{"id":46767,"date":"2010-08-13T14:39:46","date_gmt":"2010-08-13T14:39:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/08\/13\/sem-documentos-sem-trabalho-sem-futuro\/"},"modified":"2010-08-13T14:39:46","modified_gmt":"2010-08-13T14:39:46","slug":"sem-documentos-sem-trabalho-sem-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sem-documentos-sem-trabalho-sem-futuro\/","title":{"rendered":"Sem documentos, sem trabalho, sem futuro"},"content":{"rendered":"<p>Obst\u00e1culos \u00e0 obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de resid\u00eancia marcam a vida de filhos de imigrantes nascidos em Portugal <!--more--> <\/p>\n<p>Portugal, que se orgulha de ser um dos pa&iacute;ses que melhor integra os estrangeiros, continua a levantar obst&aacute;culos &agrave; atribui&ccedil;&atilde;o de documentos a quem nasce no pa&iacute;s, especialmente quando se tratam de filhos de imigrantes.<\/p>\n<p>A Ag&ecirc;ncia ECCLESIA falou com tr&ecirc;s pessoas que h&aacute; v&aacute;rios anos tentam obter o t&iacute;tulo de resid&ecirc;ncia no Servi&ccedil;o de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), documento essencial para obter trabalho legalmente.<\/p>\n<p>A maior ang&uacute;stia sentida pelos tr&ecirc;s entrevistados, que solicitaram o anonimato, &eacute; a impossibilidade de conseguir emprego, inviabilizando assim as suas perspectivas de futuro.<\/p>\n<p>Descendente de cabo-verdianos, Jacinta (nome fict&iacute;cio) nasceu em Lisboa h&aacute; 24 anos e j&aacute; conseguiu quase todos os pap&eacute;is que o SEF lhe exigiu para adquirir o t&iacute;tulo de resid&ecirc;ncia, excepto um, que jamais vai obter: o registo criminal de Cabo Verde, pa&iacute;s que nunca visitou.<\/p>\n<p>&Agrave; semelhan&ccedil;a de Jacinta, cujos tr&ecirc;s irm&atilde;os est&atilde;o legalizados, S&iacute;lvia, de 28 anos, igualmente nascida na capital, n&atilde;o percebe como &eacute; que os seus pais, quatro filhos e tr&ecirc;s meios-irm&atilde;os j&aacute; t&ecirc;m documenta&ccedil;&atilde;o portuguesa enquanto ela continua sem sequer ter acesso &agrave; autoriza&ccedil;&atilde;o de resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A morosidade na obten&ccedil;&atilde;o deste documento ocorre n&atilde;o s&oacute; quando &eacute; solicitado pela primeira vez mas tamb&eacute;m aquando da renova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; raro que alguns dos certificados exigidos percam a validade durante o per&iacute;odo que o SEF demora a analisar o processo, obrigando o requerente&nbsp;a voltar a pedi-los e a apresent&aacute;-los.<\/p>\n<p>Carlos, 25 anos, tamb&eacute;m nascido em Lisboa, desistiu durante muito tempo de obter o t&iacute;tulo de resid&ecirc;ncia: &ldquo;Metem um gajo a andar para cima e para baixo, vai com um papel e dizem que tem de vir com outro&rdquo;.<\/p>\n<p>O desabafo de S&iacute;lvia &eacute; semelhante: &ldquo;Quando vou l&aacute; falta um papel. Levo o papel, falta outro. E &eacute; assim desde 1999&rdquo;. Um dos mais recentes certificados pretendidos pelo Servi&ccedil;o de Estrangeiros e Fronteiras foi uma declara&ccedil;&atilde;o em como frequentou a escola em Portugal.<\/p>\n<p>Mais dif&iacute;cil, sen&atilde;o imposs&iacute;vel, &eacute; comprovar que tem meios para sustentar os filhos: &ldquo;Como &eacute; que eu consigo cuidar deles se n&atilde;o tenho documentos e se n&atilde;o trabalho? Eu digo que o pai &eacute; que me ajuda e que recebo o abono. &Eacute; muito pouco para cuidar de quatro crian&ccedil;as, dizem eles. Como &eacute; que eu vou fazer?&rdquo;.<\/p>\n<p>A vontade de trabalhar e a impossibilidade de conseguir emprego &eacute; o motivo que origina mais desespero, como explica Jacinta: &ldquo;&Eacute; isso que me d&aacute; raiva: sem documentos, como &eacute; que arranjo trabalho? Sem trabalho, como &eacute; que posso ter dinheiro? E sem dinheiro como &eacute; que poderei alguma vez mudar de casa?&rdquo;.<\/p>\n<p>M&atilde;e solteira, a quem o Estado retirou o filho e entregou para adop&ccedil;&atilde;o, Jacinta mora num cub&iacute;culo de quatro metros quadrados onde entra a chuva e que pouco mais tem do que um colch&atilde;o. A casa de banho &eacute; a do vizinho e o chuveiro &eacute; o de uma amiga.<\/p>\n<p>Trabalhou durante dois anos num restaurante e mais tr&ecirc;s numa loja de artigos chineses, sempre sem seguro e sem descontar para a Seguran&ccedil;a Social.<\/p>\n<p>Enquanto que Jacinta sonha com um lugar decente para habitar e receber os amigos, S&iacute;lvia quer dar de comer aos filhos, pelo que recorreu aos servi&ccedil;os de um advogado particular, &uacute;ltima esperan&ccedil;a &ndash; dispendiosa &ndash; para obter o t&iacute;tulo de resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A alternativa tamb&eacute;m se imp&ocirc;s a Carlos, que primeiro tem de conseguir os &ldquo;mil e tal euros&rdquo; necess&aacute;rios para contratar um caus&iacute;dico: &ldquo;Eu arranjo, tenho de arranjar dinheiro para tratar dos documentos&rdquo;.<\/p>\n<p>O passaporte cabo-verdiano, que os tr&ecirc;s entrevistados possuem, &eacute; insuficiente para encontrar trabalho, pelo que a necessidade de sobreviv&ecirc;ncia motiva estrat&eacute;gias &agrave; margem da lei.<\/p>\n<p>&ldquo;Trabalhava numa escola, com os documentos de outra pessoa, que se n&atilde;o for assim n&atilde;o me safo&rdquo;, refere S&iacute;lvia, que neste momento &eacute; empregada dom&eacute;stica &ldquo;sem contrato, sem descontos para a Caixa, sem nada.&rdquo;<\/p>\n<p>Os esquemas ilegais podem sair caro: &ldquo;Tinha um emprego de um m&ecirc;s, a fazer f&eacute;rias. A respons&aacute;vel gostou do meu servi&ccedil;o e deixou-me l&aacute;. Quando apareceu a Inspec&ccedil;&atilde;o do Trabalho para ver se as pessoas t&ecirc;m os documentos em dia e essas coisas, a empresa apanhou uma multa por causa disso&rdquo;, conta S&iacute;lvia.<\/p>\n<p>Colocados diante de situa&ccedil;&otilde;es para as quais n&atilde;o vislumbram solu&ccedil;&otilde;es, muitos jovens v&ecirc;em-se obrigados a criar estruturas marginais por estarem sem documentos&rdquo;, assinala o director da Obra Cat&oacute;lica das Migra&ccedil;&otilde;es, Frei Francisco Sales.<\/p>\n<p>&ldquo;&Agrave;s vezes uma pessoa faz o que n&atilde;o deve porque n&atilde;o tem sa&iacute;da. Como no meu caso: tenho o pai dos meus filhos que me ajuda mas, muitas vezes, a cabe&ccedil;a vai com o que n&atilde;o deve, porque n&atilde;o tem sa&iacute;da mesmo&rdquo;, afirma S&iacute;lvia.<\/p>\n<p>A tenta&ccedil;&atilde;o de reincidir em expedientes ilegais n&atilde;o a larga: &ldquo;Muitas vezes penso nisso outra vez. S&oacute; quando me recordo que tenho quatro anos e meio de pena suspensa e quatro filhos &eacute; que isso me volta a meter para tr&aacute;s, para aguentar, para esperar e ver o que &eacute; que vai dar&rdquo;.<\/p>\n<p>Os entraves &agrave; obten&ccedil;&atilde;o do t&iacute;tulo de resid&ecirc;ncia parecem acentuar-se quando os requerentes j&aacute; estiveram presos, como tamb&eacute;m aconteceu com Carlos, a quem &ldquo;de vez em quando aparece um biscate, de dois, tr&ecirc;s dias&rdquo;.<\/p>\n<p>A falta da autoriza&ccedil;&atilde;o para morar em Portugal tamb&eacute;m dificulta a sa&iacute;da para o estrangeiro: Jacinta gostava de conhecer o pa&iacute;s onde os pais nasceram e S&iacute;lvia diz que podia estar na Holanda ou em Fran&ccedil;a, com a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>&ldquo;&Agrave;s vezes fico parva com muitas coisas. N&atilde;o sei, n&atilde;o posso fazer nada, eles &eacute; que mandam&rdquo;, diz S&iacute;lvia, que acrescenta: &ldquo;A minha vida est&aacute; atrasada por causa deste problema.&rdquo;<\/p>\n<p><strong>Semana Nacional das Migra&ccedil;&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja Cat&oacute;lica portuguesa celebra at&eacute; 15 de Agosto a 38.&ordf; Semana Nacional de Migra&ccedil;&otilde;es, dedicada ao tema &ldquo;Com Francisco e Jacinta acolher Cristo nos Migrantes e Refugiados Menores&rdquo;.<\/p>\n<p>O t&iacute;tulo inspira-se no d&eacute;cimo anivers&aacute;rio da beatifica&ccedil;&atilde;o das duas crian&ccedil;as a quem Maria, m&atilde;e de Jesus, apareceu por diversas vezes em 1917, e no teor da <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/messages\/migration\/documents\/hf_ben-xvi_mes_20091016_world-migrants-day_po.html\" target=\"_blank\">mensagem<\/a> de Bento XVI para a edi&ccedil;&atilde;o de 2010 do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, alusiva aos migrantes e refugiados menores.<\/p>\n<p>A Comiss&atilde;o Episcopal da Mobilidade Humana (CEMH) lembra que muitos filhos de imigrantes nascidos em Portugal est&atilde;o &ldquo;votados &agrave; marginalidade, sem documentos nem registo de exist&ecirc;ncia&rdquo;.<\/p>\n<p>&ldquo;A estes &ndash; refere a mensagem para a Semana das Migra&ccedil;&otilde;es &ndash; &eacute; preciso fazer justi&ccedil;a dando-lhes uma identidade e nacionalidade, pois n&atilde;o conhecem outro pa&iacute;s sen&atilde;o aquele que os viu nascer e que, ao exclu&iacute;-los est&aacute; a contribuir para que surjam organiza&ccedil;&otilde;es juvenis marginais, muitas vezes criminosas e identificadas com determinada origem &eacute;tnica, que s&atilde;o, na verdade, uma forma de defesa contra um meio social que lhes &eacute; hostil&rdquo;.<\/p>\n<p>No dia 15, solenidade da Assun&ccedil;&atilde;o da Virgem Maria, as comunidades eclesiais evocam a &ldquo;Jornada de Solidariedade para com a Pastoral da Mobilidade Humana&rdquo;, com as ofertas dos fi&eacute;is que participam nas missas a reverterem para a CEMH.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Obst\u00e1culos \u00e0 obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de resid\u00eancia marcam a vida de filhos de imigrantes nascidos em Portugal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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