{"id":45152,"date":"2010-05-10T00:14:34","date_gmt":"2010-05-10T00:14:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/05\/10\/o-povo-portugues-esta-a-abdicar-de-saber-quem-e\/"},"modified":"2010-05-10T00:14:34","modified_gmt":"2010-05-10T00:14:34","slug":"o-povo-portugues-esta-a-abdicar-de-saber-quem-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-povo-portugues-esta-a-abdicar-de-saber-quem-e\/","title":{"rendered":"O povo portugu\u00eas est\u00e1 a abdicar de saber quem \u00e9!"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo analisa as transforma\u00e7\u00f5es sociais e eclesiais e a oportunidade que constitui a visita de Bento XVI a Portugal. <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia &ndash; Que oportunidade constitui esta visita de Bento XVI a Portugal?<\/em><\/p>\n<p>D. Jos&eacute; da Cruz Policarpo &ndash; &Eacute; a oportunidade de estar com o Papa, o que n&atilde;o &eacute; frequente! &Eacute; uma novidade dos &uacute;ltimos 50 anos: as igrejas de todo o Mundo podem estar fisicamente com o Santo Padre. E isso &eacute; sempre importante porque o Papa &eacute; sempre o Papa, independentemente da pessoa.<\/p>\n<p>Para a Igreja o Papa &eacute; um sacramento, desenvolve um minist&eacute;rio &uacute;nico, o minist&eacute;rio de Pedro, &eacute; o garante a unidade. E a unidade n&atilde;o &eacute; s&oacute; estarmos bem uns com os outros. Trata-se de garantir a unidade na f&eacute;, por exemplo, e que hoje &eacute; um problema dif&iacute;cil em virtude da variedade de opini&atilde;o, do fen&oacute;meno &#8211; que j&aacute; existe desde o in&iacute;cio da Igreja mas que hoje &eacute; mais abundante &#8211; das pessoas usarem o seu direito de pensar a f&eacute;. Esta unidade da f&eacute; &eacute; absolutamente fundamental. E este Papa, al&eacute;m do minist&eacute;rio que &eacute; o dele, a gra&ccedil;a pr&oacute;pria do minist&eacute;rio de Pedro, &eacute; um homem muito preparado para isto, pela sua forma&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica e pelo estatuto que tem de grande te&oacute;logo, talvez dos maiores de todos os tempos.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Inscreve-se nessa constru&ccedil;&atilde;o da unidade o di&aacute;logo com os anglicanos?<\/em><\/p>\n<p>CP &ndash; O problema ecum&eacute;nico &eacute; um problema velho na Igreja, uma das chagas da Igreja. E &nbsp;mostra que esta unidade n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. Ali&aacute;s, a Igreja sentiu desde o princ&iacute;pio esse desafio, que &eacute; tamb&eacute;m um desafio da Humanidade. Hoje, com a globaliza&ccedil;&atilde;o e com o mundo contempor&acirc;neo, &eacute; um desafio mais premente: fazer a unidade apesar das diferen&ccedil;as (&eacute; mais f&aacute;cil fazer unidade na uniformidade, serem todos iguais, pensarem todos da mesma maneira, comportarem-se todos da mesma maneira).<\/p>\n<p>A Igreja sempre aceitou este desafio! Infelizmente ao longo dos s&eacute;culos n&atilde;o foi f&aacute;cil e n&atilde;o foi poss&iacute;vel manter essa unidade na diferen&ccedil;a. As diferen&ccedil;as autonomizaram-se, aconteceram separa&ccedil;&otilde;es e cismas. Esse &eacute; certamente um dos desafios que se p&otilde;em &agrave; Igreja desde que as separa&ccedil;&otilde;es come&ccedil;aram a acontecer. E come&ccedil;aram a acontecer muito cedo.<\/p>\n<p>H&aacute; uma coisa que, ao mesmo tempo, nos faz pensar e &eacute; uma interpela&ccedil;&atilde;o para a Igreja Cat&oacute;lica: verificar que a unidade entre essas diferen&ccedil;as &eacute; mais dif&iacute;cil ainda do que deles com a Igreja Cat&oacute;lica. A Igreja Cat&oacute;lica, o Papa concretamente, continua a ser o grande p&oacute;lo, a grande hip&oacute;tese! Todos dialogam com o Papa. Mas n&atilde;o dialogam todos uns com os outros!<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O minist&eacute;rio do Sucessor de Pedro est&aacute; tamb&eacute;m na origem de muitas separa&ccedil;&otilde;es?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; As grandes separa&ccedil;&otilde;es dentro da Igreja tiveram sempre na sua origem a dificuldade de aceitar o minist&eacute;rio de Pedro. A primeira grande separa&ccedil;&atilde;o foi a de Constantinopla, no s&eacute;culo XI, e &eacute; sempre a dificuldade de aceitar que a &uacute;ltima palavra &eacute; a de Pedro, do sucessor de Pedro.<\/p>\n<p>Hoje, penso que toda a gente olha para o Papa com simpatia.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O Papa Jo&atilde;o Paulo II lan&ccedil;ou o debate acerca do minist&eacute;rio do sucessor de Pedro. Esse &eacute; um debate que est&aacute; em aberto na Igreja?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; N&atilde;o &eacute; propriamente um debate.<\/p>\n<p>O Papa Jo&atilde;o Paulo II foi sens&iacute;vel a sugest&otilde;es que surgiam no &acirc;mago do processo ecum&eacute;nico, sobretudo nas Igrejas Ortodoxas, que estariam dispostas a uma certa unidade global se o Papa n&atilde;o fosse o que &eacute;.<\/p>\n<p>Foi por acaso na missa do dia em que fui cardeal que Jo&atilde;o Paulo II lan&ccedil;ou esse desafio: pediu-nos que o ajud&aacute;ssemos e reflectir em novas formas de exerc&iacute;cio do minist&eacute;rio de Pedro. Mas depois terminou a frase dizendo: &ldquo;mas como &eacute; que podemos renunciar a mil anos de exerc&iacute;cio indiscut&iacute;vel do minist&eacute;rio de Pedro?&rdquo;<\/p>\n<p>&Eacute; evidente que a Igreja Cat&oacute;lica n&atilde;o pode renunciar ao minist&eacute;rio de Pedro como a &uacute;ltima palavra decisiva em quest&otilde;es de f&eacute;, de compreens&atilde;o do que &eacute; a Igreja. N&atilde;o creio que seja uma certeza que est&aacute; em debate. A Igreja Cat&oacute;lica est&aacute; aberta a formas novas desse exerc&iacute;cio. At&eacute; em comunh&atilde;o com os outros irm&atilde;os, por exemplo as grandes igrejas ortodoxas.<\/p>\n<p>J&aacute; surgiu uma sugest&atilde;o, e eu pr&oacute;prio tamb&eacute;m a apoio: que se realizasse uma esp&eacute;cie de s&iacute;nodo entre os grandes chefes das Igrejas para que as grandes quest&otilde;es fossem vistas em conjunto. Mas desde que o Papa seja o Papa!<\/p>\n<p><strong>Bento XVI pela esperan&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; O Papa vem a Portugal numa altura em que a sociedade est&aacute; a atravessar uma crise econ&oacute;mica e financeira que poder&aacute; potenciar um clima de contesta&ccedil;&atilde;o como j&aacute; existe na Gr&eacute;cia. Que sinais de esperan&ccedil;a espera que a viagem de Bento XVI possa trazer a Portugal?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; Na medida que as experi&ecirc;ncias espirituais fortes existam elas t&ecirc;m influ&ecirc;ncia na viv&ecirc;ncia das dificuldades que a sociedade atravessa.<\/p>\n<p>Nesse sentido, n&atilde;o s&oacute; a vinda do Papa mas uma seriedade na viv&ecirc;ncia da f&eacute;.<\/p>\n<p>&Eacute; um facto que o sofrimento torna as pessoas mais sens&iacute;veis &agrave; dimens&atilde;o espiritual. Oxal&aacute; Portugal e a Europa possam perceber isso: que as dificuldades nos abrem, nos fa&ccedil;am fazem perceber que &ldquo;nem s&oacute; de p&atilde;o vive o Homem&rdquo;, como diz o Evangelho, que h&aacute; outras dimens&otilde;es que s&atilde;o mais profundamente humanas que as materiais, que nos d&atilde;o for&ccedil;a, luz e resist&ecirc;ncia para vencer as dificuldades.<\/p>\n<p>De resto os dois fen&oacute;menos n&atilde;o t&ecirc;m necessariamente converg&ecirc;ncias um com o outro. O Papa vem a um pa&iacute;s que est&aacute; com algumas dificuldades, j&aacute; foi a outro que estava com maiores. A Igreja tem a&iacute; uma palavra de calma, de esperan&ccedil;a e de ilumina&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da sua Doutrina Social.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que diferen&ccedil;as se descobrem na sociedade de hoje em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;quela visitada pelo Papa Jo&atilde;o Paulo II?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; N&atilde;o encontro assim tantas diferen&ccedil;as&hellip; As diferen&ccedil;as que existem decorrem da evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade e da cultura.<\/p>\n<p>Do ponto de vista das quest&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas h&aacute; diferen&ccedil;as: entramos na zona Euro, adoptamos par&acirc;metros e modelos de bem-estar que n&atilde;o estavam acess&iacute;veis no ritmo normal ao crescimento de Portugal.<\/p>\n<p>O acesso a determinados patamares de bem-estar tem duas caracter&iacute;sticas: por um lado dificilmente s&atilde;o ao mesmo tempo para toda a gente o que cria clivagens na sociedade; por outro lado, cria necessidades e par&acirc;metros de &ldquo;apetite&rdquo; que, se n&atilde;o s&atilde;o satisfeitos, criam muito mal-estar.<\/p>\n<p>O que n&oacute;s hoje estamos a sofrer s&atilde;o as doen&ccedil;as pr&oacute;prias de uma sociedade desenvolvida. Nesse aspecto sim: estamos num outro patamar de progresso, mas tamb&eacute;m de problemas, diferente do que est&aacute;vamos em 1982, a primeira vez que o Papa veio a Portugal. &Eacute; bom que o povo portugu&ecirc;s tenha consci&ecirc;ncia: o que estamos a viver s&atilde;o as consequ&ecirc;ncias e, de certo modo, as frustra&ccedil;&otilde;es de um sistema em que estamos metidos e que tamb&eacute;m tem as suas vantagens.<strong> <\/strong><\/p>\n<p>O que h&aacute; de novo hoje em rela&ccedil;&atilde;o a 1982 e a 1991, quando Santo Padre veio a segunda vez, &eacute; o fen&oacute;meno da globaliza&ccedil;&atilde;o. N&oacute;s somos muito mais interdependentes. A maioria das pessoas n&atilde;o o sente, mas isso tem uma consequ&ecirc;ncia real na forma&ccedil;&atilde;o de opini&atilde;o, na maneira como as pessoas reagem aos problemas&hellip;<\/p>\n<p>O Santo Padre pode ajudar-nos a termos calma e serenidade porque, desde que o povo portugu&ecirc;s tenha consci&ecirc;ncia na verdade dos problemas reais e dos caminhos necess&aacute;rios para os superar, eu n&atilde;o acredito que o povo portugu&ecirc;s n&atilde;o se una para os resolver. Estamos num patamar j&aacute; muito avan&ccedil;ado da civiliza&ccedil;&atilde;o. Quando ou&ccedil;o falar em todas crises, faz-me impress&atilde;o que as pessoas n&atilde;o digam, ao mesmo tempo, que estamos entre os 21 pa&iacute;ses mais desenvolvidos do Mundo!<\/p>\n<p>Na &eacute;poca de globaliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podemos ver os nossos problemas a olhar para o nosso umbigo, temos que os situar no conjunto da Humanidade em que estamos inseridos e &#8211; repito a ideia &#8211; desde que os problemas sejam equacionados com objectividade e com verdade e o povo portugu&ecirc;s assuma que as solu&ccedil;&otilde;es apontadas s&atilde;o necess&aacute;rias, eu n&atilde;o acredito que o povo portugu&ecirc;s que, ao longo da sua hist&oacute;ria deu tantas provas de ser capaz de lutar contra as adversidades, que n&atilde;o o fa&ccedil;a.<\/p>\n<p>Eu penso que estas crises n&atilde;o s&oacute; super&aacute;veis como provocam o crescimento e o desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Diminu&iacute;mos o n&uacute;mero de crist&atilde;os que andam a fazer de conta<em> <\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; E a Igreja que hoje acolhe Bento XVI &eacute; uma Igreja muito diferente da que acolheu Jo&atilde;o Paulo II tendo em conta todos esses desenvolvimentos?<\/em><\/p>\n<p>CP &ndash; &Eacute; a mesma. A Igreja &eacute; um fen&oacute;meno que vive perfeitamente inserida no tempo, mas tem uma capacidade de resist&ecirc;ncia ao tempo. Porque tem uma mensagem de eternidade e acredita na vida eterna, quando muita gente n&atilde;o acredita. O que n&atilde;o &eacute; um pormenor: marca profundamente a maneira de estar no Mundo e de viver esta hist&oacute;ria em que n&oacute;s estamos inseridos.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; uma Igreja diferente. Mesmo numericamente. &Eacute; uma Igreja que sente hoje, talvez com mais acuidade, alguns desafios que j&aacute; nessa altura se punham. &Eacute; uma Igreja que ou se afirma pela autenticidade da sua f&eacute; ou tem pouca influ&ecirc;ncia no Mundo em que est&aacute; inserida. Diminu&iacute;mos o n&uacute;mero de crist&atilde;os que andam a fazer de conta! Temos de ser crist&atilde;os a s&eacute;rio.<\/p>\n<p>&Eacute; o desafio duma radicalidade e autenticidade, que sempre existiu. Encontramo-lo em todas as p&aacute;ginas do Evangelho e agora na nossa Igreja, no princ&iacute;pio do s&eacute;culo XXI, com o fen&oacute;meno de uma descristianiza&ccedil;&atilde;o e de uma seculariza&ccedil;&atilde;o muito intensa. N&oacute;s n&atilde;o estamos sozinhos! Vivemos numa sociedade onde existem outras for&ccedil;as que querem marcar a sua presen&ccedil;a, porventura dominadora em termos de compreens&atilde;o do Homem, de compreens&atilde;o da vida e da Hist&oacute;ria. &Eacute; a sociedade plural.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o ficamos de bra&ccedil;os cruzados. Queremos marcar a nossa vis&atilde;o do Homem e da vida numa sociedade onde h&aacute; outras vis&otilde;es do Homem e da vida. Esses desafios s&atilde;o porventura mais acutilantes hoje do que eram h&aacute; 30 anos.<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O Patriarcado de Lisboa passou por um projecto de evangeliza&ccedil;&atilde;o, o ICNE (Congresso Internacional para a Nova Evangeliza&ccedil;&atilde;o). Introduziu diferen&ccedil;as na vida da Igreja e na convic&ccedil;&atilde;o dos cat&oacute;licos?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; J&aacute; nessa altura do ICNE avisei os entusiastas da minha posi&ccedil;&atilde;o: que n&atilde;o estivessem &agrave; espera de resultados imediatos e vis&iacute;veis.<\/p>\n<p>Aconteceu uma sensibilidade nova &agrave; universalidade. Pela primeira vez a diocese de Lisboa sentiu-se irm&atilde; e em igualdade de circunst&acirc;ncias com Viena de &Aacute;ustria, com Paris, com Bruxelas, com Budapeste&hellip; Isso foi importante!<\/p>\n<p>H&aacute; um facto, que nunca mais esquecerei: um grupo de congressistas de Lisboa foi fiel e estive em todos os congressos. Isso foi uma experi&ecirc;ncia nova para a Igreja de Lisboa.<\/p>\n<p>Por outro lado, permanece a intui&ccedil;&atilde;o de que h&aacute; uma aten&ccedil;&atilde;o particular &agrave;s grandes cidades. Ser Igreja numa grande cidade n&atilde;o &eacute; a mesma coisa de uma diocese rural. Essa sensibilidade existiu. D&aacute; passos curtos. Mas n&oacute;s pr&oacute;prios, neste momento, estamos com processos de reflex&atilde;o pastoral que nos levam a admitir que, numa grande cidade, h&aacute; ritmos e esquemas que n&atilde;o s&atilde;o os mesmos das Caldas da Rainha ou de Alcoba&ccedil;a.<\/p>\n<p>Depois houve uma maior sensibilidade dada &agrave; miss&atilde;o e isso levou a que haja, ainda hoje, vigararias que organizam experi&ecirc;ncias mission&aacute;rias. E esta sensibilidade &agrave; miss&atilde;o cresceu e muitos milhares de pessoas, todos os anos, jovens e menos jovens e at&eacute; casais, fazem experi&ecirc;ncias mission&aacute;rias, quer c&aacute; dentro quer l&aacute; fora.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda intui&ccedil;&otilde;es de fundo, que quando aderimos ao programa j&aacute; t&iacute;nhamos, como a revis&atilde;o do que &eacute; ser crist&atilde;os, a forma&ccedil;&atilde;o dos crist&atilde;os e a participa&ccedil;&atilde;o dos leigos. Uma grande conquista do ICNE &eacute; uma consci&ecirc;ncia mais aguda de que a miss&atilde;o da Igreja &eacute; obra de todos e n&atilde;o s&oacute; dos bispos e padres.<\/p>\n<p>Isto j&aacute; &eacute; muito. Mas n&atilde;o se contabiliza. &Eacute; uma alma que se vai renovando.<\/p>\n<p><strong>Igreja em renova&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; &ldquo;&Eacute; preciso mudar o estilo de organiza&ccedil;&atilde;o da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Conc&iacute;lio Vaticano II&rdquo;. S&atilde;o palavras do Papa Bento XVI dirigidas ao episcopado portugu&ecirc;s na &uacute;ltima visita Ad Limina (em 2007). Que consequ&ecirc;ncias teve este desafio?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; Descobrimos posteriormente que o desafio que o Santo Padre nos lan&ccedil;ou tinha sido inspirado num outro discurso a uma outra confer&ecirc;ncia episcopal. Isso acontece!<\/p>\n<p>O Santo Padre disse-o e n&oacute;s levamo-lo a s&eacute;rio. Mas ele apareceu-nos, na altura, um pouco desajustado em rela&ccedil;&atilde;o aos nossos relat&oacute;rios (antes da visita <em>Ad Limina<\/em> n&oacute;s apresent&aacute;mos um longo relat&oacute;rio dos 5 anos da diocese. O meu tinha 160 p&aacute;ginas)<\/p>\n<p>Ainda em Roma n&oacute;s fizemos uma reuni&atilde;o onde eu pr&oacute;prio, a pedido do Presidente da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa, lancei um repto de caminhos de renova&ccedil;&atilde;o. A Confer&ecirc;ncia Episcopal assumiu-o e est&aacute; em curso, num ritmo que tem a sua lentid&atilde;o. Neste momento encontra-se numa fase muito interessante: perscrutar, levar as igrejas todas a pensar em si mesmas e ouvir o mundo para perceber novos caminhos da miss&atilde;o. Esta &eacute; uma grande resposta. Se todas as Confer&ecirc;ncias Episcopais dessem uma resposta destas aos discursos do Papa no fim de visita <em>Ad Limina<\/em> seria muito bom.<\/p>\n<p>&nbsp;<em>AE &ndash; Numa recente entrevista &agrave; ECCLESIA, o Ministro da Presid&ecirc;ncia disse que o Papa viria a Portugal num momento em que h&aacute; um bom ambiente nas rela&ccedil;&otilde;es entre o Estado e a Igreja. Concorda com esta afirma&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; N&oacute;s n&atilde;o queremos, seja com que governo for, um ambiente de conflito porque n&atilde;o &eacute; essa a maneira da Igreja estar em di&aacute;logo com a sociedade. Que n&atilde;o se confunda isso com uma identifica&ccedil;&atilde;o com os crit&eacute;rios de cada governo.<\/p>\n<p>A Igreja, numa sociedade democr&aacute;tica, tem obriga&ccedil;&atilde;o &#8211; no meu caso quero tamb&eacute;m &ndash; de dialogar respeitosamente, para bem da sociedade, com todos os governos legitimamente empossados.<\/p>\n<p>Eu sou partid&aacute;rio e estou profundamente convencido que uma conversa franca entre n&oacute;s e os respons&aacute;veis p&uacute;blicos sobre os problemas que se p&otilde;em &agrave; Na&ccedil;&atilde;o na &oacute;ptica da Igreja &eacute; mais fecundas do que qualquer manifesta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Essa &eacute; a pol&iacute;tica que n&oacute;s temos seguido e que, devo dizer, temos sido correspondidos pelos governos, independentemente do partido.<\/p>\n<p>Quando come&ccedil;&aacute;mos a revis&atilde;o da concordata &#8211; como Patriarca de Lisboa, n&atilde;o fiz parte da comiss&atilde;o negocial da Santa S&eacute;, mas fui sempre ouvido &#8211; lutei muito (e o Governo de ent&atilde;o partilhou da minha perspectiva) para que n&atilde;o se tratasse de fazer retoques na concordata. Em causa estava um esp&iacute;rito novo. Evit&aacute;mos a express&atilde;o &ldquo;Nova Concordata&rdquo; porque sab&iacute;amos que ia contra os princ&iacute;pios do Cardeal Secret&aacute;rio de Estado de ent&atilde;o. Mas, no fundo, era uma nova vers&atilde;o.<\/p>\n<p>Porqu&ecirc; nova: porque o princ&iacute;pio que a inspirava era o da coopera&ccedil;&atilde;o. Cada um na sua diferen&ccedil;a, a laicidade do Estado e a independ&ecirc;ncia da Igreja num estado laico, mas cada um na sua miss&atilde;o espec&iacute;fica. O princ&iacute;pio da coopera&ccedil;&atilde;o para o bem da sociedade. Este princ&iacute;pio inspira a concordata do primeiro ao &uacute;ltimo n&uacute;mero e exprime bem o que deve ser.<\/p>\n<p>&Eacute; evidente que podem existir focos que parecem conflitos, mas n&oacute;s n&atilde;o queremos conflitos. Conhecemos as diferen&ccedil;as e dizemos francamente a Doutrina da Igreja quando as diferen&ccedil;as s&atilde;o mais importantes e not&oacute;rias.<\/p>\n<p><strong>Veto pol&iacute;tico: a &uacute;ltima afirma&ccedil;&atilde;o presidencial<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; H&aacute; um processo legislativo prestes a terminar: o casamento de pessoas do mesmo sexo. O que desejaria que o Presidente da Rep&uacute;blica fizesse neste momento?<\/em><\/p>\n<p>JCP &ndash; N&atilde;o tenho coragem de lhe dar um conselho at&eacute; porque constitucionalmente a margem dele n&atilde;o &eacute; muito grande. Tenho muita pena que a pessoa do Prof. An&iacute;bal Cavaco Silva, de quem sou amigo h&aacute; muito tempo, tenha de assinar uma lei dessas.<\/p>\n<p>S&oacute; vejo o veto pol&iacute;tico como uma forma de ele marcar a sua posi&ccedil;&atilde;o pessoal.<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que h&aacute; dimens&otilde;es na Europa de hoje nas quais &ldquo;temos de beber o c&aacute;lice at&eacute; ao fim&rdquo;. Passa de pa&iacute;s para pa&iacute;s, com grande <em>lobby<\/em> internacional.<\/p>\n<p>&Eacute; uma quest&atilde;o grave, n&atilde;o em si mesma. &Eacute; uma quest&atilde;o antropol&oacute;gica de compreens&atilde;o da pessoa humana, em si mesma e na fam&iacute;lia. &Eacute; uma quest&atilde;o de civiliza&ccedil;&atilde;o. E a hist&oacute;ria mostra que quando as comunidades se afastaram da s&atilde; cultura da pessoa humana n&atilde;o foram longe.<\/p>\n<p>Eu diria que &eacute; um &ldquo;pormenor&rdquo; no conjunto da vida da Na&ccedil;&atilde;o, mas com particular significado para aquilo que n&oacute;s somos como povo, para o esp&iacute;rito que nos anima, para aquilo que pensamos de n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p>Um povo, como uma pessoa, nunca pode abdicar de ter uma ideia de si mesmo: quem &eacute;s tu? O que andas aqui a fazer? O que pensas da vida?<\/p>\n<p>Um povo n&atilde;o pode abdicar disso. Sinto que o povo portugu&ecirc;s est&aacute; a abdicar de saber quem &eacute;!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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