{"id":45935,"date":"2010-06-23T17:59:30","date_gmt":"2010-06-23T17:59:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/06\/23\/santos-populares-sao-marca-civilizacional\/"},"modified":"2010-06-23T17:59:30","modified_gmt":"2010-06-23T17:59:30","slug":"santos-populares-sao-marca-civilizacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/santos-populares-sao-marca-civilizacional\/","title":{"rendered":"Santos populares s\u00e3o marca civilizacional"},"content":{"rendered":"<p>Micael Pereira, professor de Sociologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, olha para as festas populares, entre a religiosidade popular e o paganismo, como uma marca civilizacional <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ecclesia &ndash; Falamos de festas populares&hellip; At&eacute; que ponto esta quebra na rotina dos cidad&atilde;os acaba por ser um contributo psicologicamente salutar e que favorece uma vida social mais saud&aacute;vel?<\/em>&nbsp;<\/p>\n<p>Micael Pereira &ndash; As festas populares, e sobretudo as que est&atilde;o associadas a uma religi&atilde;o popular, t&ecirc;m uma fun&ccedil;&atilde;o civilizacional grande.<\/p>\n<p>Inicialmente pelo aspecto do tempo, n&atilde;o s&oacute; pelo dia. A festa ritma um tempo extremamente mais largo, na medida que &eacute; esperada por muitos, por variad&iacute;ssimas raz&otilde;es, umas mais do que outras. Ela marca, por isso, um tempo anterior.<\/p>\n<p>H&aacute; depois a celebra&ccedil;&atilde;o em si que &eacute; a ruptura propriamente dita e depois a festa continua, pois ela n&atilde;o acaba naquele dia. Prolongam-se por vezes para comer os restos ou porque a fam&iacute;lia fica mais uns dias, por uma quantidade enorme de &ldquo;acidentes&rdquo; positivos e negativos que ocorrem durante a festa.<\/p>\n<p>Efectivamente seria normal que n&oacute;s, sem vivermos em festa, mas que de algum modo and&aacute;ssemos de festa em festa havendo tempo comum pelo meio.<\/p>\n<p>Eu julgo que isto existe na liturgia e l&aacute; tem a sua terminologia pr&oacute;pria mas existia ainda mais na religi&atilde;o popular, porque ela estende-se pelo ano inteiro &#8211; o tempo lit&uacute;rgico, o tempo das festas dos santos, as chamadas fest&atilde;o de Ver&atilde;o.<\/p>\n<p>A pura dispers&atilde;o da festa, s&atilde;o as festas an&aacute;logas que cada um considera diferentes mas que s&atilde;o identit&aacute;rias para si e que nos permitem sair da monotonia de duas coisas. Uma &eacute; a monotonia do tempo actual: n&oacute;s andamos com um tempo de rel&oacute;gio, que podemos dizer que &eacute; discreto, que &eacute; igual a todos os dias&hellip; Mas muito pobre, porque todo somado &eacute; minutado! Para se defender disso h&aacute; quem fa&ccedil;a a festa banalizada.<\/p>\n<p>A vantagem da festa popular &eacute; precisamente ela criar uma refer&ecirc;ncia para muita gente que, de tempos a tempos, quebra a vida de todos os dias.<\/p>\n<p>Permite, portanto, criar ritmos biol&oacute;gicos porque a variedade dos tempos, a variedade das festas, cada uma com o seu enredo, cada uma com a sua ritualiza&ccedil;&atilde;o. Isso faz com que haja uma variedade e uma evoca&ccedil;&atilde;o at&eacute; de mito e de refer&ecirc;ncias ao longo de um tempo enorme.<\/p>\n<p><em>E &ndash; Podemos falar de uma certa liberdade celebrativa na forma de celebrar o santo, al&eacute;m da prociss&atilde;o h&aacute; os tronos, as sardinhas, os casamentos e o povo encontra ritmos &agrave; parte da celebra&ccedil;&atilde;o tradicional&hellip;<\/em><\/p>\n<p>MP &ndash; Houve um tempo em que &ldquo;era muito bem&rdquo; contrastar a festa lit&uacute;rgica e a festa deste tempo.<\/p>\n<p>Contudo eu penso que h&aacute; aspectos em que efectivamente se encontra uma oposi&ccedil;&atilde;o e outros em que h&aacute; uma continuidade. Considero que &eacute; tradi&ccedil;&atilde;o popular as pessoas em F&aacute;tima andarem de joelhos pelo ch&atilde;o, o que n&atilde;o significa que n&atilde;o esteja integrado.<\/p>\n<p>Eu n&atilde;o contrastaria s&oacute; o eclesi&aacute;stico com o popular, porque apesar de por vezes existirem diverg&ecirc;ncias entre o clero e o povo, ao fim de um certo tempo acabam por se entender. No fundo o clero gosta de ser popular e as pessoas acabavam por ouvir o serm&atilde;o.<\/p>\n<p><em>E &ndash; E a Igreja aproveita o que h&aacute; de bom na tradi&ccedil;&atilde;o popular e assim chega ao povo.<\/em><\/p>\n<p>MP &ndash; Exacto e a Igreja chamou tradi&ccedil;&otilde;es romanas no passado tanto para a liturgia como para a religi&atilde;o popular. Concerteza que h&aacute; uma liberdade celebrativa e isso &eacute; positivo porque h&aacute; maior criatividade, permitindo uma adapta&ccedil;&atilde;o maior das pessoas ao que est&atilde;o a celebrar.<\/p>\n<p>Permite tamb&eacute;m reunir mais pessoas, permite ainda confundir. Por exemplo, Santo Ant&oacute;nio hoje &eacute; muito mais Ant&oacute;nio do que santo. Por outro lado os casamentos hoje s&atilde;o terrivelmente amb&iacute;guos. Foi uma maneira de casar algumas pessoas quase que &ldquo;&agrave; for&ccedil;a&rdquo;, ajudar os que n&atilde;o casariam pela Igreja de outra maneira e agora at&eacute; incluem os casamentos civis.&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, a sardinha e o manjerico n&atilde;o baralha a jogada porque o engra&ccedil;ado &eacute; perceber um conjunto muito grande de simbologias que transformam a festa num fen&oacute;meno global.<\/p>\n<p>No fundo uma festa popular &eacute; qualquer coisa que por um lado se dan&ccedil;a, se come, se bebe, se cheira e se convive, onde se ouve, se passeia, se ri, se compra, se trabalha, se chora, se reza. &Eacute; um fen&oacute;meno global que toca em imensas coisas e que por qualquer pormenor se tem a festa toda. E &eacute; a&iacute; que me parece que tem o encanto, n&atilde;o por ser popular, mas por ser criativo e tem uma criatividade que nasce de uma pluralidade muito grande de autores, que convergem num mesmo ideal, numa fantasia que ultrapassa o tempo.<\/p>\n<p>O que &eacute; complicado &eacute; como &eacute; que hoje a Igreja consegue ser po&eacute;tica, ter pessoas eclesiais suficientemente po&eacute;ticas para carregar, umas vezes de arame outras de lirismo, novos s&iacute;mbolos para recontar a hist&oacute;ria numa linguagem de hoje, para as adaptar ao que precisamos.<\/p>\n<p>No fundo a festa faz o apelo ao artista e ao poeta na Igreja. Um exemplo extremamente concreto foi Manoel de Oliveira, por ocasi&atilde;o da visita de Bento XVI, ter falado em &ldquo;ter saudades do para&iacute;so&rdquo;. Foi o despertar de um poeta, n&atilde;o de versos.<\/p>\n<p><em>E &ndash; H&aacute; uma realidade que salta &agrave; vista que &eacute; o refor&ccedil;o da identidade do bairro, do grupo. H&aacute; uma reafirma&ccedil;&atilde;o destes pequenos grupos que habitam a cidade quase numa luta e no sentido de evitarem ser dilu&iacute;dos num cinzentismo urbano que classifica todos da mesma maneira?<\/em><\/p>\n<p>MP &ndash; Isso &eacute; muito claro nas marchas de Sto. Ant&oacute;nio em Lisboa, que refor&ccedil;a a identidade dos bairros e os despique entre eles, numa identidade para a vida inteira. Concerteza que as rusgas no Porto, do S&atilde;o Jo&atilde;o, at&eacute; s&atilde;o mais populares e democr&aacute;ticas mas n&atilde;o t&ecirc;m a for&ccedil;a identit&aacute;ria que as marchas t&ecirc;m em Lisboa.<\/p>\n<p>Mas julgo que podemos ir mais longe. O problema n&atilde;o &eacute; s&oacute; a identidade do bairro mas &eacute; a necessidade de ter uma terra. As designadas festas da nossa terra, d&atilde;o-nos uma terra e manifesta-se orgulho nela, porque &eacute; na festa que se mostra o que h&aacute; de bom e a festa marca.<\/p>\n<p>&Eacute; um problema para as cidades, muitas vezes est&atilde;o mal constru&iacute;das, t&ecirc;m um urbanismo p&eacute;ssimo, t&ecirc;m uma vida desorganizada e pouco comunit&aacute;ria.<\/p>\n<p>O conseguir fazer festa, na cidade toda ou em diversos locais, &eacute; uma coisa simples deixa uma heran&ccedil;a territorial &agrave;s crian&ccedil;as para al&eacute;m da terra dos pais ou dos av&oacute;s, porque eles precisam de ter uma terra deles.<\/p>\n<p>&Eacute; muito dif&iacute;cil, em especial nas cidades grandes, ter gosto nas cidades porque a festa tamb&eacute;m pode ter esta fun&ccedil;&atilde;o tremenda de nos dar uma terra, uma origem&hellip; Precisamos de estar agarrados a alguma coisa, n&atilde;o somos s&oacute; cidad&atilde;os do Mundo. &Eacute; mais uma das fun&ccedil;&otilde;es civilizacionais da religi&atilde;o popular e da festa.<\/p>\n<p><em>E &ndash; &Eacute; recorrente ver os jovens agarrarem estas tradi&ccedil;&otilde;es que v&ecirc;m dos pais e dos av&oacute;s, carregando o simbolismo da tradi&ccedil;&atilde;o ou devemos temer o desaparecimento destas festividades?<\/em><\/p>\n<p>MP &ndash; Eu tenho muitas d&uacute;vidas que venha a desaparecer algum dia. O Santo Ant&oacute;nio perdeu o seu cariz crist&atilde;o porque h&aacute; outro tipo de festa. Come&ccedil;a &agrave; tardinha e estende-se pela noite dentro, com a gente nova que anda pelos bairros.<\/p>\n<p>N&atilde;o me parece que as festas estejam a viver dos mais velhos, claro que o problema &eacute; o sentido que a festa tem. Sem as manipular conseguir acrescentar sentido, fazer com a gente nova continue a gostar e abrir novos horizontes para cada festa.<\/p>\n<p>Alem da poesia tem de entrar o humor. &Eacute; preciso olhar para as coisas com &agrave; vontade e criatividade. Foi sempre assim que se fez.<\/p>\n<p>A religi&atilde;o popular &eacute; da popula&ccedil;&atilde;o e tamb&eacute;m &eacute; uma resposta &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; algo intermedi&aacute;rio e &eacute; com essa boa disposi&ccedil;&atilde;o que se vive nas festas que dever&iacute;amos conseguir viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Micael Pereira, professor de Sociologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, olha para as festas populares, entre a religiosidade popular e o paganismo, como uma marca civilizacional<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,187,246,292],"class_list":["post-45935","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-diocese-do-porto","tag-liturgia","tag-religiosidade-popular"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45935"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45935\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}