{"id":45858,"date":"2010-06-15T11:02:05","date_gmt":"2010-06-15T11:02:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/06\/15\/bispos-promotores-de-uma-cultura-e-de-uma-espiritualidade\/"},"modified":"2010-06-15T11:02:05","modified_gmt":"2010-06-15T11:02:05","slug":"bispos-promotores-de-uma-cultura-e-de-uma-espiritualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bispos-promotores-de-uma-cultura-e-de-uma-espiritualidade\/","title":{"rendered":"Bispos, promotores de uma cultura e de uma espiritualidade"},"content":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Marcelino, Bispo Em\u00e9rito de Aveiro <!--more--> <\/p>\n<p>Como quem resume toda a comunica&ccedil;&atilde;o, Bento XVI conclui o discurso aos bispos dizendo: &#8220;Vos confio a Nossa Senhora de F&aacute;tima pedindo-lhe que vos sustente maternalmente nos desafios em que estais empenhados, para serdes promotores de uma cultura e de uma espiritualidade de caridade e de paz, de esperan&ccedil;a e de justi&ccedil;a, de f&eacute; e de servi&ccedil;o&#8221; O mesmo que serem educadores da f&eacute; e construtores de comunidades novas<\/p>\n<p>Nestas palavras est&aacute;, porventura, o programa de uma ac&ccedil;&atilde;o pastoral sinalizada, com presente e com futuro. Normalmente, os planos e programas pastorais, situam-se no &acirc;mbito interno da Igreja e concretizam-se em aspectos vocacionais, b&iacute;blicos, lit&uacute;rgicos, catequ&eacute;ticos, de pastoral sacramental e familiar&hellip; Planos que visam o interior das comunidades e o viver dos crist&atilde;os mais ass&iacute;duos ao templo e mais sens&iacute;veis ao apostolado dentro da Igreja. Fica-se, frequentemente, por apelos e orienta&ccedil;&otilde;es aos padres e a outros agentes apost&oacute;licos e poucas vezes se olha para a sociedade com seus dinamismos e necessidades, apelos e urg&ecirc;ncias. Por&eacute;m, &eacute; na vida da sociedade, n&atilde;o dentro do templo, que se pode verificar o agir influente ou n&atilde;o da Igreja.<\/p>\n<p>O pedido do Papa aos bispos para serem promotores de cultura e de espiritualidade, marca um sentido de novidade na ac&ccedil;&atilde;o pastoral, em que se entrela&ccedil;am a vida e a f&eacute;. A promo&ccedil;&atilde;o desta cultura deve atingir o campo da caridade e da paz, da esperan&ccedil;a e da justi&ccedil;a, da f&eacute; e do servi&ccedil;o, e dar &agrave; Igreja e &agrave; sua ac&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria um rosto novo e actual.<\/p>\n<p>Pode estar aqui, a meu ver, a chave de leitura de todo o discurso, ao olhar para as v&aacute;rias orienta&ccedil;&otilde;es nele contidas. Assim podemos ler: <em>&#8221; Os tempos que vivemos exigem um novo vigor mission&aacute;rio dos crist&atilde;os, chamados a formar um laicado adulto&#8221;; &#8220;Mantende viva a dimens&atilde;o prof&eacute;tica sem morda&ccedil;as&#8221;; &#8220;Ser-vos-&aacute; &uacute;til conhecer e compreender os diversos sectores sociais e culturais, avaliar as car&ecirc;ncias e programar eficazmente os recursos&#8221;; &#8220;No sentir de muitos, a f&eacute; cat&oacute;lica deixa de ser o patrim&oacute;nio comum da sociedade e frequentemente se v&ecirc; como uma semente insidiada e ofuscada por &#8220;divindades &#8221; e senhores deste mundo&#8221;; &#8221; O apelo corajoso e integral aos princ&iacute;pios &eacute; essencial e indispens&aacute;vel&#8221; ; &#8221; Os Pastores n&atilde;o s&atilde;o apenas pessoas que ocupam um cargo, mas eles pr&oacute;prios s&atilde;o carism&aacute;ticos, s&atilde;o respons&aacute;veis pela abertura da Igreja &agrave; ac&ccedil;&atilde;o do Esp&iacute;rito Santo&#8221;; &#8220;Durante demasiado tempo se relegou para segundo plano a responsabilidade da autoridade como servi&ccedil;o ao crescimento dos outros&#8221;; &#8221; Queria pedir-vos para revigorardes em v&oacute;s e ao vosso redor os sentimentos de miseric&oacute;rdia e de compaix&atilde;o capazes de corresponder &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es de graves car&ecirc;ncias sociais&#8221;; &#8220;Criem-se e aperfei&ccedil;oem-se as organiza&ccedil;&otilde;es existentes, com criatividade para corresponder a todas as pobrezas, mesmo a de falta de sentido da vida e de aus&ecirc;ncia de esperan&ccedil;a&#8221;; &#8221; As dificuldades, agora mais sentidas, n&atilde;o vos deixem esmorecer na l&oacute;gica do dom.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>N&atilde;o se afigura poss&iacute;vel dar resposta a estas recomenda&ccedil;&otilde;es sem o prop&oacute;sito, concreto e comum, de os bispos serem, por for&ccedil;a do seu munus apost&oacute;lico, verdadeiros promotores de uma cultura ou de um modo habitual de agir, inspirado no Evangelho, e de uma espiritualidade, activa e rejuvenescida, enraizada na vida concreta e na f&eacute; assumida.<\/p>\n<p>&Eacute; este prop&oacute;sito que parece orientar a reflex&atilde;o dos bispos ao pretenderem agora&nbsp; &#8220;Repensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal&#8221;, a partir das interpela&ccedil;&otilde;es socioculturais que lhes s&atilde;o feitas em campo aberto.<\/p>\n<p>O facto de participarem activamente nas Jornadas Pastorais do Episcopado (14-16 de Junho), quatro leigos qualificados para ajudar a reflectir os sinais interpelantes que a sociedade faz &agrave; Igreja e &agrave; sua ac&ccedil;&atilde;o, &eacute; um sinal, ao lado de outros, de que a reflex&atilde;o pastoral, realizada a n&iacute;vel de Povo de Deus, pode ser mais objectiva e consequente, que a habitual reflex&atilde;o sobre os problemas da Igreja, feita em circuitos fechados, quase s&oacute; por eclesi&aacute;sticos. A Igreja &eacute; Povo de Deus e o Esp&iacute;rito anima todos os seus membros.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o podemos deixar de ligar o discurso do Papa, em F&aacute;tima, &agrave; sua interven&ccedil;&atilde;o em Roma (2007), por ocasi&atilde;o da &#8220;visita ad Limina&#8221;. Trata-se de desafio pastoral, ent&atilde;o mais falado, e que continua urgente e actual. Recorda o Papa o prop&oacute;sito assumido pelos bispos e sublinha-lhe o sentido de se <em>&#8221; oferecer a todos os fieis uma <strong>inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde; exigente e atractiva<\/strong>, comunicadora da integridade da f&eacute; e da espiritualidade radicada no Evangelho, formadora de agentes livres no seio da vida p&uacute;blica.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>A inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde; identifica-se com a pedagogia catecumenal, orientada no adultos para a celebra&ccedil;&atilde;o dos sacramentos da inicia&ccedil;&atilde;o, que conduz &agrave; convers&atilde;o pessoal a Jesus Cristo e que se torna consequente em todas as dimens&otilde;es da vida pessoal, eclesial e social. Ao mesmo tempo, leva &agrave; integra&ccedil;&atilde;o do iniciado na comunidade dos crentes, para a&iacute; viver em Comunh&atilde;o com todos e se sentir correspons&aacute;vel na Miss&atilde;o da Igreja.<\/p>\n<p>A inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde; deve fazer-se no dia a dia da Igreja, mediante uma catequese de inspira&ccedil;&atilde;o catecumenal, que se torna para todos um indispens&aacute;vel &#8220;ensinamento para a vida&#8221; e um caminho certo, rumo &agrave; maturidade da f&eacute; e ao compromisso crist&atilde;o.<\/p>\n<p>A Igreja que chegou at&eacute; n&oacute;s vem dos tempos de cristandade, carregada das suas cores. Tempos houve em que ser crist&atilde;o era uma op&ccedil;&atilde;o familiar e o Baptismo um sacramento a receber quanto antes. A pr&aacute;tica religiosa ia-se aprendendo no seio da fam&iacute;lia que vivia a sua f&eacute; e a transmitia aos filhos com valores e h&aacute;bitos crist&atilde;os, ou favorecia-se pela ac&ccedil;&atilde;o e pelo testemunho da comunidade, que dava, ao mesmo tempo, conte&uacute;dos da f&eacute;.<\/p>\n<p>A inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde; &eacute; para os baptizados em crian&ccedil;a um projecto comum da fam&iacute;lia e da catequese. Por vezes n&atilde;o funciona, funciona mal, ou n&atilde;o presta aten&ccedil;&atilde;o &agrave; nova cultura que se foi gerando com grande influ&ecirc;ncia na vida e nos comportamentos.<\/p>\n<p>A Igreja viu-se de repente uma comunidade cheia de pag&atilde;os baptizados, que a pouco e pouco abandonam a pr&aacute;tica sacramental e optam por uma vida &agrave; margem do Evangelho. Muitos destes, como recordou Bento XVI s&atilde;o <em>&#8220;crentes envergonhados que d&atilde;o as m&atilde;os ao secularismo, construtor de barreiras &agrave; inspira&ccedil;&atilde;o crist&atilde;&#8221; <\/em>&nbsp;ou s&atilde;o gente para a qual <em>&nbsp;&#8220;a f&eacute; cat&oacute;lica deixa de ser patrim&oacute;nio comum da sociedade&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Os bispos portugueses est&atilde;o conscientes desta realidade e sentem-se interpelados por ela. Est&atilde;o, por&eacute;m, dispostos a renovar, a partir daqui, a ac&ccedil;&atilde;o pastoral da Igreja?<\/p>\n<p>Um desafio que n&atilde;o tem resposta f&aacute;cil. Os restos da cristandade que perduram, criam ilus&otilde;es perigosas, quando se diz, por exemplo, que os templos continuam cheios, os santu&aacute;rios recebem multid&otilde;es, se diminuem os baptismos, os penitentes e os casamentos na Igreja, aumentam as comunh&otilde;es eucar&iacute;sticas, se os jovens deixam a missa do Domingo n&atilde;o deixam de peregrinar a F&aacute;tima, Taiz&eacute; e Compostela, que o problema vocacional denuncia apenas uma crise de passagem, e, por a&iacute; adiante&hellip; Nunca faltam ocasi&otilde;es de ilus&atilde;o e consola&ccedil;&atilde;o a quem fecha os olhos e deixa de ler e reflectir a realidade que se vive na Igreja e na sociedade<\/p>\n<p>A inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, por tudo isto, n&atilde;o &eacute; uma moda, &eacute; uma urg&ecirc;ncia. Requer gente com prepara&ccedil;&atilde;o para orientar e testemunhar. Com igual urg&ecirc;ncia se deve ver a catequese de adultos, um meio concreto de ajudar os leigos a serem crist&atilde;os no mundo; a forma&ccedil;&atilde;o de comunidades, acolhedoras e mission&aacute;rias; o acordar da consci&ecirc;ncia dos presb&iacute;teros e di&aacute;conos, muitos deles nost&aacute;lgicos do templo, para o essencial da miss&atilde;o; o ensinar os agentes pastorais a olhar a sociedade e os sinais dos tempos com objectividade e esperan&ccedil;a; o fomentar a pr&aacute;tica do di&aacute;logo, dentro e fora da Igreja&hellip;<\/p>\n<p>Est&aacute; nas m&atilde;os e no cora&ccedil;&atilde;o dos bispos dar resposta. Bento XVI termina, apelando aos bispos que sejam promotores de uma cultura e de uma espiritualidade, que, pelos valores que comportam, ajudem os crist&atilde;os a resistir ao tempo e a dar sentido &agrave; vida.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Ant&oacute;nio Marcelino, Bispo Em&eacute;rito de Aveiro<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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