{"id":44935,"date":"2010-04-28T14:44:38","date_gmt":"2010-04-28T14:44:38","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/28\/discurso-de-d-manuel-clemente-na-recepcao-do-premio-pessoa-2009\/"},"modified":"2010-04-28T14:44:38","modified_gmt":"2010-04-28T14:44:38","slug":"discurso-de-d-manuel-clemente-na-recepcao-do-premio-pessoa-2009","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-de-d-manuel-clemente-na-recepcao-do-premio-pessoa-2009\/","title":{"rendered":"Discurso de D. Manuel Clemente na recep\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Pessoa 2009"},"content":{"rendered":"<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Isto realmente somos, os portugueses<\/strong><\/p>\n<p>Seremos problem&aacute;ticos, os portugueses, mas por nos resumirmos demais. Olhemos a nossa historiografia, desde que a come&ccedil;&aacute;mos a fazer e at&eacute; bem perto donde estamos: h&aacute; grandes figuras, de &ldquo;hagiografia&rdquo; variada, e h&aacute; a generalidade das gentes, depois do &ldquo;povo&rdquo; e mais proximamente da &ldquo;na&ccedil;&atilde;o&rdquo;&hellip;<\/p>\n<p>N&atilde;o nos encontramos assim. Sonhamos ou detestamos her&oacute;is, conforme a mentalidade da &eacute;poca; resistimos hoje &agrave;s identifica&ccedil;&otilde;es massivas e nesta reac&ccedil;&atilde;o ficamos mais l&uacute;cidos.<\/p>\n<p>Ainda assim, teimamos. Recordo, dos anos cinquenta, a instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria e o come&ccedil;o do secund&aacute;rio. &ndash; E recordo o qu&ecirc;, como tantos da minha gera&ccedil;&atilde;o? Certamente os professores mais dedicados e pacientes, tamb&eacute;m os momentos de jogo e recreio, bem como alguns momentos de recompensa ou reprimenda. Recordo as &aacute;rvores que se viam pela janela, com folhas perenes ou caducas, no primeiro ensino do que seria a vida, entre o que fica e o que passa. &ndash; E al&eacute;m disso? Certamente o ler, o escrever e o contar, da caligrafia &agrave; tabuada. E, doutras coisas fixadas, especialmente a geografia dos mapas e os cognomes dos reis. Tamb&eacute;m o muito patriotismo da altura, com alus&otilde;es a batalhas vencidas no passado e estrofes igualmente convencidas. E, na parede dum espa&ccedil;o circum-escolar, qualquer coisa como isto: &ldquo;Ningu&eacute;m pode amar mais Portugal do que os portugueses &hellip;&rdquo;.<\/p>\n<p>Farrapos de mem&oacute;ria, dir&iacute;amos, e abstrac&ccedil;&otilde;es amb&iacute;guas, tamb&eacute;m. Pois de concreto, real e consistente ficaram rostos e seguiram-se os percursos pessoais de antigos colegas, com maior ou menor sucesso em v&aacute;rios campos. E, em todos eles, a respectiva exist&ecirc;ncia como sobreviv&ecirc;ncia, no duplo sentido que a palavra consente: persistir vivendo e viver acima, al&eacute;m, criativamente. Isto sim, sobrou realmente.<\/p>\n<p>Considera&ccedil;&otilde;es pessoais que, sendo de interesse muito relativo, valem por compartilhadas. Mas delas poderei partir para outras, a que hoje n&atilde;o nos devemos esquivar. Perguntando-nos: &#8211; Nas actuais circunst&acirc;ncias, podemos contar com o qu&ecirc;, do que sobrevenha do passado para o que importa ao futuro?<\/p>\n<p>Retomo a afirma&ccedil;&atilde;o inicial: resumimo-nos exageradamente, entre grandes figuras e imensas generalidades. Alus&otilde;es simplistas, em si mesmas, que sempre iludem a realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; O que s&atilde;o, efectivamente, as grandes figuras? Nenhuma &ndash; positiva ou negativamente &ndash; corresponde por inteiro ao que fizeram dela, como ningu&eacute;m &eacute; o que os outros reparam a seu prop&oacute;sito. Os her&oacute;is &ndash; ou anti-her&oacute;is &ndash; revelam-se demasiadamente male&aacute;veis ao que sucessivas ideologias deles queiram fazer. E &eacute; por isso que, n&atilde;o pondo em causa o real valor que tiveram tais pessoas, a sua utiliza&ccedil;&atilde;o fantasmag&oacute;rica mais nos distrai do presente e menos nos serve para o futuro. Viveram e fizerem o seu tempo e o melhor que nos d&atilde;o &eacute; coragem para fazermos o nosso, t&atilde;o particular e responsavelmente como eles pr&oacute;prios viveram as suas vidas.<\/p>\n<p>Desde o princ&iacute;pio que fantasiamos, para bem ou para menos bem. Do princ&iacute;pio de nos querermos como um todo e um todo &ldquo;portugu&ecirc;s&rdquo;, com o preenchimento e o contorno que a palavra foi tendo. Assim as velhas cr&oacute;nicas fizeram de Afonso Henriques um novo Constantino, para garantir pelo c&eacute;u a independ&ecirc;ncia da terra. Assim <em>Os Lus&iacute;adas<\/em> cantaram uma genealogia p&aacute;tria, em que igualmente o c&eacute;u guiava as naus do Gama, mesmo com o concurso do Olimpo, ao gosto renascentista. Assim, o grande Vieira recolheu tudo &ndash; dos profetas b&iacute;blicos ao nosso Bandarra, das antigas sibilas a autores rar&iacute;ssimos &ndash; para garantir que um jovem rei sumido nos areais africanos havia de ressurgir, mesmo em familiares sucessivos. Assim, dos rom&acirc;nticos aos mais recentes, continua a apelar-se aos &ldquo;egr&eacute;gios av&oacute;s&rdquo;, para nos regenerarmos num vi&ccedil;o perdido, mais aristocr&aacute;tico ou popular, conforme o sentimento de cada um.<\/p>\n<p>Por outro lado, n&atilde;o faltam sucessivos bodes expiat&oacute;rios, individuais ou colectivos, que tudo contra-explicariam por maldade ou reac&ccedil;&atilde;o. Dispenso-me de os nomear, t&atilde;o recorrentes se tornaram.<\/p>\n<p>Em nada disto somos autenticamente n&oacute;s e com tudo isto teimamos em decepcionar-nos. N&atilde;o, realmente n&atilde;o somos o contraste de grandes picos singulares com imensas planuras colectivas. N&atilde;o somos nem podemos considerar-nos eternos devedores de descomunais figuras ou meros encomendadores de grandes almas. N&atilde;o somos, nem devemos ser imperadores do mundo ou mendigos da Europa.<\/p>\n<p>Porque o que somos, realmente somos, &eacute; a heran&ccedil;a actual e viva de muitos homens e mulheres que, vivendo, convivendo e morrendo como todos os demais, recortaram e em geral sustentaram a mais antiga realidade pol&iacute;tica do nosso Continente; que, dentro e fora dela, criaram e criam uma maneira de estar consigo e com os outros que concita a admira&ccedil;&atilde;o de muitos e oportunamente serve a comunidade internacional. Dizemo-nos numa l&iacute;ngua onde a variedade humana sempre encontra ou inova a palavra e o som apropriados. Manifestamos uma capacidade de resist&ecirc;ncia e adapta&ccedil;&atilde;o criativa, que s&oacute; requer mais auto-confian&ccedil;a e acompanhamento p&uacute;blico para ir por diante. Somos, em suma, uma pequena geografia onde o mundo inteiro se pode encontrar, como cais de embarque e cais de chegada, para partir de novo.<\/p>\n<p>Isto somos tamb&eacute;m. Mas ainda &eacute; pouco, para o que somos realmente. Aqu&eacute;m e al&eacute;m das grandes figuras, aqu&eacute;m e al&eacute;m das generaliza&ccedil;&otilde;es habituais, somos pessoas, portuguesmente pessoas, t&atilde;o concretas no modo de viver e de fazer, como manifestando particular e socialmente a nossa maneira pr&oacute;pria &ndash; e neste sentido cultivada e cultural &ndash; de sentir e agir. Isto sim, somos n&oacute;s, os portugueses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mencionei rapidamente o Padre Ant&oacute;nio Vieira, figura &ndash; exactamente porque concreta figura &ndash; que requer aqui maior detalhe. Com Fernando Pessoa e tantos outros, partilho toda a admira&ccedil;&atilde;o pela personagem, qual figura aut&ecirc;ntica, indisfar&ccedil;&aacute;vel no conjunto, ainda que ao conjunto portugu&ecirc;s tivesse sempre na mente e no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Creio ser Vieira um dos maiores exemplos de como se ultrapassa a dicotomia entre grandes figuras e multid&otilde;es indistintas, uma vez que a sua grandeza &eacute; claramente &ldquo;pessoal&rdquo;. Ser pessoa &eacute; acontecer em rela&ccedil;&atilde;o com os outros. Da rela&ccedil;&atilde;o e para a rela&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s da sensibilidade e da consci&ecirc;ncia pr&oacute;prias, individuais neste sentido aberto.<\/p>\n<p>Aludi atr&aacute;s a Cam&otilde;es e a&rsquo; <em>Os Lus&iacute;adas<\/em>. E direi que a actualidade que mant&ecirc;m n&atilde;o &eacute; a da mitifica&ccedil;&atilde;o das figuras cantadas ou descantadas, mas da realidade humana que transportam por dentro dos artif&iacute;cios liter&aacute;rios. Do Atl&acirc;ntico ao Pac&iacute;fico, o poeta passara muito mar e por vezes muito mal. De Lisboa a Goa ou Macau, conhecera muita gente, acalentara muitos sonhos, sofrera grandes desilus&otilde;es, conhecera nobres e plebeus, ricos e maltrapilhos. Por isso, todos preenchiam aquele &ldquo;povo que queria o mar&rdquo;. Todos e cada um, mesmo sem dispensar os &ldquo;velhos&rdquo; que ficavam no Restelo, cheios de raz&otilde;es e cautelas.<\/p>\n<p>&Eacute; esta qualidade pessoal, relacional, integrando individualidades e colectivos &#8211; tomados estes por conjuga&ccedil;&atilde;o de individualidades -, que garante a actualidade duma tradi&ccedil;&atilde;o. Assim tamb&eacute;m com o Padre Ant&oacute;nio Vieira, em quem me deterei um pouco mais, at&eacute; como homenagem a Fernando Pessoa que por ele nutria excepcional considera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Como Cam&otilde;es, tamb&eacute;m Vieira tinha em si mesmo um Portugal inteiro e expandido. N&atilde;o partira para o Oriente, mas para o Ocidente, para o Brasil que conhecera menino e onde se fizera jesu&iacute;ta e mission&aacute;rio da &ldquo;bandeira&rdquo; que escolhera. Os seus escritos, para serem pregados ou lidos, est&atilde;o preenchidos de experi&ecirc;ncias pr&oacute;prias e alheias, dos &uacute;ltimos sert&otilde;es &agrave;s cidades mais concorridas de l&aacute; e de c&aacute;. Por isso &eacute; t&atilde;o universal como o Imp&eacute;rio que sonhava, mas onde coubessem todos. N&atilde;o &eacute; um cume isolado, sobressai na cordilheira, pessoa entre pessoas e para as pessoas. O que, digamos, nem sempre &eacute; f&aacute;cil de ser, quando se enfrentam preconceitos.<\/p>\n<p>Vieira &eacute; caso acabado de como em Portugal &ndash; di-lo-ia doutros pa&iacute;ses tamb&eacute;m &ndash; sempre nos desperdi&ccedil;amos quando n&atilde;o consideramos o que cada um &eacute; e pode oferecer aos outros, do presente para o futuro. Quando regressou a Lisboa, mission&aacute;rio da Restaura&ccedil;&atilde;o, vinha ainda mais portugu&ecirc;s, porque mais universal, de tanta floresta desvendada e de tanto mar que cruzara. Assim veio e era ele.<\/p>\n<p>No tempo que se seguiu, por&eacute;m, mais depressa o consideraram bem ou mal, em torno de lugares comuns, pr&oacute; ou contra esta ideia, aquela pol&iacute;tica, ou aqueloutro grupo. E este tipo de aprecia&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas impediu-lhe o reconhecimento devido e o melhor aproveitamento da sua real figura e alt&iacute;ssimo valor. De facto, a aceita&ccedil;&atilde;o interpessoal requer de todos a aceita&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via e a benevol&ecirc;ncia persistente: n&atilde;o se recebe sem recipiente capaz.<\/p>\n<p>Ser&aacute; em Roma, num ex&iacute;lio de circunst&acirc;ncia (1670-1675), que Vieira nos deixar&aacute; o retrato desta antiga pecha. O &ldquo;pretexto&rdquo; ser&aacute; Santo Ant&oacute;nio, o assunto ser&aacute; Ant&oacute;nio Vieira, mas em geral fala de n&oacute;s todos.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Que nos diz o Padre Ant&oacute;nio Vieira naqueles serm&otilde;es romanos? Alguma coisa do santo e muit&iacute;ssimo de n&oacute;s e da nossa dificuldade em captar a realidade, t&atilde;o fixados nos mantemos em mitos individuais ou colectivos.<\/p>\n<p>No 1&ordm; serm&atilde;o, Vieira &eacute; muito positivo, prenunciando a &ldquo;dilata&ccedil;&atilde;o da f&eacute; e do imp&eacute;rio&rdquo; no destino primevo de Fernando Martins, que mudara de nome e de vida ao conhecer os primeiros franciscanos, passando a ser Ant&oacute;nio e pregoeiro evang&eacute;lico, al&eacute;m fronteiras. Mas partira, insiste Vieira, como primeira realiza&ccedil;&atilde;o do modo portugu&ecirc;s de ser, daqui para o mundo.<\/p>\n<p>Os trechos mant&ecirc;m toda a frescura e, certamente, gostamos de nos ouvir assim, como o Padre Vieira nos retrata no antigo taumaturgo: &ldquo;&hellip; ser&aacute; o argumento do meu discurso este: Que Santo Ant&oacute;nio foi luz do mundo, porque foi verdadeiro portugu&ecirc;s; e que foi verdadeiro portugu&ecirc;s porque foi luz do mundo. [&hellip;] Bem pudera Santo Ant&oacute;nio ser luz do mundo, sendo de outra na&ccedil;&atilde;o; mas uma vez que nasceu portugu&ecirc;s, n&atilde;o fora verdadeiro portugu&ecirc;s se n&atilde;o fora luz do mundo, porque o ser luz do mundo nos outros homens, &eacute; s&oacute; privil&eacute;gio da Gra&ccedil;a; nos Portugueses &eacute; tamb&eacute;m obriga&ccedil;&atilde;o da natureza&rdquo; (Serm&atilde;o de Santo Ant&oacute;nio, pregado na igreja de Santo Ant&oacute;nio dos Portugueses, 22 de Maio de 1670. In Padre Ant&oacute;nio Vieira, <em>Serm&otilde;es de Roma e outros textos<\/em>. Selec&ccedil;&atilde;o e apresenta&ccedil;&atilde;o de Manuel Correia Fernandes. Estarreja: MEL Editores, 2009, p. 191).<\/p>\n<p>Reparemos: &eacute; o grande Vieira que prega, &eacute; ao portugu&ecirc;s mais universalmente conhecido que alude, mas &eacute; a todos &ldquo;n&oacute;s&rdquo; que qualifica, que ser&iacute;amos naturalmente o que os outros s&oacute; excepcionalmente tamb&eacute;m podiam ser: gente luminosa, para irradiar al&eacute;m de si.<\/p>\n<p>E, como sempre acontece na pena e na voz do &ldquo;imperador da l&iacute;ngua portuguesa&rdquo;, o argumento encontra express&otilde;es que n&atilde;o resisto a reproduzir, sempre a figurar-nos em Santo Ant&oacute;nio e &ndash; quase subliminarmente &#8211; nele mesmo, Ant&oacute;nio Vieira: &ldquo;E se Ant&oacute;nio era luz do mundo, como n&atilde;o havia de sair da p&aacute;tria? Este foi o segundo movimento. Saiu como luz do mundo e saiu como portugu&ecirc;s. Sem sair ningu&eacute;m pode ser grande [&hellip;]. Assim o fez o grande esp&iacute;rito de Ant&oacute;nio, e assim era obrigado a o fazer, porque nasceu portugu&ecirc;s&rdquo; (<em>ibidem<\/em>, p. 197-198).<\/p>\n<p>Vieira v&ecirc; a exiguidade territorial como causa providencial do destino p&aacute;trio. Chegaria para ber&ccedil;o mas n&atilde;o para a sementeira nem para o t&uacute;mulo, porque Portugal s&oacute; no mundo inteiro descansaria, sendo essa a sua gl&oacute;ria, mesmo que tr&aacute;gico-mar&iacute;tima. E explica: &ldquo;Por isso nos deu Deus t&atilde;o pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal; para morrer, o mundo. Perguntai a vossos av&oacute;s quantos sa&iacute;ram, e qu&atilde;o poucos tornaram? Mas estes s&atilde;o os ossos de que mais se deve prezar vosso sangue&rdquo; (<em>ibidem<\/em>, p. 198).<\/p>\n<p>No 2&ordm; serm&atilde;o romano que lhe dedica, Vieira j&aacute; alude a Santo Ant&oacute;nio para acentuar as nossas contradi&ccedil;&otilde;es. Ant&oacute;nio sa&iacute;ra de Portugal simplesmente para ser &ldquo;Ant&oacute;nio&rdquo;, ou seja, para se realizar como escolhera e cria ter sido escolhido. &Eacute; neste passo que o discurso transita ainda mais directamente de Ant&oacute;nio de Lisboa para Ant&oacute;nio Vieira, quatro s&eacute;culos e meio depois. E, muito consciente do que quisera e valia, Vieira deixa-nos concluir que ele pr&oacute;prio tivera de ir a It&aacute;lia para poder ser portugu&ecirc;s; como voltaria ao Brasil para o ser definitivamente. Mas di-lo antes de mais do Santo: &ldquo;O que agora s&oacute; digo sobre o que j&aacute; disse, &eacute; que, assim como Santo Ant&oacute;nio foi obrigado a deixar Portugal, para ser Portugu&ecirc;s, assim foi necess&aacute;rio que se tirasse dentre os Portugueses, para ser t&atilde;o grande homem, e t&atilde;o grande santo como foi&rdquo; (Serm&atilde;o de Santo Ant&oacute;nio, escrito mas n&atilde;o pregado em Roma em 1671. <em>Ibidem<\/em>, p. 211).<\/p>\n<p>O que, visto positivamente, &eacute; para os portugueses partir, visto negativamente &eacute; para alguns exilarem-se. Exilarem-se para poderem realizar fora da p&aacute;tria o que a naturalidade lhes destinava. Como se nos ofusc&aacute;ssemos com o brilho pr&oacute;prio, ou n&atilde;o nos admit&iacute;ssemos como realmente somos. Vai ser Vieira a diz&ecirc;-lo, ainda em Roma, mas a observa&ccedil;&atilde;o &eacute; recorrente at&eacute; aos nossos dias: &ldquo;&hellip; luzir portugu&ecirc;s entre portugueses, e muito menos luzir com a sua luz, &eacute; cousa muito dificultosa na nossa terra. Com a luz alheia vi eu l&aacute; luzir alguns; mas com a pr&oacute;pria, [&hellip;] nem Santo Ant&oacute;nio, quanto mais os outros&rdquo; (<em>ibidem<\/em>, p. 212).<\/p>\n<p>De v&aacute;rias maneiras reprovava Vieira a nossa incapacidade de m&uacute;tua admira&ccedil;&atilde;o, mesmo quando ter&iacute;amos toda as raz&otilde;es para ela. N&atilde;o resisto a citar aqui duas delas, por me parecer o autor por demais certeiro. Oi&ccedil;amo-lo, sempre a prop&oacute;sito de Santo Ant&oacute;nio, e ainda mais a nosso prop&oacute;sito: &ldquo;Os mesmos que agora amam, e veneram tanto a Santo Ant&oacute;nio, se viveram em seu tempo, o haviam de aborrecer e perseguir; e as mesmas maravilhas, que tanto celebram e encarecem, se foram obradas na sua p&aacute;tria, as haviam de escurecer e aniquilar. [&hellip;] &eacute; consequ&ecirc;ncia pr&oacute;pria e natural da inveja, perseguir os presentes e estimar os passados, matar os vivos e celebrar os mortos&rdquo; (<em>ibidem<\/em>, p. 234-235). Como se dissesse que tanta luz nos ofusca e s&oacute; a toleramos ao longe, ou na sombra que deixe. &ndash; Ainda hoje?<\/p>\n<p>Pior ainda, a segunda alus&atilde;o, permanecendo a dificuldade em olharmo-nos de frente, quando isso signifique o simples reconhecimento da qualidade do outro. Escreve Vieira: &ldquo;&hellip; &eacute; necess&aacute;rio que advirtamos primeiro uma not&aacute;vel habilidade e ast&uacute;cia, que usa a inveja para desluzir e escurecer as boas obras, e para lhes envenenar e destruir a mesma bondade. E qual vos parece que ser&aacute; esta habilidade e ast&uacute;cia! &Eacute; que nunca olha para toda a obra boa de claro em claro, assim como &eacute; em si mesma; sen&atilde;o que sempre a procura tomar por um lado, e por aquela parte, ou ponta donde menos claramente se descobre a sua bondade, para ter em que morder e que arguir&rdquo; (<em>ibidem<\/em>, p. 238). De novo nos perguntemos: &#8211; Ainda hoje? Seja como for, rendamo-nos de vez a n&oacute;s mesmos. Cientes de que s&oacute; reconhecendo francamente o bem que haja, rejeitaremos por contraste o mal que se lhe oponha. &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Daqui mesmo teremos de partir agora, mais realistas. A modernidade foi-se afirmando, como civiliza&ccedil;&atilde;o e cultura, na medida em que deix&aacute;mos de imaginar o todo e desistimos de ser absolutos. Trata-se de dominar o poss&iacute;vel, quer na considera&ccedil;&atilde;o do que h&aacute;, quer na cria&ccedil;&atilde;o do que possa haver, com lucidez, trabalho e colabora&ccedil;&atilde;o. Teve &ndash; sempre a modernidade &#8211; uma fase porventura mais individualista, qual tributo adolescente &agrave; liberdade pretendida, mas percebe agora que s&oacute; solidariamente se realiza e que n&atilde;o h&aacute; verdadeiro desenvolvimento que n&atilde;o seja &ldquo;de todo o homem e do homem todo&rdquo; (Paulo VI). De todos para todos, pela potencia&ccedil;&atilde;o do concurso de cada um.<\/p>\n<p>Temos certamente muito para dar, num colectivo por cada um preenchido e melhorado. A educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve ser meramente individual, nem imediatamente nacional. &Eacute; pessoal &ndash; e por isso inter-pessoal -, pois assim mesmo somos, pessoas que transportam legados, resultantes estes do passado que importa para o futuro. Pessoas que articulam rela&ccedil;&otilde;es s&oacute;cio-culturais complementares, das fam&iacute;lias &agrave; comunidade pol&iacute;tica, nacional e internacional.<\/p>\n<p>Em cada patamar de sociabilidade se guardar&aacute; a mem&oacute;ria e germinar&aacute; o que vier, pessoalmente e em grupo. E cada patamar ser&aacute; reconhecido e valorizado pelo que estiver mais acima, ou mais no centro da organiza&ccedil;&atilde;o social, porque esta &eacute; a verdade das coisas, que acontecem do local para o universal, ou quando o universal toca no local. Como sabemos, a mediatiza&ccedil;&atilde;o permite ambiguidades e aliena&ccedil;&otilde;es, sempre que abstrai das circunst&acirc;ncias, generaliza aprecia&ccedil;&otilde;es e desperta quimeras.<\/p>\n<p>A deprecia&ccedil;&atilde;o das pessoas concretas, nos n&iacute;veis precisos em que coexistem, &eacute; herdeira ainda da apet&ecirc;ncia pelos her&oacute;is imagin&aacute;rios, quer da mem&oacute;ria antiga, quer da virtualidade tecnol&oacute;gica de hoje em dia. A pouca confian&ccedil;a colectiva prov&eacute;m da fraca tessitura que mantemos, porque olhamos imediatamente para o todo. Ora, Portugal tem na conjuga&ccedil;&atilde;o dos seus muitos &ldquo;corpos interm&eacute;dios&rdquo; quer a melhor realiza&ccedil;&atilde;o do seu presente, quer a mais s&oacute;lida base do seu futuro.<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp;Fam&iacute;lias, comunidades religiosas, institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, aut&aacute;rquicas e particulares, associa&ccedil;&otilde;es e empresas da mais variada &iacute;ndole manifestam, elas sim, o que temos de mais certo e promissor. Para quem as frequenta ou visita s&atilde;o, tantas vezes, o melhor ant&iacute;doto contra a desesperan&ccedil;a e o maior incentivo para seguir em frente.<\/p>\n<p>A&iacute; nos reencontramos, nas palavras ditas, nas ideias realizadas e nas vidas consistentes, com aut&ecirc;nticos hero&iacute;smos, para n&atilde;o desistir, n&atilde;o fechar, n&atilde;o adiar. A&iacute; seremos finalmente o que Vieira n&atilde;o encontrava no que aparentavam os seus contempor&acirc;neos, resistentes ao Portugal imenso que ele pr&oacute;prio transportava.<\/p>\n<p>Era sonhador, decerto. Mas sonhador dos sonhos que cumpria, do Amazonas &agrave; Europa, com um mar infindo pelo meio. Quando requeria maior aceita&ccedil;&atilde;o inter-&eacute;tnica e at&eacute; inter-religiosa, desejava o que j&aacute; vivia e persistia em inculcar aos outros. Ainda hoje, constr&oacute;i realmente um bom futuro quem extrai idealismo do que faz, concretamente faz, e n&atilde;o desista de fazer. A&iacute; mesmo, onde a origem e a criatividade se colocam, de modo situado e solid&aacute;rio. S&oacute; ai, sem fantasmas nem frustra&ccedil;&otilde;es, ambos descabidos.<\/p>\n<p>O melhor de Portugal pouco aparece e n&atilde;o abre geralmente os notici&aacute;rios. Mas existe e por ele mesmo continuamos n&oacute;s a existir. Apesar de tudo, mas n&atilde;o apesar de n&oacute;s. Em muitas escolas, estatais ou particulares, em muitos estabelecimentos de sa&uacute;de, servi&ccedil;os p&uacute;blicos e institui&ccedil;&otilde;es particulares de solidariedade social, deparamos com abnega&ccedil;&otilde;es quotidianas e boas vontades que n&atilde;o esmorecem, antes parecem recrudescer no meio das dificuldades. Em muitos jovens licenciados h&aacute; uma vontade de vencer e convencer, que consegue ultrapassar positivamente a escassez das ofertas de trabalho, criando para si para outros novas oportunidades, por vezes em dom&iacute;nios imprevistos ou pouco explorados. Assim como h&aacute; empres&aacute;rios e gestores com verdadeiro sentido de miss&atilde;o, que revelam surpreendente capacidade de inovar e conquistar mercados, a par de reais preocupa&ccedil;&otilde;es com a manuten&ccedil;&atilde;o e a cria&ccedil;&atilde;o dos postos de trabalho dos seus colaboradores.<\/p>\n<p>Estas realidades, verdadeiramente tais, entre os fantasmas da excepcionalidade ou das massas, d&atilde;o afinal pelo simples nome deste Pr&eacute;mio: referem-se &agrave; &ldquo;pessoa&rdquo;, a cada pessoa que n&oacute;s somos, sempre com os outros e por vezes magnificamente. Significando isto cada um de n&oacute;s, n&atilde;o abstractamente considerado, mas no concreto da sua vida e das suas rela&ccedil;&otilde;es, interpenetradas com as dos outros e com o respectivo meio.<\/p>\n<p>Concluo com a inteira confian&ccedil;a nas pessoas que somos, os portugueses. E com a certeza firme de que, sendo verdadeiro objectivo do Estado e de todos os respons&aacute;veis sociais salvaguardar e promover a dignidade da pessoa humana, aumentaremos para isso as possibilidades materiais, culturais e espirituais existentes, que, no conjunto, constituem o nosso bem comum, na subsidiariedade e na solidariedade.<\/p>\n<p>Assim acontecendo, a &ldquo;hist&oacute;ria do futuro&rdquo;, como Ant&oacute;nio Vieira a entreviu, ultrapassar&aacute; os seus melhores vatic&iacute;nios. Sem imperialismos ser&ocirc;dios nem injustific&aacute;veis desist&ecirc;ncias, seremos um Portugal &agrave; altura de si mesmo, na grande largueza do mundo<\/p>\n<p>Lisboa, 27 de Abril de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Isto realmente somos, os portugueses Seremos problem&aacute;ticos, os portugueses, mas por nos resumirmos demais. Olhemos a nossa historiografia, desde que a come&ccedil;&aacute;mos a fazer e at&eacute; bem perto donde estamos: h&aacute; grandes figuras, de &ldquo;hagiografia&rdquo; variada, e h&aacute; a generalidade das gentes, depois do &ldquo;povo&rdquo; e mais proximamente da &ldquo;na&ccedil;&atilde;o&rdquo;&hellip; N&atilde;o nos encontramos assim. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[122,168,203,213,314],"class_list":["post-44935","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-brasil","tag-diocese-da-guarda","tag-europa","tag-franciscanos","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44935"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44935\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}