{"id":45652,"date":"2010-06-01T11:52:25","date_gmt":"2010-06-01T11:52:25","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/06\/01\/a-primeira-republica-e-fatima\/"},"modified":"2010-06-01T11:52:25","modified_gmt":"2010-06-01T11:52:25","slug":"a-primeira-republica-e-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-primeira-republica-e-fatima\/","title":{"rendered":"A Primeira Rep\u00fablica e F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;Os eventos de F&aacute;tima adquirem a sua particular relev&acirc;ncia &ndash; embora transcendam a situa&ccedil;&atilde;o concreta em que ocorrem &ndash; no contexto das transforma&ccedil;&otilde;es em curso em Portugal e na Europa da &eacute;poca (&hellip;). Assistia-se, por toda a parte, a profundas transforma&ccedil;&otilde;es de ordem existencial. Estava em curso a revolu&ccedil;&atilde;o industrial, dando origem a burguesias bem diferenciadas (&hellip;). Como a hist&oacute;ria &eacute; o lugar da cria&ccedil;&atilde;o dos contextos de sentido, as vis&otilde;es do mundo desses segmentos da popula&ccedil;&atilde;o, em correspond&ecirc;ncia com a sua concreta existencial, tendem a afirmar-se como dominantes, com vontade de apagar todas as demais mentalidades que se lhes opunham ou se revelem contr&aacute;rias (&#8230;).<\/p>\n<p>Numa primeira fase, a rep&uacute;blica trava uma batalha aberta contra a Igreja no campo pol&iacute;tico e jur&iacute;dico. A luta centrou-se &agrave; volta de duas principais quest&otilde;es: a cria&ccedil;&atilde;o das &ldquo;associa&ccedil;&otilde;es cultuais&rdquo; e as pens&otilde;es a conceder ao clero. O afrontamento entre o Estado e a Igreja foi aqui aberto e directo. Se o Estado afrontou a Igreja, a Igreja afrontou o Estado1 (&hellip;).<\/p>\n<p>A quest&atilde;o n&atilde;o era, todavia, unicamente pol&iacute;tica, mas s&oacute;cio-cultural. N&atilde;o se tratava apenas de substituir as estruturas pol&iacute;ticas, mas de operar uma verdadeira mudan&ccedil;a de mentalidades. O Estado que pretendia separar-se da Igreja, procurava a laicidade, mas para vencer as resist&ecirc;ncias que encontrava pela frente, entregava-se ao laicismo. A laicidade &eacute; um conceito que tem a ver com o Estado e n&atilde;o com a Igreja nem com a sociedade civil (&hellip;). &Eacute; neste novo plano s&oacute;cio-cultural que F&aacute;tima aparece como o principal teatro de guerra desencadeado pela Primeira Rep&uacute;blica (&hellip;). A luta configura-se e a campanha desenrola-se contra F&aacute;tima no quadro destas diversas coordenadas.<\/p>\n<p>Realizada a primeira &ldquo;Apari&ccedil;&atilde;o&rdquo;, em 13 de Maio de 1917, logo os meios de comunica&ccedil;&atilde;o social afectos &agrave; ma&ccedil;onaria, ao livre pensamento e ao republicanismo entram em ac&ccedil;&atilde;o para denunciarem o fanatismo em marcha e para alertarem os poderes pol&iacute;ticos. Mostram-se atentos e extremamente vigilantes.<\/p>\n<p>Em 13 de Agosto de 1917, segundo o jornal Liberdade (18-8-1917), o Administrador de Vila Nova de Our&eacute;m, acompanhado de um oficial da Administra&ccedil;&atilde;o, dirigiu-se a casa dos pais dos pastorinhos, procede ao seu sequestro, seguido da sua deten&ccedil;&atilde;o na sede do concelho (&hellip;). A Apari&ccedil;&atilde;o de 13 de Outubro de 1917 veio tornar relativamente irrevers&iacute;vel a quest&atilde;o. (&hellip;) Al&eacute;m disso, tudo se realizava em obedi&ecirc;ncia a um calend&aacute;rio previamente definido por Nossa Senhora (&hellip;).<\/p>\n<p>Na noite de 23 de Outubro desse ano de 1917, alguns carbon&aacute;rios ou livres pensadores de Santar&eacute;m procederam &agrave; transfer&ecirc;ncia da Cova da Iria para Santar&eacute;m do tronco da azinheira sobre a qual Nossa Senhora aparecera e de alguns objectos a&iacute; colocados pelos peregrinos (&hellip;)<\/p>\n<p>F&aacute;tima emergia igualmente como o espa&ccedil;o onde se exprimia, por excel&ecirc;ncia, o conflito entre a raz&atilde;o e a cren&ccedil;a, entre a ci&ecirc;ncia e a f&eacute;. Este conflito vinha j&aacute; de tr&aacute;s (&hellip;). O argumento usado recorrentemente pelas correntes ideol&oacute;gicas era a lei da separa&ccedil;&atilde;o e a necessidade da sua aplica&ccedil;&atilde;o (&hellip;).<\/p>\n<p>Entre sobretudo 1920 e finais de 1924, a ac&ccedil;&atilde;o dos actores pol&iacute;ticos torna-se mais directa, intensa e violenta. O Governador Civil de Santar&eacute;m ordena a proibi&ccedil;&atilde;o da peregrina&ccedil;&atilde;o de 13 de Maio de 1920, por ordem do ministro do interior. Entra ent&atilde;o em ac&ccedil;&atilde;o a for&ccedil;a armada, nomeadamente a Guarda Nacional Republicana, ocupando as estradas, de modo a impedir o acesso &agrave; Cova da Iria (&hellip;).<\/p>\n<p>A capelinha das Apari&ccedil;&otilde;es &eacute; dinamitada em 6 de Mar&ccedil;o de 1922. O Governo, nessa altura, procura investigar os autores de t&atilde;o hediondo crime. A s&eacute;rie de atentados ocorridos na sociedade, ao tempo, criava grande insatisfa&ccedil;&atilde;o entre a popula&ccedil;&atilde;o (&hellip;).<\/p>\n<p>O recrudescimento das medidas persecut&oacute;rias dos cat&oacute;licos e nomeadamente impeditivas da peregrina&ccedil;&atilde;o &agrave; Cova da Iria davam entretanto origem a algumas express&otilde;es de medo. N&atilde;o obstante a aflu&ecirc;ncia maci&ccedil;a &ndash; ou talvez por causa disso &ndash;, os poderes constitu&iacute;dos procuram opor-lhe um dique que cortasse o acesso, colocando um aparato policial &agrave; volta de F&aacute;tima. Certo temor se ter&aacute; infiltrado nos esp&iacute;ritos de alguns, paralisando os seus movimentos (&hellip;).<\/p>\n<p>A repress&atilde;o exercida sobre os cat&oacute;licos parece atingir, por ocasi&atilde;o do 13 de Outubro desse ano de 1924, um dos seus pontos mais intensos e violentos. Se para os republicanos se tratava de impedir a perturba&ccedil;&atilde;o da ordem p&uacute;blica, cujo receio desejavam afastar, para os cat&oacute;licos em causa estava, segundo as Novidades (13-10-1924), a defesa de uma Igreja livre do &oacute;dio e da sombra blasfema dos seus inimigos. Mas enquanto a repress&atilde;o era anunciada, agia-se depois discretamente (&hellip;).<\/p>\n<p>Assiste-se, nessa altura, a uma aut&ecirc;ntica arrancada n&atilde;o contra o regime, mas contra as suas arbitrariedades. O movimento desenvolve-se a partir do Centro Cat&oacute;lico. Ter&aacute; chegado a hora de n&atilde;o se consentir mais a brutalidade do poder, tida como &ldquo;mais uma afronta &agrave; consci&ecirc;ncia do pa&iacute;s&rdquo; (&hellip;).<\/p>\n<p>As manifesta&ccedil;&otilde;es de protesto eram de molde a conduzir &agrave; proposta de uma de duas poss&iacute;veis hip&oacute;teses de resolu&ccedil;&atilde;o do conflito, a contesta&ccedil;&atilde;o directa do regime pol&iacute;tico vigente ou o recurso &agrave; desobedi&ecirc;ncia civil. A primeira via de sa&iacute;da foi adoptada pelo jornal O Dia (13-10-1924). Contesta, todavia, a posi&ccedil;&atilde;o seguida por este jornal a generalidade da imprensa cat&oacute;lica, aconselhando antes a desobedi&ecirc;ncia civil, no estrito campo da luta pela substitui&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o (&hellip;).<\/p>\n<p>A Igreja mostrava-se, nessa altura, disposta a submeter-se &agrave; lei comum, liberta de leis opressoras, fossem elas de separa&ccedil;&atilde;o, fossem elas concordat&aacute;rias, nomeadamente quando celebradas em liberdade diminu&iacute;da ou interpretadas arbitrariamente pelo Estado. O grande des&iacute;gnio a alcan&ccedil;ar seria o da liberdade da Igreja, des&iacute;gnio que a mesma Igreja n&atilde;o alvejava tanto como quando se sentia aprisionada (&hellip;).<\/p>\n<p>O Estado desenvolvia uma pol&iacute;tica anti-religiosa, permeada de agressividade e de viol&ecirc;ncia (&hellip;). Tr&ecirc;s presidentes do Governo mostraram-se particularmente activos na repress&atilde;o dos eventos de F&aacute;tima, com interven&ccedil;&otilde;es directas, Ant&oacute;nio Maria Baptista, Ant&oacute;nio Maria da Silva, que durante algum tempo sobra&ccedil;ou igualmente a pasta do Interior, e Alfredo Rodrigues Gaspar (&hellip;).<\/p>\n<p>Portugal conheceu, de facto, nos in&iacute;cios do s&eacute;culo XX, um dos combates mais acesos travados na Europa contra o Catolicismo.<\/p>\n<p>Excertos de uma confer&ecirc;ncia proferida em Coimbra por&nbsp;Ant&oacute;nio Teixeira Fernandes<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p>(1) Ant&oacute;nio Teixeira Fernandes, Afrontamento Pol&iacute;tico-Religioso na Primeira Rep&uacute;blica, Porto, Estrat&eacute;gias Criativas, 2009.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Os eventos de F&aacute;tima adquirem a sua particular relev&acirc;ncia &ndash; embora transcendam a situa&ccedil;&atilde;o concreta em que ocorrem &ndash; no contexto das transforma&ccedil;&otilde;es em curso em Portugal e na Europa da &eacute;poca (&hellip;). Assistia-se, por toda a parte, a profundas transforma&ccedil;&otilde;es de ordem existencial. Estava em curso a revolu&ccedil;&atilde;o industrial, dando origem a burguesias bem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,174,187,203,207],"class_list":["post-45652","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-do-porto","tag-europa","tag-fatima"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45652"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45652\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}