{"id":44955,"date":"2010-04-29T16:47:46","date_gmt":"2010-04-29T16:47:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/29\/homilia-do-bispo-de-vila-real-na-celebracao-da-bencao-das-pastas\/"},"modified":"2010-04-29T16:47:46","modified_gmt":"2010-04-29T16:47:46","slug":"homilia-do-bispo-de-vila-real-na-celebracao-da-bencao-das-pastas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-vila-real-na-celebracao-da-bencao-das-pastas\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo de Vila Real na celebra\u00e7\u00e3o da B\u00ean\u00e7\u00e3o das Pastas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Homens ao servi&ccedil;o do Bem Comum<\/strong><\/p>\n<p>1- Nos &uacute;ltimos vinte e cinco anos presidi a muitas celebra&ccedil;&otilde;es deste g&eacute;nero, e vivi-as a todas como se fossem a primeira: &eacute; que os cora&ccedil;&otilde;es dos jovens em festa eram sempre diferentes. Tamb&eacute;m hoje assim acontece.<\/p>\n<p>Quero, pois, saudar-vos a todos e a cada um, aos vossos pais, irm&atilde;os e familiares que sonharam com este dia, e aos vossos professores e ao vosso Reitor a quem tamb&eacute;m pertence a festa. Aceitai, pois, a minha comunh&atilde;o com a vossa alegria e a partilha da reflex&atilde;o que fa&ccedil;o sobre este acontecimento.<\/p>\n<p>2- A festa do final do curso &eacute; o fim de um per&iacute;odo da vida e o in&iacute;cio de outro. O primeiro foi tempo de luta e o segundo tamb&eacute;m o ser&aacute;, ainda que de modo diferente. Vamos aproximar esta vossa experi&ecirc;ncia das leituras que foram proclamadas: iluminar-se-&atilde;o mutuamente.<\/p>\n<p>A 1&ordf; leitura lembra o trabalho de S. Paulo e de S. Barnab&eacute; naquela que &eacute; hoje a Turquia. A cidade de Ic&oacute;nio ali citada corresponde &agrave; moderna cidade de K&oacute;nia. Nesta leitura vemos uma face da Igreja daquele tempo: a mensagem enviada a v&aacute;rias culturas, contestada por grupos do juda&iacute;smo e do helenismo,&nbsp; e que acabar&aacute; por se impor por for&ccedil;a do Esp&iacute;rito, cima das culturas. A 2&ordf; leitura &eacute; o p&oacute;lo oposto, o ponto final, a consagra&ccedil;&atilde;o dos vencedores: a Igreja no C&eacute;u, onde chegaram povos de todas as culturas, todos sa&iacute;dos da grande tribula&ccedil;&atilde;o, com t&uacute;nicas da cor da P&aacute;scoa e, na m&atilde;o, as palmas da luta e do mart&iacute;rio.<\/p>\n<p>No meio temos a etapa do presente, o rebanho que ouve a voz do Mestre e Senhor: &laquo;as minhas ovelhas ouvem a minha voz&raquo;<\/p>\n<p>3- Aproximando a vossa experi&ecirc;ncia destas leituras, vedes que tamb&eacute;m v&oacute;s procedeis de v&aacute;rias camadas sociais, das aldeias e cidades, de pais com tradi&ccedil;&atilde;o cultural e de pais humildes e quase analfabetos, e vindes todos da luta de um curso acad&eacute;mico de v&aacute;rios anos: luta de aulas e de estudo, lutas de viagens e despesas, lutas de des&acirc;nimo e de persist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Nessa luta fizestes tamb&eacute;m uma experi&ecirc;ncia da vossa liberdade, esse baloi&ccedil;o sempre inst&aacute;vel entre o bem e o mal: alguns tiveram tempo de estudar, de brincar e ainda tiveram tempo para auxiliar na catequese das par&oacute;quias da cidade e das suas terras de origem, tempo para cantar nos coros lit&uacute;rgicos e acad&eacute;micos, tempo para irem &agrave; Missa aos Domingos e a&iacute; fazerem bem as leituras da Missas; outros passaram o tempo a gritar durante a noite, em actos de alguma vadiagem, a ir e vir das discotecas nos fins-de-semana. Olhando para tr&aacute;s nesta hora de triunfo, sentis claramente como &eacute; amb&iacute;guo o baloi&ccedil;o da liberdade. Tamb&eacute;m isto serviu de aprendizagem. Foi a primeira etapa.<\/p>\n<p>&nbsp;A segunda etapa &eacute; a etapa do futuro que, para v&oacute;s, ainda ser&aacute; de luta: a luta do emprego, a luta do trabalho. Nesta hora de festa, gostaria de vos lembrar alguns crit&eacute;rios para essa segunda etapa da corrida.<\/p>\n<p>a) O primeiro crit&eacute;rio &eacute; que a estrada a percorrer na luta do trabalho deve ser a estrada da compet&ecirc;ncia e da consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Sentis claramente que subir na vida profissional e p&uacute;blica por caminhos que n&atilde;o sejam esses dois &eacute; uma subida desleal e desonesta, &eacute; trai&ccedil;&atilde;o aos colegas. Usar o peso da classe social, o ser filho de a ou de b, ser da cidade, o ser militante de um partido para passar &agrave; frente, aproxima-se daquilo que o Evangelho do Bom Pastor classifica de &laquo;ladr&atilde;o&raquo;, entrar pela porta indevida.<\/p>\n<p>b) O segundo crit&eacute;rio &eacute; sentir que estais ao servi&ccedil;o do povo, da comunidade. Qualquer tarefa que venhais a desempenhar, particular ou p&uacute;blica, &eacute; ao povo que servis e, nesse servi&ccedil;o, n&atilde;o vale tudo. Tendes de ser conscientes e fortes, mesmo que, na sua afli&ccedil;&atilde;o e ignor&acirc;ncia, os cidad&atilde;os vos pe&ccedil;am desonestidades. O vosso t&iacute;tulo acad&eacute;mico imp&otilde;e respeito e seriedade &eacute;tica.<\/p>\n<p>Este sentido da comunidade arrasta consigo o sentido do Bem Comum. Esta ideia n&atilde;o est&aacute; muito enraizada, mesmo em gente instru&iacute;da. Ora todos fazemos parte da sociedade e ningu&eacute;m est&aacute; cima do Bem Comum, por maior que seja a sua compet&ecirc;ncia profissional.<\/p>\n<p>Alguns de v&oacute;s ir&atilde;o ter bons ordenados, outros t&ecirc;-los-&atilde;o mais modestos. De qualquer modo, tudo tem limites tanto para os de cima como para os de &nbsp;baixo. N&atilde;o faz sentido que se invoque a compet&ecirc;ncia para auferir regalias nascidas da administra&ccedil;&atilde;o de bens da comunidade: se os lucros s&atilde;o muitos, ent&atilde;o cobre-se menos pela mat&eacute;ria &nbsp;vendida ao povo, mormente quando esse produto &eacute; monop&oacute;lio da empresa, n&atilde;o tendo o povo hip&oacute;tese de escolha. A&iacute; tendes um exemplo de como n&atilde;o basta ser competente, sendo necess&aacute;rio ser consciente e ter sentido do Bem Comum.<\/p>\n<p>c) O terceiro e &uacute;ltimo crit&eacute;rio &eacute; mais subtil, mas indispens&aacute;vel nos tempos actuais: refiro-me &agrave; educa&ccedil;&atilde;o da intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Da vossa experi&ecirc;ncia universit&aacute;ria e do gui&atilde;o lit&uacute;rgico constam trinta e seis cursos da UTAD aqui presentes. Isso diz-vos claramente que o caminho do saber &eacute; m&uacute;ltiplo, havendo mat&eacute;rias que v&oacute;s dominais e outras de que pouco ou nada sabeis. Desses saberes, h&aacute; o saber experimental, matematizado, que passa pelo laborat&oacute;rio; h&aacute; o saber hist&oacute;rico que n&atilde;o se pode verter em contabilidade matem&aacute;tica; h&aacute; o saber filos&oacute;fico que ultrapassa a experi&ecirc;ncia sens&iacute;vel e &eacute; s&oacute;lido; e h&aacute; o saber teol&oacute;gico que nasce da revela&ccedil;&atilde;o, da raz&atilde;o e da experi&ecirc;ncia humana. Todos esses saberes caminham a par, v&atilde;o-se acumulando com o tempo, havendo pessoas que se revestem de autoridade em cada um desses ramos.<\/p>\n<p>Hoje, por causa dos triunfos t&eacute;cnicos do saber laboratorial, h&aacute; a tend&ecirc;ncia para absolutizar esse tipo de saber arvorando-o em &uacute;nico saber. H&aacute; nisso alguma esonestidade intelectual e em tal encantamento&nbsp; podem cair professores universit&aacute;rios famosos sem respeito pela epistemologia. &nbsp;<\/p>\n<p>Este alerta &eacute; um pouco indigesto no clima festivo da b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o das pastas, mas quis referi-lo porque v&oacute;s sois os homens e mulheres de cultura&nbsp; universit&aacute;ria, e foi a&iacute; que se instalou a raiz da cultura contempor&acirc;nea. &Eacute; essa uma &aacute;rea a que o Papa se tem referido permanentemente no seu magist&eacute;rio e &eacute; poss&iacute;vel que, de um modo ou de outro, ele volta &agrave; quest&atilde;o na sua pr&oacute;xima Visita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meus caros jovens:<\/p>\n<p>Vamos proceder &agrave; B&ecirc;n&ccedil;&atilde;o das Pastas e ao que elas significam para o futuro. Dai gra&ccedil;as a Deus pelo caminho percorrido, aprendei a ler os vossos passos errados, e olhai corajosamente&nbsp; para o futuro. Mesmo que tenhais l&aacute;grimas pelo meio, o futuro &eacute; o vosso tempo. Empenhai-os em ser justos e dignos porque o futuro &nbsp;depende&nbsp; em grande parte de v&oacute;s mesmos. Como crist&atilde;os, assim como entrais de cabe&ccedil;a levantada na Universidade com o vosso saber confirmado, assim entrai de cabe&ccedil;a erguida em qualquer Igreja, sabendo que o que ali se ensina tem solidez e futuro. &nbsp;<\/p>\n<p>Que a Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o, em cuja pra&ccedil;a estamos, derrama sobre cada um de v&oacute;s um peda&ccedil;o da sua brancura e fortaleza.<\/p>\n<p>Vila Real, 24 de Abril de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Joaquim Gon&ccedil;alves, Bispo de Vila Real<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homens ao servi&ccedil;o do Bem Comum 1- Nos &uacute;ltimos vinte e cinco anos presidi a muitas celebra&ccedil;&otilde;es deste g&eacute;nero, e vivi-as a todas como se fossem a primeira: &eacute; que os cora&ccedil;&otilde;es dos jovens em festa eram sempre diferentes. Tamb&eacute;m hoje assim acontece. 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