{"id":45547,"date":"2010-05-25T11:53:30","date_gmt":"2010-05-25T11:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/05\/25\/bento-xvi-e-a-crise\/"},"modified":"2010-05-25T11:53:30","modified_gmt":"2010-05-25T11:53:30","slug":"bento-xvi-e-a-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bento-xvi-e-a-crise\/","title":{"rendered":"Bento XVI e a crise"},"content":{"rendered":"<p>Desde 2008 que a maioria dos pa&iacute;ses desenvolvidos se encontra numa crise econ&oacute;mica, financeira, social e, tamb&eacute;m, pol&iacute;tica e moral. Ser&aacute; dif&iacute;cil separar as v&aacute;rias dimens&otilde;es da crise, uma vez que elas s&atilde;o, simultaneamente, causa e efeito umas das outras e devido a terem causas comuns. Contudo, manifestam-se de forma distinta e todas t&ecirc;m, tamb&eacute;m, causas que lhes s&atilde;o espec&iacute;ficas. Vejamos.<\/p>\n<p>No que respeita &agrave; crise econ&oacute;mica, ela traduz-se em menor crescimento econ&oacute;mico, face a anos anteriores ou a pa&iacute;ses compar&aacute;veis. Geralmente, uma quebra no crescimento econ&oacute;mico tem na g&eacute;nese uma quebra no investimento (nacional ou estrangeiro), na capacidade de exportar e\/ou no consumo interno de bens ou servi&ccedil;os. O investimento depende de vari&aacute;veis como a facilidade de obten&ccedil;&atilde;o de financiamento, o bom funcionamento da justi&ccedil;a ou dos designados custos de contexto. J&aacute; a capacidade de exportar depende do n&iacute;vel de competitividade do pa&iacute;s, o que depende, entre outros, do valor da moeda, da produtividade e da capacidade de inovar.<\/p>\n<p>J&aacute; uma crise financeira traduz-se em menor disponibilidade de recursos financeiros, seja porque os n&iacute;veis de poupan&ccedil;a diminuem, seja devido ao aumento das taxas de juro a que est&atilde;o sujeitas as institui&ccedil;&otilde;es nacionais p&uacute;blicas ou privadas. Ora, o valor das taxas de juro encontra-se profundamente ligado ao n&iacute;vel de risco, i.e. &agrave; probabilidade de incumprimento, bem como &agrave; confian&ccedil;a no desempenho futuro. Classificar os pa&iacute;ses e as institui&ccedil;&otilde;es, em fun&ccedil;&atilde;o do seu n&iacute;vel de risco, &eacute; o papel das ag&ecirc;ncias de &ldquo;rating&rdquo;, as quais ponderam indicadores como: crescimento econ&oacute;mico, d&eacute;fice or&ccedil;amental, d&iacute;vida externa e d&iacute;vida p&uacute;blica.<\/p>\n<p>No que respeita &agrave; dimens&atilde;o social da crise, ela traduz-se em aumento do desemprego, ou seja, em mais pessoas em risco de pobreza ou exclus&atilde;o social, o que conduz a uma deteriora&ccedil;&atilde;o da qualidade de vida e do bem-estar, bem como a maiores tens&otilde;es sociais e a um aumento dos encargos do Estado com as transfer&ecirc;ncias sociais.<\/p>\n<p>Quanto &agrave; crise pol&iacute;tica, ela est&aacute; bem expressa nos n&iacute;veis deprimentes de participa&ccedil;&atilde;o e confian&ccedil;a nos pol&iacute;ticos, nos governos e nas institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas.<\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, e no que respeita &agrave; dimens&atilde;o moral da crise, em oposi&ccedil;&atilde;o a um capitalismo positivista, Bento XVI apela, na sua &uacute;ltima enc&iacute;clica &ldquo;Caritas in Veritate&rdquo;, a um capitalismo &eacute;tico e solid&aacute;rio, a uma &ldquo;economia da comunh&atilde;o&rdquo;, pois &ldquo;Deus deve encontrar lugar tamb&eacute;m na esfera p&uacute;blica.&rdquo;<\/p>\n<p>Em s&iacute;ntese, por um lado, o combate &agrave;(s) crise(s) depende da nossa capacidade individual e colectiva para inovar, empreender, trabalhar melhor, gerar confian&ccedil;a e n&atilde;o viver acima das possibilidade e, por outro, em assegurarmos que a sociedade assenta em valores humanistas e solid&aacute;rios, que &eacute; o bem comum a dar sentido ao desenvolvimento.<\/p>\n<p>Ora, de que depende a nossa ades&atilde;o a estes &ldquo;princ&iacute;pios&rdquo; de combate &agrave; crise? Acima de tudo, de confian&ccedil;a &ndash; de confian&ccedil;a no futuro, em n&oacute;s pr&oacute;prios e nos outros. O medo e o pessimismo s&atilde;o paralisantes, diminuem-nos, j&aacute; a confian&ccedil;a e a esperan&ccedil;a s&atilde;o mobilizadoras, aumentam-nos.<\/p>\n<p>Com confian&ccedil;a, as pessoas comuns podem fazer coisas fora do comum. Sem confian&ccedil;a, come&ccedil;a por n&atilde;o ser vi&aacute;vel a ades&atilde;o &agrave; ideia de um contrato social, fundadora do Estado e da democracia. Ou seja, ningu&eacute;m estar&aacute; disposto a abdicar de uma parte da sua soberania, delegando-a em terceiros, as leis dificilmente ser&atilde;o respeitadas e ser&aacute; imposs&iacute;vel pedir sacrif&iacute;cios &agrave;s pessoas ou mobiliz&aacute;-las seja para o que for. Em suma, sem confian&ccedil;a n&atilde;o h&aacute; legitimidade e sem legitimidade n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel governar. Por isso Obama apelou a &ldquo;uma nova era de responsabilidade&rdquo; na sua tomada de posse.<\/p>\n<p>Cavaco Silva, no seu discurso de boas-vindas a Bento XVI, disse que &ldquo;neste momento, os homens precisam de quem traga uma mensagem de esperan&ccedil;a &agrave; sua sede de justi&ccedil;a e de solidariedade.&rdquo; Por si s&oacute;, uma mensagem de esperan&ccedil;a j&aacute; seria um contributo importante para o combate &agrave; crise. Mas julgo que a visita de Bento XVI nos deu um contributo maior. Num contexto de crise espiritual &ndash; e ser&aacute; esta, porventura, a raiz de todas as outras &ndash;, a visita de Bento XVI mobilizou cada cat&oacute;lico, sen&atilde;o mesmo cada portugu&ecirc;s, para dias de rara beleza e verdade, de desafio e inspira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Como dizia uma rapariga, depois da missa celebrada na Avenida dos Aliados, quando questionada por um jornalista acerca do que sentiu, &ldquo;foi como se o Papa tivesse olhado para cada um de n&oacute;s.&rdquo; Pois &eacute; nesse olhar que come&ccedil;a o fim da crise &ndash; porque nos devolve a confian&ccedil;a de Pedro e nos lembra que a hist&oacute;ria de cada um &eacute; &uacute;nica, mas o nosso destino comum.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Wengorovius Meneses<br \/>TESE<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 2008 que a maioria dos pa&iacute;ses desenvolvidos se encontra numa crise econ&oacute;mica, financeira, social e, tamb&eacute;m, pol&iacute;tica e moral. 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