{"id":46293,"date":"2010-07-12T10:54:24","date_gmt":"2010-07-12T10:54:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/07\/12\/homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-das-ordenacoes\/"},"modified":"2010-07-12T10:54:24","modified_gmt":"2010-07-12T10:54:24","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-das-ordenacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-das-ordenacoes\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto na Missa das Ordena\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>Pedindo a Deus a compaix&atilde;o de Cristo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Estimados irm&atilde;os e irm&atilde;s, car&iacute;ssimos ordinandos<\/p>\n<p>Nunca acabaremos de ouvir o Evangelho do Bom Samaritano. Nunca acabaremos de cumprir a ordem com que Jesus o concluiu: &ldquo;Ent&atilde;o vai e faz o mesmo!&rdquo;<\/p>\n<p>Rendido &agrave; evid&ecirc;ncia da hist&oacute;ria contada pelo Mestre, o doutor da lei acabara por dar a resposta: pr&oacute;ximo fora o que tivera compaix&atilde;o do homem maltratado. A proximidade &eacute; uma virtude activa, movida pela compaix&atilde;o; sendo esta a capacidade de partilhar o sofrimento dos outros, ajudando-os a super&aacute;-lo. O &ldquo;bom samaritano&rdquo;da humanidade inteira &eacute; o pr&oacute;prio Deus que, em Cristo, assume e supera o sofrimento do mundo. Na caridade de Cristo, outra n&atilde;o pode ser a atitude da Igreja, que s&oacute; assim se justifica e apenas desse modo evangeliza.<\/p>\n<p>E a pr&oacute;pria descri&ccedil;&atilde;o do homem maltratado, como Jesus a faz na par&aacute;bola, facilmente se aplica &agrave; humanidade contempor&acirc;nea. Diz-se que descia de Jerusal&eacute;m para Jeric&oacute; e caiu nas m&atilde;os dos salteadores; diz-se que lhe roubaram tudo o que levava; que o espancaram; que se foram embora, deixando-o meio morto&hellip;<\/p>\n<p>Sair da cidade e p&ocirc;r-se estrada fora, era na altura sujeitar-se a todos os perigos. Ainda hoje, abandonar vizinhan&ccedil;as e conviv&ecirc;ncias pode significar menos seguran&ccedil;a e apoio. Assim estamos n&oacute;s, nesta primeira gera&ccedil;&atilde;o que hesita em dizer de que terra &eacute;, pois tantos s&atilde;o de muitas, sucessiva ou simultaneamente, sem se situarem realmente em nenhuma. E muitos dos que mant&ecirc;m a resid&ecirc;ncia pouco permanecem nela, ou a&iacute; ficam sozinhos, nas grandes solid&otilde;es urbanas. Descendo duma cidade para outra, aquele homem ficou pelo caminho, n&atilde;o encontrando companheiros, apenas salteadores, que lhe interromperam tragicamente o percurso.<\/p>\n<p>Tinham m&atilde;os os salteadores, como as t&ecirc;m hoje. Mas n&atilde;o s&atilde;o m&atilde;os de dar, s&atilde;o m&atilde;os de roubar bolsas e vidas. Roubaram-lhe tudo o que levava, que no seu caso seria material. Nos caminhos solit&aacute;rios que tantos percorrem hoje, os assaltos s&atilde;o permanentes e n&atilde;o roubam apenas coisas. Rouba-se a transpar&ecirc;ncia dos novos, rouba-se a sabedoria dos velhos; rouba-se o ideal dos jovens, rouba-se o sustento dos adultos; roubam-se disponibilidades, sonhos e projectos&hellip;<\/p>\n<p>N&atilde;o falo em abstracto. Refiro aspectos precisos, como a escassa educa&ccedil;&atilde;o para os valores essenciais da verdade, da bondade e da beleza; refiro a pouca prioridade que se d&aacute; &agrave; fam&iacute;lia, como c&eacute;lula base do organismo social, onde se possa aprender com espa&ccedil;o e tempo o conv&iacute;vio intergeracional, a complementaridade masculino &ndash; feminino, a mem&oacute;ria das coisas e a solidariedade essencial; refiro o pouco respeito pela dignidade da pessoa humana, que n&atilde;o pode ser lesada pela sobrevaloriza&ccedil;&atilde;o da imagem, a exorbit&acirc;ncia da moda, a secundariza&ccedil;&atilde;o dos menos h&aacute;beis ou habilitados, ou a banaliza&ccedil;&atilde;o da pornografia, do mau gosto e dos maus consumos. Falo de realidades assim, como podia juntar tantas outras, que assaltam e roubam as pessoas no que t&ecirc;m e no que s&atilde;o, sobretudo porque as apanham s&oacute;s ou solit&aacute;rias, mesmo que rodeadas por multid&otilde;es an&oacute;nimas.<\/p>\n<p>Depois espancaram-no e deixaram-no meio morto&hellip; J&aacute; lhe tinham roubado tudo, agora impediram-no de recuperar fosse o que fosse, de os denunciar porventura. E, ainda aqui, n&atilde;o falta actualidade, tr&aacute;gica actualidade, pois muita gente agredida fica tamb&eacute;m incapaz de protestar, de recuperar, de se refazer. &ndash; Quanta honra perdida, quanta dignidade ferida, nalgum excesso medi&aacute;tico que nunca se desfaz, mesmo que contraditado! &ndash; Quanto des&acirc;nimo irrecuper&aacute;vel, quanto motiva&ccedil;&atilde;o desfeita, quanto prop&oacute;sito desconsiderado, porque &ndash; como se ouve &ndash; &ldquo;assim n&atilde;o vale a pena&rdquo;!<\/p>\n<p>Tr&aacute;gicos caminhos, grandes solid&otilde;es, enormes desamparos&hellip; E a&iacute; fica a humanidade de tantos e tantas, na valeta das nossas indiferen&ccedil;as&hellip; At&eacute; que passe um &ldquo;samaritano&rdquo;, que &ndash; na exuber&acirc;ncia das atitudes da par&aacute;bola &ndash; realmente veja e repare, se compade&ccedil;a e aproxime, trate e ligue as feridas, transporte, abrigue e cuide&hellip; Felizmente s&atilde;o muitos os samaritanos, mesmo que n&atilde;o sejam bastantes. Neles, Cristo se reconhece e neles se reconstroem as vidas. S&oacute; assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estimados irm&atilde;os e irm&atilde;s, car&iacute;ssimos ordinandos: Seria dif&iacute;cil encontrar um trecho evang&eacute;lico t&atilde;o oportuno como este para a presente celebra&ccedil;&atilde;o. Um presb&iacute;tero &eacute; sacramento de Cristo pastor; um di&aacute;cono &eacute; sacramento de Cristo servidor. Assim mesmo os constitui o Esp&iacute;rito, na Igreja e para o mundo. E ambas as defini&ccedil;&otilde;es, pastoreio e servi&ccedil;o, traduzem-se em compaix&atilde;o, aproxima&ccedil;&atilde;o e cuidado dos outros.<\/p>\n<p>No vosso caso especial &ndash; e para est&iacute;mulo da Igreja toda no mesmo sentido &ndash; tocou-vos e impregnou-vos a compaix&atilde;o de Cristo pela humanidade geral e de cada um. Mantende-vos e acrescentai-vos sempre nela, na compaix&atilde;o de Cristo, constante e bom Samaritano. E, como na par&aacute;bola, levai &agrave; estalagem quantos encontrardes, garantindo-lhes presente e futuro.<\/p>\n<p>A estalagem da par&aacute;bola, local de acolhimento e cura, &eacute; identificada com a Igreja, a comunidade crist&atilde;. Nela, car&iacute;ssimos ordinandos, vos podereis identificar tamb&eacute;m com o estalajadeiro e com o seu encargo de tratar bem aos que chegam.<\/p>\n<p>Prioridade da nova evangeliza&ccedil;&atilde;o que agora urge, &eacute; percorrer todos os caminhos, recuperar todos os s&oacute;s e abatidos, recolh&ecirc;-los em comunidades de hospitalidade e servi&ccedil;o. Os primeiros cuidados do Samaritano foram com azeite e vinho, e assim continuariam com o estalajadeiro, segundo o uso do tempo. O azeite lembra a luz e o vinho a &uacute;ltima ceia. N&atilde;o faltem eles nas nossas comunidades, com a luz da Palavra e o vinho da Eucaristia, a que especialmente vos destinais, car&iacute;ssimos ordinandos, para o servi&ccedil;o dos irm&atilde;os.<\/p>\n<p>A urg&ecirc;ncia &eacute; grande, todos a sentimos. Sentem-na tamb&eacute;m os que nos esperam, mesmo sem o saberem. Em especial agora, car&iacute;ssimos amigos, quando a vossa ordena&ccedil;&atilde;o faz certamente eco &agrave;s palavras que o Santo Padre nos disse, aqui bem perto, na memor&aacute;vel manh&atilde; de 14 de Maio &uacute;ltimo. Retomo brevemente algumas, que podem ficar como lema do minist&eacute;rio que ides receber. Ditas a todos os baptizados, responsabilizam muito particularmente os ministros ordenados, a quem as comunidades crist&atilde;s s&atilde;o confiadas: &ldquo;Esta &eacute; a miss&atilde;o inadi&aacute;vel de cada comunidade eclesial: receber de Deus e oferecer ao mundo Cristo ressuscitado, para que todas as situa&ccedil;&otilde;es de definhamento e morte se transformem, pelo Esp&iacute;rito, em ocasi&otilde;es de crescimento e vida. [&hellip;] Nada impomos, mas sempre propomos [&hellip;]. Temos de vencer a tenta&ccedil;&atilde;o de nos limitarmos ao que ainda temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a prazo, enquanto presen&ccedil;a de Igreja no mundo, que ali&aacute;s s&oacute; pode ser mission&aacute;ria, no movimento expansivo do Esp&iacute;rito&rdquo;. E ainda, especificando novas modalidades da miss&atilde;o e a respectiva incid&ecirc;ncia: &ldquo;O campo da miss&atilde;o <em>ad gentes<\/em> apresenta-se hoje notavelmente alargado e n&atilde;o defin&iacute;vel apenas segundo considera&ccedil;&otilde;es geogr&aacute;ficas; realmente aguardam por n&oacute;s n&atilde;o apenas os povos n&atilde;o-crist&atilde;os e as terras distantes, mas tamb&eacute;m os &acirc;mbitos socioculturais e sobretudo os cora&ccedil;&otilde;es, que s&atilde;o os verdadeiros destinat&aacute;rios da actividade mission&aacute;ria do Povo de Deus&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Exortava Mois&eacute;s o antigo povo com palavras de totalidade e entrega: &ldquo;Converter-te-&aacute;s ao Senhor, teu Deus, com todo o teu cora&ccedil;&atilde;o e com toda a tua alma&rdquo;. Certamente come&ccedil;astes por aqui, car&iacute;ssimos ordinandos, pela consagra&ccedil;&atilde;o do vosso cora&ccedil;&atilde;o ao Deus vivo, que tomastes como absoluto. Pelo princ&iacute;pio come&ccedil;astes e esse ser&aacute; tamb&eacute;m o vosso fim, sem fim.<\/p>\n<p>N&atilde;o compreender&aacute; nada do minist&eacute;rio ordenado &ndash; como nada compreenderia duma vida verdadeiramente baptismal &ndash; quem nada conhecesse desta linguagem do amor de Deus, quando toma conta duma pessoa. Se aqui estais, se daqui a pouco vos prostrareis ao canto das Ladainhas, &eacute; porque o vosso cora&ccedil;&atilde;o foi, &eacute; e ser&aacute; atra&iacute;do pelo cora&ccedil;&atilde;o de Deus, ou seja por Deus amor, sempre vivo, irradiante e total.<\/p>\n<p>A certa altura descobristes que, no vosso caso, esta realidade &eacute; de tal modo intensa em si mesma que quase dispensa media&ccedil;&otilde;es, que sentir&iacute;eis como concorr&ecirc;ncia: a gra&ccedil;a do celibato significa isso mesmo e dar&aacute; ao vosso minist&eacute;rio a totalidade do amor e da entrega, assinalando junto daqueles que servirdes que realmente, definitivamente, &ldquo;s&oacute; Deus basta&rdquo;. Por isso car&iacute;ssimos ordinandos, mesmo n&atilde;o dispensando nem vos dispensando de cultivar s&atilde;s amizades com os vossos colegas e outros irm&atilde;os, cultivai antes de mais e sempre a amizade com Deus, que tudo garante e sustenta e &eacute; a verdadeira fonte da miss&atilde;o da Igreja.<\/p>\n<p>Como crist&atilde;os, sabeis que o amor de Deus ganhou rosto e figura em Jesus de Nazar&eacute;, o Cristo de todos e para todos. &Eacute; essa, ali&aacute;s, a qualidade do amor, que sempre e dalgum modo se configura a quem ama. Na medita&ccedil;&atilde;o de cada dia, aproximai-vos mais e mais de Cristo, como em cada p&aacute;gina evang&eacute;lica se manifesta. &Eacute; o vosso Cristo, como, tamb&eacute;m por v&oacute;s, o ser&aacute; de todos. Dessa aproxima&ccedil;&atilde;o tirareis o fruto da aut&ecirc;ntica amizade. E vivereis dos seus sentimentos, que se podem traduzir numa palavra, a mais urgente: compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>Sim, car&iacute;ssimos ordinandos: compaix&atilde;o, cora&ccedil;&atilde;o condo&iacute;do e solid&aacute;rio com as necessidades dos outros, que por isso mesmo se faz pr&oacute;ximo, se adianta e auxilia. Como ao samaritano da par&aacute;bola, vejamos a Jesus: &ldquo;Um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao v&ecirc;-lo, encheu-se de compaix&atilde;o&rdquo;. O &uacute;nico &ecirc;xito e sucesso, a &uacute;nica excel&ecirc;ncia e qualidade que o vosso minist&eacute;rio certamente alcan&ccedil;ar&aacute; garantem-se exclusivamente aqui: na compaix&atilde;o de Cristo, continuada em v&oacute;s, para bem de todos.<\/p>\n<p>Por isso vos deixo &ndash; como se vos deixasse tudo &ndash; a exorta&ccedil;&atilde;o precisa e t&atilde;o f&aacute;cil de concretizar, como indispens&aacute;vel de acontecer: que n&atilde;o passe um dia, n&atilde;o decorra seja o que for, sem que pe&ccedil;ais a Deus a compaix&atilde;o de Cristo. &Eacute; ela a condi&ccedil;&atilde;o bastante e indispens&aacute;vel para tudo o mais que felizmente acontecer&aacute; no vosso sagrado minist&eacute;rio.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><em>+ Manuel Clemente<\/em><\/p>\n<p><em>S&eacute; do Porto, 11 de Julho de 2010<\/em>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedindo a Deus a compaix&atilde;o de Cristo Estimados irm&atilde;os e irm&atilde;s, car&iacute;ssimos ordinandos Nunca acabaremos de ouvir o Evangelho do Bom Samaritano. 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