldade alguma em n&atilde;o interferir na vida da diocese. Se isso acontecesse, retirar-me-ia com toda a naturalidade.<\/p>\n<p>Conhe&ccedil;o casos que, tanto quanto sei, funcionam bem. O senhor D. Manuel Falc&atilde;o, de Beja, reside com o bispo diocesano. E eu nem sequer vou morar com o bispo diocesano, mas com sacerdotes idosos, que visito quase todos os dias. Eu serei mais um naquela comunidade.<\/p>\n<p>H&aacute; tamb&eacute;m o caso de Aveiro, em que o senhor D. Ant&oacute;nio Marcelino [bispo em&eacute;rito] ficou com o senhor D. Ant&oacute;nio [Francisco dos] Santos [actual bispo diocesano]. N&atilde;o h&aacute; problema nenhum na conviv&ecirc;ncia entre dois bispos. Sabemos respeitar-nos perfeitamente. Temos uma vida muito longa de di&aacute;logo com as pessoas, mas saberemos dizer &agrave;quelas que porventura nos abordem, convencidas de que as poderemos ajudar, que s&oacute; h&aacute; um bispo na diocese. Por isso julgo que essa conviv&ecirc;ncia ser&aacute; para mim muito f&aacute;cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas ser&aacute; um conselheiro precioso&hellip;<\/strong><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Pedreira &#8211; Na medida em que o bispo diocesano o solicite. E s&oacute;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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