{"id":45855,"date":"2010-10-01T11:44:42","date_gmt":"2010-10-01T11:44:42","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/10\/01\/fatima-e-a-i-republica-2\/"},"modified":"2010-10-01T11:44:42","modified_gmt":"2010-10-01T11:44:42","slug":"fatima-e-a-i-republica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fatima-e-a-i-republica-2\/","title":{"rendered":"F\u00e1tima e a I Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Teixeira Fernandes aborda o \u00abcombate travado pelo Estado, contra a Igreja, durante a Primeira Rep\u00fablica\u00bb. Na \u00e9poca em an\u00e1lise, F\u00e1tima \u00abserve de palco e de detonador do despertar da consci\u00eancia cat\u00f3lica\u00bb. <!--more--> <\/p>\n<p>Segundo Ant&oacute;nio Teixeira Fernandes, autor da introdu&ccedil;&atilde;o ao terceiro tomo do quarto volume da Documenta&ccedil;&atilde;o Cr&iacute;tica de F&aacute;tima (DCF), F&aacute;tima foi &ldquo;o maior teatro de guerra&rdquo; deste combate. O terceiro tomo abrange o per&iacute;odo de 13 de Outubro de 1924 a 31 de Dezembro de 1925.<\/p>\n<p>&ldquo;O Estado desenvolvia uma pol&iacute;tica anti-religiosa, permeada de agressividade e viol&ecirc;ncia&rdquo;, aponta. Na &eacute;poca em an&aacute;lise, &ldquo;F&aacute;tima serve de palco e de detonador do despertar da consci&ecirc;ncia cat&oacute;lica&rdquo;, assinala Teixeira Fernandes.<\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA &ndash; No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, em Portugal, houve uma tentativa de laiciza&ccedil;&atilde;o do Estado ou de seculariza&ccedil;&atilde;o da Igreja?<\/em><\/p>\n<p><em>Ant&oacute;nio Teixeira Fernandes (ATF) &ndash;<\/em> Em meu entender, houve fundamentalmente uma tentativa de laiciza&ccedil;&atilde;o da Igreja. O Estado que se apresenta na I Rep&uacute;blica n&atilde;o tinha atingido a maturidade pol&iacute;tica, &eacute; um Estado que ainda se sente fr&aacute;gil e, portanto, tem necessidade, de forma paradoxal, da religi&atilde;o para poder sobreviver, embora combatendo-a para a subordinar.<\/p>\n<p>Nessa medida, &eacute; um Estado n&atilde;o secularizado, um Estado que se arvora em igreja anti-Igreja, que n&atilde;o pretende verdadeiramente uma separa&ccedil;&atilde;o, porque a Lei da Separa&ccedil;&atilde;o (1911) n&atilde;o &eacute;, em rigor, de uma separa&ccedil;&atilde;o que conduzisse &agrave; liberdade, mas uma lei de separa&ccedil;&atilde;o hostil, pondo a Igreja em estado de total sujei&ccedil;&atilde;o. O objectivo n&atilde;o consistia, no fundo, somente em secularizar a pr&oacute;pria Igreja como ainda em laicizar a pr&oacute;pria sociedade civil.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Este &eacute; um processo que come&ccedil;ou na Monarquia Constitucional ou estamos perante uma ruptura total?<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash;<\/em> O problema vem j&aacute; de longe, diria mesmo que dos finais do s&eacute;culo XVIII, mas desenvolve-se sobretudo ao longo do s&eacute;culo XIX. O Liberalismo viu sempre com alguma suspei&ccedil;&atilde;o a interven&ccedil;&atilde;o da Igreja no poder pol&iacute;tico, s&oacute; que a primeira fase do Liberalismo &ndash; expresso, por exemplo, em Alexandre Herculano e em Almeida Garrett &#8211; n&atilde;o promove nenhuma guerra contra a Igreja, deseja somente o seu afastamento das quest&otilde;es pol&iacute;ticas. Deseja uma Igreja destemporalizada, reduzida ao espiritual, deixando exclusivamente aos homens o que diz respeito &agrave;s coisas seculares.<\/p>\n<p>A partir de meados do s&eacute;culo XIX, sobretudo com a &ldquo;Gera&ccedil;&atilde;o de Setenta&rdquo;, h&aacute; uma certa altera&ccedil;&atilde;o da orienta&ccedil;&atilde;o liberal, porque se a primeira fase foi mais voltada para a defesa da liberdade, esta segunda gera&ccedil;&atilde;o est&aacute; mais interessada num projecto de igualdade social e de democracia. &Eacute; a gera&ccedil;&atilde;o de Antero de Quental e E&ccedil;a de Queiroz.<\/p>\n<p>Est&atilde;o aqui presentes os ideais da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, mas tamb&eacute;m o socialismo ut&oacute;pico franc&ecirc;s, com a influ&ecirc;ncia nomeadamente de Proudhon. Por outro lado, h&aacute; uma reorienta&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Republicanismo, que aceita e transfere para Portugal o positivismo comteano, empenhando-se na cria&ccedil;&atilde;o de uma sociedade dessacralizada, secularizada e laicizada.<\/p>\n<p>Nesta altura, aparece j&aacute; fortemente a tend&ecirc;ncia para secularizar todos os actos centrais da vida humana: o nascimento, o casamento, o funeral, etc.<\/p>\n<p>Na parte final da Monarquia Constitucional, os republicanos e n&atilde;o s&oacute; &ndash; influenciados nomeadamente pela Ma&ccedil;onaria e pelo livre pensamento &ndash; pretendem essa seculariza&ccedil;&atilde;o total. Aquilo que acontece a 5 de Outubro (1910) n&atilde;o ser&aacute; mais do que o culminar de tend&ecirc;ncias anunciadas e inclusive muito afirmadas em congressos anteriores.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; H&aacute; aqui um jogo de for&ccedil;as entre Ma&ccedil;onaria e Igreja?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash;<\/em> Sem d&uacute;vida alguma, s&oacute; que a Ma&ccedil;onaria nunca aparece como organiza&ccedil;&atilde;o: influencia toda a ac&ccedil;&atilde;o legislativa, a actividade partid&aacute;ria e os pr&oacute;prios actores pol&iacute;ticos, sobretudo os republicanos, mas actua somente atrav&eacute;s de personalidades concretas. Obviamente que tamb&eacute;m existe a Carbon&aacute;ria&hellip; Essa teve a sua influ&ecirc;ncia, de outro tipo, e desempenhou papel diferente, embora complementar.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O bra&ccedil;o armado da Ma&ccedil;onaria?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>N&atilde;o ser&aacute; propriamente o bra&ccedil;o armado da Ma&ccedil;onaria, embora, na pr&aacute;tica o possa ter sido. Na d&eacute;cada de 90, a Ma&ccedil;onaria Acad&eacute;mica deu origem &agrave; Carbon&aacute;ria que &eacute; diferente da Ma&ccedil;onaria. Esta &eacute; de tend&ecirc;ncia bastante elitista. A Carbon&aacute;ria &eacute; a Ma&ccedil;onaria popular que pretende a revolu&ccedil;&atilde;o no campo de batalha, atrav&eacute;s da for&ccedil;a das armas e n&atilde;o unicamente das ideias.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; No contexto da I Rep&uacute;blica temos tamb&eacute;m as apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima&hellip;<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash;<\/em> A Rep&uacute;blica institu&iacute;da, querendo secularizar a vida social, mostrou-se contr&aacute;ria a todo o Cristianismo de fei&ccedil;&atilde;o popular. Por outro lado, em vez desse cristianismo queria a ilustra&ccedil;&atilde;o do povo, contrapondo &agrave; actividade da Igreja a ac&ccedil;&atilde;o de uma escola laica. Por esta via, se pretendia criar um homem novo para uma sociedade nova, entrando por uma via que n&atilde;o podia deixar de ser autorit&aacute;ria. A Primeira Rep&uacute;blica n&atilde;o teve em vista um projecto democr&aacute;tico&hellip;<\/p>\n<p>Alguns dias antes da aprova&ccedil;&atilde;o da Lei da Separa&ccedil;&atilde;o, Afonso Costa &ndash; na sede do Grande Oriente Lusitano &ndash; afirmou que &laquo;em duas gera&ccedil;&otilde;es, Portugal ter&aacute; eliminado completamente o Catolicismo, que foi a maior causa da desgra&ccedil;ada situa&ccedil;&atilde;o em que caiu&raquo;. (como se afirma no Jornal &laquo;Tempo&raquo; &#8211; 27 de Mar&ccedil;o de 1911). A afirma&ccedil;&atilde;o aparece repetida in&uacute;meras vezes pelos jornais cat&oacute;licos durante a persegui&ccedil;&atilde;o que foi movida pela Rep&uacute;blica a F&aacute;tima.<\/p>\n<p>Esta &eacute; uma Rep&uacute;blica politicamente fr&aacute;gil e a partir do momento em que se deram as apari&ccedil;&otilde;es, desde 13 de Maio de 1917, o governo sentiu-se um pouco perturbado, porque viu que esse movimento poderia p&ocirc;r em causa o pr&oacute;prio regime pol&iacute;tico, para al&eacute;m da sua carga ideol&oacute;gica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"float: right; margin-left: 5px; margin-right: 5px;\" src=\"http:\/\/farm5.static.flickr.com\/4048\/4702948432_341010f262.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"289\" \/>AE &ndash; As pessoas ansiavam por algo melhor, mas a Rep&uacute;blica n&atilde;o lhes deu isso?<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash; <\/em>Para al&eacute;m de tudo o mais, a Rep&uacute;blica lan&ccedil;ou o pa&iacute;s numa crise enorme, em especial a partir da entrada na I Guerra Mundial. A ida dos nossos militares para o estrangeiro, onde de forma ingl&oacute;ria perdiam a via, criou uma grande insatisfa&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, a carestia de bens de todo o g&eacute;nero estava na origem de algumas subleva&ccedil;&otilde;es populares por todo o pa&iacute;s, em especial nos anos 20. A situa&ccedil;&atilde;o do ponto de vista social era dif&iacute;cil para o pr&oacute;prio governo.<\/p>\n<p>Neste contexto, os ataques &agrave;s apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima tinham um duplo objectivo: por um lado, temia-se que esse fen&oacute;meno, considerado como fanatismo, contrariasse, a certa altura, o projecto da I Rep&uacute;blica, que era o de ilustrar o povo, mas dentro de uma escola racionalista; por outro lado, como todo o republicanismo era gerido e movimentado por uma burguesia que, apesar de tudo, n&atilde;o passava de uma minoria na sociedade portuguesa (embora ganhasse as elei&ccedil;&otilde;es), tinha-se receio de que isso pusesse em causa a estabilidade do regime.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; E havia motivos para temer que as apari&ccedil;&otilde;es colocassem em causa os fundamentos ideol&oacute;gicos do regime?<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash;<\/em> N&atilde;o digo que os pusessem em causa de forma directa, haveria que esclarecer e saber se, como inten&ccedil;&atilde;o, as apari&ccedil;&otilde;es teriam ou n&atilde;o directamente esse objectivo. Em sede de princ&iacute;pios, tratava-se de algo contradit&oacute;rio em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; situa&ccedil;&atilde;o vigente, mas a mensagem de F&aacute;tima possui obviamente um alcance mais vasto.<\/p>\n<p>Para um poder pol&iacute;tico que se sentia fragilizado, qualquer movimenta&ccedil;&atilde;o popular, qualquer perturba&ccedil;&atilde;o desta natureza &ndash; n&atilde;o podemos esquecer que se deslocavam a F&aacute;tima milhares e milhares de pessoas &ndash; seria grandemente perturbadora.<\/p>\n<p>At&eacute; &agrave; peregrina&ccedil;&atilde;o de 13 de Outubro de 1917, o poder pol&iacute;tico central n&atilde;o teve, no entanto, nenhuma interven&ccedil;&atilde;o directa, que se conhe&ccedil;a. Ali estiveram presentes, segundo os jornais, entre 50 a 75 mil pessoas, o que constitu&iacute;a um fen&oacute;meno em rela&ccedil;&atilde;o ao qual o pr&oacute;prio governo n&atilde;o podia sentir-se indiferente. Sabe-se que a popula&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica ultrapassava os 99,00, segundo os dados dos Censos de 1900.<\/p>\n<p>A Carta Pastoral publicada pelos bispos a 24 de Dezembro de 1910 apela para a grande maioria portuguesa que &eacute; cat&oacute;lica. Em Mar&ccedil;o seguinte, 1911, os bispos come&ccedil;aram a ser perseguidos. Deu-se primeiro a expuls&atilde;o do bispo de Porto, D. Ant&oacute;nio Barroso. Posteriormente, foram atingidos os restantes prelados, com a sua expuls&atilde;o das respectivas dioceses. O que aconteceu &eacute; que as pessoas n&atilde;o se levantaram para defenderem os seus bispos&hellip;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Perante estes factos, onde estavam os 99% dos cat&oacute;licos?<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash; <\/em>Eram, na sua grande maioria, cat&oacute;licos an&oacute;nimos e an&eacute;micos, sem grande vitalidade religiosa. Tinham uma cren&ccedil;a mais devocional do que doutrinal ou teol&oacute;gica. N&atilde;o havia, por parte dos bispos, uma grande preocupa&ccedil;&atilde;o na forma&ccedil;&atilde;o do clero e do laicado. Os cat&oacute;licos ficaram alheados e serenos nas suas casas perante a persegui&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o tomaram qualquer posi&ccedil;&atilde;o, com excep&ccedil;&atilde;o de algumas pequenas e breves manifesta&ccedil;&otilde;es &agrave; chegada ou partida, sem qualquer efeito pr&aacute;tico.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A catequese praticamente n&atilde;o existia<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>Os bispos n&atilde;o tiveram, de facto, o apoio dos cat&oacute;licos, mas parece que colhiam o que haviam semeado. A situa&ccedil;&atilde;o portuguesa foi muito diferente da francesa. Em 1905, com a lei da separa&ccedil;&atilde;o em Fran&ccedil;a, o governo &laquo;caiu&raquo; devido &agrave; mobiliza&ccedil;&atilde;o dos cat&oacute;licos. Em Portugal, os bispos partiram todos para o ex&iacute;lio &ndash; onde permaneceram cerca de dois anos &#8211; e nenhum governo caiu. Ap&oacute;s estes factos, os bispos come&ccedil;aram a apelar &ndash; atrav&eacute;s de tomadas sucessivas de posi&ccedil;&atilde;o &#8211; para a unidade dos cat&oacute;licos, divididos nas suas comodidades e nos seus interesses de &iacute;ndole pol&iacute;tica. Os prelados sentiram ent&atilde;o a necessidade de uma maior catequiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Por volta de 1917, come&ccedil;ou-se a chamar a aten&ccedil;&atilde;o aos leigos para lutarem no interior do Centro Cat&oacute;lico, o n&uacute;cleo a partir do qual se devia desenvolver uma ac&ccedil;&atilde;o unificada contra a legisla&ccedil;&atilde;o anti-cat&oacute;lica da Rep&uacute;blica. Defendeu-se sempre o princ&iacute;pio de que o poder vem de Deus.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Ainda no &acirc;mbito das apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima, a Comunica&ccedil;&atilde;o Social estava dividida. <\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash; <\/em>A divis&atilde;o era bastante clara. Havia, por um lado, os jornais de orienta&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica e, por outro, os jornais de inspira&ccedil;&atilde;o da Ma&ccedil;onaria, do Livre Pensamento e do Republicanismo. Dois ou tr&ecirc;s jornais entram na luta muito directamente. Um deles era o jornal &laquo;Mundo&raquo; (&oacute;rg&atilde;o oficial do Partido Democr&aacute;tico de Afonso Costa) e o outro era o &laquo;Livre Pensamento&raquo; (&oacute;rg&atilde;o oficial do pr&oacute;prio Livre Pensamento). As duas organiza&ccedil;&otilde;es que entram na luta de forma directa contra F&aacute;tima s&atilde;o: &laquo;Associa&ccedil;&atilde;o do Registo Civil&raquo; e a &laquo;Federa&ccedil;&atilde;o do Livre Pensamento&raquo;. Actua tamb&eacute;m a Ma&ccedil;onaria, mas de forma discreta ou encoberta. No campo da imprensa cat&oacute;lica, surgiam tamb&eacute;m algumas discord&acirc;ncias no que concerne a interpreta&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno das Apari&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Chegam a fazer com&iacute;cios na Cova da Iria<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash;<\/em> Em Novembro de 1917, poucos dias depois das apari&ccedil;&otilde;es, realizou-se um com&iacute;cio na pr&oacute;pria Cova da Iria e outros em localidades pr&oacute;ximas de F&aacute;tima. Os jornais cat&oacute;licos usam de uma grande prud&ecirc;ncia. Esta adv&eacute;m do facto da Igreja n&atilde;o aceitar, logo &agrave; partida, a exist&ecirc;ncia das apari&ccedil;&otilde;es, sem possuir acerca delas suficiente fundamenta&ccedil;&atilde;o. Era necess&aacute;rio garantir e provar que eram aut&ecirc;nticas. Esse trabalho estava por fazer. Entretanto, as for&ccedil;as que lhes eram adversas aproveitavam para fazerem a sua campanha.<\/p>\n<p>Apesar daquela prud&ecirc;ncia, alguns jornais cat&oacute;licos entram, entre si, em alguma disputa. O jornal &laquo;A Ordem&raquo;, que era um &oacute;rg&atilde;o cat&oacute;lico &ndash; onde trabalhava Domingos Pinto Coelho, que estava tamb&eacute;m ligado a um Partido Mon&aacute;rquico &ndash; deu origem a uma certa controv&eacute;rsia, lan&ccedil;ando-se alguma d&uacute;vida sobre as apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima. Mas a pol&eacute;mica, aberta ou subentendida, travou-se principalmente entre jornais cat&oacute;licos e outros que lhes eram contr&aacute;rios.<\/p>\n<p>&Eacute; curioso verificar que o grande eco das apari&ccedil;&otilde;es foi dado pelos jornais contr&aacute;rios &agrave; Igreja porque criticavam abertamente F&aacute;tima e possu&iacute;am um alargado raio de difus&atilde;o.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A Igreja s&oacute; reconhece as apari&ccedil;&otilde;es na d&eacute;cada seguinte. H&aacute; alguma explica&ccedil;&atilde;o para esta demora?<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash; <\/em>Foi entretanto criada a diocese de Leiria e nomeado D. Jos&eacute; Alves Correia como seu bispo. Ap&oacute;s a entrada deste, no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 20, o prelado constituiu, de imediato, uma comiss&atilde;o presidida pelo Pe. Manuel Formig&atilde;o. A partir de 1926\/27, D. Jos&eacute; Alves Correia come&ccedil;ou a insistir para que se ultimasse o processo. O povo havia j&aacute; &ldquo;confirmado&rdquo;, com a sua permanente presen&ccedil;a, a sua veracidade.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; As not&iacute;cias negativas despertaram a aten&ccedil;&atilde;o<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash; <\/em>Os jornais Republicanos, da Ma&ccedil;onaria e do Livre Pensamento, foram aqueles que fizeram o eco maior &ndash; ainda que pela via negativa &#8211; das apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima. No entanto, quem fez vingar as apari&ccedil;&otilde;es foi a f&eacute; e a perseveran&ccedil;a do povo. Este nem sequer esteve &agrave; espera e atendeu &agrave; prud&ecirc;ncia da Igreja. Entre 1920 e 1924, houve uma tentativa, por parte do governo, de impedir, com recurso &agrave; Guarda Nacional Republicana, as peregrina&ccedil;&otilde;es ao local. Os jornais cat&oacute;licos v&ecirc;m-se mesmo for&ccedil;ados a fazer o convite &agrave; desobedi&ecirc;ncia civil. Alguns, por exemplo &laquo;O Dia&raquo;, dizem mesmo: &laquo;vamos lutar contra o governo&raquo;, mas, na sua generalidade, esses jornais limitam-se a defender: &laquo;N&atilde;o vamos lutar contra o regime, mas contra a legisla&ccedil;&atilde;o&raquo;. Mesmo quando as peregrina&ccedil;&otilde;es eram proibidas, o povo n&atilde;o deixava de ir a F&aacute;tima, arrostando com todos os sacrif&iacute;cios e perigos. Foi o sentimento de f&eacute; do povo que imp&ocirc;s F&aacute;tima. D. Jos&eacute; Alves Correia entendeu bem esse sentimento do povo e, com base nas provas que lhe foram apresentadas acerca do car&aacute;cter sobrenatural do fen&oacute;meno, autenticou as apari&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; As apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima ajudaram a derrubar a Rep&uacute;blica?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>Essa rela&ccedil;&atilde;o causal n&atilde;o se poder&aacute; fazer. N&atilde;o foram, possivelmente, os republicanos que fizeram cair a monarquia, ter&atilde;o sido os pr&oacute;prios mon&aacute;rquicos. Talvez fossem os pr&oacute;prios republicanos que fizeram cair a Rep&uacute;blica, pela sua incapacidade de governa&ccedil;&atilde;o e de desenvolverem a democracia. Quem faz tal cr&iacute;tica &eacute; o pr&oacute;prio Raul Proen&ccedil;a.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A rapidez do pacote legislativo foi prejudicial.<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash;<\/em> Contrariou o povo e n&atilde;o foi ao encontro da sua sensibilidade, num completo desconhecimento das preocupa&ccedil;&otilde;es que o afligiam e das aspira&ccedil;&otilde;es que o animavam. A governa&ccedil;&atilde;o ter&aacute; conduzido ainda o pa&iacute;s para uma situa&ccedil;&atilde;o que era bastante insustent&aacute;vel (Bancarrota, car&ecirc;ncia de bens de primeira necessidade, atentados por toda a parte, uma guerra que n&atilde;o terminava&hellip;). O desgoverno encaminhava o pa&iacute;s para a derrocada da pr&oacute;pria Rep&uacute;blica. Quem saiu vencedor de tudo isto foi o projecto de F&aacute;tima&hellip; N&atilde;o era certamente um projecto humano<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Apesar da Capelinha das Apari&ccedil;&otilde;es ter sido dinamitada.<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>&Eacute; verdade. Foi dinamitada a 6 de Mar&ccedil;o de 1922. Numa situa&ccedil;&atilde;o de grande perturba&ccedil;&atilde;o social, F&aacute;tima aparece como um suplemento de alma, como um sol radioso, dando esperan&ccedil;a ao povo portugu&ecirc;s. N&atilde;o existem bombas que destruam as verdadeiras esperan&ccedil;as de um povo&hellip;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Uma esperan&ccedil;a que surgiu depois da d&uacute;vida inicial<\/em><\/p>\n<p><em>ATF &ndash; <\/em>Acredito que alguns tenham sido influenciados por alguns jornais bem tendenciosos. No entanto, &eacute; necess&aacute;rio dizer que para se ser cat&oacute;lico n&atilde;o &eacute; indispens&aacute;vel admitir a autenticidade das apari&ccedil;&otilde;es. A Revela&ccedil;&atilde;o de Cristo est&aacute; completa em si mesma. Para al&eacute;m disso, a pr&oacute;pria Igreja n&atilde;o as reconheceu logo. Houve uma prud&ecirc;ncia enorme por parte dos bispos. Havia, al&eacute;m disso, um espa&ccedil;o alargado onde se podia exprimir o ju&iacute;zo de cada um, desde que aceite o que &eacute; central ou essencial na Revela&ccedil;&atilde;o, que permitia &agrave;s pessoas um grau enorme de liberdade para acreditar, duvidar ou negar. Essa era a situa&ccedil;&atilde;o vivida na altura e, possivelmente, n&atilde;o ser&aacute; diferente a situa&ccedil;&atilde;o que existe ainda hoje.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; De um &laquo;altar duvidoso&raquo; passou-se para um &laquo;altar do mundo&raquo;?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>Verificou-se isso mesmo. H&aacute; um jornal dos in&iacute;cios dos anos 20 que diz: &laquo;F&aacute;tima &eacute; o altar erguido no cora&ccedil;&atilde;o das multid&otilde;es&raquo;. Primeiro, come&ccedil;ou por ser um altar erguido no cora&ccedil;&atilde;o das pessoas. Depois passou a ser um altar erguido no cora&ccedil;&atilde;o de Portugal. O Cardeal Gon&ccedil;alves dir&aacute; mais tarde que n&atilde;o foi a Igreja que imp&ocirc;s F&aacute;tima, mas foi F&aacute;tima que se imp&ocirc;s &agrave; Igreja. &Eacute; curioso verificar a liga&ccedil;&atilde;o que muitos estabelecem, na d&eacute;cada de 20, entre a mensagem de F&aacute;tima e a concreta situa&ccedil;&atilde;o portuguesa, n&atilde;o tendo esses verdadeiramente em conta o alcance universal da mensagem.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; F&aacute;tima j&aacute; &eacute; consagrada antes da consagra&ccedil;&atilde;o, em 1930, pelo bispo de Leiria?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>Ainda na d&eacute;cada de 20, j&aacute; o governo tem preocupa&ccedil;&otilde;es urban&iacute;sticas e em rela&ccedil;&atilde;o ao bom acolhimento a dar aos peregrinos. Em 1927, os jornais criticam o crescimento urbano desordenado em F&aacute;tima. O Ministro das Obras P&uacute;blicas criou ent&atilde;o uma comiss&atilde;o para apresentar um plano de urbaniza&ccedil;&atilde;o daquele espa&ccedil;o. Tratava-se de uma resposta &agrave; manifesta&ccedil;&atilde;o de f&eacute; da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A visita do Papa Paulo VI ao Santu&aacute;rio de F&aacute;tima foi o culminar deste processo ascendente de credibilidade?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>A credibilidade foi acentuada tamb&eacute;m pelos Papas anteriores. A visita do Papa Paulo VI a F&aacute;tima, essa teve um impacto enorme. O pr&oacute;prio Papa, antes de sair de Roma, vinha com alguma apreens&atilde;o, mas regressou completamente transformado. Ele nunca ter&aacute; presenciado uma explos&atilde;o de f&eacute; popular como na Cova da Iria. Nem na Pra&ccedil;a de S. Pedro, em Roma&hellip; Quando chegou ao Vaticano veio imediatamente &agrave; janela, onde falou aos fi&eacute;is, de modo exuberante.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Quando o Papa Paulo VI visitou F&aacute;tima, em 1967, tinha conhecimento da contesta&ccedil;&atilde;o existente em Portugal?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash;<\/em> Obviamente que sim. Nem sequer aterrou em Lisboa, mas num aeroporto perto de F&aacute;tima. A partir de Paulo VI, houve uma mudan&ccedil;a profunda dos Papas a respeito das apari&ccedil;&otilde;es da Cova da Iria.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A capelinha das apari&ccedil;&otilde;es, a azinheira e a f&eacute; do povo &eacute; o que resta de 1917?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>A capelinha e uma azinheira, mas n&atilde;o aquela sobre a qual Nossa Senhora apareceu aos pastorinhos. A f&eacute; do povo, essa foi-se transformando e rejuvenescendo. O peregrino actual, embora escasseiem os estudos, ser&aacute; completamente diferente do daquela &eacute;poca. Come&ccedil;a a parecer, com grande relev&acirc;ncia, o peregrino em busca de paz interior e de sentido para a sua exist&ecirc;ncia, face a uma vida que em si mesma carece de significa&ccedil;&atilde;o. O perfil do peregrino tem-se vindo a alterar, mas n&atilde;o existem estudos a seu respeito.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A capelinha foi dinamitada. Os republicanos n&atilde;o pensaram cortar a azinheira?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash;<\/em> Nossa Senhora n&atilde;o apareceu naquela azinheira que se encontra actualmente no recinto. Na noite de 23 de Outubro de 1917, os carbon&aacute;rios de Santar&eacute;m foram a F&aacute;tima e cortaram o tronco da azinheira onde Nossa Senhora de facto aparecera. S&oacute; restava o tronco, porque os peregrinos haviam cortado todos os ramos para levarem consigo. Transportaram-no, assim como os elementos religiosos ali existentes, para Santar&eacute;m e a&iacute; fizeram uma &ldquo;prociss&atilde;o&rdquo; ou cortejo mais ou menos macabro com esses elementos. No atentado de 6 de Mar&ccedil;o de 1922, lan&ccedil;aram bombas nos quatro cantos da capelinha e tamb&eacute;m nesse tronco. Nem todas as bombas rebentaram.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nem todos os republicanos eram radicais. N&atilde;o existiam republicanos defensores das apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash; <\/em>N&atilde;o posso responder afirmativamente. N&atilde;o tenho elementos que permitam dizer se havia ou n&atilde;o republicanos defensores das apari&ccedil;&otilde;es, mas sou levado a pensar que sim, com base em dados fornecidos pela imprensa da &eacute;poca. Enquanto organiza&ccedil;&atilde;o, movimento ou partido, sem d&uacute;vida que n&atilde;o&hellip; O que se poder&aacute; dizer &eacute; que a situa&ccedil;&atilde;o portuguesa era muito particular. Por exemplo, Sampaio Bruno defende que existia em Portugal um Livre Pensamento religioso e um Livre Pensamento irreligioso. Por outro lado, Brito Camacho (num livro escrito em 1925) caracteriza muito bem a situa&ccedil;&atilde;o portuguesa: &laquo;Em Portugal, com as excep&ccedil;&otilde;es do estilo, os cat&oacute;licos s&atilde;o um bocadinho livres-pensadores, da mesma forma que os livres-pensadores s&atilde;o um bocadinho cat&oacute;licos&raquo;. Uma coisa &eacute; certa, os republicanos que eram anti-clericais n&atilde;o dispensavam para as suas mulheres e filhas a assist&ecirc;ncia religiosa. Havia neles um catolicismo escondido, porventura seriam cat&oacute;licos sem se reconhecerem como tais&hellip;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; H&aacute; semelhan&ccedil;as entre os tempos actuais e o per&iacute;odo da implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica?<\/p>\n<p><\/em><em>ATF &ndash;<\/em> Nunca h&aacute; uma reprodu&ccedil;&atilde;o das situa&ccedil;&otilde;es. O homem &eacute; sempre diferente em &eacute;pocas diversas. Todavia, existem realidades, na actualidade, em v&aacute;rios aspectos, que poder&atilde;o ser comparadas. Muitas das quest&otilde;es n&atilde;o resolvidas no s&eacute;culo XIX e in&iacute;cios de XX permanecem ainda em aberto, tanto no campo econ&oacute;mico e pol&iacute;tico, como mesmo no dom&iacute;nio religioso. Tamb&eacute;m hoje em dia haver&aacute; homens com apar&ecirc;ncia de descren&ccedil;a que s&atilde;o crist&atilde;os que se ignoram.<\/p>\n<p><strong>Nota Biogr&aacute;fica<\/p>\n<p><\/strong>Ant&oacute;nio Teixeira Fernandes, nascido em 1939, doutorado em Sociologia pela Universidade Gregoriana (Roma), &eacute; considerado um dos mais importantes cientistas sociais portugueses, com uma obra publicada numerosa e de grande qualidade.<\/p>\n<p>Funda, em 1985, j&aacute; com uma experi&ecirc;ncia de Professor Catedr&aacute;tico, o curso de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mais tarde, em 1989, o Instituto de Sociologia, unindo num mesmo projecto doc&ecirc;ncia e investiga&ccedil;&atilde;o, para al&eacute;m da cria&ccedil;&atilde;o de uma revista de sociologia.<\/p>\n<p>Exerceu ainda as fun&ccedil;&otilde;es de Presidente do Conselho Cient&iacute;fico da Faculdade de Letras, de 1987 a 1991 e de Delegado Nacional, por nomea&ccedil;&atilde;o governamental, no Comit&eacute; para a Investiga&ccedil;&atilde;o Socioecon&oacute;mica Aplicada, em Bruxelas, de 1994 a 1997.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Teixeira Fernandes aborda o \u00abcombate travado pelo Estado, contra a Igreja, durante a Primeira Rep\u00fablica\u00bb. 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