{"id":46054,"date":"2010-06-28T10:14:17","date_gmt":"2010-06-28T10:14:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/06\/28\/intervencao-de-d-manuel-clemente-na-vi-jornada-da-pastoral-da-cultura\/"},"modified":"2010-06-28T10:14:17","modified_gmt":"2010-06-28T10:14:17","slug":"intervencao-de-d-manuel-clemente-na-vi-jornada-da-pastoral-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/intervencao-de-d-manuel-clemente-na-vi-jornada-da-pastoral-da-cultura\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o de D. Manuel Clemente na VI Jornada da Pastoral da Cultura"},"content":{"rendered":"<p><strong>Reinventar a Igualdade<\/strong><\/p>\n<p><strong>(Notas para um debate)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. N&atilde;o sei ou n&atilde;o me lembro de como surgiu este t&iacute;tulo de &ldquo;reinventar a igualdade&rdquo;, mas quando um dia peguei nele acabei por me surpreender e, depois, concordar.<\/p>\n<p>Sobre a igualdade, como reivindica&ccedil;&atilde;o e sentimento, todos estamos de acordo agora. Mas sobre o que ela seja ou deva ser, talvez hesitemos. Seja como for, ser&aacute; nova e a reinventar.<\/p>\n<p>Mas caminhemos devagar. Disse h&aacute; pouco que todos estamos de acordo &ldquo;agora&rdquo;. De facto, se aqui estiv&eacute;ssemos h&aacute; um s&eacute;culo, n&atilde;o sei se estar&iacute;amos assim t&atilde;o de acordo. Ainda menos h&aacute; duzentos, trezentos, ou mais anos para tr&aacute;s.<\/p>\n<p>At&eacute; ao liberalismo e &agrave; rep&uacute;blica, a sociedade sentia-se e entendia-se como desigualdade concorde, idealmente concorde. Suseranos e vassalos, reis e s&uacute;bditos, amos e criados, mestres e aprendizes, na acep&ccedil;&atilde;o vertical; ou mesteiral deste ou daquele of&iacute;cio, regular desta ou daquela ordem, vil&atilde;o desta ou daquela vila, na acep&ccedil;&atilde;o horizontal das coisas. Sempre desigual e idealmente concorde em sociedades &ldquo;corporativas&rdquo;, com &oacute;rg&atilde;os distintos do mesmo &ldquo;corpo&rdquo;, que s&oacute; conjugadamente funcionaria.<\/p>\n<p>Na simboliza&ccedil;&atilde;o religiosa e crist&atilde;, bem na esteira da Igreja &#8211; Corpo, apresentada por S&atilde;o Paulo (cf. 1 Cor 12, 12 ss), tudo assentava na prof&eacute;tica dignidade baptismal, como se convivia &agrave; medida da &ldquo;convers&atilde;o&rdquo; propriamente dita, ou plastificava na prociss&atilde;o do &ldquo;Corpo de Deus&rdquo;, ordem por ordem, lugar por lugar, mas finalmente um todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Tudo pr&oacute;prio, ali&aacute;s, de sociedades imediatamente identificadas e de real vizinhan&ccedil;a. Em meios pequenos &ndash; mesmo os &ldquo;grandes&rdquo; seriam pequenos hoje &ndash; e onde houvesse alguma sensibilidade humana e crist&atilde;, o recorte de cada um\/a resistia &agrave;s abstrac&ccedil;&otilde;es formais ou sociais e classistas.<\/p>\n<p>Como nas dezenas de figuras dos pain&eacute;is de Nuno Gon&ccedil;alves (meados do s&eacute;culo XV), h&aacute; certamente nobres, mas s&atilde;o aqueles nobres e cada um deles, identific&aacute;veis; e o mesmo se diga dos cl&eacute;rigos e plebeus. Cada terra tinha os seus ricos e os seus pobres, como os seus homens e mulheres, um a um, uma a uma, hist&oacute;ria a hist&oacute;ria. At&eacute; os santos tinham rosto e simboliza&ccedil;&atilde;o reconhec&iacute;veis.<\/p>\n<p>Depois deixou de ser assim. Com as grandes concentra&ccedil;&otilde;es urbanas da primeira industrializa&ccedil;&atilde;o, com as maiores desloca&ccedil;&otilde;es de tanta gente, fomo-nos massificando e, neste sentido, desfigurando, at&eacute; ao individualismo contempor&acirc;neo, demasiadamente abstracto.<\/p>\n<p>Na verdade, a pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duo reduz-nos &agrave; m&iacute;nima exist&ecirc;ncia e &agrave; quase despersonaliza&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; por acaso que o Dicion&aacute;rio da L&iacute;ngua Portuguesa Contempor&acirc;nea da Academia das Ci&ecirc;ncias de Lisboa junta, entre outras, as seguintes defini&ccedil;&otilde;es de &ldquo;indiv&iacute;duo&rdquo;: &ldquo;Qualquer ser que n&atilde;o se pode dividir sem deixar de ser o que &eacute;: ser indiviso. [&hellip;] Algu&eacute;m que n&atilde;o se quer ou n&atilde;o se sabe nomear ou de quem se fala com desprezo ou desd&eacute;m&rdquo;. De &ldquo;pessoa&rdquo; diz coisas diferentes, essencialmente diferentes, como estas: &ldquo;Ser humano consciente de si mesmo, livre e respons&aacute;vel pelos seus actos. [&hellip;] O ser humano enquanto aberto aos seus semelhantes&hellip;&rdquo;.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Isto para dizermos que na massifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o h&aacute; lugar para a igualdade, que sup&otilde;e rela&ccedil;&atilde;o, mas apenas para o nivelamento, formal e irrespons&aacute;vel. Entre an&oacute;nimos, pode n&atilde;o se aceitar a disparidade, mas n&atilde;o cresce a reciprocidade. A indiferen&ccedil;a, como a indistin&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o o caldo de cultura da igualdade concebida e procurada na rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. N&atilde;o aprendemos tudo duma vez, muito pelo contr&aacute;rio. Da proximidade imediata das sociedades antigas, pass&aacute;mos &agrave; contiguidade for&ccedil;ada das aglomera&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas. Aglomera&ccedil;&otilde;es n&atilde;o isentas de situa&ccedil;&otilde;es insuport&aacute;veis para muitos e muit&iacute;ssimos, que tocaram profundamente o cora&ccedil;&atilde;o e a mente dalguns. Daqui a sucess&atilde;o das propostas de reforma e at&eacute; revolu&ccedil;&atilde;o social, oscilando entre um optimismo pouco comprovado para a resolu&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea da quest&atilde;o social, pelo simples jogo das iniciativas individuais, e a resolu&ccedil;&atilde;o do todo pelo todo, abstracta e colectivamente tomado. No primeiro caso, a igualdade seria dos melhores que sobrassem; no segundo resultaria da indiferencia&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada.<\/p>\n<p>Do s&eacute;culo XVII para o XIX oscil&aacute;mos contraditoriamente entre a reivindica&ccedil;&atilde;o da igualdade inter-individual e burguesa e a luta pela igualitariza&ccedil;&atilde;o social e colectivista. Do s&eacute;culo XX para o XXI tentamos a igualdade inter-pessoal, radicada na dignidade essencial de cada ser humano, que, exactamente por ser pessoa, tanto &eacute; distinto como &eacute; solid&aacute;rio. Por isso a igualdade social ter&aacute; de ser necessariamente subsidi&aacute;ria, ningu&eacute;m substituindo ningu&eacute;m; como tamb&eacute;m solid&aacute;ria, ningu&eacute;m dispensando ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Na perspectiva crist&atilde;, n&atilde;o tardou muito a ser compreendida a primeira e &uacute;ltima radica&ccedil;&atilde;o da igualdade, ou seja, o crit&eacute;rio divino que se revelou na palavra e na atitude de Cristo. Por isto mesmo as comunidades crist&atilde;s, cuja subst&acirc;ncia consiste na heran&ccedil;a e perpetua&ccedil;&atilde;o dessas mesmas palavra e atitude, devem oferecer &agrave; sociedade em geral o ensaio cred&iacute;vel de tal convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mais pr&aacute;tico e pedag&oacute;gico n&atilde;o se poderia ser do que neste trecho do Novo Testamento: &ldquo;Meus irm&atilde;os, n&atilde;o tenteis conciliar a f&eacute; em Nosso Senhor Jesus Cristo glorioso com a acep&ccedil;&atilde;o de pessoas. Suponhamos que entre na vossa assembleia um homem com an&eacute;is de ouro e bem trajado, e entre tamb&eacute;m um pobre muito mal vestido, e, dirigindo-vos ao que est&aacute; magnificamente vestido, lhe dizeis: &lsquo;Senta-te tu aqui, num bom lugar&rsquo;, e dizeis ao pobre: &lsquo;Tu fica a&iacute; de p&eacute;&rsquo;: ou &lsquo;Senta-te no ch&atilde;o abaixo do meu estrado.&rsquo; N&atilde;o &eacute; verdade que, ent&atilde;o, fazeis distin&ccedil;&otilde;es entre v&oacute;s mesmos e julgais com crit&eacute;rios perversos? [&hellip;] Se cumpris a lei do Reino, de acordo com a Escritura: Amar&aacute;s o teu pr&oacute;ximo como a ti mesmo, procedeis bem; mas, se fazeis acep&ccedil;&atilde;o de pessoas, cometeis um pecado e a lei condena-vos como transgressores&rdquo; (Tg 2, 1 ss).<\/p>\n<p>Mais concreto e radical seria imposs&iacute;vel. Radical, porque busca na pr&oacute;pria actua&ccedil;&atilde;o divina, revelada em Cristo, a raz&atilde;o mais inquestion&aacute;vel para a considera&ccedil;&atilde;o igualit&aacute;ria de todos e de cada um, fosse qual fosse na escala social. Concreto, porque o exemplo assim o era, como concreta devia ser a atitude, na comunidade crist&atilde; e da comunidade para a sociedade, exemplarmente.<\/p>\n<p>Neste sentido escreveu Gerd Theissen: &ldquo;Tiago n&atilde;o apela apenas &agrave;s personagens de alto n&iacute;vel social para renunciarem ao seu estatuto. [&hellip;] Tiago obriga tamb&eacute;m os inferiores a n&atilde;o concederem imediatamente privil&eacute;gios aos superiores e a n&atilde;o discriminarem os inferiores. [&hellip;] A hierarquia do mundo exterior n&atilde;o &eacute; aceite e a ren&uacute;ncia ao estatuto n&atilde;o &eacute; exigida apenas aos crist&atilde;os, mas tamb&eacute;m &agrave;s pessoas de fora &ndash; ainda que apenas quando aparecem na comunidade como crist&atilde;os potenciais. [&hellip;] Fundamentalmente, a exig&ecirc;ncia de igualdade n&atilde;o se limita &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es internas. &Eacute; esta a chave para compreendermos que igualdade e universalidade est&atilde;o ligadas mais estritamente na Ep&iacute;stola de Tiago do que noutros escritos do Novo Testamento, Trata-se dum momento forte da &eacute;tica crist&atilde; primitiva&rdquo; (THEISSEN, Gerd &ndash; Amour du prochain et &eacute;galit&eacute;. Jc 2\/1-13: um moment fort de l&rsquo;&eacute;thique chr&eacute;tienne primitive. &Eacute;tudes Th&eacute;ologiques &amp; Religieuses. 76 (2001\/3) 345.346).<\/p>\n<p>Trata-se tamb&eacute;m, podemos concluir, duma primeir&iacute;ssima demonstra&ccedil;&atilde;o das consequ&ecirc;ncias do Evangelho na sociedade e na cultura: para &ldquo;reinventar a igualdade&rdquo; nas circunst&acirc;ncias que nos tocam.<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 25 de Junho de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reinventar a Igualdade (Notas para um debate) &nbsp; 1. N&atilde;o sei ou n&atilde;o me lembro de como surgiu este t&iacute;tulo de &ldquo;reinventar a igualdade&rdquo;, mas quando um dia peguei nele acabei por me surpreender e, depois, concordar. Sobre a igualdade, como reivindica&ccedil;&atilde;o e sentimento, todos estamos de acordo agora. 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