{"id":46765,"date":"2010-08-13T11:06:36","date_gmt":"2010-08-13T11:06:36","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/08\/13\/homilia-de-d-claude-schockert-na-missa-da-peregrinacao-internacional-dos-migrantes-a-fatima\/"},"modified":"2010-08-13T11:06:36","modified_gmt":"2010-08-13T11:06:36","slug":"homilia-de-d-claude-schockert-na-missa-da-peregrinacao-internacional-dos-migrantes-a-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-claude-schockert-na-missa-da-peregrinacao-internacional-dos-migrantes-a-fatima\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Claude Schockert na Missa da Peregrina\u00e7\u00e3o internacional dos Migrantes a F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>Caros amigos peregrinos, &eacute; com imensa alegria que juntamente com os meus irm&atilde;os bispos e tantos sacerdotes, celebro convosco a Eucaristia neste dia que desejamos viver em comunh&atilde;o com os nossos irm&atilde;os migrantes e refugiados.<\/p>\n<p>Viestes em grande n&uacute;mero de muitos pa&iacute;ses e tamb&eacute;m de Fran&ccedil;a, a terra em que vivemos, neste tempo de Ver&atilde;o, para refor&ccedil;ar as vossas ra&iacute;zes culturais, familiares e esprituais, neste regresso &agrave; vossa terra e aqui a F&aacute;tima. Os mais antigos migrantes dentre v&oacute;s lembram-se ainda das raz&otilde;es, quantas vezes dolorosas e at&eacute; dram&aacute;ticas, que os levaram a deixar a sua terra de origem e a emigrar para outros pa&iacute;ses em que o acolhimento tantas vezes deixava muito a desejar.<\/p>\n<p>Neste ano do centen&aacute;rio do nascimento da Jacinta, acolhemos como nossa a preocupa&ccedil;&atilde;o de Bento XVI, o nosso Papa que aqui esteve em Maio passado, de rezar e de reflectir sobre a situa&ccedil;&atilde;o dos migrantes e refugiados menores: crian&ccedil;as, adolescentes e jovens.&nbsp;<\/p>\n<p>Sim, queridos peregrinos, &laquo;Com Francisco e Jacinta, acolhamos Cristo nos Migrantes e Refugiados menores&raquo;.<\/p>\n<p>Francisco e Jacinta foram essas &laquo;<em>duas candeias que Deus acendeu para alumiar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas<\/em>&raquo;. Que estas candeias iluminem o caminho dessas multid&otilde;es de crian&ccedil;as e de adolescentes migrantes e refugiados do nosso mundo!<\/p>\n<p>&Eacute; uma realidade incontest&aacute;vel que o rosto dos migrantes e dos refugiados tem cada vez mais as fei&ccedil;&otilde;es dos menores. Com os pais, deixam os seus pa&iacute;ses em guerra ou demasiado pobres para os alimentar. S&atilde;o milhares a lan&ccedil;arem-se nos caminhos da migra&ccedil;&atilde;o. Esses caminhos, cheios de ciladas para os adultos s&atilde;o ainda mais dolorosos para os mais jovens. Estas crian&ccedil;as vieram ao mundo com as mesmas leg&iacute;timas aspira&ccedil;&otilde;es de felicidade que todas as outras. Precisam igualmente de estabilidade, serenidade e seguran&ccedil;a para crescerem e se tornarem plenamente homens e mulheres. Mesmo se na opini&atilde;o p&uacute;blica &eacute; um pouco mais importante a consci&ecirc;ncia da necessidade de uma ac&ccedil;&atilde;o pontual e constante para proteger os menores, na realidade um n&uacute;mero significativo dentre eles s&atilde;o deixados ao abandono e encontram-se expostos a riscos de explora&ccedil;&atilde;o, v&iacute;timas, entre outros, de tr&aacute;ficos diversos e de prostitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A estas crian&ccedil;as e a estes menores, migrantes e refugiados, ousemos dizer: &laquo;<em>A Igreja &eacute; a vossa casa. A vossa vida &eacute; preciosa aos nossos olhos, porque tamb&eacute;m o &eacute; aos olhos de Deus. N&oacute;s n&atilde;o vos abandonamos!<\/em>&raquo;<\/p>\n<p>&Agrave;s comunidades paroquiais das nossas dioceses lembremos, a tempo e contratempo, que a mensagem do Evangelho n&atilde;o &eacute; mat&eacute;ria de op&ccedil;&atilde;o: &laquo;<em>aquele que acolher uma crian&ccedil;a como esta em meu nome, &eacute; a mim que acolhe<\/em>&raquo;.<\/p>\n<p>O profeta Ezequiel desejava, do fundo do cora&ccedil;&atilde;o, o regresso dos exilados e a reuni&atilde;o do povo na sua terra. E Deus prometia realizar essa reuni&atilde;o ao mesmo tempo que transformaria os cora&ccedil;&otilde;es de pedra em cora&ccedil;&otilde;es de carne e daria a cada um esp&iacute;rito novo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o fen&oacute;meno migrat&oacute;rio que sofre hoje uma acelera&ccedil;&atilde;o not&aacute;vel modifica a face de cada pa&iacute;s e de todos os pa&iacute;ses. O horizonte que est&aacute; em jogo &eacute; n&atilde;o s&oacute; a Europa mas o mundo inteiro. Contudo o horizonte que nos &eacute; pr&oacute;prio e de que temos necessidade pela sua urg&ecirc;ncia &eacute; o horizonte da f&eacute;.<\/p>\n<p>Olhando o horizonte da Europa e do mundo, as crian&ccedil;as e os jovens dizem-nos a urg&ecirc;ncia de descobrirmos e de vivermos uma fraternidade universal que Jesus veio trazer &agrave; terra<\/p>\n<p>Na &eacute;poca de Fern&atilde;o de Magalh&atilde;es, vosso compatriota do s&eacute;culo XV, &eacute;poca de descobertas de terras at&eacute; ent&atilde;o desconhecidas, a diversidade dos povos e das culturas n&atilde;o metia medo. Os povos viviam longe uns dos outros. Contudo, agora, este vasto mundo tornou-se cada vez mais pequeno, tornou-se uma aldeia em que somos vizinhos uns dos outros.<\/p>\n<p>O desafio da fraternidade entre homens e jovens de culturas e de religi&otilde;es diferentes transformou-se num desafio absoluto, hist&oacute;rico, j&aacute; que corremos riscos enormes ligados ao terrorismo, ao choque de civiliza&ccedil;&otilde;es, &agrave;s guerras, &agrave; fome, &agrave; crise energ&eacute;tica e ao monop&oacute;lio da &aacute;gua.<\/p>\n<p>Nestas circunst&acirc;ncias, que caminho seguir para um futuro comum?<\/p>\n<p>O horizonte que est&aacute; em jogo &eacute; a Europa e o mundo. Contudo, repito, o horizonte que nos &eacute; pr&oacute;prio e de que temos necessidade pela sua urg&ecirc;ncia &eacute; o horizonte da f&eacute;.<\/p>\n<p>Nas horas sombrias e inquietas da nossa hist&oacute;ria, em 1917, a Virgem Maria, Nossa Senhora de F&aacute;tima, dirigiu-se ao Francisco, &agrave; Jacinta e &agrave; L&uacute;cia, ilustrando as palavras de S. Paulo: &laquo;<em>O<\/em><em> que h&aacute; de fraco no mundo &eacute; que Deus escolheu para confundir o que &eacute; forte. O que o mundo considera vil e desprez&iacute;vel &eacute; o que Deus escolheu; escolheu os que nada s&atilde;o, para reduzir a nada aqueles que s&atilde;o alguma coisa<\/em>.&rdquo;<em>1Co1:27-28.<\/em><\/p>\n<p>A mensagem de Maria &eacute; uma mensagem de f&eacute; e de esperan&ccedil;a para todos os homens e mulheres do nosso tempo, seja qual for o seu pa&iacute;s. &ldquo; <em>A minha m&atilde;e e os meus irm&atilde;os s&atilde;o aqueles que ouvem a palavra de Deus e a p&otilde;em em pr&aacute;tica<\/em>&rdquo;. Maria &eacute; a mulher da escuta: v&ecirc;mo-la a quando do encontro com o Anjo e rev&ecirc;mo-la em todas as cenas da sua vida, desde as bodas de Can&aacute; at&eacute; &agrave; Cruz e at&eacute; ao dia de Pentecostes quando se encontra no meio das Ap&oacute;stolos para acolher o Esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Ela acompanhou seu Filho Jesus at&eacute; &agrave; hora da paix&atilde;o, da morte, da ressurrei&ccedil;&atilde;o, da P&aacute;scoa, a hora do amor que venceu a morte.<\/p>\n<p>Nesta terra de F&aacute;tima, Maria veio ter com o Franciso, a Jacinta e a L&uacute;cia convidando-os a oferecerem ora&ccedil;&otilde;es e sacrif&iacute;cios pelos pecadores, declarando-lhes que os faria penetrar na intimidade de Deus. Foi assim que uma luz os invadiu at&eacute; ao mais profundo das suas almas ao ponto de se sentirem mergulhados em Deus como quando uma pessoa, segundo as suas pr&oacute;prias palavras, se v&ecirc; num espelho.<\/p>\n<p>Nos caminhos das nossas vidas, quantas vezes sombrios, Nossa Senhora &eacute; uma luz de esperan&ccedil;a que nos ilumina e nos orienta no nosso caminhar. Pelo seu sim ao Anjo da Anuncia&ccedil;&atilde;o, pelo dom generoso de si pr&oacute;pria, Maria abriu a Deus as portas do nosso mundo e da nossa hist&oacute;ria. Convida-nos a viver como ela numa esperan&ccedil;a que nada pode perturbar, recusando dar ouvidos a todos aqueles que acreditam estarmos condenados &agrave; fatalidade das nossas vidas. Maria acompanha-nos com a sua presen&ccedil;a materna nos acontecimentos pessoais, familiares e dos nossos povos.<\/p>\n<p>Nesta terra de F&aacute;tima, como em muitas outras de tantos pa&iacute;ses em que costumais reunir-vos, cat&oacute;licos da di&aacute;spora portuguesa, vamos pedir &agrave; M&atilde;e do Senhor o dom de termos olhos que reconhe&ccedil;am a presen&ccedil;a de Jesus crucificado nos migrantes e refugiados menores. Na Cruz, o Filho de Deus partilha as l&aacute;grimas e a obscuridade da humanidade e assume em si a dor e as trevas at&eacute; ao dom da sua vida. O Filho de Deus uniu-se &agrave; humanidade real. Vamos pedir o dom de termos olhos que reconhe&ccedil;am a sua presen&ccedil;a &ldquo;crucificada&rdquo; em todas as dores, noites e trai&ccedil;&otilde;es que suportamos e vivemos.<\/p>\n<p>Vamos pedir o dom de termos olhos que reconhe&ccedil;am a presen&ccedil;a de Jesus ressuscitado que nos prometeu estar &ldquo;<em>connosco todos os dias at&eacute; ao fim dos tempos<\/em>&rdquo;. Olhos que descubram a sua presen&ccedil;a e a sua ac&ccedil;&atilde;o na Europa, no mundo, em todos os lugares em que a sua palavra &eacute; anunciada, em que &eacute; celebrada a Eucaristia, em que duas ou tr&ecirc;s pessoas se re&uacute;nem em seu nome, em toda a parte em que homens e mulheres d&atilde;o corpo ao amor, lutando pela justi&ccedil;a, a solidariedade, a paz, o perd&atilde;o, a reconcilia&ccedil;&atilde;o e o acolhimento do estrangeiro.<\/p>\n<p>Raros s&atilde;o aqueles que, como o Francisco e a Jacinta, vivem nesta esp&eacute;cie de mist&eacute;rio em que o homem pode come&ccedil;ar a respirar um novo ar, um ar que vem de algures, que nos coloca directamente na presen&ccedil;a daquele que tudo criou, daquele que deu ao homem a sua extraordin&aacute;ria dignidade e que &eacute; o &uacute;nico a poder salv&aacute;-lo!<\/p>\n<p>Pela intercess&atilde;o dos beatos Francisco e Jacinta, aprendamos a descobrir a grandeza a que somos chamados. Aprendamos a descobrir que Deus &eacute; uma Presen&ccedil;a ardente no &iacute;ntimo de cada um de n&oacute;s; que Deus &eacute; a Presen&ccedil;a mais actual e real, a Presen&ccedil;a fora da qual n&atilde;o podemos encontrar mais ningu&eacute;m!<\/p>\n<p>Ao p&eacute; da cruz, com Nossa Senhora das Dores, vamos ouvir o convite a decobrir a luz da ressurrei&ccedil;&atilde;o e a confian&ccedil;a que transformam as l&aacute;grimas de Maria. N&atilde;o h&aacute; racioc&iacute;nio que nos ajude a compreender o sofrimento. Contudo temos a certeza de que nos encontramos mergulhados num abismo de miseric&oacute;rdia. Maria partilha a compaix&atilde;o de seu Filho e por isso deseja fazer entrar os pecadores e todos os que sofrem no dinamismo do seu Magnificat. Maria mergulha no &iacute;ntimo do cora&ccedil;&atilde;o de seus filhos, esses espa&ccedil;o sagrado em que o amor louco de Deus se une a eles e os espera; &eacute; a&iacute; que ela os atrai, na fonte que nunca se esgota, que cria e recria, a partir de pouco ou nada, at&eacute; mesmo a partir das recusas e do pecado.<\/p>\n<p>Em Maria &eacute; a Igreja que se compreende e se recebe como testemunha da miseric&oacute;rdia.&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; este, queridos peregrinos, o horizonte da experi&ecirc;ncia da f&eacute; para que somos convidados no seio do nosso mundo, atrav&eacute;s do acolhimento e do acompanhamento dos nossos irm&atilde;os e irm&atilde;s migrantes e dos menores em particular.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Claude Schockert, Bispo de Belfort-Montb&eacute;liard e presidente do Servi&ccedil;o Nacional da Pastoral dos Migrantes de Fran&ccedil;a<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caros amigos peregrinos, &eacute; com imensa alegria que juntamente com os meus irm&atilde;os bispos e tantos sacerdotes, celebro convosco a Eucaristia neste dia que desejamos viver em comunh&atilde;o com os nossos irm&atilde;os migrantes e refugiados. 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