{"id":45973,"date":"2010-06-22T10:51:07","date_gmt":"2010-06-22T10:51:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/06\/22\/encontro-no-ccb-e-suas-interpelacoes\/"},"modified":"2010-06-22T10:51:07","modified_gmt":"2010-06-22T10:51:07","slug":"encontro-no-ccb-e-suas-interpelacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/encontro-no-ccb-e-suas-interpelacoes\/","title":{"rendered":"Encontro no CCB e suas interpela\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>L\u00eddia Jorge <!--more--> <\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Passado mais de um m&ecirc;s ap&oacute;s o encontro no Centro Cultural de Bel&eacute;m, ainda est&aacute; muito viva a interpela&ccedil;&atilde;o que Bento XVI dirigiu &agrave; totalidade dos presentes, uma assembleia constitu&iacute;da por crist&atilde;os, pessoas de v&aacute;rias religi&otilde;es, agn&oacute;sticos e ateus. E provavelmente n&atilde;o sair&aacute; t&atilde;o cedo da agenda, porque as palavras do Papa, sendo duma simplicidade e clareza meridianas, se tomadas a s&eacute;rio, desencadeiam no plano das implica&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas, alguma coisa mais funda do que uma simples controv&eacute;rsia. Basta dizer que na sua proposta global, a interpela&ccedil;&atilde;o convida a uma mudan&ccedil;a de atitude que atinge em primeiro lugar a forma como os crist&atilde;os se colocam em face das quest&otilde;es da Cultura, muito mais do que a forma como os criadores se posicionam em face do Cristianismo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">&Eacute; sabido como Cultura e Religi&atilde;o se tocam em espa&ccedil;os dif&iacute;ceis de deslindar, disputando, muitas vezes, a mesma zona da espiritualidade, com atitudes diferentes ou opostas, quando n&atilde;o irreconcili&aacute;veis. Ora a Cultura e a Cria&ccedil;&atilde;o, sendo por defini&ccedil;&atilde;o o espa&ccedil;o de todos as liberdades, express&atilde;o de todas as cren&ccedil;as e descren&ccedil;as, o lugar onde se plasmam todas as d&uacute;vidas e se d&aacute; corpo a todas as revoltas, mesmo aquelas que se dirigem ao Criador, ou &agrave; sua aus&ecirc;ncia, em princ&iacute;pio, s&atilde;o campos abertos a todo o tipo de toler&acirc;ncia, di&aacute;logo e confraterniza&ccedil;&atilde;o dos contr&aacute;rios. A pr&oacute;pria mat&eacute;ria est&eacute;tica, sendo em si uma forma&ccedil;&atilde;o libertadora, dispensa a agremia&ccedil;&atilde;o e a submiss&atilde;o, e processa-se numa permanente fuga ao doutrin&aacute;rio. E n&atilde;o vale a pena referir como as Religi&otilde;es, incluindo a human&iacute;ssima Religi&atilde;o Crist&atilde;, se servem, mais que n&atilde;o seja, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, dos pressupostos contr&aacute;rios. O que o Papa Bento XVI veio fazer &ndash; se n&atilde;o h&aacute; aqui um abuso de interpreta&ccedil;&atilde;o &ndash; foi desmantelar a dist&acirc;ncia entre a criatividade e o dogma. O que me pareceu o seu texto conter foi uma mensagem de aproxima&ccedil;&atilde;o entre todos aqueles que trabalham no dom&iacute;nio das realidades imateriais e transfiguradoras, desde que impulsionados pelo ideal do bem e da verdade, a que de forma cont&iacute;gua denominou por Beleza &ndash; &ldquo;Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza&rdquo;. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Parece que j&aacute; o teria dito sensivelmente da mesma forma, em Novembro passado, na Capela Sistina, dirigindo-se aos artistas. Eu diria que, neste caso, dirigindo-se a uma assist&ecirc;ncia bem mais heterog&eacute;nea, o significado dessa interpela&ccedil;&atilde;o por via desse estado comum ao religioso e ao cultural, ainda alarga mais o seu alcance. Sem querer extrapolar indevidamente, entendo que essa foi a forma de chamar para dentro da mesma casa aqueles para quem o pr&oacute;prio sentido da Beleza n&atilde;o passa dum artefacto dispens&aacute;vel quando se fala de cumprimento e obedi&ecirc;ncia. Ora chamar os criadores e as pessoas da Cultura para o campo que lhes &eacute; pr&oacute;prio n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil. De algum modo, eles nunca sa&iacute;ram de l&aacute;. Mas fazer os crist&atilde;os aceitarem que, entre crentes e n&atilde;o crentes, a diferen&ccedil;a existe, sem qualquer tipo de desqualifica&ccedil;&atilde;o dos segundos, isso sim, ser&aacute; mais dif&iacute;cil. S&oacute; que este tipo de convite tem por base uma concep&ccedil;&atilde;o dos homens que vai para al&eacute;m do religioso, assenta no filos&oacute;fico. Assenta na percep&ccedil;&atilde;o de que cada homem &eacute; um milagre, e cada vida humana tem o seu caminho. Corajoso. Eu ousaria dizer que Bento XVI, neste aspecto, e naquelas circunst&acirc;ncias, foi muito mais longe do que o lugar em que se encontra a sua Igreja. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Eu sei que Bento XVI e o Vaticano afligem-se com uma censura que, desde h&aacute; mais de um s&eacute;culo, separa os c&oacute;digos das obras de Arte Contempor&acirc;nea dos factores trabalh&aacute;veis da Religi&atilde;o. Mas n&atilde;o creio ter visto no seu discurso uma manobra de sedu&ccedil;&atilde;o para que os artistas, os actores, os cantores, os poetas venham a ter como tema o Nascimento ou a Paix&atilde;o de Cristo, por encomenda. Vi, muito mais, um convite de conv&iacute;vio sob o mesmo telhado entre os que cr&ecirc;em em Cristo e os que n&atilde;o cr&ecirc;em para se aproximarem e criarem uma Humanidade melhor, embora com projectos distintos. Creio ter entendido que o antigo Cardeal Ratzinger ter&aacute; querido dizer que a Religi&atilde;o Crist&atilde; &eacute;, ela pr&oacute;pria, um projecto de Beleza. E nada mau que isto, ou algo muito pr&oacute;ximo, tenha sido proferido nesta ocasi&atilde;o, entre n&oacute;s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">De certa forma, com este discurso, Bento XVI conseguiu associar-se ao oposto daquilo a que o fil&oacute;sofo Franz Rosenweig denominou como &ldquo;os tiranos do Reino de Deus&rdquo;, aqueles que pretendem expulsar o mal do passado, do presente e do futuro, de si mesmos e dos outros, da sociedade e dos estados. O seu discurso &ndash; se bem o entendi, repito &ndash; aventurou-se a chamar para um ponto de converg&ecirc;ncia imagin&aacute;rio todos aqueles que sabem que por mais que se fa&ccedil;a t&ecirc;m de lidar com o mal. E para tanto apenas aprenderam a usar a Arte, isto &eacute;, os seus projectos individuais de beleza.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>L&iacute;dia Jorge, escritora<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00eddia Jorge<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,199],"class_list":["post-45973","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45973"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45973\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}