{"id":46331,"date":"2010-07-13T13:26:26","date_gmt":"2010-07-13T13:26:26","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/07\/13\/homilia-de-d-carlos-azevedo-na-cerimonia-de-ordenacao-presbiteral\/"},"modified":"2010-07-13T13:26:26","modified_gmt":"2010-07-13T13:26:26","slug":"homilia-de-d-carlos-azevedo-na-cerimonia-de-ordenacao-presbiteral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-carlos-azevedo-na-cerimonia-de-ordenacao-presbiteral\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Carlos Azevedo na cerim\u00f3nia de ordena\u00e7\u00e3o presbiteral"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ser padre &eacute; ser profeta e pastor de modo sacerdotal<\/strong><\/p>\n<p align=\"right\">&nbsp;<\/p>\n<p>A concluir os di&aacute;logos de despedida da &Uacute;ltima Ceia, Jesus, na chamada ora&ccedil;&atilde;o sacerdotal, afirma cumprir a miss&atilde;o de dar a conhecer o amor do Pai pela humanidade. Nunca tinha aparecido um profeta com exerc&iacute;cio sacerdotal e qualidades de pastor. &Eacute; absolutamente novo. Aconteceu em plenitude o mandato prof&eacute;tico vivido por Jeremias: &ldquo;Ir&aacute;s onde eu te enviar e dir&aacute;s tudo o que Eu te mandar&rdquo; (Jer. 1, 7). &ldquo;Ponho as minhas palavras na tua boca&rdquo; (1,9). Jesus entrega a palavra de Deus, qual profeta, em consuma&ccedil;&atilde;o plena de si mesmo, qual pastor e todo o seu mist&eacute;rio se derrama em hora orante, na intimidade sem tempo, qual sacerdote. Aqui se concentra a s&iacute;ntese do seu minist&eacute;rio recebido totalmente do Pai, transformado em obedi&ecirc;ncia, feita ora&ccedil;&atilde;o. Tudo o que Cristo Jesus fez e disse tinha o objectivo de manifestar o amor do Pai pelo mundo; tudo &eacute; gl&oacute;ria eterna do Pai; tudo consagra na verdade, entregando a vida at&eacute; ao fim pelos seus.<\/p>\n<p>O Evangelho de Jo&atilde;o condensa, de modo orante, a transmiss&atilde;o da viv&ecirc;ncia de Jesus para os ap&oacute;stolos. Jesus v&ecirc; o an&uacute;ncio do Reino de Deus, consumado, agora, na f&eacute; dos disc&iacute;pulos. Estes pescadores da Galileia passam a ser consagrados na verdade de Jesus, na sua unidade perfeita com o Pai. Permanecendo com os p&eacute;s na terra, deixam de ser do mundo, porque s&atilde;o e est&atilde;o no Pai. Opera-se a consagra&ccedil;&atilde;o na verdade eterna e ao mesmo tempo na miss&atilde;o, na proclama&ccedil;&atilde;o desta Palavra da verdade, na Igreja. O sacrif&iacute;cio fecundo consagra os actos da vida, sem querer reservar para si um momento sequer da sua exist&ecirc;ncia. O prolongamento da Palavra de Jesus &eacute; autoridade dos seus, mantida na unidade dos seus. Perdida esta unidade, perde-se, por assim dizer, a palavra original, criadora, salvadora de Deus no mundo. Perde-se a autoridade. A unidade &eacute; a revela&ccedil;&atilde;o suprema da gl&oacute;ria de Deus, do amor eterno do Pai e do Filho. A gl&oacute;ria de Deus &eacute; a comunh&atilde;o plena, perfeita, total. Os nossos esfor&ccedil;os e desejos unificam-se, convertem-se em ora&ccedil;&atilde;o, em intercess&atilde;o e em poder de Jesus. Ser padre &eacute; ser profeta e pastor de modo sacerdotal, no estilo de Cristo.<\/p>\n<p>Estamos muito presos a uma concep&ccedil;&atilde;o de verdade como oposta &agrave; mentira. Envolvidos por apar&ecirc;ncias, habituados ao mundo das fic&ccedil;&otilde;es, submersos em finan&ccedil;as virtuais, temos dificuldade em captar o que seja ser consagrado na verdade. Consagrados na verdade quer dizer projectados na miss&atilde;o, segundo o dinamismo interior do Esp&iacute;rito da verdade. A santidade evang&eacute;lica ordena-se &agrave; miss&atilde;o, confiada por Deus a cada ser humano. Cada pessoa &eacute; chamada a submeter-se aos caminhos invis&iacute;veis de Deus. A verdade de Deus n&atilde;o se mede pelos frutos exteriores.<\/p>\n<p>Seremos tanto mais verdadeiros quanto nos unirmos a Jesus, quanto gostamos de estar mais nele do que em n&oacute;s, quanto participarmos da sua Verdade.<\/p>\n<p>Caro Miguel, em cada tua entrega pelos outros, em cada celebra&ccedil;&atilde;o vivida com verdade, em cada gesto de congrega&ccedil;&atilde;o e de ternura chegue o povo de Deus a compreender o amor eterno, a entrega que o Pai fez no seu Filho Jesus. O teu modo de ser padre seja profecia do gozo da eternidade, estando no mundo. N&atilde;o desperdices a gra&ccedil;a de ser consagrado na verdade de Jesus e na viv&ecirc;ncia profunda do sacerd&oacute;cio crist&atilde;o.<\/p>\n<p>2. Esta beleza de vida dos consagrados, totalmente centrada na verdade do amor de Deus, sofre m&uacute;ltiplas incompreens&otilde;es. Estas pertencem tamb&eacute;m &agrave; ora&ccedil;&atilde;o de Jesus: o mundo odiou-os porque n&atilde;o s&atilde;o do mundo. N&atilde;o pertencemos ao mundo. Estamos, mas n&atilde;o somos. O mundo aborrece quem n&atilde;o lhe pertence. A Palavra de Deus contraria os gostos e crit&eacute;rios mundanos. O mundo aplaude os que se passam para ele.<\/p>\n<p>Deus promete a Jeremias: &ldquo;N&atilde;o ter&aacute;s medo pois eu estou contigo para te livrar&rdquo; (Jer. 1, 8). Jesus n&atilde;o pede a Deus para retirar os ap&oacute;stolos do mundo, mas implora tamb&eacute;m para os livrar do Maligno, para os arrancar ao poder do mal. Jesus chama cada um como &eacute;, com o peda&ccedil;o de mundo que lhe est&aacute; na carne e no sangue, nos sentidos e nas rela&ccedil;&otilde;es. A consagra&ccedil;&atilde;o na verdade &eacute; transportada em vasos de barro. S&oacute; a for&ccedil;a do Esp&iacute;rito faz perder o gosto de viver de si pr&oacute;prio, gra&ccedil;as a uma atrac&ccedil;&atilde;o que liberta para dar a vida pelo mundo. Os crist&atilde;os n&atilde;o amaldi&ccedil;oam o mundo, negam o seu dom&iacute;nio com esp&iacute;rito novo. Guardar da mal&iacute;cia &eacute; fundamental porque o esp&iacute;rito mundano insinua-se com facilidade, veste-se de anjo, &eacute; pai da mentira. O ambiente mundano de mil modos entorpece a miss&atilde;o.<\/p>\n<p>Podemos experimentar a solid&atilde;o da f&eacute;, aceitar o fracasso do afastamento de muitos, enfrentar a incredulidade e at&eacute; o &oacute;dio, mas a permanente entrega, a constante miseric&oacute;rdia converte, oferece o perd&atilde;o.<\/p>\n<p>Caro Miguel, o mundo sente que te perdeu. Se &eacute;s servo de Jesus Cristo n&atilde;o &eacute;s do mundo. Se guardares a Palavra dentro de ti o mundo perde-te para sempre. Os disc&iacute;pulos n&atilde;o pertencem mais ao mundo. Contudo, tamb&eacute;m podem deitar m&atilde;o ao arado e olhar para tr&aacute;s. &Eacute;s livre para sonhar mais do que podes porque Deus te sustenta com gra&ccedil;as que n&atilde;o imaginas. Ainda que muitos e muitas te queiram seus, s&ecirc; s&oacute; de Deus e ser&aacute;s para todos profeta, sacerdote e pastor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Sem este sacerd&oacute;cio, sem esta ora&ccedil;&atilde;o como sacrif&iacute;cio eterno de Jesus, como imola&ccedil;&atilde;o e oferta, n&atilde;o h&aacute; profeta, nem pastor. J&aacute; que os disc&iacute;pulos n&atilde;o prov&ecirc;m do mundo, Deus consagra-os, sela-os com a virtude da Palavra para que n&atilde;o cedam diante das atrac&ccedil;&otilde;es mundanas que impressionam e esmagam. A consagra&ccedil;&atilde;o na verdade e o n&atilde;o ser do mundo configuram algumas atitudes pastorais, bem identificadas na Carta de Pedro: Apascentai governando n&atilde;o constrangidos, mas de boa vontade, tal como Deus quer; n&atilde;o por gan&acirc;ncia, mas por dedica&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o como dominadores, mas como modelos do rebanho (1Pd 5,2-4). N&atilde;o ser do mundo &eacute; resistir a estas formas de poder, &agrave; maneira do mundo. O minist&eacute;rio presbiteral precisa de gente livre, de cora&ccedil;&otilde;es libertos, de pastores felizes e dispon&iacute;veis na obedi&ecirc;ncia, sem m&aacute; cara, livres de gan&acirc;ncia, dispostos &agrave; austeridade alegre e solid&aacute;ria, misericordiosa e compassiva. Qualquer comportamento desp&oacute;tico e dominador contraria a perspectiva de servi&ccedil;o, de diaconia, op&otilde;e-se &agrave; fraternidade crist&atilde;.<\/p>\n<p>Caros irm&atilde;os e irm&atilde;s: Deus tem poucos que lhe pertencem, tem poucos aliados e o mundo vence pelo impacto do n&uacute;mero, o peso da quantidade. Jesus n&atilde;o arranca do perigo, atira para o risco e sem defesas.<\/p>\n<p>Alguns t&ecirc;m sido tentados a pensar que quem n&atilde;o &eacute; do mundo n&atilde;o o pode ganhar para Deus. Aduzem uma l&oacute;gica convincente: ningu&eacute;m ganha outro para si, enquanto n&atilde;o o conhecer. Quem n&atilde;o &eacute; do mundo, &eacute; um estranho, n&atilde;o sabe ser pr&oacute;ximo, n&atilde;o faz como Jesus que deixou o c&eacute;u para ser pr&oacute;ximo dos feridos e pecadores. Manter-se &agrave; dist&acirc;ncia &eacute; ser como os escribas e fariseus! Esta argumenta&ccedil;&atilde;o demag&oacute;gica tem produzido estragos, prejudicado a novidade do testemunho crist&atilde;o. Os crit&eacute;rios do mundo trabalham suavemente sobre os disc&iacute;pulos de Jesus e pouco a pouco mudam-nos em mundo, como o lobo assimila a si a ovelha que devora. Os disc&iacute;pulos consagram-se pelo exerc&iacute;cio da sua miss&atilde;o, n&atilde;o pelo m&eacute;rito das manifesta&ccedil;&otilde;es, nem pelas devo&ccedil;&otilde;es beatas, nem pelo aparato clerical.<\/p>\n<p>N&atilde;o somos do mundo mas n&atilde;o nos sentimos melhores do que os do mundo. N&atilde;o sabemos quanto duraremos no bem. Avan&ccedil;ar, com temor e humildade, permite-nos abandonar a leviandade de cora&ccedil;&atilde;o. Amamos os do mundo para que, no seu dia e hora, passem para Deus. O amor humilde far&aacute; apressar os passos e o temor far&aacute; ir vendo onde p&ocirc;r os p&eacute;s para n&atilde;o cair. Quem &eacute; de Deus ama todo o bem, quer todo o bem, favorece todo o bem, louva todo o bem, junta-se com os desejosos do bem, defende os que lutam pelo bem, ama a verdade e n&atilde;o a vaidade; dedica-se, mas n&atilde;o por interesses contr&aacute;rios ao bem comum; evita contendas, mas n&atilde;o foge dos combates pelo bem.<\/p>\n<p>Tendo Jesus por modelo n&atilde;o tememos estar no mundo, ser do nosso tempo, sem nos submetermos ao mundano. Jesus rompeu com estruturas de domina&ccedil;&atilde;o e amou cada pessoa do seu tempo, como Bom e Belo Pastor, amou com a frontalidade prof&eacute;tica de quem era de Deus e exigia obedi&ecirc;ncia radical e liberdade inventiva.<\/p>\n<p>Car&iacute;ssimo Miguel: n&atilde;o sejas padre &agrave; maneira deste grupo ou daquele movimento, desta &uacute;ltima corrente ou &agrave; moda antiga. Tem como modelo Jesus e ser&aacute;s tu mesmo modelo do rebanho porque profeta de Deus, sacerdote de Cristo e pastor segundo o Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>Monte Abra&atilde;o, 10-07-2010 (Ordena&ccedil;&atilde;o Presbiteral de Miguel Ribeiro)<\/p>\n<p align=\"right\"><em>+ Carlos Moreira Azevedo, Bispo auxiliar de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser padre &eacute; ser profeta e pastor de modo sacerdotal &nbsp; A concluir os di&aacute;logos de despedida da &Uacute;ltima Ceia, Jesus, na chamada ora&ccedil;&atilde;o sacerdotal, afirma cumprir a miss&atilde;o de dar a conhecer o amor do Pai pela humanidade. Nunca tinha aparecido um profeta com exerc&iacute;cio sacerdotal e qualidades de pastor. &Eacute; absolutamente novo. 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