{"id":46188,"date":"2010-07-05T15:10:44","date_gmt":"2010-07-05T15:10:44","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/07\/05\/homilia-do-bispo-de-vila-real-na-celebracao-de-ordenacoes-e-bodas-de-ouro-sacerdotais\/"},"modified":"2010-07-05T15:10:44","modified_gmt":"2010-07-05T15:10:44","slug":"homilia-do-bispo-de-vila-real-na-celebracao-de-ordenacoes-e-bodas-de-ouro-sacerdotais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-vila-real-na-celebracao-de-ordenacoes-e-bodas-de-ouro-sacerdotais\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo de Vila Real na celebra\u00e7\u00e3o de ordena\u00e7\u00f5es e Bodas de Ouro Sacerdotais"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1 &ndash; Tr&ecirc;s atitudes nos s&atilde;o propostas nestes textos: a alegria de ser crist&atilde;o e de ser padre, a miss&atilde;o, e a intimidade com Jesus.<\/p>\n<p>A primeira &eacute; a alegria de ser crist&atilde;o e de ser padre: &laquo;Alegrai-vos, alegrai-vos com Jerusal&eacute;m, v&oacute;s todos que lhe tendes amor. Seus meninos de peito ser&atilde;o levados nos bra&ccedil;os e, como a m&atilde;e que anima o filho, assim eu vos hei-de confortar&raquo;.<\/p>\n<p>Esta exorta&ccedil;&atilde;o do Senhor dirige-se a todos n&oacute;s membros da sua Igreja, nossa m&atilde;e: dirige-se aos jovens candidatos aos Minist&eacute;rios que iniciam um percurso de maior intimidade com Deus nos mist&eacute;rios do altar; dirige-se aos dois ordenandos Ad&atilde;o Filipe de Moura e Carlos Manuel R&uacute;bens por verificarem que Deus, na sua miseric&oacute;rdia, os chama a participar no sacerd&oacute;cio de Jesus Cristo; dirige-se ao povo crist&atilde;o que reconhece a necessidade do padre e se alegra pela op&ccedil;&atilde;o destes jovens; dirige-se &agrave;s dezenas de padres que s&atilde;o testemunhas jubilares do caminho j&aacute; andado, entre os quais me incluo eu pr&oacute;prio, ordenado presb&iacute;tero h&aacute; cinquenta anos. De algum modo, celebramos hoje o sonho e a realidade.<\/p>\n<p>A alegria de ser crist&atilde;o e de ser padre. Ser crist&atilde;o &eacute; um dom de Deus de tal grandeza que deve gerar uma atitude de encanto: &laquo;alegrai-vos&raquo;, isto &eacute;, percebei que vistes e ouvistes o que muitos n&atilde;o viram nem ouviram; ser padre &eacute; outro dom imenso de Deus, &eacute; ser chamado ao grupo dos amigos a quem Jesus deu a conhecer &laquo;tudo o que ouvi de meu Pai&raquo;.<\/p>\n<p>Aqui temos um primeiro&nbsp; jubilo , o j&uacute;bilo que vem da alegria de ser crist&atilde;o e de ser padre. &laquo;Dai-nos, Senhor, esta alegria jubilar&raquo;.<\/p>\n<p>Em 2008, foram enviadas aos Bispos umas Orienta&ccedil;&otilde;es sobre a forma&ccedil;&atilde;o dos Semin&aacute;rios e a&iacute; se diz que o candidato ao sacerd&oacute;cio deve ter &laquo;gosto pela beleza entendida como esplendor da verdade, e a arte de a reconhecer; a liberdade de se entusiasmar por grandes ideais&nbsp; e a coer&ecirc;ncia em realiz&aacute;-las nas ac&ccedil;&otilde;es de cada dia&raquo;<\/p>\n<p>(Congrega&ccedil;&atilde;o para a Educa&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica, Orienta&ccedil;&otilde;es para a utiliza&ccedil;&atilde;o das compet&ecirc;ncias psicol&oacute;gicas na admiss&atilde;o e na forma&ccedil;&atilde;o dos candidatos ao sacerd&oacute;cio, Roma, 2008).<\/p>\n<p>Lidas neste momento da ordena&ccedil;&atilde;o e da celebra&ccedil;&atilde;o jubilar, no in&iacute;cio do caminho e no termo de um longo percurso, elas tornam-se mais claras.<\/p>\n<p>Infelizmente, pode-se ser crist&atilde;o unicamente por obedi&ecirc;ncia aos mandamentos, sem encanto pela pessoa de Jesus; e at&eacute; &eacute; poss&iacute;vel fazer um curso de teologia sem chegar a admirar o mist&eacute;rio crist&atilde;o nem sentir encanto pela revela&ccedil;&atilde;o e pelo mist&eacute;rio de Jesus Cristo. A memoriza&ccedil;&atilde;o utilit&aacute;ria&nbsp; da doutrina, sem uma verdadeira piedade e sem contempla&ccedil;&atilde;o, coloca de lado as p&eacute;rolas. Por isso, o Papa, nas suas homilias em F&aacute;tima, falou da necessidade de os crist&atilde;os sentirem o encanto da f&eacute;, n&atilde;o bastando a tradi&ccedil;&atilde;o religiosa nem a memoriza&ccedil;&atilde;o das no&ccedil;&otilde;es de catequese; e falou tamb&eacute;m da necessidade de os padres sentirem encanto pelo sacerd&oacute;cio de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2 No Evangelho vem descrita a segunda atitude, esp&iacute;rito de miss&atilde;o.<\/p>\n<p>Somos enviados como &laquo;preparadores&raquo; da entrada de Jesus, os precursores, aqueles que v&atilde;o &laquo;aonde Jesus deve ir&raquo;. Jesus tra&ccedil;a o estilo dos seus enviados.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, dois a dois. O padre &eacute; homem da Igreja e &eacute; homem do presbit&eacute;rio. Nas orienta&ccedil;&otilde;es h&aacute; pouco referidas diz-se que &laquo;a voca&ccedil;&atilde;o ao sacerd&oacute;cio nunca &eacute; oferecida fora ou independente da Igreja, &eacute; uma voca&ccedil;&atilde;o eclesial. O bem da Igreja e o bem do candidato s&atilde;o convergentes&raquo;. E, sendo um homem da Igreja, o padre &eacute; membro de um presbit&eacute;rio, como revela o gesto da imposi&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os dos outros padres.<\/p>\n<p>Esta dimens&atilde;o do presbit&eacute;rio, permanentemente sublinhada pela teologia do Conc&iacute;lio e pela espiritualidade, &eacute; de assimila&ccedil;&atilde;o lenta pelos jovens nascidos num clima de protagonismo individualista. Resisti &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de vos comportardes como aventureiros apoiados nas suas for&ccedil;as, pois acabareis como Sans&atilde;o, sem cabeleira e sem olhos, sem coer&ecirc;ncia de doutrina e sem piedade, vencidos e humilhados.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o Evangelho descreve o estilo de vida pessoal e o perfil da miss&atilde;o: como cordeiros para o meio de lobos, homens que levam no cora&ccedil;&atilde;o um peda&ccedil;o de sonho e de inoc&ecirc;ncia, que h&atilde;o de aprender a ser prudentes, sem nunca se tornarem rotineiros e medrosos; homens que acreditam que o povo crist&atilde;o&nbsp; e a Provid&ecirc;ncia divina n&atilde;o deixar&atilde;o o padre sem o suficiente&nbsp; para viver e, por isso, nunca ter&atilde;o como prioridade encher o alforge; homens que dialogam com toda a gente mas n&atilde;o ficam prisioneiros de amizades pontuais nem de la&ccedil;os familiares, e mant&ecirc;m abertas as asas para voarem mais alto; homens que aceitam o p&oacute; do fracasso do seu trabalho e at&eacute; a rejei&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea do seu minist&eacute;rio, e que retomam o seu trabalho noutro meio sem guardarem ressentimento; homens que se alegram por saberem que os seus nomes est&atilde;o escritos no c&eacute;u, que sabem que h&aacute; um Al&eacute;m, como o Papa lembrou em F&aacute;tima a todos os consagrados, padres e seminaristas.<\/p>\n<p>Elevemos, ent&atilde;o, ao Pai o nosso c&acirc;ntico de louvor, como recomenda o Santo Padre na sua carta h&aacute; pouco ouvida: &laquo;Irm&atilde;o, ao celebrares a mem&oacute;ria do teu sacerd&oacute;cio, rejubila em Deus&raquo; e &laquo;v&oacute;s, car&iacute;ssimos Filhos Portugueses, permanecei sempre fortes e alegres no Senhor&raquo;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3- Finalmente, e como base de tudo, a terceira atitude: o padre como seguidor pessoal e entusiasta de Jesus, cultivando com Ele uma rela&ccedil;&atilde;o pessoal.<\/p>\n<p>&Eacute; outro dos temas referido pelo Papa em F&aacute;tima, no discurso aos Padres, aos Seminaristas e aos Consagrados. Essa intimidade com Jesus passa pela muita ora&ccedil;&atilde;o, pela direc&ccedil;&atilde;o espiritual, e pelo mist&eacute;rio da sua P&aacute;scoa.&nbsp; S.Paulo &eacute; muito claro na segunda leitura: &laquo;longe de mim gloriar-me a n&atilde;o ser na cruz de N.S.J. Cristo: trago no meu corpo as marcas de Jesus&raquo; ( G&aacute;l 6,14)<\/p>\n<p>A juventude sonha sempre com um sacerd&oacute;cio festivo, feito de manh&atilde;s que cantam sem haver antes noites de agonia. &Eacute; preciso aprender a li&ccedil;&atilde;o dos disc&iacute;pulos de Ema&uacute;s, n&atilde;o h&aacute; gl&oacute;ria sem humilha&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o h&aacute; ressurrei&ccedil;&atilde;o sem a agonia, a crucifix&atilde;o e a sepultura.. &Eacute; o que Jo&atilde;o Paulo II ensinava de outro modo ao dizer que &laquo;somos chamados ao sacerd&oacute;cio e somos chamados no sacerd&oacute;cio, como os casados s&atilde;o chamados ao matrim&oacute;nio e chamados no matrim&oacute;nio. No rosto de Jesus do Calv&aacute;rio h&aacute; claridade bastante para caminharmos firmes na terra e h&aacute; segredos ocultos a desvelar no futuro. Posso dizer-vos, por experi&ecirc;ncia, que s&oacute; os sofrimentos nos d&atilde;o a medida exacta das nossas capacidades e do mist&eacute;rio de Jesus.<\/p>\n<p>A fidelidade &eacute; o amor no tempo, e o tempo &eacute; uma medida dolorosa: &laquo;At&eacute; quando, Senhor&raquo;, gritava o salmista em horas de afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Se os Casais aqui presentes pudessem falar do seu amor, se os Consagrados pudessem dizer em voz alta o segredo da sua fidelidade, todos gritariam que todo o amor verdadeiro &eacute; &laquo;amor de perdi&ccedil;&atilde;o&raquo;, amor de entrega radical, entrega que passa pela cruz, e que em certas horas se mant&eacute;m por causa dos outros, at&eacute; que passe a tormenta e desponte a claridade da manh&atilde;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4- Meus caros ordenandos e meus irm&atilde;os:<\/p>\n<p>H&aacute; quatro anos, estivemos aqui reunidos, nesta S&eacute;, para uma celebra&ccedil;&atilde;o semelhante a esta, as minhas &laquo;bodas de prata episcopais&raquo;. Hoje, para celebrar as bodas de ouro.<\/p>\n<p>S&atilde;o duas etapas diferentes do mesmo sacerd&oacute;cio, e delas posso dar-vos o testemunho pessoal<\/p>\n<p>Nos primeiros vinte e um anos, vivi o sacerd&oacute;cio no c&iacute;rculo mais restrito do presbit&eacute;rio diocesano, pr&oacute;ximo do povo, e em comunh&atilde;o com os outros padres e como cooperador do Bispo local; as actividades pastorais tinham o encanto da proximidade, o baptismo de crian&ccedil;as que eram o primeiro filho do casal ou o quarto e o quinto filho; a primeira comunh&atilde;o de crian&ccedil;as a darem os primeiros passos na comunidade paroquial; a profiss&atilde;o de f&eacute; dos adolescentes, pequenos estudantes ou aprendizes de um of&iacute;cio manual, a assumirem o primeiro testemunho no mundo; o trabalho pastoral com jovens, noivos e casais, e o casamento de jovens que haviam frequentado o CPM; as ex&eacute;quias de pessoas que eu conhecia pessoalmente e que ajudei a morrer crist&atilde;mente; a prega&ccedil;&atilde;o ao povo reunido ao ar livre nas romarias do Minho e dentro da igreja, nos tr&iacute;duos do Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus, nas festas dos santos, a abrir ou no final das prociss&otilde;es, nos sufr&aacute;gios de Novembro. &Eacute; um trabalho de proximidade, um trabalho cheio de encanto, que v&oacute;s ides exercer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos vinte e nove anos seguintes, o minist&eacute;rio do sacerd&oacute;cio alargou-se na chamada plenitude do sacerd&oacute;cio. Situado no &aacute;pice do sacramento da Ordem, como advertia a bula da nomea&ccedil;&atilde;o, tive de me voltar mais para as estruturas, estruturas da Igreja e do mundo: ficou mais alta a tribuna da Palavra, predominam as decis&otilde;es de governo, e, no m&uacute;nus de santificar, predominam os sacramentos da Confirma&ccedil;&atilde;o e da Ordem. No presbit&eacute;rio passei da periferia para o centro, tendo eu pr&oacute;prio de me enquadrar no col&eacute;gio dos Bispos e numa rela&ccedil;&atilde;o directa com o Santo Padre, cuja carta agrade&ccedil;o profundamente.<\/p>\n<p>Na minha cabe&ccedil;a, onde at&eacute; ent&atilde;o havia pequenos espinhos na prepara&ccedil;&atilde;o dos casamentos e comunh&otilde;es, nos confessos da Quaresma e nas aulas, na reconcilia&ccedil;&atilde;o de casais atribulados, na organiza&ccedil;&atilde;o das colectas para o Semin&aacute;rio, passou a haver agora a coroa de espinhos de organizar o Semin&aacute;rio, de cuidar dos retiros e actualiza&ccedil;&atilde;o do Clero, de animar estruturas rotineiras e repor as cordas da c&iacute;tara de que fala S.In&aacute;cio de Antioquia a respeito do presbit&eacute;rio e dar sa&iacute;da can&oacute;nica &agrave;queles que desistiram de lutar. O m&uacute;nus sacerdotal ganhou em altura mas perdeu em proximidade com o povo.<\/p>\n<p>V&oacute;s ireis viver a proximidade do povo, conhecer as pessoas pelo seu nome, as suas alegrias e os seus triunfos di&aacute;rios. Nunca esque&ccedil;ais, por&eacute;m, que, para ajudar o povo, tendes de viver mais alto, cuidar da vossa pr&oacute;pria intimidade com Jesus, com os outros padres e com o Bispo. N&atilde;o limiteis o vosso trabalho &agrave; celebra&ccedil;&atilde;o de Missas, pois, sendo o cume, ela requer muito trabalho antes e depois. Dedicai-vos ao trabalho de evangeliza&ccedil;&atilde;o, inclu&iacute; nele as express&otilde;es art&iacute;sticas e culturais, o trabalho de forma&ccedil;&atilde;o em grupos e movimentos que vem antes e depois das celebra&ccedil;&otilde;es.&nbsp; &Eacute; a&iacute; que se fazem as boas sementeiras, &eacute; a&iacute; que nascem as grandes amizades.<\/p>\n<p>Meus irm&atilde;os Bispos, Sacerdotes, Familiares, Leigos e Religiosas, que viestes hoje a Vila Real por causa destes jovens e por minha causa: o Senhor vos recompense pela vossa amizade permanente e firme, e pelo conforto que a vossa&nbsp; presen&ccedil;a nos traz a todos.<\/p>\n<p>S&eacute; de Vila Real, 4 de Julho de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Joaquim Gon&ccedil;alves, Bispo de Vila Real<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; 1 &ndash; Tr&ecirc;s atitudes nos s&atilde;o propostas nestes textos: a alegria de ser crist&atilde;o e de ser padre, a miss&atilde;o, e a intimidade com Jesus. 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