{"id":44839,"date":"2010-04-23T16:12:47","date_gmt":"2010-04-23T16:12:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/23\/uma-decada-com-muitas-mudancas\/"},"modified":"2010-04-23T16:12:47","modified_gmt":"2010-04-23T16:12:47","slug":"uma-decada-com-muitas-mudancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-decada-com-muitas-mudancas\/","title":{"rendered":"Uma d\u00e9cada com muitas mudan\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>D. Jorge Ortiga, presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa (CEP), admite que a Igreja Cat\u00f3lica j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a maiorit\u00e1ria <!--more--> <\/p>\n<p>Para o arcebispo de Braga, ela tem de situar-se&nbsp; num contexto de adversidades e contratempos, porque nem tudo facilita o encontro com a pr&oacute;pria f&eacute;.<\/p>\n<p>Em declara&ccedil;&otilde;es &agrave; Ag&ecirc;ncia ECCLESIA, D. Jorge Ortiga defende que o confronto com uma mentalidade nova deve levar a Igreja a repensar-se, sem abdicar dos seus princ&iacute;pios fundamentais<\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia &ndash; Na primeira d&eacute;cada do &nbsp;3.&ordm; mil&eacute;nio, descobre&nbsp; mudan&ccedil;as significativas na sociedade portuguesa, nomeadamente relacionadas com a presen&ccedil;a da Igreja Cat&oacute;lica?<\/em><\/p>\n<p>D. Jorge Ortiga &ndash; Sem d&uacute;vida! Fruto da globaliza&ccedil;&atilde;o, o secularismo invadiu os circuitos da sociedade. Com ele o relativismo imp&ocirc;s-se. E a Igreja Cat&oacute;lica j&aacute; n&atilde;o &eacute; uma for&ccedil;a maiorit&aacute;ria. Ela tem de situar-se tamb&eacute;m num contexto de adversidades e contratempos porque nem tudo facilita o encontro com a pr&oacute;pria f&eacute;.<\/p>\n<p>Por outro lado, fruto dessa globaliza&ccedil;&atilde;o e da integra&ccedil;&atilde;o na Uni&atilde;o Europeia, a situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica transformou muitos h&aacute;bitos e comportamentos: gerou um consumismo desenfreado por parte de alguns e uma desigualdade crescente.<\/p>\n<p>Quer a sociedade quer a Igreja est&atilde;o situadas num contexto totalmente diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Cresceu uma press&atilde;o social sobre quest&otilde;es fracturantes que motivou um desfecho diferente do esperado pela Igreja Cat&oacute;lica?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Por temperamento sou optimista e olho para a Hist&oacute;ria com os olhos da f&eacute;. Creio que estamos a viver a Gra&ccedil;a do Conc&iacute;lio Vaticano II [1962-1965], que integrou a Igreja na sociedade, alertando-a para a necess&aacute;ria incultura&ccedil;&atilde;o. A Igreja confronta-se como nunca com uma mentalidade nova.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nesta d&eacute;cada?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Sim, essencialmente. O que obriga a Igreja a repensar. N&atilde;o a sua moral e os seus princ&iacute;pios fundamentais. Antes a reinterpret&aacute;-los, mantendo a sua identidade e a sua especificidade e encontrando novas respostas atrav&eacute;s do di&aacute;logo e conhecimento multidisciplinar. O que &eacute; desafiante para a Igreja!<\/p>\n<p>A f&eacute; faz-nos compreender que esses problemas fracturantes (nos) interpelam-nos e (nos) questionam-nos, n&atilde;o para procurar uma nova moral, mas &nbsp;para fazer com que a moral cat&oacute;lica de sempre, nos seus valores essenciais, possa ser defendida e praticada sem ced&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Mas qualquer mudan&ccedil;a no campo da moral poder&aacute; soar sempre a uma ced&ecirc;ncia&hellip;<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Como disse, a Igreja sente-se cada vez mais interpelada, sobretudo desde o Conc&iacute;lio Vaticano II, por tudo o que acontece na sociedade actual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Mas isso quer dizer que a Igreja tem de mudar?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; N&atilde;o se trata de ced&ecirc;ncias (quero sublinhar isto porque a Igreja tem de ser fiel &agrave; doutrina de sempre, tem de sublinhar a sua diferen&ccedil;a). Mas por causa do Conc&iacute;lio Vaticano II e de uma mudan&ccedil;a cultural que aconteceu t&atilde;o rapidamente, e ao contr&aacute;rio de um dogmatismo que havia antes, a Igreja, sendo fiel &agrave; doutrina, ter&aacute; de alterar o modo de a comunicar e anunciar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; De a viver tamb&eacute;m?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Consequentemente!<\/p>\n<p>Por exemplo, no que respeita &agrave; sexualidade, a Igreja tem de reformular a sua linguagem. N&atilde;o tenho d&uacute;vida absolutamente nenhuma. A Igreja ter&aacute; de partir de um conceito mais positivo, de uma teologia do pr&oacute;prio corpo.<\/p>\n<p>H&aacute; um caminho a percorrer, que n&atilde;o caracterizo de ced&ecirc;ncia mas de adapta&ccedil;&atilde;o da linguagem, em conson&acirc;ncia com dados da ci&ecirc;ncia que hoje nos s&atilde;o oferecidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; H&aacute; quest&otilde;es concretas que se podem colocar neste &acirc;mbito, como a inclus&atilde;o nos sacramentos dos casais &ldquo;recasados&rdquo;&hellip;<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Eles podem frequentar a vida religiosa, nos actos de culto, como qualquer outra pessoa. O que lhes &eacute; vedado &eacute; poder aceder &agrave; comunh&atilde;o, significando que n&atilde;o est&atilde;o em plena comunh&atilde;o com a Igreja.<\/p>\n<p>Penso que, porventura, para os casos onde n&atilde;o se chegue &agrave; nulidade do casamento &ndash; o caminho que a Igreja aconselha &ndash; pode chegar-se a uma outra medida para um acolhimento mais concreto da sua situa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um campo onde teremos de reflectir, deixando-nos conduzir pelo Esp&iacute;rito, sem ced&ecirc;ncias &agrave;quilo que &eacute; a doutrina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Uma quest&atilde;o, de debate recente, &eacute; o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Que desafios coloca?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; A Igreja dir&aacute; sempre que o casamento &eacute; uma uni&atilde;o entre um homem e uma mulher, alicer&ccedil;ada no amor (ao contr&aacute;rio do passado, a Igreja sublinha hoje o amor como a dimens&atilde;o essencial do casamento) e orientada para a procria&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel.<\/p>\n<p>Sem nunca ceder a novas tend&ecirc;ncias, a Igreja &eacute; desafiada a compreender, a acompanhar, a ajudar, a saber estar com essas uni&otilde;es que possam vir a acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que coment&aacute;rio lhe merece o facto do processo legislativo em curso sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo poder concluir-se no contexto da visita do Papa a Portugal?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; &Eacute; um dado adquirido que isso vai acontecer. O que n&atilde;o faz com que a Igreja mude a sua maneira de pensar. Pastoralmente, a Igreja tem de ver como vai relacionar-se com essas pessoas.<\/p>\n<p>&Eacute; uma coincid&ecirc;ncia como tantas outras, que n&atilde;o afecta o comportamento da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Mas n&atilde;o &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a por entidades ou ideologias contr&aacute;rias &agrave; da Igreja?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Se sim, &eacute; de lamentar! Chegar a esta conclus&atilde;o antes ou depois da visita do Papa &eacute; a mesma coisa: &eacute; um dado com o qual teremos de saber conviver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pensamento Novo<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Na abertura da &uacute;ltima Assembleia Plen&aacute;ria da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa [12 de Abril], falava na necessidade de promover um pensamento novo, seguindo o Papa Bento XVI. O que est&aacute; em causa?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Aquilo em que este Papa mais enriquece a Igreja &eacute; o facto de ser portador de um pensamento original.<\/p>\n<p>N&oacute;s, na Igreja, t&iacute;nhamos um pensamento que chamamos escol&aacute;stico. Este Papa, nesta nova &eacute;poca, prop&otilde;e um outro tipo de pensar, a partir da evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e dos desafios da modernidade. Apresenta um novo modo de pensar que dever&aacute; ser fonte de um novo modo de agir.<\/p>\n<p>O Papa tamb&eacute;m refere que este pensamento global, onde tudo &eacute; tido em considera&ccedil;&atilde;o (as diferentes formas de interpretar a vida na &aacute;rea da filosofia, da economia, da educa&ccedil;&atilde;o), nunca poder&aacute; desconsiderar a f&eacute;, que d&aacute; uma compreens&atilde;o mais profunda a esse pensamento e abre horizontes para uma compreens&atilde;o total da realidade. Daqui surgem comportamentos que s&atilde;o totalmente novos. N&atilde;o h&aacute; a coragem de aceitar este novo pensamento do Papa e por isso n&atilde;o se olha para alguns problemas referidos por Bento XVI com insist&ecirc;ncia (basta olhar para a &uacute;ltima Enc&iacute;clica, <em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html\" target=\"_blank\">Caritas in Veritate<\/a><\/em>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que consequ&ecirc;ncias pode trazer esse pensamento &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria Igreja? Por exemplo no exerc&iacute;cio do minist&eacute;rio do Papa?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; J&aacute; o Papa Jo&atilde;o Paulo II pedia, tamb&eacute;m a outras confiss&otilde;es crist&atilde;s, que o ajudassem na reflex&atilde;o sobre o poder central que &eacute; Roma&hellip;<\/p>\n<p>Na linha do que o Conc&iacute;lio Vaticano II referiu e tendo em conta o pensamento da Igreja presente nas enc&iacute;clicas papais, estou convencido de que nos deparamos com uma Igreja que &eacute; comunh&atilde;o org&acirc;nica e hier&aacute;rquica.<\/p>\n<p>H&aacute; aqui uma novidade muito grande, que faz com que a realidade do minist&eacute;rio Petrino, a realidade de Roma, seja essencialmente um servi&ccedil;o e n&atilde;o um centro de decis&otilde;es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Repensar a Ac&ccedil;&atilde;o Pastoral da Igreja <\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que linhas de rumo se v&atilde;o apontando ao repensar a ac&ccedil;&atilde;o pastoral da Igreja em Portugal?<\/em><\/p>\n<p><em>JO<\/em> &ndash; A hist&oacute;ria deste &ldquo;repensar a ac&ccedil;&atilde;o pastoral da Igreja em Portugal&rdquo; &eacute; um assunto que j&aacute; tem alguns anos. Desde que assumi a presid&ecirc;ncia da CEP propus-me este objectivo como primeiro, para que na diversidade das Igrejas, que se aceita, haja um programa comum que cada uma assimile e aplique ao concreto da sua situa&ccedil;&atilde;o. Temos vindo a reflectir sobre o tema em v&aacute;rias ocasi&otilde;es e a fazer caminho.<\/p>\n<p>Em particular, na &uacute;ltima visita ao Papa (2007) fizemos uma pequena assembleia extraordin&aacute;ria da CEP no Col&eacute;gio Portugu&ecirc;s para reflectir sobre a urg&ecirc;ncia de uma pastoral nova para tempos novos. H&aacute; aqui uma mudan&ccedil;a cultural &agrave; qual ter&aacute; de corresponder uma maneira diferente de agir, por parte da Igreja. O pr&oacute;prio Papa estimulou-nos, com as palavras que nos dirigiu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nessa ocasi&atilde;o, Bento XVI disse que era necess&aacute;rio &ldquo;mudar o estilo de organiza&ccedil;&atilde;o da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros&rdquo;&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Fazendo refer&ecirc;ncia a essa frase, penso que a estamos a concretizar porque temos vindo a caminhar, em variad&iacute;ssimas reuni&otilde;es. &nbsp;Aquilo que agora est&aacute; determinado e acolhido por todos os Bispos &eacute; que vamos, particularmente a partir deste ano, fazer um &ldquo;itiner&aacute;rio sinodal&rdquo;. Vamos caminhar, mas caminhar juntos, as 21 Dioceses, procurando ouvir aquilo que o Esp&iacute;rito quer dizer hoje a cada uma das Dioceses e a Portugal.<\/p>\n<p>&Eacute; um trabalho conjunto que est&aacute; a envolver os Bispos e que queremos que chegue aos conselhos presbiterais, conselhos pastorais, movimentos, institutos religiosos, num processo de discernimento pastoral, e n&atilde;o s&oacute; de estudos feitos.<\/p>\n<p>Queremos envolver o povo para poder apresentar um projecto, um plano pastoral, n&atilde;o apenas para uma Diocese mas para todas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; E ser&aacute; poss&iacute;vel que todas as dioceses cumpram o mesmo plano?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Sim, na medida em que ele encerra uma ideia chave, mestra, com algumas coordenadas. Mas depois cada Diocese ter&aacute; a sua autonomia para fazer o seu plano. Uma coisa &eacute; certa: gostar&iacute;amos que ao falar de determinadas realidades, a mesma palavra fosse utilizada no Norte e no Sul do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Esperamos que o Papa, na sua pr&oacute;xima visita, nos traga algumas ideias e tamb&eacute;m a for&ccedil;a e a coragem para ultrapassar as d&uacute;vidas que possam subsistir quando &agrave; aplica&ccedil;&atilde;o de um projecto comum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Esse projecto poder&aacute; ter implica&ccedil;&otilde;es na autonomia de cada Diocese&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> N&atilde;o, n&atilde;o queremos isso porque uma das grandes novidades do Conc&iacute;lio Vaticano II est&aacute; precisamente no facto de a Igreja estar toda na Igreja particular. N&atilde;o vamos destruir certas caracteriza&ccedil;&otilde;es e manifesta&ccedil;&otilde;es de ordem sociol&oacute;gica. Cada uma ter&aacute; de ter o trabalho de aplicar &agrave; sua realidade aquilo que for assumido por todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Os respons&aacute;veis pela Igreja Cat&oacute;lica em Portugal estar&atilde;o a aprender a trabalhar em conjunto, efectivamente?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Penso que n&atilde;o se trata de aprender, trata-se de o fazer porque tudo isto leva j&aacute; alguns anos e os que est&atilde;o mais directamente implicados na coordena&ccedil;&atilde;o pastoral das Dioceses &eacute; que deram origem a este corpo de ideias, de pensamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; novo o facto de o debate envolver dados da sociologia ou da psicologia e n&atilde;o s&oacute; da teologia?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Temos tido isso em considera&ccedil;&atilde;o e as pr&oacute;ximas Jornadas Pastorais do Episcopado [14 a 16 de Junho] procuram saber o que &eacute; que as diversas &aacute;reas do pensar&nbsp; sugerem como interpela&ccedil;&otilde;es para o nosso agir pastoral. Ao recorrer a peritos, homens da sociedade, mesmo que n&atilde;o plenamente identificados com a Igreja Cat&oacute;lica, queremos ouvir as quest&otilde;es que as diversas &aacute;reas do saber nos lan&ccedil;am porque nos faz falta ouvir gente de fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A experi&ecirc;ncia da f&eacute;, nos dias de hoje, tem de ser fundamentada de forma interdisciplinar?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em>J&aacute; o referi e continuarei a sublinhar essa mesma ideia, a que temos de estar atentos. &Eacute; por isso que hoje, na Igreja, &eacute; importante o reconhecimento n&atilde;o s&oacute; dos carismas mas tamb&eacute;m da compet&ecirc;ncia em cada &aacute;rea, em cada sector.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Da visita Ad Limina [a Bento XVI] saiu ainda um desafio em ordem a um &ldquo;recto ordenamento da Igreja&rdquo;. Na sua opini&atilde;o, o que &eacute; que est&aacute; em causa neste alerta de Bento XVI?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> &Eacute; um aspecto que cada Bispo ter&aacute; de estudar. Alguns pensavam que seria uma refer&ecirc;ncia &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de novas Dioceses. Pessoalmente estou convencido que o Santo Padre estava a dizer-nos que seria necess&aacute;rio encontrar formas novas de assist&ecirc;ncia &agrave;s pessoas que vivem nas par&oacute;quias pequenas, algumas situadas em zonas totalmente desertificadas. Nas v&aacute;rias Dioceses h&aacute; um esfor&ccedil;o para n&atilde;o destruir a autonomia dessas par&oacute;quias &ndash; porque ir&iacute;amos criar problemas &ndash; sublinhando a import&acirc;ncia daquilo que chamamos as unidades pastorais, isto &eacute;, um sacerdote com cinco ou seis par&oacute;quias, cada uma com a sua autonomia, onde se articulam os servi&ccedil;os e o trabalho &eacute; feito numa reorganiza&ccedil;&atilde;o diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Isso inclui tamb&eacute;m uma reparti&ccedil;&atilde;o de responsabilidades por pessoas diferentes?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Nessa reorganiza&ccedil;&atilde;o &eacute; preciso acreditar que um padre &eacute; muito mas n&atilde;o &eacute; tudo. Um leigo tem tamb&eacute;m o seu lugar, o seu espa&ccedil;o, as suas responsabilidades e ter&aacute; de assumi-las. N&atilde;o &eacute; apenas um aproveitar-se dos leigos, mas reconhecer a sua voca&ccedil;&atilde;o insubstitu&iacute;vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Tamb&eacute;m com responsabilidades efectivas na comunidade?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Sim, com certeza. Por exemplo, na celebra&ccedil;&atilde;o da f&eacute; do Domingo, na celebra&ccedil;&atilde;o da Eucaristia, como responsabilidade pr&oacute;pria confiada a alguns. Com certeza que isso n&atilde;o deixar&aacute; de acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; E quanto a mulheres no sacerd&oacute;cio, pensa que &eacute; um assunto encerrado?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Eu sei que o Santo Padre, Bento XVI, o considera encerrado e, neste momento, n&oacute;s tamb&eacute;m devemos fazer o mesmo, na certeza de que a mulher desempenha na Igreja um papel impressionante. Que amanh&atilde;, por isto ou por aquilo, venha a sentir-se essa necessidade, n&atilde;o sei&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Ficaria surpreendido se isso acontecesse?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> N&atilde;o seria necess&aacute;rio. &Agrave;s vezes algumas pessoas falam na promo&ccedil;&atilde;o da mulher, mas n&atilde;o vejo isso assim. Hoje s&atilde;o tantas as mulheres que trabalham na vida da Igreja, com pap&eacute;is insubstitu&iacute;veis. H&aacute; uma presen&ccedil;a feminina muito grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Alargar as fronteiras do di&aacute;logo<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nos &uacute;ltimos anos t&ecirc;m surgido iniciativas de di&aacute;logo inter-religioso, como programas na comunica&ccedil;&atilde;o social, nas capelanias hospitalares&hellip; &Eacute; uma oportunidade ou um obst&aacute;culo &agrave; ac&ccedil;&atilde;o da Igreja?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Para n&oacute;s &eacute; uma convic&ccedil;&atilde;o, ainda que porventura h&aacute; 50 anos n&atilde;o fosse. &Eacute; o consciencializarmo-nos do mundo em que estamos naturalmente inseridos.<\/p>\n<p>N&atilde;o esque&ccedil;amos que, mesmo na regulamenta&ccedil;&atilde;o da Concordata, fomos n&oacute;s, Igreja Cat&oacute;lica, a trabalhar para que se pudesse servir adequadamente os portugueses no &acirc;mbito religioso. Aquilo que a Igreja procurou para si, procurou tamb&eacute;m para os outros.<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio Vaticano II &eacute; eloquente sobre o di&aacute;logo ecum&eacute;nico, o di&aacute;logo inter-religioso e com os diferentes. S&atilde;o &aacute;reas em que a Igreja ter&aacute; de viver permanentemente.<\/p>\n<p>Talvez outrora, em Portugal, se pensasse que a Igreja tinha de ser quase que exclusiva. O que importa &eacute; que cada um siga o seu caminho para Deus, no encontro com a Palavra, com tantas outras realidades, e que a Igreja Cat&oacute;lica possa dispor da liberdade e dos meios adequados para exercer o seu servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nesse &acirc;mbito, as rela&ccedil;&otilde;es com as entidades p&uacute;blicas s&atilde;o boas?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Sim. A regulamenta&ccedil;&atilde;o da Concordata demonstra-o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Apesar de n&atilde;o estar conclu&iacute;da?<\/em><\/p>\n<p>JO &ndash; Faltam alguns aspectos que precisam de ser equacionados, como o patrim&oacute;nio e as aulas de Moral. Mas j&aacute; h&aacute; regulamenta&ccedil;&atilde;o na parte hospitalar e nos estabelecimentos militares e prisionais.<\/p>\n<p>A pr&oacute;pria Concordata estabelece uma comiss&atilde;o parit&aacute;ria que j&aacute; est&aacute; a trabalhar no sentido de interpretar os textos. Infelizmente, a comiss&atilde;o bilateral ligada ao patrim&oacute;nio n&atilde;o tem funcionado, e eu n&atilde;o sei porqu&ecirc;! Da nossa parte as pessoas est&atilde;o determinadas. Estamos &agrave; espera&hellip; T&ecirc;m surgido algumas quest&otilde;es relativas ao patrim&oacute;nio que talvez se pudessem ter evitado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Visita de esperan&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que oportunidade constitui para a sociedade portuguesa e para a Igreja no nosso pa&iacute;s a visita de Bento XVI?<\/em><\/p>\n<p><em>JO &ndash;<\/em> Creio que &eacute; um momento de grande alegria e estou plenamente convencido de que ser&aacute; uma ocasi&atilde;o de festa. Numa altura que, queiramos ou n&atilde;o, reconhecemos como de crise, de uma certa perplexidade e, para algumas pessoas, at&eacute; de um certo medo perante o amanh&atilde; e perante o futuro, a presen&ccedil;a do Santo Padre ser&aacute; tamb&eacute;m um momento de esperan&ccedil;a. Estou convencido que a mensagem que o Santo Padre vai trazer ao pa&iacute;s, particularmente aos cat&oacute;licos, dar&aacute; um pouco mais de tranquilidade ao momento que estamos a viver. Mas por que n&atilde;o pedir tamb&eacute;m aos portugueses em geral que se abram a essa mensagem, se n&atilde;o para a aceitar, pelo menos para a acolher e reflectir?<\/p>\n<p>Queremos caminhar com o Papa e sabemos que ele quer caminhar connosco, particularmente na &aacute;rea da miss&atilde;o da Igreja, que tem de ser desempenhada com autenticidade, com verdade, com responsabilidade.<\/p>\n<p>Creio que o povo portugu&ecirc;s ir&aacute; corresponder a esta vinda do Santo Padre, acolhendo a sua mensagem e manifestando a grande alegria de o termos entre n&oacute;s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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