{"id":45550,"date":"2010-05-25T11:59:22","date_gmt":"2010-05-25T11:59:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/05\/25\/cultura-como-sabedoria\/"},"modified":"2010-05-25T11:59:22","modified_gmt":"2010-05-25T11:59:22","slug":"cultura-como-sabedoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cultura-como-sabedoria\/","title":{"rendered":"Cultura como \u00absabedoria\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>  <!--more--> <\/p>\n<p>As palavras proferidas por Bento XVI no Encontro com o &#8220;mundo da cultura&#8221; no Centro Cultural de Bel&eacute;m em Lisboa constituem motivo de j&uacute;bilo e reflex&atilde;o aprofundada. Sob os ecos do pensamento de Santo Agostinho, o Papa refere uma tens&atilde;o, que por vezes chega ao conflito, entre o presente e a tradi&ccedil;&atilde;o. O presente surge absolutizado pelo mundo, desligado do patrim&oacute;nio cultural do passado e sem a inten&ccedil;&atilde;o de &#8220;delinear o futuro&#8221;. Partindo do conhecimento das nossas ra&iacute;zes culturais e hist&oacute;ricas, o Papa lembrou a &#8220;forte tradi&ccedil;&atilde;o&#8221; do &#8220;Povo Portugu&ecirc;s&#8221;, marcada por tr&ecirc;s factores: a milen&aacute;ria influ&ecirc;ncia crist&atilde;; um sentido de responsabilidade global e a afirma&ccedil;&atilde;o da aventura dos Descobrimentos e do entusiasmo mission&aacute;rio. Invocou, assim, a &#8220;partilha do dom da f&eacute; com outros povos&#8221; e a afirma&ccedil;&atilde;o de um ideal de universalidade e de fraternidade inspirador de uma &#8220;aventura comum&#8221;. E se &eacute; verdade que falou da influ&ecirc;ncia do laicismo, n&atilde;o deixou de enfatizar a exist&ecirc;ncia de um universo &eacute;tico e de um &#8220;ideal&#8221; a cumprir no relacionamento com o resto do mundo. No fundo, importa termos consci&ecirc;ncia do conflito &#8211; &#8220;entre a tradi&ccedil;&atilde;o e o presente&#8221; &#8211; que se exprime numa crise da verdade. &#8220;Um povo que deixa de saber qual &eacute; a sua verdade fica perdido nos labirintos do tempo e da hist&oacute;ria, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados&#8221;. As sociedades modernas alimentam naturalmente no seu seio essas tens&otilde;es entre o servi&ccedil;o da sociedade e a sabedoria, portadora de um &#8220;sentido da vida e da hist&oacute;ria&#8221; &#8211; e &eacute; preciso retirar consequ&ecirc;n-cias positivas dessa natural tens&atilde;o.<\/p>\n<p>Com Santo Agostinho, s&atilde;o os tr&ecirc;s presentes que se confrontam e completam: o presente passado e a tradi&ccedil;&atilde;o recebida das gera&ccedil;&otilde;es que nos antecederam, o presente presente que obriga &agrave; tomada de consci&ecirc;ncia da contemporaneidade e o presente futuro que comporta a esperan&ccedil;a. Do que se trata &eacute; de compreender que a fidelidade &agrave; pessoa humana exige a fidelidade &agrave; verdade, &uacute;nica garantia de liberdade. E de que Verdade fala Bento XVI? De uma Verdade divina, que se liga ao &#8220;Logos&#8221; eterno, ao Verbo feito carne, a Deus feito pessoa. Fala-nos, por&eacute;m, de uma leitura da verdade, que obriga a agir para compreender &#8211; &#8220;a coniv&ecirc;ncia da Igreja, na sua ades&atilde;o firme ao car&aacute;cter perene da &#8216;verdade&#8217;, com respeito por outras verdades ou com as verdades dos outros, ligando essa busca a uma aprendizagem, que continua&#8221;. E &eacute; sintom&aacute;tico que, com o mundo da cultura, o Papa fale de uma aprendizagem com &#8220;outras verdades&#8221; e com &#8220;as verdades dos outros&#8221;. E foi evidente a preocupa&ccedil;&atilde;o de Bento XVI falar para fora e n&atilde;o para dentro da Igreja &#8211; abrindo horizontes e assumindo claramente um di&aacute;logo com a modernidade. Afinal, a liga&ccedil;&atilde;o entre f&eacute; e raz&atilde;o obriga ao lan&ccedil;amento dessas pontes, ou n&atilde;o fora o sucessor de Pedro o Pontifex maximus, o grande art&iacute;fice de pontes duradouras de di&aacute;logo e de respeito, de liberdade e dignidade. Referindo-se a S. Jo&atilde;o, e citando a enc&iacute;clica &#8220;Caritas in Veritate&#8221; o Papa diz-nos que &#8220;a fidelidade &agrave; pessoa humana exige a fidelidade &agrave; verdade, a &uacute;nica que &eacute; garantia de liberdade e da possibilidade de um desenvolvimento humano integral&#8221;. E se a Verdade, para os crist&atilde;os, &eacute; divina, o certo &eacute; que Jesus Cristo personifica a humanidade e obriga &agrave; tomada de consci&ecirc;ncia da diversidade, do pluralismo e dos outros. Assim, a liberdade obriga a trilhar v&aacute;rios caminhos &#8211; a partir do &#8220;car&aacute;cter perene da verdade&#8221; e do respeito dialogante pelas diferen&ccedil;as. E a &#8220;Igreja deve entrar em di&aacute;logo com o mundo em que vive&#8221;, como afirmou Paulo VI. Essa atitude dial&oacute;gica deve, por&eacute;m, fazer-se sem ambiguidades e com respeito por todos. Demarcando terreno relativamente ao relativismo, Ratzinger fala de &#8220;diversidade cultural&#8221;, da &#8220;exist&ecirc;ncia da cultura do outro&#8221; e de enriquecimento atrav&eacute;s do bem, da verdade e da beleza.<\/p>\n<p>E, ao citar Cam&otilde;es, na invoca&ccedil;&atilde;o do dar &#8220;novos mundos ao mundo&#8221;, falou dos portugueses como &#8220;obreiros da cultura em todas as suas formas&#8221; e desafiou os cultores do pensamento, da ci&ecirc;ncia e da arte a n&atilde;o terem medo de se confrontar com a fonte primeira e &uacute;ltima da beleza. Mas, mais do que isso, continuando a falar para fora, invocou enfaticamente o Conc&iacute;lio Vaticano II e &#8220;uma renovada consci&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica&#8221;, com vista a uma &#8220;civiliza&ccedil;&atilde;o do amor&#8221;, capaz de assumir a modernidade, incorporando cr&iacute;ticas, superando-as e evitando &#8220;erros e becos sem sa&iacute;da&#8221;. &Eacute; por isso oportuno &#8220;levar as pessoas a olharem para al&eacute;m das coisas pen&uacute;ltimas e porem-se &agrave; procura das &uacute;ltimas&#8221;. Isto, sem esquecer quem come&ccedil;a pelas pen&uacute;ltimas e por a&iacute; trilha o caminho. E terminou com uma imagem felic&iacute;ssima a falar dos navegadores do oceano, e a apelar aos criadores culturais como &#8220;navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza&#8221;. &#8220;Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza&#8221;.<\/p>\n<p>Guilherme d&#8217;Oliveira Martins<br \/>Presidente do CNC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120],"class_list":["post-45550","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45550"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45550\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}